terça-feira, 4 de março de 2014

Os resultados do PIB e outras sutilezas



*José Álvaro de Lima Cardoso
   O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 2,3% em 2013, segundo o IBGE, atingindo R$ 4,84 trilhões. O resultado é superior ao ano passado (1%) e ficou abaixo do primeiro ano do governo Dilma (2,7%). O produto foi puxado, principalmente, pela agropecuária, que expandiu 7%, com crescimento das principais culturas, que apresentaram expressivos ganhos de produtividade. O crescimento da produção nas principais lavouras foi: soja (24,3%), cana-de-açúcar (10%), milho (13%) e trigo (30,4%). Serviços e indústria tiveram alta de 2% e 1,3%, respectivamente. O PIB per capita cresceu 1,4% no ano, alcançando R$ 24.065.
      Os investimentos, medidos pela formação bruta de capital fixo (FBCF), cresceram 6,3%, alavancados pela expansão da produção interna de máquinas e equipamentos. Com a expansão, a taxa de investimentos chegou a 18,4%, ainda muito baixa (a balança comercial de janeiro/14 mostrou um aumento nas importações de bens de capital, o que pode sugerir certa retomada da indústria nacional para os próximos meses). O consumo das famílias subiu, pelo décimo ano seguido, 2,3% (este é um dado que merece atenção: são 120 meses de crescimento ininterrupto, temos novos protagonistas na sociedade brasileira).
         Até o dia da divulgação dos números do PIB (27.02), apenas 13 países haviam divulgado os seus respectivos números. Da lista, apenas China (7,7%) e Coréia do Sul (2,8%) apresentaram crescimento superior ao do Brasil, informação relevante para contextualizar internacionalmente os números divulgados. Da referida lista, Estados Unidos cresceu 1,9%, Alemanha (0,4%), França (0,3%), Japão (1,6%) e Reino Unido (1,9%), África do Sul (1,9%). Espanha (-1,2%) e Itália (-1,9%) apresentaram queda na zona do euro. A média, na América Latina foi de apenas 1,1% de crescimento.
     A melhoria do investimento no ano passado – cuja sustentabilidade ainda é um ponto de interrogação – vem ocorrendo num ambiente onde a desigualdade continua diminuindo, e o emprego continua em ascensão. Segundo a PED-DIEESE, a taxa de desemprego total chegou a 9,5% em janeiro último, abaixo da taxa de janeiro de 2013 (9,9%), ou seja, o desemprego continua recuando. Além disso, o rendimento médio real dos ocupados, em 2013, aumentou 1,5% e nos últimos 12 meses, findos em dezembro de 2013, a massa de rendimentos reais dos ocupados ampliou-se em 2,5%, resultado do crescimento do nível de ocupação e do rendimento médio.
     Os números do PIB brasileiro foram divulgados após alguns dias em que veio a público um extenso relatório enviado pelo FED (Banco Central dos EUA) ao Congresso estadunidense, que classificou a economia brasileira como a segunda mais vulnerável entre os países emergentes. À frente apenas da Turquia e atrás de nações como Índia, Indonésia e África do Sul. Segundo o documento, a fragilidade reside em aspectos como inflação em alta e crescimento econômico baixo. A avaliação surpreendeu a alguns, pois foi a mais grave crítica à economia brasileira em muito tempo, vinda do FED. O documento motivou, por parte do Senado Brasileiro, inclusive, um voto de repúdio.
     De certa forma, o Brasil, que em determinado momento, valorizou excessivamente as opiniões positivas sobre a economia brasileira vindas dos países centrais, agora paga o preço da repercussão exagerada das análises negativas, que vêm, normalmente, com segundas intenções. Este tipo de documento, claramente carece de consistência técnica e, muitas vezes, tem função meramente política na pesada disputa internacional. Se sabe que o Brasil tem importantes problemas econômicos que têm que ser encarados com determinação. No entanto, o nível de vulnerabilidade da economia brasileira hoje é menor que boa parte dos países chamados centrais. O Brasil é, por exemplo, o terceiro maior detentor de reservas no mundo, atrás apenas da China e Rússia. O nível de endividamento em relação ao PIB (indicador de solvência e capacidade de pagamento), por outro lado, é muito inferior ao que se observa em todos os países desenvolvidos.
     O documento do FED, que está longe de trazer novidades, em se tratando de textos deste teor, sugere ao governo aumentar as políticas “ortodoxas”, o que, na prática, significa reduzir os gastos em políticas públicas e aumentar o superávit primário. Reivindicação recorrente dos credores da dívida pública, que já levam uma generosa fatia do PIB nacional, superior a 5%.  
     Neste ano em que a exposição do Brasil será ainda maior por conta da Copa do Mundo e das eleições, os ataques à política econômica e a símbolos de um projeto mais soberano de desenvolvimento do país, tendem a estar sempre presentes. O jogo é muito pesado e trás inúmeras sutilezas. Por exemplo, deve-se intensificar os ataques contra o Mercosul, especialmente nestes dias de anúncio da Aliança do Pacífico (liderada pelo México com o apoio dos EUA e Espanha). Claro que, em nenhum momento será levado em conta que é para os países do Mercosul que o Brasil consegue exportar produtos industriais e que, somente Argentina e Venezuela, dois países demonizados pelos meios de comunicação dos países centrais, garantiram ao Brasil um superávit de US$10 bilhões em 2013, que evitou que o país apresentasse um déficit histórico em sua balança comercial. 
*Economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.

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