No ano em
que vai acolher a Copa, o futebol brasileiro está em baixa
por Luiz Gonzaga Belluzzo na Carta Capital
No ano em
que o Brasil recebe o mundial da Fifa, o futebol nacional encanta pouco
A palavra
tragédia é em geral mal aplicada no futebol. Os comentaristas esportivos gostam
de usá-la para designar o desfecho do jogo Brasil vs. Uruguai, final da
Copa do Mundo de 1950, ou para invocar a derrota brasileira diante da Itália no
Mundial da Espanha de 1982. Mas essas foram falsas tragédias.
Nada
posso garantir a respeito de 1950. Ouvi o jogo pelo rádio com meu pai (uma
narração inesquecível de Pedro Luís) cercado de velas iluminadas pela fé de
minha avó materna. Depois do gol de Giggia, prólogo do martírio de Barbosa,
Dona Hermelinda invocava as graças de Santa Rita para reverter o placar
adverso.
Já a
chamada tragédia do Sarriá foi um monumento esculpido à grandeza desse esporte.
Uma reafirmação de que ele pode ser encantador quando jogado e dirigido por
gente do ramo. Nada houve de trágico ali, salvo os rancores daqueles que
imaginam que o Brasil só perde para ele mesmo.
No ano em
que vai acolher a Copa do Mundo, o futebol brasileiro está em baixa. Digo isso
compungido, pois o jogo da bola foi praticado no Brasil com a despretensiosa
inteligência dos que jogam conversa fora nas mesas de bares.
Em um fim
de semana, caí no sono enquanto assistia a jogos de futebol. Fiquei alarmado.
No sábado, 8 de fevereiro, depois de escrever um artigo para CartaCapital,
preparei o espírito para ver Flamengo e Fluminense. O tricolor enfiou 3 a O no
rubro-negro. O resultado engana. Foi uma exibição de baixa qualidade técnica:
jogadores medíocres e técnicos sem imaginação nem ousadia. A bola se deslocava
sonolenta quando não era despertada por um pontapé maldoso desferido por um dos
pernas de pau que desfilavam a sua grossura nas quatro linhas.
Uma
tristeza. O Fla-Flu já teve dias melhores. Veja o caro leitor que o meio de
campo, hoje povoado de brucutus, foi ocupado em outros tempos por Didi e Dr.
Rubens, meias do velho estilo e da boa cepa. Mais recentemente, entre os 70 e o
começo dos 80, duelaram no espaço nobre do gramado Rivelino pelo Flu e Zico
pelo Fla, escoltados por Carlos Alberto Pintinho e Adílio ou Andrade.
O
pesadelo do sábado foi
sucedido pelo terror do domingo. Boa ideia teria sido uma sessão de cinema ou,
ainda melhor, uma busca na biblioteca. Os candidatos mais fortes a uma releitura
naquela sessão vespertina seriam Tristam Shandy, de Laurence Sterne, Dezoito
Brumário, de Karl Marx, ou Tartufo, de Molière. Qualquer dos textos
faria justiça aos tempos pós-modernos, justamente por terem construído
horizontes sociais e psicológicos de uma modernidade ainda não ultrapassada.
Mas é
claro que a alma palestrina preferiu arrostar o terror do jogo Palmeiras e
Audax. Há sempre aquela esperança do torcedor comum – faço questão de pertencer
a essa turma – de que o time possa apresentar, como prefere a vulgata
futebolística, um desempenho de encher os olhos, sobretudo na sequência de uma
campanha invicta. Assim, não trepidei entre saborear mais uma iminente vitória
ou reexaminar as peripécias do Burguês Fidalgo. Escolhi a desejada
epopeia verde. No campo, vi o Audax ensaiar uma demonstração do velho estilo
brasileiro: o toque de bola e a paciência de encontrar a oportunidade para a
finalização.
Desconfio
de que o declínio do jogo da bola no Brasil guarde parentesco com a
“racionalização” da formação dos jogadores. Expulsos da espontaneidade das
várzeas e das praias pela urbanização eversiva, os futuros jogadores foram
metamorfoseados em autômatos com a ajuda dos burocratas das escolinhas de base.
Lembro-me
de alguns que passaram dos campos pelados da várzea para os gramados do futebol
oficial, com direito a nome no jornal e esperança de chegar à Seleção
Brasileira. Julio Botelho, o Julinho, Djalma Santos, Carbone, Idário, Waldemar
Carabina, Rubens, Homero.
Nos anos
50 e 60, São Paulo de Piratininga se transmutava de capital da província para a
metrópole. Meu olhar de menino e adolescente, fanático pelo dito esporte
bretão, via São Paulo como um imenso campo de futebol, interrompido por
impertinentes avenidas e arranha-céus. Jogava-se futebol nas ruas, nos becos,
nos quintais, em todos os cantos.
Nos fins
de semana, sentado nos barrancos, eu assistia à bola dos adultos correr solta.
Nos dias úteis, a molecada cabulava aula e se juntava nos terrões que simulavam
campos de futebol. Os gazeteiros ora celebravam os gols marcados, ora se
estapeavam por causa de faltas controvertidas. Socos e pontapés eram desferidos
com lealdade e até mesmo com amizade. Tudo acabava bem, descontadas as fraturas
de nariz.
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