Por Yoshiaki Nakano
Vamos iniciar pelos problemas de curto prazo que
são mais imediatos, requerem maior urgência e poderão se transformar numa
demanda política. Vamos aqui focar no problema da inflação, que está
indissoluvelmente ligado às condições em que opera o mercado de trabalho e que
vem ultimamente provocando uma onda de greves. Deixando de lado os efeitos dos
choques de preços, provocados pelas secas etc, que têm efeito temporário, a
persistência da inflação recente no Brasil tem um caráter mais estrutural e
setorial, pois é a inflação oriunda no setor nontradables, particularmente do
setor de serviços, que tende a desencadear uma inflação de salários e daí a se
generalizar para os demais setores da economia.
Daí por que está indissoluvelmente ligado às
condições, praticamente de pleno emprego, em que passou a operar o mercado de
trabalho, no período recente, no Brasil. Na verdade, este é um fenômeno novo,
que trouxe instabilidade para o país e que tanto o setor público como o setor
privado bem como as instituições e as políticas públicas precisam se ajustar.
Desde Adam Smith e Marx sabemos
que a economia capitalista enfrenta dificuldades no pleno emprego
Desde Adam Smith e Marx sabemos que economia
capitalista enfrenta séries de dificuldades no pleno emprego. Por isso este
último autor falava que o capitalismo não sobreviveria sem um "exército
industrial de reserva" (trabalhadores desempregados prontos e dispostos a
trabalhar). Na literatura econômica moderna a relação empírica entre taxa de
desemprego e a variação da taxa de salário recebeu a denominação de Curva de
Phillips: quando o desemprego cai a partir de uma certa taxa, dita natural, os
salários aumentam acima da produtividade e com isto os preços são pressionados,
isto é: a taxa de inflação aumenta.
Existe, portanto uma certa taxa de desemprego
natural que equilibra o mercado de trabalho e portanto mantém a inflação
estável. No Brasil a taxa de desemprego atingiu certamente um nivel que está
gerando elevação dos salários acima da produtividade e tem puxado a taxa de
inflação para o limite superior da meta, com o risco de gerar uma espiral
inflacionária salário-preços, apesar da elevação da taxa de juros pelo Banco
Central. Isto ocorre por que o governo entende que é preciso manter a demanda
agregada superior à oferta agregada, para estimular o crescimento. E isto
ocorre no Brasil de um forma peculiar e com a economia semi-estagnada.
Na indústria, devido à taxa de câmbio apreciada e
ao custo Brasil, boa parte dos setores não consegue competir com os importados.
Desta forma, o estímulo da expansão de demanda é transferido para o exterior e
apesar dos aumentos de salários acima da produtividade, a inflação está sob
controle nestes setores, a margem de lucro é que é comprimida. Desta forma, o
setor que não sofre competição externa, serviços em geral, é favorecido não só
pela expansão da demanda como pela taxa de câmbio, fazendo com que os seus
preços aumentem duas vezes mais do que no setor industrial. Este é a fonte
básica da aceleração da inflação no período recente no Brasil.
Neste quadro, não resta outra alternativa para
controlar a inflação a não ser conter a demanda agregada e elevar a taxa de
desemprego para reequilibrar o mercado de trabalho. Evidentemente, este tipo de
medida não agrada a nenhum político, muito menos ao governante de plantão. A
situação é preocupante, porque o governo dá sinais de que não aceita este
diagnóstico e tem recorrido a medidas administrativas, postergando o reajuste
de alguns preços, criando uma inflação reprimida. Daí a previsão de que passado
o ano eleitoral, em 2015 este ajuste deverá tornar-se inevitável.
Vamos supor que, com novas medidas monetárias
ativas do Banco Central e medidas fiscais do governo, a taxa de desemprego
aumente, cria-se desemprego, os salários sejam contidos e que a inflação ceda.
Com este ajuste estará o Brasil pronto para voltar a crescer? Não,
infelizmente. Com elevado custo Brasil e taxa de câmbio apreciada a
desindustrialização deverá persistir. Tão logo as medidas de contenção da
demanda agregada sejam afrouxadas o setor de serviços poderá reagir
positivamente, mas a indústria não terá nem reservas nem condições de
competitividade para enfrentar as importações. Assim, voltamos à estaca zero: a
inflação voltará a partir do setor de serviços e a economia continuará
semi-estagnada.
Em outras palavras, o ajuste necessário em 2015/16
envolve muito mais do que conter a inflação por medidas macroeconômicas
convencionais. Sem reduzir o custo Brasil, particularmente o diferencial de
taxa de juros e de carga tributária comparado ao nossos parceiros comerciais, e
uma depreciação mais persistente da taxa de câmbio, não vamos reativar a
locomotiva que move a economia, o setor industrial, com seus serviços modernos.
Tudo isto precisa ser feito numa sequência e intensidade de medidas monetárias,
fiscais e cambiais corretas senão podemos ter efeitos adversos, não esquecendo
que estamos estrangulados pela infraestrutura inadequada. O desafio é
formidável!
Yoshiaki Nakano, com mestrado e
doutorado na Cornell University, é professor e diretor da Escola de Economia da
Fundação Getulio Vargas (FGV/EESP).
Nenhum comentário:
Postar um comentário