*José Álvaro de Lima Cardoso
O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu
2,3% em 2013, segundo o IBGE, atingindo R$ 4,84 trilhões. O resultado é
superior ao ano passado (1%) e ficou abaixo do primeiro ano do governo Dilma
(2,7%). O produto foi puxado, principalmente, pela agropecuária, que expandiu 7%, com crescimento das principais culturas, que apresentaram expressivos
ganhos de produtividade. O crescimento da produção nas principais lavouras
foi: soja (24,3%), cana-de-açúcar (10%), milho (13%) e trigo (30,4%). Serviços
e indústria tiveram alta de 2% e 1,3%, respectivamente. O PIB per capita
cresceu 1,4% no ano, alcançando R$
24.065.
Os investimentos, medidos pela formação
bruta de capital fixo (FBCF), cresceram 6,3%, alavancados pela expansão da
produção interna de máquinas e equipamentos. Com a expansão, a taxa de
investimentos chegou a 18,4%, ainda muito baixa (a balança comercial de
janeiro/14 mostrou um aumento nas importações de bens de capital, o que pode
sugerir certa retomada da indústria nacional para os próximos meses). O consumo
das famílias subiu, pelo décimo ano seguido, 2,3% (este é um dado que merece
atenção: são 120 meses de crescimento ininterrupto, temos novos protagonistas
na sociedade brasileira).
Até o dia da divulgação dos números do PIB
(27.02), apenas 13 países haviam divulgado os seus respectivos números. Da
lista, apenas China (7,7%) e Coréia do Sul (2,8%) apresentaram crescimento
superior ao do Brasil, informação relevante para contextualizar
internacionalmente os números divulgados. Da referida lista, Estados Unidos
cresceu 1,9%, Alemanha (0,4%), França (0,3%), Japão (1,6%) e Reino Unido (1,9%),
África do Sul (1,9%). Espanha (-1,2%) e Itália (-1,9%) apresentaram queda na
zona do euro. A média, na América Latina foi de apenas 1,1% de crescimento.
A melhoria do investimento no ano passado –
cuja sustentabilidade ainda é um ponto de interrogação – vem ocorrendo num
ambiente onde a desigualdade continua diminuindo, e o emprego continua em
ascensão. Segundo a PED-DIEESE, a taxa de desemprego
total chegou a 9,5% em janeiro último, abaixo da taxa de janeiro de 2013 (9,9%),
ou seja, o desemprego continua recuando. Além disso, o rendimento médio real
dos ocupados, em 2013, aumentou 1,5% e nos últimos 12 meses, findos em dezembro
de 2013, a
massa de rendimentos reais dos ocupados ampliou-se em 2,5%, resultado do
crescimento do nível de ocupação e do rendimento médio.
Os números do PIB brasileiro foram divulgados após alguns dias em que
veio a público um extenso relatório enviado pelo FED (Banco Central dos EUA)
ao Congresso estadunidense, que classificou a economia brasileira como a
segunda mais vulnerável entre os países emergentes. À frente apenas da Turquia
e atrás de nações como Índia, Indonésia e África do Sul. Segundo o documento, a
fragilidade reside em aspectos como inflação em alta e crescimento econômico
baixo. A avaliação surpreendeu a alguns, pois foi a mais grave crítica à
economia brasileira em muito tempo, vinda do FED. O documento motivou, por
parte do Senado Brasileiro, inclusive, um voto de repúdio.
De certa
forma, o Brasil, que em determinado momento, valorizou excessivamente as
opiniões positivas sobre a economia brasileira vindas dos países centrais,
agora paga o preço da repercussão exagerada das análises negativas, que vêm, normalmente,
com segundas intenções. Este tipo de documento, claramente carece de
consistência técnica e, muitas vezes, tem função meramente política na pesada disputa
internacional. Se sabe que o Brasil tem importantes problemas econômicos que
têm que ser encarados com determinação. No entanto, o nível de vulnerabilidade
da economia brasileira hoje é menor que boa parte dos países chamados centrais.
O Brasil é, por exemplo, o terceiro maior detentor de reservas no mundo, atrás
apenas da China e Rússia. O nível de endividamento em relação ao PIB (indicador
de solvência e capacidade de pagamento), por outro lado, é muito inferior ao que
se observa em todos os países desenvolvidos.
O
documento do FED, que está longe de trazer novidades, em se tratando de textos deste
teor, sugere ao governo aumentar as políticas “ortodoxas”, o que, na prática,
significa reduzir os gastos em políticas públicas e aumentar o superávit
primário. Reivindicação recorrente dos credores da dívida pública, que já levam
uma generosa fatia do PIB nacional, superior a 5%.
Neste ano em que a exposição do Brasil
será ainda maior por conta da Copa do Mundo e das eleições, os ataques à
política econômica e a símbolos de um projeto mais soberano de desenvolvimento
do país, tendem a estar sempre presentes. O jogo é muito pesado e trás inúmeras
sutilezas. Por exemplo, deve-se intensificar os ataques contra o Mercosul,
especialmente nestes dias de anúncio da Aliança do Pacífico (liderada pelo
México com o apoio dos EUA e Espanha). Claro que, em nenhum momento será levado
em conta que é para os países do Mercosul que o Brasil consegue exportar
produtos industriais e que, somente Argentina e Venezuela, dois países
demonizados pelos meios de comunicação dos países centrais, garantiram ao
Brasil um superávit de US$10 bilhões em 2013, que evitou que o país
apresentasse um déficit histórico em sua balança comercial.
*Economista e supervisor
técnico do DIEESE em Santa Catarina.
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