quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O ano do asno. Pomposo

Por Mino Carta, na revista Carta Capital. Transcrito do blog do Miro.

Pompous ass, expressão da língua inglesa para qualificar o medíocre empolado

A se adotar o costume chinês que a cada ano atribui a influência, ou as características de um bicho, feroz ou manso, 2016 no Brasil foi o ano do asno, ou do burro, se preferirem. Houve uma contribuição fluvial para tanto.

A partir dos autores do golpe e a terminar com quantos acreditaram que bastaria defenestrar Dilma Rousseff, destruir o PT e seu líder Lula, para colocar o País na rota da felicidade. Não, não foi ano de tigres ou lobos.

Responsável pelo golpe, um conluio ciclópico que une dois Poderes, Judiciário e Legislativo, aos quais se agrega, como resultado natural, o Executivo comandado por Michel Temer, professor de Direito Constitucional pronto a rasgar a Constituição. Ignora-se que gênero de lições tenha ministrado aos seus alunos.

Em lugar dos tanques, os golpistas convocaram a Polícia Federal. Quanto à máquina de propaganda, jamais lhe faltou o porta-voz altamente qualificado, a mídia nativa, a mentir, inventar, omitir em um trabalho ficcional sem similares na história do mundo. Eles se acham raposas, mas estão mais para asnos.

Dois anos após a posse de Dilma para seu segundo mandato, como anda o País? Pior, infinitamente pior. Vivemos uma recessão devastadora e o Brasil decresce este ano em 4%, segundo as estimativas oficiais, embora haja quem diga que a porcentagem é notavelmente maior.

O desemprego, em compensação, fermenta, e só não reaparece a inflação a todo vapor porque não há demanda. Os bolsos estão vazios, que o digam os lojistas neste mês natalino.

Que faz o governo? Inaugura o neoliberalismo selvagem, a planejar 20 anos de austeridade. Corta as verbas da Educação e da Saúde e transforma a aposentadoria em perseguição. Fahrenheit 451 verde-amarelo para tornar cinzas não somente a chamada Carta Magna, mas também a CLT velha de guerra.

Os astrônomos do golpismo dizem que está superada, ou seja, trata-se apenas de punir o trabalho mais e mais. A consolidação é generosa além da conta.

Ano do Asno, ou do Burro, Franklin Delano Roosevelt concordaria. O País precisaria de New Deal em lugar do golpe, tanto mais praticado por quem tão bem se adequa às características do animal eleito, mesmo porque, nunca foi capaz de dar ouvidos nem ouso dizer a John Maynard Keynes, mas Henry Ford, reacionário inveterado e inventor, faz quase um século, de um carro que seus operários poderiam comprar.

E o povo brasileiro, desde sempre humilhado e ofendido, percebe o engodo? A casa-grande aposta na resignação da senzala, na ignorância abissal da plebe. Rude e ignara, dizia-se, em tom de chacota, ou mesmo usado em uma recente conversa entre Aécio Neves e Sergio Moro durante a festa promovida por IstoÉ para entregar um Oscarito a Michel Temer, Homem do Ano do Asno. Mais um quadro-bufo da tragédia.

Pois disto se trata. Cheguei ao Brasil em agosto de 1946, ainda de calça curta, na certeza de aportar no país do futuro. E era. Passados 70 anos, é um país à matroca, entregue a uma malta mafiosa (e não estaria a ofender a máfia?), capaz de vendê-lo ao primeiro comprador a preço de banana.

Enquanto os golpistas se engalfinham entre si na luta pelo poder, por mais contingente e precário que venha a ser. Digamos, o professor Temer. Está à beira do abismo, cai ao toque mais leve, envolvido em escândalos, juntamente com inúmeros companheiros de aventura. Mesmo assim, clama-se contra a corrupção, de fato primeva e endêmica, como se fosse o primeiro motor da desgraça brasileira.

O big-bang é o descobrimento, a desaguar na colonização predatória. Logo três séculos e meio de escravidão. Depois uma independência proclamada em lugar de conquistada pela nova nação. Em seguida, uma série de golpes, a começar por aquele que derruba a monarquia.

Em vez de uma revolução burguesa inspirada na inglesa e na francesa, a consolidação da dicotomia casa-grande e senzala para manter a singular medievalidade do país oligárquico e patrimonialista, único no planeta. Cortados pela raiz quaisquer ensaios de modernidade, até o golpe de 1964.

Vinte e um anos de ditadura, encerrada pela vontade dos próprios ditadores, ou seja, casa-grande e seu exército de ocupação, aos quais uma grotesca Comissão da Verdade criada no primeiro mandato de Dilma Rousseff reconhece o direito à incolumidade de torturadores e algozes.

Falamos em redemocratização como se antes de 64 houvesse democracia. O jogo eleitoral sempre foi de cartas marcadas, a não ser na vitória de Lula, e é isto que os golpistas atuais não perdoam. Foi muito topete, muita ousadia. Muito risco para eles.

Ao povo, saúde e educação escassas, condescendente o adjetivo. Nunca a mais pálida sombra de um Estado do Bem-Estar Social. Conciliações somente das elites. Nunca o empenho frutífero para conciliar Capital e Trabalho, este sempre e sempre punido.

Não vivemos hoje o capítulo final deste enredo, alcançamos, porém, o momento em que a prepotência, a arrogância, a irresponsabilidade da casa-grande atingem um patamar de incompetência irreparável a beirar a demência.

Tresloucados na névoa sem encontrar a saída, agitam-se em desvario e exibem a inconsistência dos seus planos. O asno, assim mesmo, é pomposo, nem por isso deixa de ser burro. Não é consolo constatar que, cômicos na ação, são as primeiras vítimas de si mesmos. O País vai à deriva e ainda viverá dias mais sombrios. É a maior crise da nossa história.

Fácil foi vaticinar o caos em que nos mergulharam para quem, como nós, pratica o jornalismo honesto. Era o desfecho lógico da manobra golpista engendrada desde a vitória de Dilma em 2014. Encantaram-se com a fragilidade da presidenta e do seu novo governo debaixo dos ventos da crise econômica, mais aqueles soprados de Curitiba por uma turba de figuras perfeitamente à vontade no Ano do Asno, e partiram para o confronto sem atentar para as suas próprias lacunas e limitações.

Temos de convir que os golpistas de antanho eram mais atilados. De fato, se a maioria da população é resignada e inconsciente da cidadania, a dolorosa realidade se deve à manutenção da senzala, obra esmerada da casa-grande.

De sorte que, segundo meus botões, uma revolta popular motivada pelo entendimento da dor, pela percepção do sofrimento imposto, é hipótese por ora pouco provável. Temamos, isto sim, o recrudescimento vertiginoso da criminalidade, em um país onde se mata mais que na guerra civil da Síria.

Provável é que Michel Temer seja tragado pelo abismo e que os verdadeiros senhores do golpe busquem uma saída parlamentar, recurso a uma exigência constitucional para seu uso e consumo exclusivo, a fim de eleger indiretamente alguém pretensamente acima do Bem e do Mal (e haveria?) para conduzir um governo tampão até as eleições de 2018.

Ou, por outras, tira-se o bode Temer da sala, escolhe-se alguém que agrade a todos, ou não assuste, e tudo volta à normalidade. Trata-se, obviamente, de mais um lance insano, pois a única certeza é o aprofundamento da crise. Até quando, até quais limites?

Nem esperança, nem medo, recomendava Spinoza. Em meio à treva, como evitar a esperança, ao observar o comportamento dos estudantes que invadiram colégios e universidades neste 2016 malfadado. Como esquecer Ana Júlia, a estudante do Paraná, e sua fala sólida nos argumentos e desabrida no tom? Manifesta-se nesta juventude um desassombro cívico e uma clareza de intuitos exemplares.

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