domingo, 6 de outubro de 2013

Ilusões perigosas sobre o campo de Libra

6 de outubro de 2013 | 17:26
O valoroso Paulo Metri, engenheiro e defensor do petróleo para o Brasil e de seu sinônimo, a Petrobras, escreve artigo no site do Sindicato dos Engenheiros onde defende o cancelamento (e não o adiamento) do leilão do Campo de Libra, o maior, isoladamente, de nosso pré-sal.
O artigo, que explica muito bem e didaticamente a importância do megacampo, que merece ser lido por todos que, de forma simples, quiserem entender e explicar o quanto esta reserva é importante para o Brasil, porém , comete, a meu ver, o erro de um otimismo perigosíssimo, que desconsidera os riscos que estas “apetitosas” reservas de petróleo correm, no mundo real, não no ideal.
Gostaria muito de concordar com Metri, de que não é urgente explorar o campo e que poderíamos não apenas esperar momentos melhores e, idealmente, que a Petrobras retomasse o monopólio do petróleo no Brasil, agora incorporando a partilha do petróleo com o Governo brasileiro, através de um Fundo Social que revertesse seus lucros para o desenvolvimento nacional e não apenas para os acionistas da nossa petroleira, que se dividem entre o Estado brasileiro e investidores privados, nacionais e estrangeiros.
Aliás, no mundo ideal, concordo plenamente.
Mas será que a realidade é essa?
Vou responder às perguntas que Metri formula, e sei que o faz com sinceridade.
“E por que já não se refez o monopólio? Ou por que não se busca, amanhã, recompor o monopólio?” A resposta é simples: O nosso Congresso é formado por grande número de representantes do capital, que nunca irão aprovar o retorno do monopólio.
Bem, Metri, você mesmo respondeu com precisão. Não há condições políticas para reaver o monopólio, mesmo com as boas modificações que você sugere.
Eles responderão com argumentos do tipo: “A Petrobras não tem recursos suficientes para explorar o petróleo que o Brasil possui.” Eles têm razão, pois, na velocidade que eles desejam que ocorra a exploração, é verdade. No entanto, a exploração acelerada só serve para as empresas privadas terem muito lucro e os países desenvolvidos conseguirem mais um país exportador, que irá influenciar para baratear o preço do barril.
Portanto, Metri concorda que a Petrobras não tem recursos para, sozinha, explorar o petróleo que o Brasil possui. Até tem, se considerarmos apenas as reservas menores e mais simples, mas não tem para todas as reservas do pré-sal já identificadas.
E já foram atribuídas diretamente à Petrobras quase todas as já detectadas emj áreas não licitadas:  Franco, Iara, Florim, Tupi (Nordeste e Sul), Guará Sul e Peroba. Juntas, elas representam tanto ou até mais que Libra. Ali, foi usado o que prevê  o Artigo 12 da lei 12.351, que permite a entrega direta à Petrobras, mas lembremos que todo o gasto exploratório corre por conta dela.
Não se está tentando aqui desmerecer a importância de Libra, que é imensa, mas dar ideia das responsabilidades que a Petrobras, sozinha, já assumiu no pré-sal.
Mas não é correto dizer que  ”a exploração acelerada só serve para as empresas privadas terem muito lucro”. Primeiro, porque exploração acelerada, em petróleo de grande profundidade significa, no mínimo, começar a produzir em cinco anos. E concluir a retirada de todo o petróleo recuperável em 35 ou 40 anos, ou seja, em 2050!
Muito menos que irá influenciar para baratear o preço do barril.
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo tem cotas de exportação fixadas no teto de 30 milhões de barris diários e pratica hoje cerca de 25 milhões/dia. Na melhor das hipõteses, com Libra e as outras áreas de petróleo operando intensamente, poderíamos chegar a uma exportação de 2 milhões de barris diários, menos de 10% da oferta mundial.
Mas se isso é imaginário, há coisas bem reais.
Se temos certeza de que, no horizonte político visível nos faltam condições políticas e até econômicas para uma reestatização total da exploração de petróleo será que temos a certeza de que um novo governo não vai tentar abrir as áreas não exploradas de nosso pré-sal às multinacionais?
O que a grande mídia chama de “fracasso” do leilão de Libra – pelo fato de as grandes petroleiras americanas e inglesas não participarem – é, na verdade, uma oportunidade.
Será que não entendem que, com a formuladora da retomada do petróleo para o Brasil no comando do país, a Petrobras não está pronta para alcançar o limite de suas possibilidades, vendendo os ativos estrangeiros que possui e fazendo caixa para entrar de sola em Libra?
A petroleira brasileira está juntando cada tostão – sexta-feira, vendeu duas pequenas participações no Uruguai, para embolsar US$ 17 milhões – para cumprir ao máximo seus compromissos de investimentos a serem assumidos em Libra.
Sem ilusões, com realismo e força.
Porque ficar esperando o ideal, o ótimo, é deixar nosso petróleo dando chance ao azar.
Ou será que Metri e os “cancelonistas” acham que se o pré-sal tivesse sido descoberto na era FHC nós não teríamos virado um enclave americano?
 
Por: Fernando Brito

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