quinta-feira, 19 de outubro de 2017

DIEESE realiza debate sobre contrarreforma trabalhista. Palestra do Clemente Lúcio, diretor técnico do Departamento

https://www.facebook.com/josealvaro.cardoso/videos/1696700083687782/

Anticomunismo ainda cega os militares

Por Bepe Damasco, em seu blog. Do blog do Miro                                                                 
Como não consegue ver um palmo além do nariz, a mídia monopolista interpretou como uma manifestação de revolta contra a corrupção generalizada o recente assanhamento golpista dos militares. Nada mais falso.

Ressalvadas todas as exceções - eu mesmo sou testemunha da retidão moral de um irmão militar e de meu falecido pai, veterano da FEB-, mas desde quando os militares têm autoridade para posar de paladinos da lisura no trato da coisa pública?

Sob o escudo protetor da censura, sabe-se que a corrupção correu solta durante a ditadura. Uma ínfima minoria de casos veio a público depois que a imprensa, mesmo amordaçada, furou o cerco e conseguiu denunciar escândalos como as tenebrosas transações (salve Chico Buarque de Holanda) reveladas pelos escândalos Coroa-Brastel e Delfim.

O regime de exceção livrou os generais da prestação de contas da dinheirama enterrada nos buracos sem fundo dos megaempreendimentos da época do “Brasil, ame-o ou deixe-o”, tais como a Transamazônica e a Ponte Rio-Niterói.

Sem nenhum esforço cognitivo, mas apenas situando no tempo e no espaço a exibição de garras do general Mourão, a conivência do comandante do Exército, Villas Bôas, e a sucessão de ameaças golpistas por parte de trogloditas de pijama nas redes sociais, é possível chegar à conclusão de que a principal causa do reboliço da caserna é o favoritismo de Lula nas eleições presidenciais de 2018, atestada por pesquisas de todos os institutos.

Isso equivale a dizer que os verdadeiros alvos da escaramuça verde oliva são Lula, o PT, a CUT, os demais partidos de esquerda e os movimentos sociais. Embora tenha dado passos importantes no sentido da profissionalização, as nossas forças armadas ainda se inspiram na doutrina de segurança nacional na formação de seus oficiais.

O anticomunismo mais tacanho e anacrônico dos tempos da guerra fria ainda é forte na caserna. Apenas fora guardado temporariamente no armário em razão da conjuntura da redemocratização e do sucesso dos governos democráticos e populares do PT. Bastou perceberem o terreno fértil propiciado pela onda obscurantista que varre o país para tirarem o diabo da garrafa. Como no passado, agora os militares voltam a assumir que enxergam comunistas até na própria sombra.

Não por acaso, eles não conseguem identificar os verdadeiros inimigos da pátria e do povo. Sem que nenhuma liderança militar se manifeste, as riquezas estratégicas do país são entregues aos estrangeiros, dentre elas o pré-sal, passaporte para o futuro do povo brasileiro, as reservas minerais, o sistema elétrico e as nossas terras.

Sem causar nenhuma comoção nos quartéis, o investimento público é congelado por 20 anos e os direitos mais comezinhos do povo são roubados (e olha que as forças amadas são formadas por jovens oriundos de famílias pobres).

Também não se tem notícia de manifestações de descontentamento de oficiais de alta patente diante de uma reforma trabalhista que acabou com a CLT, bem como a da previdência, que está a caminho e obrigará o brasileiro a trabalhar até morrer. Os militares ficaram fora da reforma da previdência, mas ela atingirá em cheio seus parentes.

A ficha corrida de João Doria (em 22 itens)

Por Eduardo Hegenberg, no site Jornalistas Livres. Do blog do Miro.

João Doria não esconde de ninguém que irá deixar no ano que vem o posto de garoto-propaganda da prefeitura (já que o cargo de prefeito jamais assumiu) para disputar a presidência da república. Ambição à qual devemos expressar o nosso mais sincero respeito. Afinal, é preciso admitir, João Doria atende com distinção os requisitos para a posição: seu currículo é de causar inveja aos mais gabaritados sanguessugas do Planalto. Um natural sucessor ao presidente Michel Temer, sem nada a dever em matéria de sobreposição do público com o privado, associação com os piores estratos da elite empresarial e arsenal infalível de manobras para abafar as ilegalidades.

Para que não haja dúvidas sobre esta avaliação, confira esta impressionante “ficha corrida” que Doria já acumulou em poucos meses de atenção da Justiça e da imprensa, e que já faz dele um dos mais genuínos representantes da “velha política” da qual finge se diferenciar.

1- Em 1988, quando deixou a presidência da Embratur em cargo nomeado por José Sarney, foi acusado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) de vários desvios de verbas e intimado a devolver os valores aos cofres públicos. (https://goo.gl/r4MkKG , https://goo.gl/bbGP1w).
2- Comprou uma “empresa de prateleira” do escritório Mossack Fonseca, no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas, para adquirir um apartamento em Miami, em revelação dos Panama Papers. (https://goo.gl/dSeSTr).

3- Para se tornar o candidato à prefeitura pelo PSDB comprou votos e ofereceu benefícios a filiados nas prévias, de acordo com líderes do partido. (https://goo.gl/NAXvEs).

4- Com Geraldo Alckmin, cometeu abuso de poder e usou da máquina pública do Estado para obter vantagens ilegais nas eleições, conforme acusação do Ministério Público. (https://goo.gl/tBGB4O).

5- Recebeu cheque de R$ 20 mil de empresa investigada pela Lava-Jato, em suposta venda de quadro. (https://tinyurl.com/ybjq6449).

6- Em gravação da Polícia Federal, na Operação Boi Barrica, aparece dialogando com filho de José Sarney a respeito de indicação de cargo para diretoria na Eletrobrás. (https://goo.gl/Q9e6eg).

7- Em 2014 fez uma doação pessoal de R$ 50 mil para Rocha Loures, o famoso homem da mala da JBS. (https://goo.gl/NvofnW).

8- Omitiu e subvalorizou diversos bens em sua declaração à Receita Federal – que assim chegou a “apenas” R$ 179,6 milhões. (https://goo.gl/depy9c).

9- Entre 2014 e 2015 recebeu R$ 1,5 milhão em anúncios sobrevalorizados da Gestão Alckmin. (https://goo.gl/307sFi).

10- Já foi condenado em duas instâncias na Justiça do Trabalho por não pagar horas extras, salários, adicional noturno e verbas rescisórias a seus seguranças, que chegavam a se submeter a jornadas ilegais de 16 horas seguidas. (https://goo.gl/6VTQ8U).

11- Acumulou por 15 anos uma dívida com a Prefeitura que chegou a R$ 90 mil por recusar-se a pagar o IPTU de sua mansão nos Jardins, e quitou o valor apenas depois que o caso veio a público. (https://goo.gl/qHVCQE , https://goo.gl/ti6NeY).

12- Obteve em 2012 um favorecimento suspeito da Oi para instalação de antena em condomínio de luxo em Trancoso, onde tem uma casa, em revelação do Ministério Público. (https://goo.gl/4vffVS).

13- Cercou um terreno de uso público para anexar à sua mansão em Campos do Jordão e se recusou a devolver mesmo depois que a Justiça determinou a reintegração de posse para a Prefeitura. (https://goo.gl/UkYRW5).

14- Fraudou em sua gestão a concorrência para o patrocínio do carnaval de 2017 na cidade, como demonstram áudios divulgados pelo Ministério Público. (https://goo.gl/14Ycf2).

15- Promoveu em sua gestão parceria da prefeitura para que empresas ganhassem milhões em isenções fiscais doando remédios perto do vencimento para a população. (https://goo.gl/DOWxvz).

16- Intercedeu em benefício da esposa junto a chefe de agência no governo Dilma. Posteriormente Bia Doria obteve R$ 702 mil da Lei Rouanet para pagar exposição em Miami e livro sobre a própria obra. (https://goo.gl/pL9yxW e https://goo.gl/GqpfDC).

17- Para presidir a SP Negócios, órgão público do município responsável por parcerias e investimentos privados na cidade, nomeou o presidente da sua empresa (Lide), Juan Quirós, réu em ações trabalhistas e dono de um dívida de R$ 60 milhões, que tem os seus bens bloqueados pela Justiça por não cumprimento de contrato. (https://goo.gl/ZAmg6h).

18- Para liderar a principal subprefeitura, a regional da Sé, nomeou Eduardo Odloak, condenado em duas instâncias por improbidade administrativa. (https://goo.gl/aRbWgc).

19- Escolheu para liderar a Secretaria dos Transportes um réu em duas ações na Justiça por fraudes em licitações e contratos de trens do Metrô. Para a Secretaria da Saúde, nomeou investigado no Ministério Público por improbidade administrativa em transações com o Hospital das Clínicas, a Santa Casa e o Hospital do Servidor. (https://goo.gl/NbgdGv).

20- Contrariando orientações de sua equipe de transição, assim que assumiu o mandato de prefeito ordenou o rebaixamento do órgão da prefeitura responsável por fiscalizar a corrupção, a Controladoria-Geral do Município (CGM), a um mero departamento. (https://goo.gl/BvsiAy).

21- Após a descoberta da máfia da Cidade Limpa, envolvendo seis subprefeitos e três secretários nomeados por ele, ao invés de afastar os envolvidos demitiu a responsável pela investigação. (https://goo.gl/vhD894 , https://goo.gl/Zkn8kN, https://goo.gl/eN3XjB).

22- Demitiu Gilberto Natalini, Secretário do Meio Ambiente, depois que ele denunciou à Controladoria-Geral uma máfia para fraudar licenças ambientais na cidade (https://goo.gl/6SphhM)

Bônus

Sua gestão inflou dados aqui (https://goo.gl/PR15Yj), ali (https://goo.gl/B5iaem) e acolá (https://goo.gl/Yms5GV), maquiou dados oficiais sobre o aumento de mortes nas marginais (https://goo.gl/EHhESw , https://goo.gl/xfCPXp , https://goo.gl/RXDyCE) e escondeu reclamações da população (https://goo.gl/N2EdbP).

Doria já forjou apoio de celebridade (https://goo.gl/vKHTK6) e de especialista (https://goo.gl/PveCnR) a seus programas e adulterou documento para não se responsabilizar por trabalho escravo (https://goo.gl/t4jtBM). Já recebeu em suas empresas mais de R$ 10 milhões de governos tucanos. (https://goo.gl/nEMNbB).

Mas quando recebe críticas, ele põe seus advogados para intimidar com ameaças (https://goo.gl/USGVj7).

Aguardamos as notificações.

O ESCÂNDALO DA RAÇÃO É PIOR DO QUE VOCÊ PENSA!

https://www.facebook.com/samia.bomfim.psol/videos/301386563602457/

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Lava-Jato paga propina milionária à mídia

Por Miguel do Rosário, no blog Cafezinho:

A entrevista do consultor Mario Rosa já foi reproduzida em vários sites. Eu tinha que dar um título mais impactante, e ao mesmo tempo mais verdadeiro, porque é disso que se trata. Rosa faz uma denúncia óbvia, que está a vista de todos.

Imagina se o Ministério do Desenvolvimento “vazasse” informações sobre comércio exterior apenas para jornalistas que falassem bem do governo? Não seria um escândalo? Não seria considerado corrupção?

A Lava Jato usa informações públicas para corromper jornalistas. Estes só continuam a receber furos, e um furo é a moeda mais valiosa do jornalismo, caso eles continuem a servir à narrativa do Estado, ou melhor, à narrativa da própria Lava Jato.

Ou seja, é propina.

Uma propina muito maior e muito mais imoral que os milhões que Lucio Funaro diz ter dado a Eduardo Cunha para que este “comprasse” o impeachment.

Mas com o mesmo objetivo: a Lava Jato foi uma operação montada para derrubar o governo Dilma e empossar um outro regime, de ordem neoliberal, servil aos interesses das corporações norte-americanas.

Por isso a operação e, sobretudo, Sergio Moro, recebem tantos prêmios nos Estados Unidos.

Só não entendo porque Donald Trump ainda não recebeu Moro no salão oval da Casa Branca, e ainda não lhe entregou uma medalha de heroi da pátria, depois de tudo que o juiz fez em prol da “terra dos livres e lar dos bravos”.

A Lava Jato girou, desde o início, em volta de propinas.

Todos os prêmios que recebeu, por exemplo, são propina. E os “furos” da Lava Jato idem.

A Lava Jato é a ação judicial mais corruptora e corrompida da história do país.

***

No Conjur

O novo chapa-branca
“A custo zero para a imprensa, cobertura da ‘lava jato’ só reproduz discurso do Estado”

POR MÁRCIO CHAER, MARCOS DE VASCONCELLOS E FERNANDO MARTINES

Tradição dos lares brasileiros, a telenovela ganhou nova forma e horários. Agora, o cenário é bem mais simples: uma bancada com um ou dois apresentadores. E a exibição é de manhã, depois do almoço, às 20h30 e de madrugada. No enredo imutável, âncoras e repórteres mostram como a República está sempre por um fio. Os picos de audiência apontam que a fórmula agrada ao público.

Ganhador do prêmio Esso quando jornalista, o atual consultor de crises Mário Rosa constata que o público não quer mais saber quem matou Odete Roitman. Ele quer ouvir os áudios das conversas privadas do presidente. Ou ver vídeos de parlamentares pegando malas de dinheiro. O ponto alto da adrenalina agora é durante o noticiário.

Na análise de Rosa, essa dinâmica da produção jornalística tem motivações financeiras. Em um momento de crise econômica e disputa por atenção de um público ávido por smartphones a imprensa se vê tendo acesso a um material com alto potencial de audiência.

A fonte é o Estado, mesmo que as denúncias também sejam contra ele – o Estado são vários. Ministério Público Federal e Polícia Federal gastam milhões de sua verba para produzir áudios, vídeos e fotos comprometedores. Esse material é repassado a algum dos jornalistas que formam o círculo de proximidade. Mas alguém já disse que não existe almoço grátis. E nesse caso, o preço é a lealdade.

O Ibope está garantido. Mas é preciso que a denúncia seja publicada da forma que foi entregue, caso contrário, será exilado do grupo que furos jornalísticos prontos para o consumo a custo zero. Também está no contrato que além do filé, o músculo também deve ser ingerido. Para continuar recebendo notícias de impacto, o jornalista deve também publicar teses e devaneios de vez em quando. Para fortalecer as acusações.

Colocar os jornalistas para realmente investigar os fatos levantados nos processos, fazer o jornalismo que se aprende nos filmes e nas aulas, lembra Rosa, custa caro.

A visão de Mário Rosa vem dos três lados do balcão. Já foi repórter, é consultor de crises e foi alvo de investigações. Com sua experiência junto às engrenagens da imprensa, Mario Rosa ajuda empresários e políticos a navegarem no tumultuoso mar do escracho público. De Léo Pinheiro a Ricardo Teixeira, de Fernando Henrique Cardoso a Lula, passando por Paulo Coelho. Recorre ao consultor quem vê sua imagem ser atacada publicamente.

Em junho de 2016, a visão de Mario Rosa sobre seu próprio trabalho mudou. Ele acordou com a Polícia Federal batendo na sua porta. Busca e apreensão. Era investigado por ter um contrato com a empresa de Carolina Oliveira, mulher do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel. O chefe do Executivo mineiro é investigado na operação apelidada de acrônimo.

Não parou aí. A PF fez busca e apreensão em mais de dez empresas com as quais Rosa tinha contrato. Seu nome apareceu no noticiário. O casamento acabou e muitos negócios foram perdidos.

A tentativa de cura veio pela escrita. Rosa lançou recentemente o livro Entre a Glória e a Vergonha, no qual conta seus 25 anos como consultor das pessoas mais poderosas do país, no momento em que estão mais fragilizadas.

Em visita à redação da ConJur, logo antes do suicídio do reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, o jornalista comentou os efeitos deletérios da escalada do punitivismo no noticiário nacional.

Leia a entrevista:

ConJur – Neste momento, o senhor acredita que seja possível algum veículo grande atuar criticamente com distanciamento em relação ao fenômeno dos escândalos políticos nos noticiários?
Mario Rosa – A questão é que se trata de um monopólio. Tivemos a crise do petróleo duas vezes, nos anos 1970 e nos anos 1980, e quem é que podia atuar criticamente contra a OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo]? Se você era dependente do petróleo, você tinha que aceitar o preço da OPEP. Hoje em dia, falando de informação, a OPEP é o Estado brasileiro. É a instância que detém o monopólio das informações e controla o fluxo de como elas são liberadas e a questão da exclusividade. Alguns veículos com menor relevância no cenário global das comunicações podem se dar ao luxo de remar contra a maré, mas a grande mídia não consegue ficar de fora. Ela tem que entrar nesse jogo e isso significa se submeter à essa regra de disputar a exclusividade de informações de furos, de nomes, da nova acusação, do novo vídeo, do novo áudio, do novo papel — essa gincana é interminável. O monopólio impõe as regras, essa é a característica dos monopólios. E hoje nós temos um monopólio de informações por parte do Estado brasileiro, e uma imprensa dependente. Qual o resultado disso? Uma imprensa que não pode fazer outra coisa a não ser aceitar as regras.

ConJur – Como funciona essa dinâmica que move a imprensa?
Mario Rosa – A imprensa se tornou dependente de uma mecânica de muita adrenalina nas manchetes e nos telejornais. Em um momento de fragilização da audiência e de busca de alternativas para lidar com novos veículos, essa crise de escândalos políticos vem retardando um pouco a perda de influência relativa, que naturalmente seria mais acelerada. Todo dia parece que o fim do mundo vai acontecer e todo dia alguma revelação bombástica vai acontecer. Isso vem obscurecendo a realidade do país que é muito maior, muito mais ampla, muito mais complexa do que o noticiário policial da política. Nós conseguimos uma coisa notável: produzir telejornais mais engenhosos do que as telenovelas.

ConJur – No que se sustenta esse modo de atuar dos veículos jornalísticos?
Mario Rosa – Esse é um tipo de jornalismo que, economicamente, num momento de crise econômica dos veículos de comunicação, oferece uma alternativa que é imbatível. Custa zero para ser feito e atrai uma audiência gigantesca. A emissora não gasta nada para ter acesso a um depoimento de um delator, gasta zero para ter uma foto de R$ 51 milhões escondidos em um apartamento qualquer e não gasta nada para ter acesso a algum tipo de áudio.

ConJur – Mas, isso não foi sempre assim? O que é que tem de diferente agora?

Mario Rosa – Agora é uma produção industrializada. Nós estamos vendo uma pandemia de escândalos. Prova disso é que metade dos telejornais hoje é mostrando as denúncias e a outra metade é lendo as notas dos acusados. Virou um rádio. Só que é importante entender que o conteúdo é gratuito para os disseminadores, mas a sociedade paga isso.

ConJur – Então o tom do noticiário tem motivação econômica?
Mario Rosa – Se a cobertura da “lava jato” custasse R$ 5 milhões por dia, ela não seria feita. Alguns anos atrás, para produzir uma grande reportagem, era necessário deslocar um repórter, gastar com recursos, combustível passagem aérea, diárias para o cinegrafista, transmissão dos dados. Hoje tudo é dado de graça. Basta gravar uma passagem em um lugar próximo da emissora e editar. Está feito um VT de altíssimo impacto e talvez exclusivo, sem gastar nada. Como é que substitui um VT que pode ser bombástico e que não gasta nada por um outro que tem que gastar muito e que pode ter menos audiência? Então, os detentores desses conteúdos passaram a deter um monopólio de uma informação subsidiada ou praticamente gratuita, que pode ter impacto sobre a audiência das televisões e as manchetes dos jornais e num momento de fragilidade econômica, torna os veículos dependentes e quase que suseranos.

ConJur – A imprensa brasileira já atuou de forma diferente?
Mario Rosa – A imprensa dos anos 1970, que combateu a ditadura no Brasil, desconfiava do Estado. Fez um grande capítulo da história do jornalismo brasileiro justamente no enfrentamento e no questionamento, buscando as frestas. Inclusive grandes capítulos foram feitos naquele momento, com a publicação de receitas de bolo e toda aquela história que quem é do jornalismo conhece. Justamente nos pequenos enfrentamentos silenciosos, no dia a dia das redações em relação aos poderosos, vinha à tona aquela velha frase que “o jornalismo é feito para afligir os poderosos e dar poder aos aflitos”. Agora, em nome de combater a corrupção na política, a cobertura é absolutamente chapa branca. O jornalismo basicamente tem feito uma cobertura oficialista com base em documentos oficiais, gravações oficiais, vazamentos oficiais, offs oficiais.

ConJur – Não há mais investigação no jornalismo?
Mario Rosa – O jornalismo da “lava jato” é um jornalismo protocolado, com carimbo. Não podia ser mais lusitano, é um jornalismo cartorial, que vem com número de protocolo, que reproduz o discurso do Estado. Só que como a imprensa se preparou a duvidar do Estado quando o Estado era o Executivo, sobretudo durante a ditadura, ela parece que nunca desconfiou do Estado em sua face de Judiciário ou de Ministério Público.

ConJur – Qual o risco para a sociedade de um jornalismo feito dessa forma?
Mario Rosa – Amadurecer é sempre mais triste. Descobre-se que o Papai Noel não existe… Tem uma série de perdas, mas há outras recompensas. Esse jornalismo chapa branca que nós estamos vivendo, se tivesse sido praticado na época do delegado [Sérgio] Fleury [torturador da ditadura militar], teria conseguido vilanizar uma série de inocentes. Ele tentava emplacar que as mortes tinham ocorrido em trocas de tiros, mas as redações reagiam. Nós agora estamos vendo serem publicados os releases do delegado Fleury.

ConJur – Muito do noticiário é sobre delitos que realmente aconteceram. Mas também é noticiada muita cortina de fumaça, coisas que, de crime, não têm nada. Esse erro é consciente ou inconsciente?
Mario Rosa – Aqui temos que voltar ao monopólio. Quando todos querem comprar um determinado carro, a distribuidora fecha acordos de mandar 30 carros do modelo desejado para a concessionária, mas desde que o pacote inclua também quatro outros modelos que têm pouca saída. As reportagens vindas das fontes oficiais têm a mesma lógica. Como tem 30 matérias que são muito desejadas, isso abre margem para que seis fantasias, seis elucubrações, seis hipóteses, seis depravações, seis ilusões, sejam repassadas também. A imprensa, muitas vezes, ou não sabe distinguir uma coisa da outra, ou simplesmente entuba, porque não está fazendo jornalismo, mas agindo como mera distribuidora.

ConJur – Então a imprensa se fez refém?
Mario Rosa – O poder de barganha da concessionária com a indústria é muito pequeno. Na nossa conversa, a indústria são aqueles que produzem o conteúdo original, que são as gravações e os áudios e tudo. Então a imprensa tem que aceitar as regras da indústria e daí em diante tem que distribuir do jeito que ela pode. É nesse espaço que a cidadania vai ser afetada.

ConJur – E essa visão será sempre a predominante?
Mario Rosa – Acho que no futuro vai haver uma revisão. Se você chegasse em 1973 e começasse a falar para as pessoas que estavam acontecendo muitos abusos, que havia muita tortura, e que muita gente estava sofrendo, muitos estranhariam, mesmo sendo a visão que temos hoje daquele tempo. Tivemos o milagre econômico, mas novelas e filmes sempre retratam o período de uma forma tensa e triste, com as perseguições. Talvez a novela, daqui a 30 anos, não retrate esse ufanismo denuncista, mas sim as vidas destruídas por ele.

ConJur – Mas é uma fórmula de sucesso colocar na “força tarefa” a Polícia, o Ministério Público, o juiz e o jornalista. Acha que isso se esgota tão cedo?
Mario Rosa – Não, porque um quer a permanência do outro. Por isso que tem esse tabu de que não se pode mexer com a “lava jato”. Com todo o respeito aos membros da “lava jato”, que são pessoas admiráveis em todos os aspectos, mas se houver um terremoto em Curitiba, o Brasil vai voltar ao padrão africano de miséria moral? Nós dependemos de 20 pessoas? Temos muita gente no Ministério Público e muitos magistrados que estão prontos para assumir qualquer função e partir do ponto em que está e aprofundar.

ConJur – O protagonismo do Judiciário é um problema?
Mario Rosa – Acho que tem dois extremos. Têm profissões em que a fama revela muito. O jogador de futebol, quando não é famoso, é porque certamente não está fazendo alguma coisa direito. E o juiz, quando é famoso demais, certamente não está fazendo alguma coisa direito. O jogador é para ser muito famoso e juiz é para ser pouquíssimo famoso. Nós já tivemos um tempo em que os ministros da Fazenda eram muito famosos, já tivemos um tempo em que os ministros do Exército eram muito famosos. Hoje, ninguém sabe nem como é o rosto do ministro do Exército [Cafezinho: Rosa queria dizer ministro da Defesa], graças a Deus, e isso não é porque o ministro do Exército hoje seja ruim, é porque a democracia está boa. Então, quando nós começamos a ver juízes muito famosos, é porque nós estamos com algum tipo de falha no nosso sistema.

ConJur – O senhor tem como clientes pessoas que fizeram delações. Como é para o empresário esse processo de delatar?
Mario Rosa – Antes da “lava jato”, ele se reunia com autoridades do Estado para obter vantagens pessoais e empresariais em um ambiente onde não havia exatamente muita transparência e as regras não eram muito claras. Esse era o ambiente onde ele negociava com autoridades. No caso, pagando propina. Hoje, quando ele vai fazer uma colaboração, ele se senta com autoridades do Estado para obter vantagens pessoais e empresariais em um ambiente onde não há muita transparência e as regras não são muito claras. É a mesma coisa, só que agora, em vez de ele pagar propina, é exigido que faça gravações de vídeo e declarações. “Uns que pedem dinheiro, outros pedem vídeo”, eles pensam.

ConJur – A falta de critérios é um problema?
Mario Rosa – Não consigo — e acho que ninguém consegue — entender por que um fulano consegue tal benefício, com tal colaboração, pagando determinada multa. É tudo muito subjetivo. Não foi essa subjetividade que levou aos preços superfaturados, a contratos, a formação de cartéis, a tudo isso?

ConJur – Qual é a margem de manobra de uma pessoa que é pendurada nesse pau de arara da opinião pública, e que não encontra socorro nem no Judiciário e nem na imprensa?
Mario Rosa – A professora Lilia Moritz Schwarcz fez um livro maravilhoso chamado A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis. É sobre o esforço muito grande no meio da fuga de Lisboa, em 1808, para trazer a biblioteca real, que era um símbolo do conhecimento. Mas, ela começa o livro num determinado momento mostrando que no ano de 1750 Portugal foi o último país a abolir a inquisição. Narra os episódios de como, na época, em geral aos domingos, as pessoas iam com suas melhores roupas para a praça ver as pessoas serem queimadas. Somos herdeiros dessa espetacularização da destruição do alheio, e de uma sensação mista de prazer e de depuração, nós viemos disso, isso nos antecedeu.

ConJur – O prazer pela humilhação pública está maior do que a vontade de corrigir os problemas?
Mario Rosa – É importante notar que toda vez que houve uma mudança na tecnologia, houve uma mudança na ética. A agricultura acabou com o canibalismo, pois não era mais necessário devorar pessoas para se alimentar. Foi uma revolução na moral, pois se podia preservar o valor ético da vida, como consequência de um avanço tecnológico. Depois veio o James Watt [que inovou a máquina a vapor], que foi o verdadeiro libertador dos escravos. Começou a Revolução Industrial e foi criada a necessidade de pessoas livres para consumir. A Inglaterra começa então a coibir o tráfico negreiro. Então, a Revolução Industrial criou um ambiente propício à valorização do valor ético da liberdade. Neste momento, estamos vivendo uma revolução, que tem no seu epicentro a própria tecnologia. É evidente que estamos vivendo uma mudança de comportamento e de ética. Uma parte dessa pandemia de escândalos é que uma grande parte dos nossos líderes continuou se comportando, vamos dizer assim, com os condicionamentos analógicos. Somos a primeira geração a sair do analógico para o digital, não tivemos uma que nos antecedeu. As próximas vão aprender com os nossos erros. Os dados digitais nunca são privados e ainda estamos vendo qual ética se desenvolverá a partir disso.

ConJur – Por conta dessa guinada ética da opinião pública, os seus clientes passaram a chegar mais fragilizados?

Mario Rosa – Sim, pois a prisão muda tudo. Eu tive clientes que foram presos, já tive situações de assinar o contrato em um dia e o cliente ser preso dois dias depois. Tive situações também de conversões morais súbitas que me chamaram a atenção. Eu senti que meu primeiro cliente a fazer delação tinha “se convertido” quando ele falou: “Mário, a minha família ajudou a construir o Brasil durante 50 anos e, agora, nós vamos ajudar a construir por outros meios”. Pronto, estava totalmente coerente a incoerência que ele estava fazendo. Conseguiu uma justificativa moral e construiu a coerência da incoerência dele numa frase.

ConJur – E sua experiência de ter virado alvo de alguma ira da opinião pública?
Mario Rosa – Graças a Deus eu pude passar por um escândalo e ser vítima de uma execraçãozinha para poder também ter um pouco menos de arrogância e petulância que eu tinha no passado. Eu agradeço muito ao destino de eu ter podido ter tido esta oportunidade, para conseguir sintonizar essa frequência.

O desmonte do Estado nacional.




                                                                                     *José Álvaro de Lima Cardoso.
   A operação Lava-Jato, uma farsa à serviço principalmente das multinacionais norte-americanas, divulgou que, nas investigações realizadas, teria apurado desvios totais da ordem de R$ 6,2 bilhões. Este número está obviamente superestimado, mas o aceitemos para efeito de análise. Para reaver essa suposta quantia, a operação provocou um rombo estimado em 2,5% do PIB em 2015 e percentual semelhante em 2016. Somente em 2015 a perda do PIB provocado pela forma como foram conduzidas as investigações equivaleu, portanto, a uma perda de riqueza na casa dos R$ 140 bilhões de reais. Somente o perdão de impostos concedidos pelo Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), ligado à Receita Federal, ao banco Itaú, relativos à fusão Itaú/Unibanco realizada em 2008, representou um valor mais de quatro vezes superior. O valor do benefício concedido ao Itaú, em um ano em que o Brasil terá o maior déficit fiscal da história, é de R$ 25 bilhões (quase o orçamento do Bolsa Família). Essa era uma fatura do golpe, evidentemente.
     Em 2015 e 2016 o mercado de trabalho brasileiro perdeu quase três milhões de empregos formais (de carteira assinada) em decorrência da crise, extremamente agravada pelo golpe e pela Lava-Jato. Boa parte destes empregos eram da construção civil, setor que foi quase dizimado pelo processo. Vale lembrar que um dos objetivos do golpe foi a destruição do setor de engenharia nacional, o que abre espaços para os capitais norte-americanos.
     A contrarreforma trabalhista que entra em vigor em novembro, significará uma transferência de riqueza da classe trabalhadora para as empresas, especialmente as grandes, como nunca foi visto na história do Brasil. A aplicação das regras da referida lei, na prática da negociação coletiva, conduzirá à uma elevação da pobreza, em um nível que possivelmente jamais tenhamos assistido. Comparados com o roubo de renda e salários da nova lei trabalhista, os valores estimados como provenientes da corrupção no Brasil, que tanto ocupou a farsa da Operação Lava-Jato, representarão meros “trocados”. Isso sem considerar todo o conjunto de atrocidades que está sendo cometido contra o país, em todas as áreas.
     Esse tipo de corrupção, levada às últimas consequências pelo golpe, é a grande corrupção, porque é consequência da exploração do capital sobre os trabalhadores e da captura do Estado pela elite do Dinheiro, especialmente a financeira. O golpe no Brasil veio para radicalizar as transferências de recursos da sociedade para o capital, nacional e internacional. Não é por acaso que a coordenação da espinha dorsal das medidas implementadas pelo governo ilegítimo, ficou ao encargo de um mandatário dos banqueiros internacionais, Henrique Meirelles, auxiliado por uma equipe, visceralmente ligada aos bancos também. A missão de Meirelles, é implementar de forma radical as políticas definidas pelo Consenso de Washington, prescrição dos países ricos para as nações periféricas.
     Uma das principais políticas do Consenso de Washington, a privatização do maior número possível de estatais, está sendo rapidamente encaminhada pelos golpistas. Estão fatiando a Petrobrás, encaminham a privatização do Sistema Eletrobrás (inclusive já venderam recentemente quatro unidades em Minas Gerais), estão preparando também os bancos federais para privatização, com demissões em massa e fechamento de agências. Como logicamente iria acontecer, os ataques chegaram á Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), reconhecida no mundo por sua excelência no desenvolvimento de pesquisas, que ajudaram a tornar o Brasil um dos maiores produtores agropecuários do mundo. Sem a realização de concursos, a empresa vem sofrendo seguidos cortes do orçamento numa política evidente de inviabilização do seu funcionamento.
     Segundo denúncias dos seus funcionários, o governo encaminhou um projeto de lei, 5234/2016, que autoriza a companhia a criar uma subsidiária integral, denominada Embrapa Tecnologias Sociedade Anônima, a EmbrapaTec. Essa subsidiária, terá por objetivo social a negociação e a comercialização das tecnologias, dos produtos e dos serviços desenvolvidos pela Embrapa e outras instituições científicas, tecnológicas e de inovação, e a exploração dos direitos de uso das marcas e dos direitos de propriedade intelectual deles decorrentes, de modo a promover a disseminação do conhecimento gerado em benefício da sociedade.
     Uma das justificativas da diretoria da Embrapa, para a criação da subsidiária, é que o Estado não tem dinheiro para financiar a pesquisa, por isso precisa ir para o mercado para se financiar. Um dos argumentos do representante da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), para a defesa da criação da subsidiária, foi o de que o retorno do investimento em ciência e tecnologia é elevado e de efeito moroso. Portanto, para os dirigentes da CNA, as empresas, deveriam utilizar a estrutura da Embrapa (campos experimentais, laboratórios e recursos humanos de excelência), sem a necessidade de montarem próprias estruturas. 
     Uma das denúncias dos funcionários da Embrapa é que o grande motivador deste processo de ataques à companhia tem como “jogo oculto” o acesso das grandes multinacionais do setor agropecuário e florestal ao banco genético brasileiro, criado e mantido pela Embrapa. Este banco genético está avaliado em mais de US$ 1 bilhão e “conserva material estratégico para a soberania nacional na pesquisa agropecuária e florestal (com não menos importância para a pesquisa médica e farmacêutica), para a mitigação e a adaptação de cultivares agrícolas em um cenário crítico de mudanças climáticas, e para a segurança alimentar e nutricional da população brasileira. O banco genético é tão importante para o país que pode ser considerado o “banco central” da agricultura brasileira”[1].
     Como denuncia o artigo mencionado, os riscos de entregar o banco genético são incalculáveis, pois três empresas multinacionais dominam o mercado de sementes no Brasil. Um mercado que equivale, simplesmente, a um terço do mercado mundial, de cerca US$ 30 milhões ao ano. O enfraquecimento da Embrapa é totalmente coerente com o objetivo do golpe, de retirar a capacidade de ação, externa e interna, do Estado brasileiro, em todas as áreas. Ajuda também a impedir a retomada da industrialização, para a qual a pesquisa em setores estratégicos, é fundamental. Se o objetivo é tornar o país uma plataforma de matérias primas, e disponibilizá-las para as multinacionais por baixo preço, não precisa estatal com excelência ou pesquisa estratégica.
                                                                                                            * Economista.


[1] Do artigo O golpe chegou à Embrapa, assinado com o pseudônimo Ana Guerra. O autor (a), prudentemente, usou um pseudônimo para evitar represálias por conta de suas opiniões sobre a atual situação da Embrapa.


sábado, 14 de outubro de 2017

Brasil não tem alma, não tem caráter, não tem dignidade e não tem um povo


Por Aldo Fornazieri

O presidente da República foi flagrado cometendo uma série de crimes e as provas foram transmitidas para todo o País.
Com exceção de um protesto aqui, outro ali, a vida seguiu em sua trágica normalidade.
Em muitos outros países o presidente teria que renunciar imediatamente e, quiçá, estaria preso.
Se resistisse, os palácios estariam cercados por milhares de pessoas e milhões se colocariam nas ruas até a saída de tal criminoso, pois as instituições políticas são sagradas, por expressarem a dignidade e a moralidade nacional.
Aqui não.
No Brasil tudo é possível.
Grupos criminosos podem usar as instituições do poder ao seu bel prazer.
Afinal de contas, no Brasil nunca tivemos república.
Até mesmo a oposição, que ontem foi apeada do governo, dá de ombros e muitos chegam a suspeitar que a denúncia contra Temer é um golpe dentro do golpe.
Que existem vários interesses em jogo na denúncia, qualquer pessoa razoavelmente informada sabe.
Mas daí adotar posturas passivas em face da existência de uma quadrilha no comando do País significa pouco se importar com os destinos do Brasil e de seu povo, priorizando mais o cálculo político de partidos e grupos particulares.
O Brasil tem uma unidade política e territorial, mas não tem alma, não tem caráter, não tem dignidade e não tem um povo.
Somos uma soma de partes desconexas.
A unidade política e territorial foi alcançada às custas da violência dos poderosos, dos colonizadores, dos bandeirantes, dos escravocratas do Império, dos coronéis da Primeira República, dos industriais que amalgamaram as paredes de suas empresas com o suor e o sangue dos trabalhadores, com a miséria e a degradação servil dos lavradores pobres.
A nossa alma, a alma brasileira, foi ganhando duas texturas: submissão e indiferença
Índios foram massacrados; escravos foram mortos e açoitados; a dissidência foi dizimada; as lutas sociais foram tratadas com baionetas, cassetetes e balas.
A nossa alma, a alma brasileira, foi ganhando duas texturas: submissão e indiferença.
Não temos valores, não temos vínculos societários, não temos costumes que amalgamam o nosso caráter e somos o povo, dentre todas as Américas, que tem o menor índice de confiabilidade interpessoal, como mostram várias pesquisas.
Na trágica normalidade da nossa história não nos revoltamos contra o nosso dominador colonial.
Ele nos concedeu a Independência como obra de sua graça.
Não fizemos uma guerra civil contra os escravocratas e não fizemos uma revolução republicana.
A dor e os cadáveres foram se amontoando ao longo dos tempos e o verde de nossas florestas foi se tingindo com sangue dos mais fracos, dos deserdados.
Hoje mesmo, não nos indignamos com as 60 mil mortes violentas anuais ou com as 50 mil vítimas fatais no trânsito e os mais de 200 mil feridos graves.
Não nos importamos com as mortes dos jovens pobres e negros das periferias e com a assustadora violência contra as mulheres.

'Ração humana' de Doria é retrocesso de 15 anos no combate à fome

https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fwww.brasildefato.com.br%2F2017%2F10%2F12%2Fracao-humana-de-doria-e-retrocesso-de-15-anos-no-combate-a-fome%2Findex.html&h=ATPwFvT_R8MwFxcmHP7EguQGnjcby8hDc9I9n1Jdxi2DGhfrrIytbqgsWLinFW2MTLFB4o7UAmlDJHYGhcT4jxO00BCRBvEdwhoj-qNFlJLdLraxV6MYqSwNwl6rLR3UASh3dgXQVhjXDQMiXMizDE5XRfLW5FocI1cIYlRKK7Wftl3dsCuKFPbIDRVmk7-VKdnIioUDaYcuQqusIzbm4ZEieZONidqqcWxofEMQtTo8pulWouyx2_K_1jiYWH62rEAYJ2mFBsHIgDgfk4vOOHtnTBSdJEsEUj6h

MBL E A ESCALADA FASCISTA NO BRASIL

https://youtu.be/NGmgU5VheZE

A Globo é a boca do capital financeira

https://youtu.be/O85ANHG7C30

O colar de botijões de Ana Maria Braga

Do Facebook de PIG - Partido da Imprensa Golpista
Por Altamiro Borges, em seu blog

Na cruzada para derrubar Dilma Rousseff, a Rede Globo acionou todas suas estrelas midiáticas – de Willian Bonner, âncora do Jornal Nacional, ao “indignado” Fausto Silva, com seu salário de R$ 5 milhões. Um dos papeis mais ridículos, porém, coube a apresentadora Ana Maria Braga, que no passado recebeu o apelido de “Anameba Brega” do cáustico Zé Simão. Para fustigar a presidenta eleita democraticamente pela maioria dos brasileiros, ela desfilou em seu programa com um colar de tomates – em uma crítica descontextualizada sobre a alta do preço do produto. Imagine se agora, após ajudar a alçar ao poder da quadrilha de Michel Temer, ela resolvesse desfilar com um colar de botijões de gás – produto que teve aumento de 48% no preço em apenas quatro meses?

Na terça-feira passada (10), a Petrobras – comandada pelo privatista Pedro Parente – anunciou o quarto aumento consecutivo no preço deste produto essencial. Com o reajuste de 12,9%, o botijão de gás acumulou uma alta de 47,6% desde que a estatal iniciou sua nova política de preços do combustível, em 7 de junho. O aumento passou a valer apenas para o produto vendido em botijões, mais usado em residências. O preço do gás consumido no comércio e indústria não foi alterado. Em nota oficial, a empresa afirmou que, se o repasse for integral, o preço para o consumidor poderá subir 5,1% – cerca de R$ 3,09 por botijão. Vale recordar que entre 2003 e 2015, durante os governos Lula e Dilma, o preço do gás vendido em botijões ficou congelado.

É evidente que Ana Maria Braga, uma serviçal da famiglia Marinho, não vai desfilar com o colar de botijões de gás. E isto não é devido ao peso de 13 kg do produto. A ausência do colar se deve à linha editorial da Rede Globo, que tem feito de tudo para convencer o seu telespectador de que a economia está em plena recuperação e que o Brasil está prestes a virar um paraíso. Para impor seu projeto ultraliberal de desmonte do trabalho, da nação e do Estado, o império global evita criticar o desastre imposto pelo covil de Michel Temer. Mas nem o midiota mais tacanho acredita neste falso otimismo. No seu cotidiano, ele observa o comércio mais vazio, o aumento de estabelecimentos com placas de “vende-se” e a explosão do desemprego.

Na quarta-feira passada (11), o IBGE divulgou que o volume de vendas no varejo caiu 0,5% em agosto em relação a julho. Nos meses anteriores houve relativa estabilização no comércio, em decorrência principalmente da injeção de recursos do FGTS, o que fez a mídia chapa-branca disparar rojões de alegria. Agora, porém, ele evitou fazer escarcéu com a retração nas vendas – que acumulam um resultado negativo de 1,6% nos últimos 12 meses. A queda nas vendas em agosto acompanhou a retração da indústria no mesmo mês – baque de 0,8%. Ana Maria Braga, a do colar de tomates, não foi acionada pela famiglia Marinho para ironizar estas péssimas notícias no front econômico.

Longa entrevista com o diplomata Celso Amorim

O Cafezinho: Bem-vindos ao Cafezinho no almoço. Hoje, vamos falar de geopolítica, política internacional, soft power. Eu estava conversando com o Celso, o embaixador Celso, sobre essas estratégias norte-americanas de soft power, do imperialismo, e estava lembrando-o sobre o Brazil Institute, do Wilson Center, criado em 2006, cujo presidente é Anthony Harrington. Os nossos ministros do Supremo Tribunal Federal não saem de lá, o Barroso esteve recentemente lá, dando uma palestra, falando sobre a vergonha que é o Brasil, que tem muita corrupção em todas as estatais, inclusive, cita o BNDES como caso de corrupção, sendo que não houve, até agora, nada provado contra o BNDES. Eu acho muito interessante isso, porque o presidente do Brazil Institute é CEO da Albright Stonebridge, que é uma das grandes firmas dos Estados Unidos, ela presta consultoria ao governo. Então, eu queria que o senhor falasse sobre soft power: como os Estados Unidos conseguem construir estratégias de soft power e manter a hegemonia global depois da Guerra Fria, não apenas a hegemonia militar? O senhor acha que a gente é ingênuo ao permitir que juízes brasileiros vão lá e falem mal do Brasil?
Celso Amorim: Bom, não sei se a gente deveria proibir. Agora, eu acho que, obviamente, é preciso entender porque as coisas acontecem. Eu mesmo, fui convidado duas vezes pela Cambridge School. Então, eles sabem fazer as coisas. Agora, é ingenuidade nossa, sobretudo, imaginar que essas coisas são neutras, são apenas templos de saber, que aquilo não tem um objetivo determinado. Uma vez que você saiba disso, claramente, o risco diminui muito.
Eu não posso julgar comportamentos individuais, não tenho conhecimento, inclusive não assisti a essas palestras que você se referiu, mas há um certo deslumbramento. Na realidade, o ápice, pra quem segue uma carreira político-intelectual, no Brasil e, infelizmente, em outros países subdesenvolvidos da América Latina, é ser considerado nos Estados Unidos. No fundo, a nossa mídia inventa isso. Eu me lembro que eu era ministro do Exterior, constantemente atacado pelo mídia, quando a Foreign Policy me colocou em sexto lugar [como “pensador global”], aí curiosamente, a mídia brasileira teve que me tratar com respeito. Então, existe um plano muito bem feito, muito bem articulado, estimulando você a querer esse reconhecimento.
Agora, soft power é uma coisa muito complexa também, um conceito que foi desenvolvido recentemente, pelo Joseph Nye, mas é um fato real, não é só através dessas ações. Tem o soft power pela cultura, pelo cinema, muitas ações. E que é uma coisa antiga também. Eu me lembro que, no início dos anos 60, havia uma revista, aparentemente intelectual, que era financiada pela CIA. Então, é preciso não ser ingênuo, acho que essa é a questão fundamental.
O Cafezinho: O que eu sou crítico, Celso, é que tem juízes que estão à frente de processos, de investigações, que serão revisados ainda por cortes superiores e esses juízes investigam empresas que concorrem com empresas norte-americanas. No caso, por exemplo, Odebrecht e Petrobrás. Aí esse juiz recebe prêmio lá fora…eu não vejo outro país permitir esse tipo de coisa.
CA: Outros países subdesenvolvidos, principalmente da nossa região, provavelmente, permitem. Mas eu acho que não é um problema de permitir ou deixar de permitir. O problema é a capacidade de perceber que isso existe e que isso tem uma influência. Obviamente, com o que ocorreu no Brasil, há aspectos que merecem ser investigados e penalizados, não há dúvida. Agora, a conjunção de fatos que houve no Brasil, digamos assim, a convergência disso nos ataques especialmente à presidenta Dilma e ao presidente Lula, é que eu acho que é algo que espanta e chama a atenção. E, ao mesmo tempo, uma conjunção de fatos e acusações que debilitam todas as empresas, sejam privadas ou estatais, no Brasil. Isso que eu acho que é uma coisa muito importante.
Você mencionou o BNDES, quer dizer, praticamente se criminaliza uma operação que é absolutamente comum e muitos países fazem, que é dar um subsídio. Se, ao mesmo tempo, a empresa for lá e fizer alguma coisa errada, aí é outro problema, que eu não sei. Eu, como ministro do Exterior, nunca soube, nunca fui informado, nunca vi ninguém fazendo denúncia. Agora, a percepção que se criou é que se, digamos, uma empresa brasileira recebeu financiamento do BNDES para atuar em determinado país, já se inicia uma coisa criminosa. Então, é lamentável, porque não é só a Odebrecht, são várias empresas. E várias delas com importância em outras áreas, algumas com capacidade própria de financiamento. Mas, enfim, eu não vou defender aqui o que foi feito de errado, seguramente há coisas que foram feitas. O que eu acho é que há um ato de autoflagelação no Brasil e um desejo de mostrar pra fora essa autoflagelação, que é único. Por exemplo, nós tivemos há pouco tempo o caso do software alemão usado para medir o grau de poluição causado pelos motores dos carros da Volkswagen e, enfim, foi resolvido, provavelmente a pessoa foi demitida, algo assim, mas eu não vejo a justiça alemã constantemente incriminando e afetando a credibilidade da Volkswagen. E a mesma coisa acontece com os Estados Unidos. Não me consta que membros da justiça americana tenham vindo ao Brasil pra dizer “olha, aconteceu isso, vocês olhem aí também”. Quer dizer, ninguém se separa: o ministro da corte americana, é claro que ele cuida da justiça, mas ele também tem noção da soberania nacional dos Estados Unidos. Ele não precisou ouvir o Trump com o “Americans first” para que tivesse noção da soberania nacional. Aliás, os Estados Unidos é um dos países que mais preza a soberania nacional deles. Nas negociações de tratados internacionais, por exemplo, a constituição americana está sempre acima e qualquer tratado internacional, para ter uma vigência e derrubar os americanos, é um processo complicadíssimo. Eles têm uma visão muito clara da soberania nacional, que já não existe aqui. Eu acho que as pessoas daqui pensam, as bem intencionadas, elas têm uma impressão de que a justiça é uma coisa imparcial, internacional e eles são a representação dessa justiça imparcial e internacional no Brasil. Não é assim. Cada país está lutando pelo seu interesse próprio também. Se, internamente, você quer punir alguma coisa, tudo bem. Agora, fazer disso uma peça de demonstração é inédito.
O Cafezinho: Acho isso aí particularmente grave quando a gente vai pra área de petróleo. O senhor também é do Rio de Janeiro e sabe como a indústria do petróleo é importante para o Rio de Janeiro. É uma das razões da crise econômica que devastou o estado do Rio de Janeiro. Foi um desmantelamento de um certo projeto, desmantelamento da indústria naval…você vê: o secretário de Estado dos Estados Unidos hoje, o Tillerson, é ex-CEO da Exxon. Então, a gente vê que os Estados Unidos têm uma diplomacia muito conectada com os interesses internacionais deles. E o Rio de Janeiro foi o mais afetado pela Lava-Jato, opinião minha, porque a gente sabe que o Rio de Janeiro, diferentemente de São Paulo, que tem uma indústria diversificada, tem uma indústria muito concentrada na área do petróleo, indústria avançada.
CA: Os grandes empregadores do Rio de Janeiro eram ligados à cadeia de petróleo e à indústria naval. Indústria naval que, por sua vez, também é ligada à indústria do petróleo, porque as encomendas da Petrobrás são absolutamente fundamentais para os estaleiros existentes no Rio de Janeiro. Outro dia, eu li uma estatística sobre o estaleiro Mauá, que é uma coisa impressionante a redução de empregos. Basta você pegar um Uber pra ver que boa parte dos motoristas são pessoas que ficaram desempregadas, é o fulano que era engenheiro, outro que era técnico. Estou falando de casos concretos que vi.
Então, na crise no Rio de Janeiro pode ter havido desmandos administrativos também, ninguém vai negar que isso aconteceu, mas a profundidade da crise vem desse problema do petróleo. E aí tem dois atores: primeiro, a redução brutal do preço do petróleo, que atrapalhou muito a Petrobrás e afetou muitos projetos; e, segundo, eu diria, no caso da indústria naval, a flexibilização que continua havendo das encomendas de conteúdo nacional, que acho que é outro crime que se está cometendo contra a economia brasileira. Quer dizer, todos os países do mundo cresceram à base da proteção do Estado, antigamente era tarifa, hoje em dia tarifa só não basta, é muito pouco. Então, compra governamental é um instrumento fundamental para política industrial e nós estamos abrindo mão desse instrumento, não só voluntariamente, mas também, digamos, o Brasil, nessa questão de entrar para OCDE e participar inicialmente como observador de um acordo do qual o Brasil nunca fez parte, enfim, esses pactos todos – teria sido com a ALCA também, que nós conseguimos evitar, esses pactos todos são muito relacionados com o debilitamento da indústria do Rio de Janeiro.
Agora, o preço do petróleo, eu não sei. Aí é pra quem acredita em teoria conspiratória ou não acredita. O fato é que se você pegar os países que foram muito afetados por essa baixa do preço do petróleo, você tem Rússia, Irã (que é o inimigo mortal da Arábia Saudita, cujo apoio foi necessário para manter os preços baixos), Venezuela e Brasil, são os grandes países que foram afetados.
O Cafezinho: Vou insistir um pouco mais nessa questão do petróleo, porque é ligada a essa questão da geopolítica. O senhor concorda que o petróleo é um dos assuntos mais importantes da geopolítica.
CA: A energia em geral, mas o petróleo, em particular.
O Cafezinho: Não sei se o senhor acompanhou que os Estados Unidos liberaram a exportação de petróleo. Há uns dois anos, liberaram a exportação de petróleo cru, mas eles sempre foram um grande exportador de derivados de petróleo. O senhor conhece a história, sabe que uma das pressões para o Brasil desmantelar o sistema ferroviário veio dos Estados Unidos também, pra gente importar grandes quantidades de óleo diesel dos Estados Unidos. Quando se analisa o gráfico, se vê que a produção norte-americana de derivados vem crescendo a uma velocidade muito grande e, ao mesmo tempo, a partir de 2008, o consumo deles começa a cair (de derivados). Então, eu sei que é uma questão de teoria da conspiração, só que, na realidade, é uma análise que eu faço da geopolítica. É uma teoria, se é da conspiração, eu não sei. Mas que o Brasil é o maior mercado de óleo diesel.
CA: Desculpa interromper, só queria lembrar a frase do Millôr Fernandes: “o fato de eu ser paranóico não quer dizer que eu não esteja sendo perseguido”. É a mesma coisa: o fato de parecer uma teoria da conspiração não quer dizer que não seja verdadeira.
O Cafezinho: Exatamente. O que eu acho é que tem um pessoal ingênuo, que acha que o imperialismo desapareceu. O imperialismo existe, existem interesses econômicos. A gente tem que analisar até onde a gente pode defender a nossa soberania. Nessa mesma época, em 2008, o pré-sal estava começando a ser confirmado e o Brasil começando a fazer refinarias. Ou seja, interesse exatamente oposto ao americano, que era que a gente aumentasse a compra dos excedentes dos derivados do petróleo americano. Então, essa é a teoria.
CA: É, eu acho que é uma coisa mais profunda. Claro que o petróleo é importantíssimo. Eu fui ministro da Defesa e quando você discute as hipóteses de conflito nas próximas décadas, uma delas é a escassez de energia no mundo e a luta pelas fontes de energia. Sobre isso, tem estudos americanos, mas tem também estudos russos, que concordam que a luta pelos recursos naturais vai ser muito forte. Se o objetivo era tomar o mercado naquele momento e tal, evidentemente que isso faz parte da geopolítica global, não tenha a menor dúvida. E veja bem, o Brasil não é só o petróleo, acho que tem também os parques aí, a criminalização, eu também não posso entrar na discussão forense de cada caso, agora, nossa energia nuclear também é afetada.
O Brasil era um dos pouquíssimos países do mundo, sem ser do conselho permanente de segurança, que tinha submarino nuclear, submarino de propulsão nuclear. E, de repente, você vê esse setor também afetado, com falta de recursos. O presidente de uma dessas empresas ligadas à termonuclear, que era o almirante, que foi o pai do programa…bom, se ele fez alguma coisa errada, volto a dizer, eu não tenho meios de saber nem de julgar, mas acho que tudo isso ao mesmo tempo é algo que impressiona. Porque, se você fosse imaginar, digamos assim, o soft power brasileiro, além da música e do futebol, você ia ver essa capacidade econômica, essas empresas de energia presentes na América do Sul, na África, presentes nos próprios Estados Unidos, ao mesmo tempo, a descoberta do pré-sal, o Brasil produzindo, tendo a capacidade de enriquecimento de urânio – são muito poucos os países que têm essa capacidade – e aí, de repente, tudo isso fica sob ataque? É muito curioso, né, você fica se perguntando: é tudo coincidência? Então, eu não sei, aí é que eu acho que há uma falta de visão do interesse da soberania nacional. Não é pra evitar que haja punição, não é isso. Eu acho que o que foi feito errado tem que ser apurado, tem que ser punido.
Agora, também não pode haver uma falta de noção do que é a realidade internacional. Quando houveram escândalos nos Estados Unidos, eles não vieram aqui mostrar para os juízes brasileiros, porque não é assim. Esse deslumbramento, que beira a subserviência, eu acho que é algo muito grave e isso faz parte, se a gente quiser usar uma expressão mais simples, do velho complexo de vira-lata, de que falava Nelson Rodrigues.
O Cafezinho: Imagina se General Motors, General Eletrics, todas as grandes empresas industriais americanas…eu acho que uma coisa que a gente não pode esquecer é o seguinte: o Brasil está montando uma estratégia de produção de derivados que era baseada na Petrobrás, na compra de produtos locais, da indústria naval e da indústria. De repente, você ataca todas essas indústrias ligadas ao setor de petróleo. Isso aí, pra mim, foi uma irresponsabilidade enorme.
CA: E sem a preocupação de preservar as empresas, né?! Enfim, eu não posso entrar no julgamento de cada uma. Agora, eu acho que tudo isso ao mesmo tempo, do petróleo ao enriquecimento de urânio, todos esses setores, a capacidade de financiamento das nossas empresas no exterior…
O Cafezinho: Agora, já que a gente está falando de geopolítica, hoje, as grandes potências mundiais são Estados Unidos, a China e a União Europeia, só que mais no satélite americano. Ou não?
CA: Não, não diria que a União Europeia é um satélite americano. Eu acho que há interesses comuns. Havia mais, na época em que existia a União Soviética, porque naquela época a questão de defesa tinha um peso muito grande e, hoje, eu diria que isso diminuiu muito. Há óbvias divergências, por exemplo, entre Alemanha e Estados Unidos, principalmente agora, com Trump. A chanceler de lá e primeira-ministra Angela Merkel, mais de uma vez, manifestou estranheza, preocupação, quer dizer, não é um conflito direto, mas há interesses.
E aí, isso é uma coisa importante de dizer também, porque você que esses neoliberais brasileiros estão dizendo “não, as empresas estatais são inexistentes”. É curioso, inclusive, quando se fala em privatização, você não está privatizando. Em último caso, está dando a uma estatal estrangeira. Eu não tenho nada contra elas, mas porque dar privilégios a elas ao invés das estatais nacionais? Eu não sei que visão é essa.
Mas, pra voltar a um caso, vamos dizer, por exemplo, o Macron: se elegeu, de um lado com uma agenda positiva, a de ser contra a Le Pen e a extrema direita, mas ele tinha um lado neoliberal também, mas quando ficou ameaçado de ser vendido um estaleiro francês para um consórcio italiano (por trás do qual poderiam ter também chineses), ele foi lá e estatizou. Quer dizer, aí é uma visão nacional. Há poucos anos, eu me lembro também de algo semelhante: houve uma fusão de um grande consórcio alemão ligado à área de defesa e a Merkel não deixou também que houvesse a fusão que iria dar mais força para os britânicos.
Então, essa visão de que não há um interesse nacional, de que tem que se procurar o melhor negócio, é uma visão ingênua. Eu fico triste de ver, porque, às vezes, são pessoas que falam de boa fé. Quando alguém pergunta aos economistas: não vai ser grave para o Brasil todas as empresas irem à falência? Eles dizem: “não, porque eles fazem uma licitação, vem outra de fora e vende mais barato”. Quer dizer, é uma falta de visão do que é o interesse nacional. O interesse nacional, naturalmente, na democracia – não pode separar a democracia, porque nossa força vem do exercício do poder popular – mas é à base de empresas, estatais ou privadas, predominantemente nacionais e da capacidade dos nossos instrumentos.
Quer dizer, o BNDES, que está presente no mundo, a Petrobrás, fazendo pesquisas espantosas, como já fez. As pessoas, quando falam mal, elas esquecem que o Cenpes, segundo o ministério da Tecnologia, foi visto, em determinado momento, como o maior centro de pesquisa de petróleo do mundo. Talvez, a Exxon, com vários centros espalhados pelo mundo, fosse maior, mas não havia um centro de pesquisa maior do que o da Petrobrás. E a gente só vê as debilidades do país e a fraqueza, como se, na realidade, a soberania nacional fosse um bem menor diante, digamos, da busca de uma pseudo eficácia empresarial. O Brasil, as pessoas têm que colocar isso na cabeça, mesmo como uma empresa, ele não está sendo bem cuidado. Mas ele não é uma empresa. O Brasil é um país, é um povo. Você não pode chegar para o povo brasileiro e dizer o seguinte, como Brecht falava em uma peça: o Congresso não está bom, dissolve o Congresso; o povo não está apoiando, dissolve o povo. Não pode, você está falando de um povo. Quando se tem essa crise, 100 mil desempregados, ainda que se beneficie as empresas, supondo que isso aconteça, você tem que pensar de outra forma. Como, aliás, todos os países fazem. Isso não é privilégio. Por exemplo, essa falsa ideia de que no Brasil existe muito imposto. Existe imposto distorcido. Lá nos Estados Unidos, que são a pátria do capitalismo, os impostos são mais altos, sem falar em França, Suécia, enfim.
O Cafezinho: Aproveitando o gancho da questão tributária, a gente tem um sistema de comunicação no Brasil que não permite que o brasileiro saiba como funciona o sistema tributário em outros países. Criam-se lendas, por exemplo, de que o brasileiro paga muito imposto.
CA: Na verdade, nós temos uma das taxas mais baixas do mundo. Acabou de sair isso no livro do Picketty, que é um economista respeitado, e está longe de ser um militante, mas certamente é contra as desigualdades criadas pelo capitalismo. Com esse imposto altamente regressivo que existe no Brasil fica difícil combater a desigualdade. Você pode melhorar, e melhorou o lado social, nos governos recentes de Lula e Dilma, sobretudo pela incorporação, através de programas como Bolsa Família, Prouni, salário mínimo, junta tudo, o fato é o seguinte: você vai dar aula, hoje, em uma universidade (eu fui professor nos anos 70, 80) e a cor dos alunos mudou. Isso é um fato importante. Mas quando você começa a tirar esses programas, isso vai regredir. Eu não sei se as pessoas estão suficientemente organizadas para impedir que isso ocorra. Essa é uma grande preocupação. Agora, com relação à estrutura fiscal do Brasil, é extremamente regressiva.
Eu participei ativamente desse projeto Brasil Nação, que foi liderado pelo ex-ministro Bresser, que foi ministro do Fernando Henrique Cardoso e do governo Sarney, ninguém pode acusá-lo de petralha, nem nada disso. E uma das coisas que a gente chamou atenção, entre outras, na parte econômica (câmbio, juro), pra poder permitir uma política industrial, uma das coisas importantes era a estrutura tributária e a necessidade de ter uma estrutura tributária mais progressiva. Agora, ficam diariamente os grandes meios de comunicação – como eles não querem pagar impostos – dizendo que não pode mudar e tal.
O Cafezinho: A grandeza do país está ligada também ao sistema tributário. Porque a grandeza econômica, a quantidade de dinheiro disponível para investimento público, evidentemente, vai ter que sair de algum lugar e o único lugar de onde ela pode sair é a receita fiscal. Então, eu acho que, quando a gente discute soberania, a gente tem que ver que discutir o sistema tributário é fundamental para fortalecer o país.
CA: Não tenho a menor dúvida. Vou citar um exemplo: eu trabalhei no Ministério da Ciência e Tecnologia e, na época, o investimento em ciência e tecnologia no Brasil era 0,6% do PIB. Depois aumentou um pouco – acho que passou de 1%, chegou a 1,5% – agora está caindo de novo, caiu bastante. E, por exemplo, na Coreia, naquela época, eram 2%, hoje são 4% do PIB. Ora, isso vem de recursos fiscais. E as pessoas daqui mentem e muitas pessoas acreditam. Naquela época, eu ouvia dizer: “mas a maior parte do investimento em pesquisa e desenvolvimento é de empresas privadas”. É empresa privada, mas financiada pelo Pentágono, que encomenda as pesquisas. 50% das pesquisas nos Estados Unidos têm ligação com os gastos armamentistas.
O Cafezinho: É, as pessoas falam “ah, os Estados Unidos tem o Estado mínimo”. O que eu acho uma falácia, os Estados Unidos, na realidade, são o maior Estado do mundo. Se você ver, por exemplo, o tamanho do exército deles, das forças armadas, o que gastam.
CA: Não sei dizer exatamente o dado, mas é uma coisa assim: o gasto militar norte-americano é mais do que a soma dos dez seguintes, alguma coisa assim. E todas essas coisas que se desenvolveram na área civil (se não todas, grande parte), seja na área de biotecnologia, seja na área de química, novos materiais, informática, quase tudo nasceu (se não inteiramente, boa parte) com o apoio do governo e das forças armadas. Nós, não. Eu defendo que o braço de defesa do Brasil aumente também, mas enfim. São esses os mitos que se criam. A própria privatização, inclusive, não é privatização, é desnacionalização. Usam uma palavra aparentemente mais bonita, mas, na realidade, não tem nenhum empresário brasileiro comprando.
Nós criamos os BRICS. O Brasil está na origem dos BRICS. Na realidade, a criação dos BRICS deriva de iniciativa brasileira. Nós criamos os BRICS, junto com outros. Porque isso ajudava a equilibrar a geopolítica e a geoeconomia mundial. Quer dizer, a atuação dos BRICS no G-20 ajudou que, pela primeira vez, houvesse uma reforma no sistema de cotas do FMI. Agora, talvez a gente também tenha contribuído para que certos setores do chamado governo oculto da potência hegemônica tenham ficado na defensiva. É BRICS, interação sul-americana, conselho sul-americano de defesa, países árabes, Brasil sendo chamado para conversar na Palestina, no Irã. Porque a questão é a seguinte: os Estados Unidos não são monolíticos, mas existe lá um estabelecimento profundo, que é bem marcado, e eu não estou inventando isso agora, isso foi dito amplamente na década de 1960, 70. Eu acho que esse governo profundo, quando ele passou a ver o Brasil atuando de uma forma independente, procurando aglutinar a América do Sul, desenvolver relações com outros países, ele começou a se preocupar.
Mas o que eu queria comentar é o seguinte: nesse processo de privatizações também a China e a Rússia estão entrando, então, até os países que contribuíram para essa mudança do cenário mundial, nós vamos ter problemas com eles. Porque, como eles estão privatizando não apenas por ideologia – também por ideologia – mas pra fazer caixa, então é tudo em condições muito baratas.
O Cafezinho: Esse governo profundo, governo oculto, que o senhor fala, seriam as grandes corporações?
CA: Eu acho que as grandes corporações, o setor financeiro (cada vez mais presente), mas também inclui o Estado de Segurança dos Estados Unidos. Minha sensação, assim, eu nunca fiz jornalismo investigativo pra ir atrás, mas se vê pela lógica que o presidente norte-americano tem um grau de liberdade limitado. Quando o Obama disse para o Lula “esse é o cara”, esse governo profundo disse “não, o que é isso, o cara tem que ser um presidente nosso, não pode ser o presidente do nosso quintal”.
O Cafezinho: Então, são as corporações e a máquina do Estado. O Estado de Segurança é muito ligado também ao setor privado.
CA: É, tem o setor de inteligência, todo o departamento de Estado, cada um vê de acordo com a posição que ocupa, mas não há uma homogeneidade.
O Cafezinho: O senhor acha que a gente errou em não ter antevisto alguns desses movimentos ocultos e não ter criado um sistema de inteligência mais forte pra gente se defender desses ataques?
CA: Olha, eu vou dizer uma frase. Meu pai morreu com 101 anos, um pouco lúcido ainda, mas ele costumava dizer assim: “vocês estão cutucando a onça com vara curta”. Talvez, a gente tivesse que ter aumentado a vara. Mas as coisas aconteciam em conjunto e, muitas vezes, até o diálogo com os “governantes” americanos eram positivos. A própria relação do Lula com o Bush, minha com a Condoleezza Rice [eram boas]. Depois, no governo Obama, de certa maneira, teve aquele problema no Irã, que foi uma coisa curiosa, porque eles nos pediram e, quando nós conseguimos, eles puxaram o tapete.
O Cafezinho: Talvez, por causa do governo oculto que o senhor mencionou.
CA: Talvez, por causa do governo oculto. Mas aí eu acho que foi mais uma questão de lobby político, senão o governo oculto não teria deixado o governo Obama fazer o acordo que fez depois, que foi um desdobramento. Eu acho que ali, eles não quiseram o seguinte: era Brasil e Turquia, os Estados Unidos não quiseram permitir que esses dois países entrassem no grande jogo da política mundial.
O Cafezinho: O senhor viu que o Trump causou certo frisson na imprensa americana, porque ele falou uma frase misteriosa, dizendo que está vivendo uma bonança que precede a tempestade. Ele já tinha levantado a hipótese sobre algum tipo de agressão ao Irã. O senhor tem medo que o Trump desencadeie uma terceira guerra mundial?
CA: Olha, essas coisas são um pouco imprevisíveis. Eu tenho a impressão de que ele faz aquela bazófia toda para amedrontar e fazer com que o “inimigo” se retraia. Aliás, o mais grave de tudo, na minha opinião, não para o mundo, mas para nós, aqui, é a ameaça do uso da força na Venezuela. Isso é uma coisa que nunca aconteceu. Eles podem até ter inspirado o golpe ou ajudado no golpe, mas, na América do Sul, eu não me lembro, digamos assim, da 2ª Guerra pra cá, de nenhum presidente norte-americano ter ameaçado o uso da força contra um país sulamericano. O caso de Cuba é um pouco diferente. Mas eu não me lembro de nenhum país na América do Sul.
Isso é uma coisa gravíssima, porque contraria, inclusive, princípios da carta da ONU, no Artigo 2, parágrafo 4, que veda não apenas o uso da força, mas a ameaça do uso da força.
Agora, voltando à sua pergunta: até que ponto isso vai se concretizar ou não, eu não sei, mas acontece que já desencadeia forças negativas. Então, por exemplo, eu não estou defendendo a Coreia do Norte, agora, a arma atômica, infelizmente, virou símbolo de soberania. O Kim Jong-un viu o que aconteceu com o Sadam Husseim, com o Kadafi, viu o que quase aconteceu com o Irã, então, ele disse o seguinte: “eu tenho que ter como me defender”. Eu não estou dizendo que isso é certo. Isso é outra questão. Agora, eu acho que essa perspectiva e essa possibilidade do uso da força apenas fortalece aqueles que procuram se armar para se defender.
O Cafezinho: É verdade, incentiva a corrida armamentista, os orçamentos aumentam.
CA: É, eu acho que, no final das contas, isso pode acabar resolvido negocialmente. Porque ele disse que pode destruir a Coreia do Norte, mas, infelizmente ou felizmente, a Coreia do Sul iria junto. Então, eu acho que não vão fazer isso. Agora, o que vai acontecer é o seguinte: a Coreia do Norte quer ser reconhecida, se não de direito, pelo menos de fato, como uma potência nuclear. Como, aliás, a Índia já é reconhecida, como Israel já é reconhecido.
O Cafezinho: O senhor acha que foi um dos erros do Brasil, ao longo dos últimos 50 anos, não ter desenvolvido uma tecnologia de ponta…
CA: Ah, não sei, não vou entrar nisso. Isso é muito complicado, porque o preço que teria com as rivalidades sul-americanas, seria muito difícil imaginar a integração sul-americana com Brasil e Argentina tendo programas nucleares militares. O que a gente não precisava, na minha opinião, talvez, era ter assinado o TNP (Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares). A gente ficava numa posição de certa ambiguidade. Do ponto de vista tecnológico, a gente já tinha ficado com as garantias necessárias. Mas enfim, eu acho que mais importante do que isso, é a paz na nossa região. E acho até que nós devíamos ter programas conjuntos com Argentina, por exemplo. Não armamentista, mas de desenvolvimento nuclear. Já temos alguma coisa, mas podíamos ter mais.
O Cafezinho: Vou fazer uma última pergunta rápida sobre essa questão de uma possível candidatura sua ao governo do Rio de Janeiro. O ex-presidente Lula mencionou isso e eu sei que não é o momento de falar sobre isso. Eu queria saber se, por acaso, o senhor pudesse ter uma posição, o que pode ser feito para o estado do Rio de Janeiro, esse drama?
CA: Olha, eu vou te dizer sinceramente: eu ainda não tomei nenhuma decisão, também não quero me fazer de bonzinho, de procurado, nem nada disso. Mas eu acho que é importante que haja aqui uma frente de forças progressistas. Eu acho que o Rio de Janeiro está muito assolado, problemas como o da segurança acabam assumindo uma proporção muito grande. Apesar de serem reais também, as pessoas esquecem de ligar o problema da segurança ao problema da saúde, ao problema do emprego. Claro que tem ações que são específicas da segurança e que terão que ocorrer. Mas, o que é muito importante é trabalhar para uma melhor distribuição da renda aqui.