O pensamento social latinoamericano
alcançou, particularmente nas quatros últimas décadas, um alto
reconhecimento internacional e influiu profundamente na metodologia e na
temática das Ciências Sociais contemporâneas. Mais ainda,: alguns
destes pensadores, independente de sua origem disciplinar (economistas,
sociólogos, cientistas políticos, historiadores ou antropólogos),
representam referências fundamentais nas lutas sociais de nosso tempo.
Entre
todos, Ruy Mauro Marini ocupa uma posição privilegiada. Sua obra
teórica é profunda e clara e antecipou grande parte dos campos de
pesquisa e debate das Ciências Sociais contemporâneas. Ainda muito
jovem, Ruy Mauro levantou na Organização Revolucionária Marxista
Política Operária (POLOP) que fundamos um conjunto de militantes
brasileiros de várias origens em 1961, a polêmica sobre as tendências
bonapartistas na política brasileira e identificou a relação entre o
populismo e as tendências autoritárias em que deveria desembocar o
Estado Brasileiro (1).
Dentro da
tradição analítica da POLOP, da qual foi um dos principais fundadores,
já colocava também a inevitável capitulação da classe dominante
brasileira, diante das tarefas democráticas e nacionalistas que poderiam
viabilizar um desnvolvimento nacional autônomo do pais. Sua
contribuição se tornou mais original quando, após o golpe de Estado de
1964, definiu a importância deste para a formação do capital financeiro e
sua eminente hegemonia sobre a economia brasileira (2). Nesta época
forjou o conceito de subimperialismo. Através dele, mostrava que o
nascente capital financeiro brasileiro, surgido no bojo de uma forte
dependência do capital internacional, teria de enfrentar a contradição
entre sua tendência expansionista - na busca de novos mercados para seus
investimentos e seus produtos - e sua condição subordinada e dependente
do capital internacional (3).
Em
1967, o conceito de subimperialismo, aliado à concepção da nova divisão
internacional do trabalho em formação, já apontava para o surgimento
dos Novos Países Industriais (os NICs) entre os quais vieram a
destacar-se posteriormente os tigres asiáticos. Há pouco, James O’Connor
me escrevia numa carta, com certo humor, que o conceito de
semi-periferia de Immanuel Wallerstein correspondia de fato àquilo “que
nós chamávamos subimperialismo”. Esta é uma das marcas de Ruy Mauro
Marini no pensamento social contemporâneo (4).
Mas
sua contribuição alcançou um nível ainda mais alto com o livro A
Dialética da Dependência (5). Nele, o cientista social assume com rigor a
tarefa de explicar as relações econômicas desiguais entre os produtores
apoiados na alta tecnologia e as economias especializadas em atividades
secundárias. Ele vai encontrar na superexploração do trabalho o
fundamento das relações desiguais na economia mundial. Posteriormente,
ao dirigir um Centro de Pesquisas sobre o Movimento Operário, no México,
aprofundou estas análises com especial ênfase na reestruturação da
indústria automobilística mundial e particularmente latinoamericana
(“Análisis de los mecanismos de protección al salario en la esfera de la
producción”, Secretaria do Trabalho, México).
Nos
últimos anos de vida, Ruy Mauro lançou fortes luzes sobre a
reestruturação da economia internacional e a inserção da América Latina
(Democracia e Integração na América Latina, Ed., São Paulo) na mesma
(aprofundando o enfoque iniciado na segunda metade dos anos 60) e
realizou um levantamento amplo e profundo do pensamento social
latinoamericano dos anos de 1920 aos nossos dias (6). Sua morte veio
colhê-lo na fase final da preparação de uma Antologia do Pensamento
Social Latino americano do século XX que organizava para a UNESCO com a
minha colaboração.
Nestas tarefas
e nestas andanças, nas quais estivemos tantas vezes juntos a ponto de
sermos identificados (ele, Vânia Bambirra e eu) como uma corrente da
chamada “Teoria da Dependência”, Ruy Mauro Marini formou uma plêiade de
discípulos magníficos que se pode ver nos quatro volumes que publicou
sobre o pensamento social latino-americano pela Editora Caballito de
México. Sua obra terá necessariamente continuidade e se aprofundará sua
influência depois de sua morte, como é atestado no presente livro
.
É
lamentável que sua volta do exílio tenha sido precedida pela crítica de
Fernando Henrique Cardoso e José Serra num artigo infeliz dedicado à
crítica de sua Dialética Dependência. Àqueles que identificaram, como
RMM, Vânia Bambirra, André Gunder Frank e eu, já em 1964, a dinâmica do
capitalismo mundial e brasileiro (mostrando sua entrada numa nova fase
caracterizada pela hegemonia crescente do capital financeiro, que
encerrava tendências expansionistas e levava a um papel crescente do
Estado junto ao capital privado nacional e internacional) se procurou
desqualificar como “estancacionistas”. Ruy Mauro Marini foi o oposto
disto e, antes que Fernando Henrique Cardoso (ou qualquer um de nós) foi
o primeiro a identificar o caráter dinâmico do capitalismo dependente.
Só que este dinamismo não era visto no sentido do equilíbrio macro
econômico, das liberdades públicas e do bem estar social como nos querem
impingir hoje em dia Fernando Henrique e outros.
Sua resposta àquele artigo, só
divulgada no Brasil muito recentemente, tem plena vigência (7). Não
podíamos esperar do triunfo circunstancial dos autores daquelas críticas
mal intencionadas um Brasil melhor, mais democrático e mais justo. Pelo
contrário: o que vimos são as densas nuvens de um enorme desequilíbrio
cambial e fiscal, de uma crescente ação do Estado a favor do grande
capital financeiro nacional e sobre tudo internacional, de uma crescente
superexploração da mão de obra assalariada (8) e os evidentes sinais de
um autoritarismo tecnocrático evidenciado na sucessão de “Medidas
Provisórias” que prescindem do parlamento. Infelizmente, a recente
derrota eleitoral desta corrente no plano nacional não deu origem ainda a
uma mudança radical desta situação sócio-econômica.
A morte de Ruy Mauro Marini
deu-se no bojo desta nova fase da luta de nosso povo. Ele que foi
militante clandestino, prisioneiro torturado do CENIMAR, exilado em
tantas terras, militante latino americano e internacional da luta
revolucionária de nossos povos, por sua intransigência revolucionária,
só podia ser uma incômoda presença no nosso país. Nele a maior parte da
intelectualidade colocou-se a serviço do “establishment” oligárquico e
entreguista, tornando-se os arautos disfarçados da pior distribuição de
renda do planeta, dos assassinos de índios, crianças de rua e sem
terras, além de se converterem nos campeões do analfabetismo e da evasão
escolar, da maior taxa de acidentes do trabalho de todo o mundo, etc.,
etc.
Si queriam intelectuais para
ajudar a enfeitar este quadro miserável com um palavreado pretensamente
científico não podiam definitivamente contar com Ruy Mauro Marini.
NOTAS
(1) Refletindo os debates
internos da POLOP, Ruy Mauro já havia proposto um exame do bonapartismo
como categoria para compreender o caráter do governo Goulart. Seu artigo
de 1965 em Foro Internacional refletia este enfoque “Contradicciones y
conflictos en el Brasil contemporâneo”, Foro Internacional (México),
abril-junho 1965.
(2) “Brazilian Interdependence
and Imperialist Integration”, Monthly Review (N. York), dezembro de
1965; “La interdependencia brasileña y la integracion imperialista”,
Monthly Review en Castellano (Buenos Aires), 1966.
(3) O artigo de 1966 já
anunciava este conceito que foi retomado e reelaborado no seu artigo de
1972 sobre o subimperialismo, também publicado na Monthly Review. Eu
debatí com Ruy Mauro sobre a viabilidade do subimperialismo brasileiro
pondo ênfase nas suas contradições internas. Contudo, sempre concordei
que a tendência ao subimperialismo seria uma constante na evolução do
Brasil apesar de seu caráter contraditório.
(4) Estas teses encontraram
forma mais elaborada nos livros: Subdesarrollo y Revolución, Siglo XXI,
México, 1985, 12º edição (1º edição 1969) e Il subimperialismo
brasiliano, Einaldi, Turim, 1974.
(5) Ver (1973), várias edições.
(6) Ruy Mauro dirigiu um amplo
seminário no Centro de Estudos Latinoamericanos de la UNAM (CELA) sobre
o pensamento social latinoamericano que deu origem a uma coleção de 4
livros de análise sobre o tema, publicada pela Editorial Caballito, no
México, e 3 volumes de Antologia de pensadores da região publicados pela
Editora da UNAM.
(7) A sua resposta polêmica a
Fernando Henrique Cardoso não foi publicada no Brasil e sim em espanhol:
“Las Razones del Neo-desarrollismo, respuesta a F.H. Cardoso y J.
Serra”, Revista Mexicana de Sociología, México, Número especial, 1978
(este mesmo número publica o antigo de Cardoso). Sobre a polêmica com
Cardoso, veja-se meu artigo: “Os Fundamentos Teóricos do Governo
Fernando Henrique Cardoso”, Ciências & Letras, Porto Alegre, Agosto
de 1996, Nº 17, pp. 121 a 142, também publicado na revisa Política e
Administração da FESP-R.j., 1965. Uma tradução ao português do artigo
de Ruy Mauro Marini só foi publicada na antologia de textos editada por
Emir Sader pela editora Vozes sob o título de Teoria da Dependência.
(8) A imprtância destas análises
no plano internacional pode-se ver na divulgação ampla dos artigos
citados: “Brazilian Sub-Imperalism”, Monthly Review (N. York), janeiro
1972; “Subimperialismo del Brasil”, Monthly Review (Buenos Aires), 1-2,
maio 1973. “Subdesarrollo y revolución en América Latina”,
Tricontinental (Havana, com edições também em francês e inglês), 1968;
Monthly Review - Selecciones en Castellano (Santiago, Ch.), setembro
1969.
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