Por
Andrea Dip e Giulia Afiune

Fotos
estampam sorrisos, olhares e caretas. Meninas posam para o próprio celular
usando maquiagem, unhas feitas, roupas de festa ou mesmo o uniforme da escola –
sozinhas ou acompanhadas dos amigos. Tudo é publicado nos perfis de redes
sociais para ser "curtido” – a forma mais rápida e fugaz de aprovação online.
Cada "like” em um "selfie” (autorretratos feitos com o celular), gato, comida
ou sapato novo é esperado com ansiedade principalmente por crianças e
adolescentes que passam cada vez mais tempo postando e checando a própria popularidade
nas redes sociais. Uma pesquisa à qual a Pública teve acesso na íntegra em
primeira mão, realizada pela ONG Safernet em parceria com a operadora de
telecomunicações GVT – que entrevistou quase 3 mil jovens brasileiros de 9 a 23
anos – revela que 62% deles está online todos os dias e 80% tem as redes
sociais como seu principal objetivo de navegação. Como acontece no mundo todo,
o que prevalece é a autoimagem – não é à toa que "selfie” foi escolhida como a
palavra do ano de 2013 do idioma inglês pelo dicionário Oxford. De 2012 para
2013, seu uso aumentou 17.000% e a hashtag #selfie acompanha mais de 58 milhões
de fotos na rede social Instagram.
A
rotina online de duas garotas que estamparam páginas de portais, jornais e
revistas no último mês não era diferente. Giana Fabi, de Veranópolis, interior
do Rio Grande do Sul, e Julia Rebeca, de Parnaíba, litoral do Piauí, viviam a
maior parte do tempo conectadas. Separadas por mais de 3,8 mil quilômetros, as
meninas de 16 e 17 anos, respectivamente, acompanhavam ansiosamente a reação
online às autoimagens cuidadosamente construídas que postavam.
"Ela
era linda, as fotos dela então…”, é a primeira coisa que lembra Gabriela Souza,
amiga próxima de Giana, sobre as muitas curtidas nas fotos do perfil da gaúcha
no Facebook. Gabriela, que preferiu dar a entrevista através do bate-papo da
rede, lembra que a amiga vivia arrumada, se achava bonita mas se preocupava com
o peso, como a maioria das garotas de sua idade. Willian Silvestro, de 17 anos,
namorado de Giana na época, também comenta sua beleza: "Ela tinha olhos azuis e
gostava de realçar com lápis preto. Era vaidosa e amava maquiagem”. Os dois
estavam juntos havia um mês e todas as noites se falavam por cerca de duas
horas pelo Skype.
Já
Julia Rebeca, diz o primo Daniel Aranha, gostava de pintar as unhas com cores
diferentes e mostrá-las nas redes sociais. "Todo dia era uma nova. Tinha fotos
no Facebook em que ela mostrava a unha pintadinha, desenhada, decorada que ela
mesma fazia”. Além das fotos, Giana e Julia escreviam sobre o dia a dia na
escola ou na academia e postavam músicas e fotos das cantoras preferidas
– Miley Cyrus para Julia e Avril Lavigne para Giana. A piauiense fazia
curso técnico de enfermagem e pensava em seguir carreira na área da saúde. Já a
gaúcha estava no colegial, mas sonhava em deixar a pequena Veranópolis, de
apenas 22,8 mil habitantes, para fazer faculdade em Bento Gonçalves ou Caxias
do Sul – cidades médias da região.
A
descrição das meninas por amigos e familiares combinam com as fotos: alegres,
extrovertidas, falantes, "adolescentes normais”. Mas em novembro deste ano, uma
foto em que Giana mostrava os seios e um vídeo em que Julia aparecia fazendo
sexo com um rapaz e uma garota foram divulgados através do aplicativo Whatsapp
– usado em celulares – e se espalharam pelas rede com a velocidade dos
escândalos virtuais. Julia se suicidou no dia 10 de novembro e, quatro dias
depois, no dia 14, foi a vez de Giana tirar a própria vida, poucas horas depois
de saber que a foto havia sido compartilhada. As duas deixaram mensagens de
adeus nas redes sociais e se enforcaram.
Adeus pelo Twitter
"Quem
divulgou a foto foi um colega da escola que queria ficar com ela, só que ela
não queria ficar com ele”, diz o irmão de Giana, Jonas Fabi, de 29 anos. Ele
supõe que o garoto tenha espalhado a foto por vingança. "Eu não tenho certeza,
mas ouvi comentários de que possa ter sido um jogo na internet. Tu tá online no
Skype com várias pessoas e quem perde tem que mostrar uma parte do corpo. Aí
ela perdeu, mostrou e na hora deram um printscreen. Ele guardou essa foto como
uma carta na manga para chantagear: ela começou a namorar outro, ele foi lá e
fez isso”.
Giana
ficou sabendo do que estava acontecendo nas redes por volta do meio dia de 14
de novembro, quando sua prima ligou e avisou, depois de receber a foto em seu
celular pelo WhatsApp. "Quando eu soube da foto que estava rolando, liguei pra
ver como ela estava. Ela pareceu surpresa, espantada. Dói dizer isso mas acho
que ela não sabia de nada antes” lamenta Charline Fabi. "Por volta de uma hora
da tarde, começamos a conversar por aqui [Facebook]. Ela dizia que iria fazer
uma besteira porque não queria causar vergonha para a família. Eu não
acreditava porque ela nunca havia mencionado nada desse tipo. Só mandava ela
parar de falar aquilo, que as pessoas iriam esquecer. Mas aí, ela despediu-se
de mim dizendo: ‘Eu te amo, obrigada por tudo amor. Adeus”.
Charline
lembra que continuou a ligar para a prima e, como ela não atendia, ligou para
os pais que entraram em contato com os pais de Giana. Jonas, que morava na casa
ao lado, pulou o muro e entrou na residência. Lá encontrou o corpo da irmã, que
tinha se enforcado com um cordão de seda. "Na hora a adrenalina me segurou de
pé. Quando souberam, o pai desabou, a mãe teve que ir para o hospital, em
choque. Depois, quando caiu a ficha pra mim, eu também não aguentei”, lembra,
emocionado, falando baixo pelo telefone.
Às
12h56, Giana postou uma mensagem de despedida no Twitter: "Hoje de tarde eu dou
um jeito nisso. Não vou ser mais estorvo para ninguém”. Jonas atribui a atitude
da irmã ao medo da reação da família. "Ela disse pra prima que não queria que a
família sentisse vergonha e sofresse por um erro dela. A nossa família é bem
conhecida, e a cidade é pequena, meio bocuda, bastante gente inventa coisas. Às
vezes você faz uma coisinha e acabam aumentando. De repente isso até
influenciou, pelo fato das pessoas todas se conhecerem, daí acaba espalhando
rápido.”
"Outras pessoas podem entender que foram
vítimas e não culpadas”
Daniel
Aranha, primo da piauiense Julia Rebeca diz que ela também não falou com a
família sobre o vídeo. Ele informou que não pode dar detalhes, porque o caso
ainda está sendo investigado. O que se sabe é que o corpo de Julia foi
encontrado pela família na noite do domingo, dia 10 de novembro, quando
voltaram da igreja evangélica que frequentam. Antes de se enforcar com o fio da
chapinha, ela também tinha se despedido pelo Twitter, com três posts. "É daqui
a pouco que tudo acaba”, "Eu te amo, desculpa eu n [não] ser a filha perfeita,
mas eu tentei. Desculpa desculpa eu te amo muito…” e "E tô com medo mas acho
que é tchau pra sempre”. Seis horas depois, Daniel deu a notícia pelo
microblog. "Aqui é o primo dela, infelizmente perdemos a Julia Rebeca… Família
desolada, por favor não postem besteiras… Momento difícil”.
Os
dois casos estão sendo investigados por delegacias de polícia locais. O rapaz
que divulgou o vídeo de Giana já foi identificado mas Jonas e a família esperam
o resultado da investigação para decidir se vão processá-lo. Já no Piauí, mesmo
sem saber quem compartilhou o vídeo, Daniel diz que a família espera que a
justiça seja feita. "Queremos saber quem fez esse ato irresponsável e queremos
punição. Se for um maior de idade, espero que seja punido nas medidas cabíveis,
se for menor, não tem punição maior que sua própria consciência. Para ambos,
espero que tenham se arrependido e o meu perdão eles têm.”
Depois
dos episódios, as mesmas redes sociais estão sendo usadas para homenagear as
garotas. Jonas mudou sua foto do perfil para a imagem da irmã, bonita, com um
sorriso no rosto. Willian, namorado da gaúcha, também mantém uma foto abraçado
com Giana em seu perfil. Daniel alimenta a página "Julia Rebeca – Saudades
Eternas” com fotos, comentários, passagens bíblicas e com as músicas preferidas
da prima. "É uma forma das pessoas verem nosso amor, e de todos aqueles que a
amam deixarem suas lembranças e mensagens. Outras pessoas que passaram por isso
podem entender que foram vítimas e não culpadas por fazer algo na sua
intimidade”, explica.
Como um sonho ruim
O
caso das adolescentes e outros envolvendo mulheres que também tiveram sua
intimidade divulgada na rede ganharam grande repercussão em todas as mídias e
trouxeram à tona o conceito do "pornô de revanche” – tradução do inglês
"revenge porn” – para se referir à prática, cada vez mais comum, de divulgar
fotos e vídeos íntimos sem o consentimento da outra pessoa, geralmente por
parte de um homem para se vingar após um rompimento ou traição. Um
machismo que não se restringe àquele que posta a imagem: afinal, por que um
vídeo de sexo ou mesmo uma cena de nudez parcial destrói a vida de meninas e
mulheres e não dos homens, que não raro aparecem nas imagens?
"Esse
tipo de ameaça, ligada à moral sexual e à ideia de que as meninas são mais
expostas a uma avaliação sexual, sempre existiu”, como lembra a socióloga
Heloísa Buarque de Almeida. "O que acontece agora é que como uma grande parte
da sociabilidade é feita de forma virtual, o nível de exposição é muito maior e
isso amplia a sensação de humilhação. Tem algo inovador na ferramenta mas
também tem algo que é mais do mesmo” define a socióloga.
Se
culpar a ferramenta não é a melhor resposta, há algo definitivamente novo na
relação entre intimidade e redes sociais que impacta os adolescentes de uma
forma que a sociedade começa a descobrir. Além da decepção com a perversidade
de quem violou sua intimidade, a superexposição e o ciberbullying têm um peso
muito maior para aqueles que estão em processo de construção da personalidade e
de amadurecimento da visão de mundo. A vida online se aproxima – e para eles
mal se diferencia – da offline, segundo os especialistas entrevistados pela
Pública.
Também
ouvimos as "fontes primárias” – os adolescentes – em quatro rodas de conversas
com meninos e meninas de 15 a 18 anos, de escolas públicas e particulares de
três bairros de São Paulo: Vila Madalena, Jardins e Heliópolis. O resultado
desses papos, em muitos momentos surpreendente, você pode ler em formato de HQ
clicando nas imagens ao longo da matéria, onde os diálogos foram reproduzidos.
A frase de uma adolescente, sobre como se sentiria ao ter sua intimidade
compartilhada, resume o sentimento que dali emerge: "Deve ser como naqueles
sonhos em que você aparece nua de repente na frente da escola inteira. Só que
na vida real e para o mundo inteiro”.
Mais frequente do que parece
Nessas
conversas, muitos disseram já ter trocado fotos íntimas com amigos, "ficantes”
e namorados, todos já haviam recebido conteúdo sexting e conheciam ao menos um
caso de alguém em seu ciclo de amizades que teve a intimidade divulgada. A já
referida pesquisa realizada pela Safernet com crianças e jovens de 9 a 23 anos
confirma essa tendência: as fotos aparecem como o elemento mais compartilhado
na rede por 60% dos entrevistados (vejaum box com mais números e dados
exclusivos no fim da matéria). Do total, 20% admitiram já ter recebido
conteúdos de sexting e 6% já ter enviado fotos de si mesmos – em 2009, apenas
12% relataram ter recebido conteúdo desse tipo segundo a pesquisa. O estudo
mostra também que os que postam para difamar o fazem de forma recorrente: dos
que compartilharam fotos ou vídeos eróticos de alguém contra sua vontade, 63%
já o fizeram cinco vezes ou mais.
Para
a psicóloga Juliana Cunha, que coordena o
Helpline,
canal de atendimento direto a crianças e adolescentes da Safernet que funciona
via chat e e-mail, pais e professores têm que enfrentar o fato de que o sexting
faz parte da nova cultura adolescente, por mais chocante que isso possa
parecer. "Nós adultos não temos um olhar tão próximo dessa geração que cresce
imersa nesse ambiente de interação online. A gente percebe no sexting dois
pontos de vista muito antagônicos: o do adulto, que vê geralmente como uma
superexposição e como uma erotização precoce, e dos adolescentes, que vêm a
troca como código de interação entre eles”.
Juliana
conta que é comum, ao começar uma amizade ou paquera online, os adolescentes ligarem
a webcam para se conhecer, mas a troca de conteúdo erótico costuma acontecer
apenas quando eles se sentem confiantes e íntimos. "Para eles, aquilo é parte
das experiências sexuais e de intimidade. E não há dialogo entre as gerações.
Cada uma está falando uma língua” diz. A comparação que ela usa para abordar o
assunto com pais e professores é de que funciona mais o menos como os jogos
sexuais das gerações passadas – a diferença é que se antes aquilo ficava
guardado na memória, hoje pode se espalhar e se perpetuar ao cair na
rede.
"Os
adolescentes sofrem muito quando isso se dissemina, eles ficam marcados,
falados, pagam um preço muito alto. As meninas que têm a intimidade exposta são
apedrejadas, xingadas, muitas têm que mudar de cidade, deixar a escola. A gente
acha que pode desconectar e está tudo bem mas não é assim. E o apoio da familia
é determinante sobre como esse adolescente vai superar. Eles relatam muito medo
de serem julgados e punidos pelos pais. A escola também precisa intervir e
abrir espaços de diálogo porque geralmente ficam espantadas e perdidas. Escutar
sem julgar pode ajudar muito”.
No
último ano, apenas nos Estados Unidos, 9 adolescentes cometeram suicídio
supostamente por terem sofrido ciberbullying em uma rede social chamada Ask.Fm
em que alguém faz uma pergunta de forma anônima e o outro tem que
responder, como o jogo da verdade das gerações passadas. Apesar de não ser
muito conhecida pelos adultos, o Ask.Fm é a terceira rede social mais utilizada
pelos adolescentes no Brasil, atrás apenas do Facebook e do Instagram, segundo
Manu Barem, editora do Youpix – site que discute a cultura da internet e como
os jovens se relacionam com ela.
Manu
conta que já sofreu o drama do ciberbullying na pele: "Ele acaba mesmo com a
saúde mental das pessoas. Eu já sofri através do Twitter e, mesmo tendo 28
anos, aquilo me desestabilizou profundamente. Imagina na vida de um adolescente
que ainda não saiu de casa e não tem as preocupações e raízes de uma vida
independente. Coisas assim têm outra proporção. Fora que é dificil hoje falar
em uma separação entre identidade online e offline. Isso não existe mais”, diz.
O
doutor em ciências sociais e autor do livro "Comunicação e Identidade: quem
você pensa que é?” Luis Mauro Sá Martino (veja entrevista completa com ele
aqui), concorda com
Manu. Para ele, "não faz mais sentido a oposição entre ‘mundo digital’ e ‘mundo
real’, apenas entre mundo digital e mundo concreto, físico”. E explica: "O que
a gente chama de realidade é um monte de significados que a gente dá para as
coisas. No mundo digital, virtual, eu também estou dando significado para as
coisas, só que tem o nome de avatar, foto, perfil, link. Nós estamos dentro da
realidade humana, essa realidade se manifesta de muitas formas e uma delas é o
ciberespaço. Ele só é diferente do espaço físico por uma questão de
tecnologia”, diz Sá Martino.
Juliana
acrescenta que o mecanismo de relação nas redes sociais é mesmo pautado pela
reputação: "Existe uma competição curiosa, em busca dessa audiência, quem tem
mais views, as interações online têm essa lógica. Aí você gerencia o tempo todo
isso, a percepção que os outros têm de você. E se você percebe que esse ‘eu’ do
adolescente está tão capturado pela reputação online, quando isso de alguma
forma se abala, vale a pena viver?”
Suicídio por ciberbullying?
A
perseguição social – que sempre se manifestou contra a sexualidade das mulheres
– se mostra especialmente aguda, porém, no espaço virtual em que nada se apaga,
nada se estanca e nada se restringe. O bullying, comportamento comum na
adolescência, pode desestruturar completamente a vítima, como mostram os posts
dramáticos das adolescentes brasileiras que se mataram.
Para
o psiquiatra e autor do livro "O Suicídio e sua Prevenção”, José Manoel
Bertolote, não se pode determinar, porém, o bullying como causa única de um
suicídio. Ele explica que 85% dos adolescentes que tiram a própria vida têm um
transtorno psiquiátrico na ocasião, o que é chamado de fator predisponente.
"Quando a ele se junta um fator precipitante, pode se desencadear o processo
suicida”. Aí entraria o fator ciberbullying. "[O psicólogo Bruno] Bettelhein
postulou [no livro A Psicanálise dos Contos de Fada] que uma das funções das
fábulas e contos de fada era preparar as crianças para a vida adulta através de
símbolos. A era eletrônica mudou a forma como as crianças veem o mundo: dos
videogames, às redes sociais e aos reality shows vivem num mundo paralelo, ao
mesmo tempo voyeurs e exibicionistas, num tempo ilusório, num espaço distorcido
e numa realidade artificial”, diz.
O
psiquiatra também não descarta a possibilidade de que, no caso das meninas
brasileiras, um suicídio tenha influenciado o outro: "Não é impossível. É bem
conhecido o ‘efeito Werther’, de imitação de comportamentos suicidas. Em geral,
há um determinado pool de pessoas com alto rico de suicídio (pela existência de
fatores predisponentes) e, para elas, a informação sobre um caso de suicídio
(ou tentativa) pode ser o fator precipitante que faz transbordar o copo d’água.
Não é por nada que a OMS recomenda o comportamento adequado da mídia como um
das formas eficazes de prevenção dos comportamentos suicidas”.
Em
uma palestra sobre o tema, o pós-doutor pela Universidade de Londres e doutor em
Saúde Mental pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Neury Botega,
também explicou que muitos fatores se combinam no suicídio. "Nunca é apenas um
motivo. Há causas genéticas e biológicas, o grau de impulsividade e
agressividade, abusos físicos ou sexuais, disponibilidade de meios letais,
entre outros. Há pesquisas que demonstram que até o perfeccionismo está
associado ao suicídio, especialmente de adolescentes”, disse.
Recentemente,
a equipe do Facebook, se dizendo preocupada com mensagens suicidas postadas na
rede, lançou uma ferramenta que identifica conteúdos suspeitos, manda um e-mail
e oferece um link para uma conversa privada com um especialista. A ferramenta
está disponível apenas para os Estados Unidos e Canadá mas deve ser liberada para
outros países em breve.
Botão Prozac de curtir
"Eu
já vi uma menina que tava, tipo, feliz numa balada e quando viu uma postagem de
um carinha no Facebook ficou brava, triste, surtou, mudou o humor dela
completamente. Assim como quando o menino que eu gosto curte a minha foto me dá
uma alegria tão grande que eu tenho vontade de abraçar a minha família! Isso
não é normal né? Ficar tão feliz com uma coisa assim”, disse Maria, de 16 anos,
durante uma das rodas de conversa. Todos eles, meninos e meninas admitiram se
importar exageradamente com curtidas que ganham em fotos, vídeos e músicas que
postam nas redes sociais. Para alguns, o "like” mais importante vem de alguém
especial; para outros, o número é o que realmente conta – e aí adicionam todos
que pedem para se tornar amigos, sem saber quem são. Muitos também disseram se
comunicar com o/a namorado/a apenas por mensagens de texto e não sentir falta
da conversa por telefone, por exemplo. A interação online parece ser, na
maioria das vezes, suficiente para eles.
O que
não significa que realmente seja, como destaca o psicólogo e pesquisador Vitor
Muramatsu, autor do trabalho "Influência da comunicação digital nos vínculos
humanos” que você pode baixar na íntegra
aqui. "Eles [os adolescentes] passam por diversos processos
psicológicos como encontrar uma identidade, formar uma personalidade,
questionar o que aprenderam em casa e na escola. E os laços que antes eram
formados com a convivência real e uma série de trocas ricas que só a interação
física permite em silêncios, tons de voz, cheiro e toque foram substituídos por
interações online. Ter vários amigos no Facebook não é como conviver
fisicamente com alguns poucos e bons amigos. A pergunta é: como essas crianças
e adolescentes vão se formar nesse novo contexto? Não vai ser melhor ou pior
mas a gente tem que parar para pensar e estudar as consequências disso”
acredita o psicólogo.
Para
ele, há também um desencontro entre o desejo de alguém que posta uma foto, por
exemplo, e a recepção que ela terá pelos amigos virtuais. "Eu coloco uma foto
minha de criança e espero que os meus 550 amigos curtam porque quero que eles
vejam o quanto eu era lindo e amado pelos meus pais naquela época. Ou mando uma
foto nua para um garoto mas ele é adolescente, não quer saber de mim ou queria
mas mudou de ideia, nem ele sabe o que quer. A relação que você tem com a foto
é muito carregada de sentimentos e isso se perde totalmente quando alguém olha
rapidamente na sua timeline ou recebe por WhatsApp. Existe uma perda entre meu
desejo e a consecução do desejo. Aparentemente bastam algumas curtidas mas
nunca é o suficiente. Todas as tecnologias prometem satisfação imediata, um
botão ‘Prozac’ de curtir, mas isso é um engodo”.
Muramatsu
vai além na reflexão. Para ele,cada vez maisas redes sociais estão
se tornando grandes sites de compras. "O sistema pode ser utilizado para
encontros efetivos, mas o mercado faz com que a sua atenção se volte para o
consumo de produtos e não para a efetivação da sua subjetividade. A Mariana,
que posta que está solteira, vê a foto de um cara bonito e logo abaixo um
anúncio de escova progressiva. Ela pensa que precisa ficar bonita para arrumar
um namorado bonito assim, clica no link e compra a escova progressiva. No site,
ela vê uma outra propaganda de um casal feliz em Campos do Jordão no qual a
moça é retocada no photoshop para ter um corpo perfeito. Para ficar assim, ela
compra a promoção de lipocavitação. E o mais terrível é que você substitui o
relacionar-se com pessoas por relacionar-se com pessoas como produtos, porque o
cara vai realmente sair com a moça que tem a escova progressiva”. E conclui: "A
lógica de mercado desconhece a diversidade humana. É preciso que se discuta, é
preciso de estudo, tolerância, estrutura. Não estamos falando apenas sobre a
menina que se suicidou. Vivemos um contexto gigante de economia de mercado em
que as pessoas também são produtos e que um dos efeitos colaterais é esse: quebrar
onde é mais frágil. A impressão é de que é tudo melhor, vamos nos relacionar
mais, ser mais felizes, estar mais perto. Mas não é isso que acontece. Acho que
a gente está no ápice das tecnologias do desencontro humano. E tem gente
morrendo por causa disso”.
Pesquisa da Safernet brasil mostra que
sexting é prática comum entre adolescentes
APúblicarecebeu,
em primeira mão, a pesquisa da ONG Safernet sobre como os jovens brasileiros
usam a internet. Além disso, tivemos acesso exclusivo aos dados do Helpline Br,
serviço de orientação online para crianças e adolescentes que estejam
vivenciando situação de risco na Internet. (
www.canaldeajuda.org.br).
Dos
2834 jovens entre 9 e 23 anos que participaram da pesquisa, 62% afirmam que
usam a internet todos os dias. O número cresce para 86% entre os jovens de 16 a
23 anos. As redes sociais são a atividade preferida por 80% dos participantes,
seguida por ouvir músicas e assistir filmes (57%) e jogar jogos (55%).
Celulares e tablets ocupam o segundo lugar na lista dos dispositivos mais
utilizados para o acesso, com 38%, atrás apenas dos computadores no quarto,
usados por 47%.
"Se
eu tô o tempo todo conectado, significa que eu tenho que interagir, correr e
responder as informações que eu recebo o tempo todo”, explica Luís Mauro Sá
Martino, doutor em Ciências Sociais e autor do livro "Comunicação e Identidade:
Quem você pensa que é?”. "Isso faz com que a gente mude a nossa relação com o
tempo e com as outras pessoas. Eu tenho um número maior de conexões, mas isso
não significa que eu tenho mais amizades, porque afeto demanda tempo.”
39%
dos participantes considera que seu comportamento não muda nas redes, mas 23%
acreditam ficar mais confiantes e descontraídos e 22% mais cuidadosos quando
estão online.Dos jovens entre 16 e 23 anos, 17% acreditam que podem dizer
coisas online que não diriam offline, 15% dizem ser mais descontraídos, 9% mais
confiantes e 12% conversam com mais pessoas na internet do que fora.
O
Sexting – compartilhamento de fotos, vídeos ou textos com teor sensual e
erótico é comum entre eles. 20% afirmam que já receberam esse tipo de conteúdo.
Dentre estes, 42% receberam 5 ou mais vezes. Apenas 6% assume que já
compartilhou este tipo de foto de si, dentre os quais 63% o fizeram 5 ou mais
vezes. Este fenômeno é mais comum entre meninos e se torna mais frequente com a
idade. 32% dos jovens entre 16 e 23 anos já receberam esse tipo de conteúdo
relativo a amigos e/ou colegas. 8% confirma que já enviou, o que aumenta para
13% a partir dos 18 anos.
Entre
janeiro de 2012 e novembro de 2013, 7,7% dos pedidos feitos ao Helpline Br eram
relativos a Sexting. Ou seja, foram 135 pedidos de ajuda em cerca de dois anos.
Este é o quarto na lista dos assuntos mais citados nos atendimentos – atrás de
Ciberbullying (20,9%), solicitação de materiais/palestra (10,9%) e problemas
com dados pessoais (9,8%).
"Conforme
a Internet passa a ocupar cada vez mais tempo e importância na vida dos
adolescentes e jovens brasileiros, o namoro e as relações mais íntimas tendem a
ocorrer também nos ambientes digitais, assim como ocorria com os bilhetes,
cartas, telefonemas”, detalha o relatório da pesquisa. "Uma grande diferença a
ser considerada atualmente é a amplitude do público potencial nos ambientes
digitais e a replicabilidade das informações que rapidamente podem ser usadas
sem o consentimento dos "proprietários”.
Quando
jovens entre 16 e 23 anos se sentem em perigo ou são agredidos na Internet, 49%
bloqueia o contato e denuncia e 9% tenta descobrir quem é o responsável e tirar
satisfações. A exemplo de Giana e Julia, que não contaram para a família sobre
a sua exposição na rede, apenas 12% pedem ajuda para os pais e 4% para irmãos e
amigos. 8% desligam o computador e tentam esquecer.
O ato
pode ser interpretado como difamação (imputar fato ofensivo à reputação) ou
injúria (ofender a dignidade ou decoro), considerados crime de acordo com os
artigos 139 e 140 do Código Penal. Além disso,o artigo 241 do Estatuto da
Criança e do Adolescente prevê pena de 3 a 6 anos de reclusão e multa para
quempublicar materiais que contenham cena de sexo explícito ou
pornográfica envolvendo criança ou adolescente. Já a Lei 12.737, em vigor desde
abril, criminaliza a invasão de dispositivo informático alheiopara obter,
adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização do titular. Quem
tiver essa conduta pode pagar multa e ser preso por três meses a um ano. A lei
foiapelidada de "Carolina Dieckmann” após a atriz ter seu computador hackeado
e suas fotos íntimas divulgadas.
No
entanto, os recentes casos trouxeram à tona propostas para uma legislação mais
específica e penas mais rígidas.Ao todo, cinco projetos tramitam em
conjunto na Câmara dos Deputados.O deputado federal
Romário(PSB/RJ)apresentou, em outubro de 2013, o projeto de
leinºPL 6630/2013, que acrescenta um artigo ao Código Penal,
criminalizando a divulgação de fotos, imagens, sons e vídeos com cena de nudez
ou ato sexual sem autorização da vítima.Nesse caso, a pena seria a detenção
de um a três anos e multa. Ela podeaumentar em um terço se o crime for
cometido com fim de vingança ou humilhação ou praticado por alguém que manteve
relacionamento amoroso com a vítima.Também tramitam os projetos de lei nº
6713/2013, de autoria da deputada Eliene Lima (PSD/MT), e o projeto de lei nº
6831/2013, do deputado Sendes Júnior (PP/GO). Ambos dispõem sobre o crime de
vingança através da exposição da intimidade física ou sexual.
Em
maio desse ano, o deputado João Arruda (PMDB/PR) propôs alterações à Lei Maria
da Penha para determinar que a divulgação de imagens, montagens, vídeos e dados
por meio da Internet ou outro meio, sem consentimento, também seja considerada
uma violência contra a mulher. Trata-se do projeto de lei nº 5555/2013, conhecido
como "Lei Maria da Penha Virtual”. O projeto nº 5822/2013 da deputada
Rosane Ferreira (PV/PR) prevê a punição "da violação da intimidade da mulher na
internet no rol das formas de violência doméstica e familiar”. Atualmente, a
Lei Maria da Penha (11.340/2006) estipula uma pena de três meses a três anos de
detenção no caso de lesão corporal levecontra a mulher no âmbito
doméstico.
Já o
projeto de lei do Marco Civil da Internet (PL 2126/11), que em 2009 começou a
ser construído por um processo colaborativo entre sociedade civil e poder
legislativo, traz uma série de regulamentações sobre a utilização da rede no
país. Recentemente, o relator Alessandro Molon (PT-RJ) incluiu no texto um
artigo que responsabiliza provedores de aplicações de internet, como UOL e
Facebook, se a empresa for notificada e não tirar do ar "imagens, vídeos ou
outros materiais contendo cenas de nudez ou de atos sexuais de caráter privado
sem autorização de seus participantes.”
No
entanto, organizações que fazem parte do movimento Marco Civil Já questionam a
mudança. "Da forma como está escrito, qualquer pessoa que se sentir ofendida
com determinada nudez de caráter privado, divulgada com a anuência de quem está
na imagem, pode solicitar a retirada do conteúdo a qualquer momento. Até uma
empresa que teve um protesto de nudismo em sua porta poderia alegar
participação na imagem. É preciso encontrar uma redação que restrinja a
possibilidade de notificação apenas à pessoa retratada no conteúdo”, considera
Deborah Moreira, da Ciranda, citando a carta do Marco Civil Já enviada ao
relator contestando o artigo. "O termos "outros materiais” é complicado também
pois dá margem a censura de caricaturas, textos eróticos e coisas do tipo. Da
forma como está fere a liberdade de expressão.”
Deborah
argumenta que o Marco Civil é uma carta de princípios que garante direitos,
estabelece deveres e prevê o papel do Estado em relação ao desenvolvimento da
internet. Assim, não seria o espaço apropriado para pautar restrições ao uso da
internet. "Já existem leis que criminalizam essas como a Lei Carolina
Dieckmann e o próprio Código Penal.”
De
acordo com o texto,quem sofrer a violação dos direitos à preservação da
intimidade, vida privada, honra e imagemdeve receber indenização por
danos materiais ou morais.O projeto deve ser votado na Câmara dos
Deputados, em fevereiro de 2014, em regime de urgência.
Colaboraram:
Bruno Fonseca e Jéssica Mota
HQ: Alexandre De Maio
Infográficos: Safernet Brasil