Por Graziela Wolfart
Segunda, 26 de novembro de 2012
"O PCC não quer fazer revolução. Seus membros querem
‘gozar’ das benesses capitalistas e de consumo das quais consideram terem sidos
excluídos da sociedade. Nada de socialismo. No máximo, gostariam de gozar do
‘Brazilian way of life’”, descreve o sociólogo

Especialista e pesquisador da violência, o professor Thadeu de Sousa Brandão explica que o
Primeiro Comando da Capital (PCC) surge das profundas contradições do sistema
carcerário brasileiro. "Sua insalubridade, desrespeito aos direitos humanos,
extrema corrupção e um profundo desdém pela própria norma que o regula (a LEP –
Lei de Execuções Penais) permitiram o surgimento de organizações que possuem
extrema liberdade organizacional dentro de espaços que, em teoria, deveriam
privar a liberdade”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Brandão
considera que "estamos assistindo a uma verdadeira guerra civil que o estado paulista
nega e não está sabendo conduzir”. Segundo seu palpite, poderia estar ocorrendo
algum canal de diálogo entre o governo de São Paulo e o PCC.
Sobre o número de
membros da organização, ele aponta que estariam entre 200 e 300 mil membros.
"Efetivo maior do que o do Exército brasileiro. Dentro e fora das prisões”. E
dá mais detalhes da organização: "cada membro deve pagar uma quantidade de
dinheiro, uma espécie de ‘pedágio’ semanal, para a manutenção do ‘partido’ e de
suas ações. Se estiver dentro da prisão, o valor é bem mais baixo. Fora dela é
bem maior. Como existe uma certa inflação e uma variação por região, os valores
variam de R$ 500,00 a R$ 2.000,00 entre presos e ‘livres’”. E Brandão conclui:
"ao ter sido omisso em matéria de educação, renda, saúde e cultura, o Estado
brasileiro termina sua incompetência histórica criando prisões que
apenas cumprem o papel de amontoar seres humanos (desviantes e criminosos, é
claro) em suas paredes”.

Thadeu de Sousa
Brandão (foto) é professor no Departamento de Agrotecnologia e Ciências Sociais
(DACS) da Universidade Federal Rural do Semiárido – UFERSA, de Mossoró – RN.
Sociólogo, com graduação, mestrado e doutorado em Ciências Sociais pela
Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, coordena o Grupo de Estudos
Desenvolvimento e Violência – GEDEV, da UFERSA.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O
senhor pode definir o que é o PCC (Primeiro Comando da Capital)? Quem são (e
quantos são) seus membros e lideranças? Quais seus valores e regras? Como ele
se organiza?
Thadeu de Sousa
Brandão – O PCC é uma espécie de organização criminosa voltada para a
prática daquilo que nosso sistema jurídico denomina de crimes. Criado em março
de 1993, surgiu dentro da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté – denominada
pelos próprios detentos de Piranhão –, um presídio de segurança máxima de São
Paulo. Durante cerca de três anos, o PCC ficou na clandestinidade, existindo e
sobrevivendo atrás das grades e muralhas. Os fundadores deste "Primeiro Comando
da Capital” constituíram-se em um grupo de oito detentos, sendo que dois destes
eram lideranças efetivas da facção: César Augusto Roriz da Silva, o Cesinha, e
José Marcio Felício, o Geleia, Geleião ou simplesmente Gê.
O PCC surge das profundas contradições do sistema carcerário
brasileiro. Sua insalubridade, desrespeito aos direitos humanos, extrema
corrupção e um profundo desdém pela própria norma que o regula (a LEP – Lei de
Execuções Penais) permitiram o surgimento de organizações que possuem extrema
liberdade organizacional dentro de espaços que, em teoria, deveriam privar a
liberdade. A data de seu surgimento é posterior ao "Massacre do Carandiru” e
espelha a visão de alguns apenados acerca da necessidade de organização.
Inicialmente, para lutar contra as péssimas condições de encarceramento.
Posteriormente, para constituir-se como empresa criminosa, organizada não
burocraticamente, mas construindo o que denomino de redes de ilegalidade que
constituem o que a mídia erradamente denomina de "facção”.
Não consigo definir exatamente a quantidade de seus membros.
Os números mais otimistas estão entre 200 e 300 mil membros. Efetivo maior do
que o do Exército brasileiro. Dentro e fora das prisões. Isto porque a
mobilidade prisional (cumprimento da pena em si) permite que os membros do PCC
estejam, de certa maneira, em "trânsito”. Cada cadeia ou penitenciária possui
uma liderança central, que responde às lideranças em São Paulo. Cada membro
deve pagar uma quantidade de dinheiro, uma espécie de "pedágio” semanal, para a
manutenção do "partido” e de suas ações. Se estiver dentro da prisão, o valor é
bem mais baixo. Fora dela é bem maior. Como existe uma certa inflação e uma
variação por região, os valores variam de R$ 500,00 a R$ 2.000,00 entre presos
e "livres”.
O PCC possui um estatuto com várias variantes. Efetivamente
ele tem por objetivo a estrita obediência de seus membros ao "partido” e às
suas lideranças legitimamente reconhecidas. Não há sanções administrativas.
Estamos falando de uma organização criminosa que pune com a morte os mais
variados desvios: desobediência, roubo à organização, delação, etc. O PCC não
quer fazer revolução. Como qualquer grupo criminoso ele quer "gozar” das
benesses capitalistas e de consumo que, em termos de representações sociais,
consideram terem sidos excluídos da sociedade. Nada de socialismo. Seus
membros, no máximo, gostariam de gozar do "Brazilian way of life”.
IHU On-Line – Que
relação há entre o PCC e o Comando Vermelho?
Thadeu de Sousa
Brandão – O PCC surge da própria experiência do
Comando
Vermelho (CV). Este último foi a organização do gênero pioneira no Brasil.
Surgido no início da década de 1980, fruto também da catastrófica gestão
penitenciária brasileira, o CV opera basicamente no Rio de Janeiro, em sua
geografia específica e em suas centenas de favelas. A experiência organizativa
e, de certa forma, seu sucesso foram elementos inspiradores para os presos
paulistas. Dividem tarefas e alianças. Seu lema é o mesmo: "Paz, Justiça e
Liberdade”.
É interessante frisar que o CV vai encontrar séria oposição
no RJ, chegando a rivalizar-se com outras organizações criminosas, o que
constitui um pouco do cenário de guerra que a mídia nos mostra, vez por outra,
onde esses grupos brigam pelas zonas de tráfico de drogas e outros mercados
criminosos.
O PCC, que firma uma certa aliança como o CV desde o fim dos
anos 1990, não tem os mesmos problemas que o CV. A geografia paulista e uma
certa falta de oposição forte fez com que o PCC crescesse mais e pudesse ter
maior êxito em suas ações.
Alguns estudiosos da criminalidade organizada afirmam que as
ações ligadas ao tráfico internacional, via Tríplice Fronteira e Colômbia,
estão entre as atividades conjuntas de ambas as organizações. Tanto a Polícia
Federal como a Inteligência Militar têm trabalhado nessas atividades, mas ainda
com pouco resultado. Cortes orçamentários, políticas públicas ineficientes, pouco
contingente e uma fronteira gigantesca são elementos que atrapalham bastante
esse combate.
IHU On-Line – Quais
as principais características de personalidade de Marcos Herbas Camacho, o Marcola?
Thadeu de Sousa
Brandão – Pergunta difícil para um sociólogo responder. Vou tentar definir
Marcola a partir de seu papel de líder, ou seja, o papel sociopolítico que ele
cumpre no PCC. Marcola é uma liderança que galgou o comando do PCC através da
força e de sua capacidade de agregar alianças internas. Além disso, sabe
mantê-las. Além de paciência (atributo que todo apenado tem de aprender na vida
de cadeia), ele tem um excelente senso de ação. Esqueça os mitos de
genialidade, que leu milhares de livros, etc. Marcola é um tipo de liderança
que patina entre o carisma e a tradição, com algumas doses de racionalidade.
Nada de dominação pura e legítima, falando em termos weberianos. Ele comanda pela
força, pelo terror e, graças a uma rede criminosa que funciona eficientemente,
de forma razoavelmente flexível e com cadeia de comando. Sem nada disso,
Marcola não conseguiria se impor como líder. Mas o PCC não é Marcola. Cai
Marcola, assumirá outro, adentrando e se imbuindo do mesmo papel.
IHU On-Line – Que
leitura pode ser feita do Estado brasileiro se considerarmos a existência e a
força de uma organização como o PCC que se dá dentro das prisões?
Thadeu de Sousa
Brandão – O Estado brasileiro é e foi extremamente incompetente no que
tange à administração penitenciária ao longo de toda a sua história.
Primeiramente, prisão no Brasil sempre teve marca, cor e estrato social. E
continua tendo. Os dados do Departamento Penitenciário Nacional – DEPEN
(cito-os de forma aproximada) mostram que 98% de nossa população carcerária não
possui ensino superior; mais de 80% deles mal terminaram o ensino fundamental;
ampla maioria é de pobres, pardos e negros, marginália excluída e jogada no
crime por um dos mais perversos sistemas sociais deste planeta. Ao ter sido
omisso em matéria de educação, renda, saúde e cultura, o Estado brasileiro
termina sua incompetência histórica criando prisões que apenas cumprem o papel
de amontoar seres humanos (desviantes e criminosos, é claro) em suas paredes.
Se o papel da prisão é "vigiar e punir”, lembrando das lições do filósofo
Michel Foucault, no Brasil ela ainda suplicia, principalmente os mais pobres.
Claro que uma sociedade precisa de ordem e de estatutos jurídicos obedecidos.
Mas a função da prisão é cercear a liberdade. Eis a punição. Ao amontoar presos
em lugares insípidos e insalubres, sem permitir ao menos o que chamo de "mito
da ressocialização”, o Estado tupiniquim permite que fenômenos universais
(construção de grupos de solidariedade em prisões) se transformem em graves
problemas.
Pior ainda (sim, é possível) é a incapacidade do Estado de
lidar com o problema de forma adequada. O PCC, como qualquer organização em
rede, só existe porque lhe é facultada uma condição: comunicação. Sem isso não
há condições organizacionais. Celas coletivas, pavilhões onde os próprios
presos administram o acesso a celulares são imprescindíveis para a força dessas
redes. O problema: isolar individualmente presos significa construir prisões
caras e em grande quantidade. Construir prisão não dá voto. Muitas vezes
tira-os. Em Mossoró, Rio Grande do Norte, onde uma das poucas penitenciárias
federais do Brasil funciona, a população, erroneamente, credita a ela o aumento
vertiginoso da violência no local. O mesmo ocorre em outros locais.
IHU On-Line – O que
marca a nova onda de ataques do PCC? Que reivindicações estão por detrás dos
atentados recentes aos órgãos do governo constituído em São Paulo,
principalmente às polícias militar e civil?
Thadeu de Sousa
Brandão – Ao contrário do CV, que luta efetivamente contra outros grupos
("os alemão” [sic]) na disputa por territórios e mercados de bens ilícitos, o
PCC tem como principal inimigo o Estado paulista. A construção de penitenciárias
mais eficazes e de isolamento da liderança dos chefes da organização (através
da criação do RDD – Regime Disciplinar Diferenciado) foram os estopins dos
grandes ataques de 2002 e 2006. 2012 apresenta uma característica mais
aprofundada: o combate entre a polícia e a organização deixa um saldo de mortos
gigantesco atrás de si. A polícia brasileira é a que, percentualmente, mais
mata no mundo. A paulista é a campeã nacional. E estou falando de dados
oficiais. Estamos assistindo a uma verdadeira guerra civil que o Estado
paulista nega e não está sabendo conduzir. Se as prisões não são efetivas, qual
o raciocínio do policial (sem querer defender esse tipo de posição, mas apenas
refletindo)? Executar o "inimigo”. Essa lógica de ação militar substitui uma
lógica investigativa e de apreensão/prisão do indivíduo. Rompe-se com o Estado
de Direito e lança-se numa verdadeira guerra não declarada. Ao mesmo tempo, há
uma estratégia por trás dos ataques, principalmente por ocorrerem em anos
eleitorais. Nossos políticos (como os de todas as democracias liberais) são
sensíveis à opinião pública nesse momento. O PCC sabe disso e escolhe agir
sempre nesses momentos. Não é coincidência.
IHU On-Line – Então,
em sua concepção os governantes não estão sabendo conduzir essa questão
envolvendo o PCC? Qual seria a solução ideal, respeitando os direitos humanos e
protegendo os policiais e a população?
Thadeu de Sousa
Brandão – Não quero fazer o papel de advogado do diabo, mas não existem
soluções simples para problemas estruturais como o apresentado. Uma coisa
inicialmente deve ser dita: negar o problema, como foi feito antes, ou
minimizá-lo por questões eleitorais é uma prática equivocada dos governos,
notadamente o paulista. Lidar com crime não exige apenas armas ou equipamentos,
exige informação e inteligência. Sem informação concreta, real e plausível, nem
a polícia e nem os cidadãos podem se proteger dos "ataques”.
O que pode e deve, e está sendo feito parcialmente, é o
efetivo isolamento das lideranças do PCC. As penitenciárias federais estão aí
para isso. São modeladas a partir das supermax estadunidenses e cumprem com
rigor o isolamento dos apenados. Seus agentes têm excelente formação; são bem
remunerados; existem planos de metas e uma boa gestão de resultados. Tudo o que
esperamos de qualquer organização burocrática, pública ou privada. Pena que
picuinhas políticas atrapalhem ações mais exitosas. Claro que falo de ações
imediatas. A longo prazo, a questão não é penitenciária ou penal. É
sociocultural e econômica. Sem delongas.
IHU On-Line – Como o
estado paulista está negociando com o PCC? Em sua avaliação, o estado deve ou
não negociar com o crime organizado? Por quê? Quais os limites e implicações
dessa negociação?
Thadeu de Sousa
Brandão – Não sei se posso afirmar publicamente que o estado de São Paulo
está negociando com o PCC. Em 2006, posteriormente descobriu-se que houve uma
negociação. Atualmente não posso dizer se sim ou não. Mas, e isto é um palpite,
acredito que esteja ocorrendo algum canal de diálogo entre o governo e o PCC.
Palpite.
Formalmente não deve haver negociação entre o poder
constituído e qualquer organização criminosa. Mas, ao mesmo tempo, se existe um
grupo de ação coletiva que se impõe e possui voz, legítima ou não, é preciso
buscar interlocuções. Se estas virão da Secretaria de Segurança, do Ministério
Público ou de alguma ONG dos Direitos Humanos não importa. O que não se pode é
negar o problema e jogá-lo para "debaixo do tapete”. É preciso construir um
diálogo condizente com as leis e com respeito à ordem e à sociedade, ou seja,
ao Estado de Direito.
O significado das negociações ou mesmo suas implicações são
várias. Principalmente dependendo do desfecho. Repito: sem o efetivo isolamento
das lideranças e da comunicação, a estrutura de rede do PCC manter-se-á
incólume. Isso leva tempo, custa caro e necessita de coragem política para um
enfrentamento que, prioritariamente, não seja apenas de execuções dos
criminosos, mas de cumprimento de nossa Constituição. Sem tudo isso, desculpem
o prognóstico maldito, teremos mais do mesmo em 2014 ou 2016.
IHU On-Line – O que o
senhor defende na tese "Atrás das grades: Redes sociais, habitus e
interação social no sistema carcerário do RN". Qual a importância das
redes sociais e da interação social estabelecida nas prisões?
Thadeu de Sousa
Brandão – Minha tese mostrou que as organizações criminosas existentes
dentro das prisões potiguares (e podemos ampliar: também do Brasil) não
funcionam como "facções” ou organizações mafiosas tradicionais, mas como redes
sociais da criminalidade. Na verdade, em quase todas as prisões brasileiras
impera não um regime de isolamento carcerário, mas de contínua construção de
interações sociais e de redes que permitem um constante tráfico de bens e
informações com a sociedade circundante.
Assim como muitas das empresas modernas, os presos se
organizam em redes que lhes permitem um fluxo contínuo de informações e de
trocas as mais variadas. O PCC se expande e funciona (de certa maneira) porque
se organiza também dessa forma. Fala-se de "células” do PCC em prisões X ou Y,
mas isso é um certo exagero. Existe presença da organização, mas a partir de
"nós”, ou seja, indivíduos que cumprem um certo papel de ligar o local com o
PCC. No mais, há muita boataria e mitologia na rica diversidade jornalística
policialesca brasileira.
IHU On-Line – Como o
senhor qualifica o sistema prisional brasileiro de modo geral?
Thadeu de Sousa
Brandão – O sistema prisional brasileiro, salvo pouquíssimas exceções, é um
atentado brutal a todas as convenções de direitos humanos já assinadas por
nossa espécie neste planeta. Desobedece à própria lei que a regula. Não vigia,
não disciplina, apenas cria um sistema punitivo reprodutor da delinquência.
Reproduz a delinquência de forma ampliada e massiva, transformando pequenos
desviantes em grandes criminosos e perpetradores de atrocidades. O Estado
brasileiro executa, em sua máxima pena, a privação de liberdade. Isso, segundo
nossos valores ocidentais e democráticos, é a maior pena que se pode impor a um
sujeito pleno de direitos. Mas, numa nação onde o processo civilizador ainda
exclui brutalmente ampla maioria da população (pobre, mestiça e negra,
analfabeta e subqualificada) à marginalidade, os desviantes encontram muitas
vezes, como única instituição estatal que os ampara, a prisão.
IHU On-Line – Quais
os principais desafios que se colocam hoje ao modelo de segurança pública
adotado em nosso país?
Thadeu de Sousa
Brandão – São vários, mas resumirei em dois: proteger a sociedade ao mesmo
tempo em que garante o Estado de direito. Garantir a "Lei e a Ordem”, mas
protegendo os direitos dos cidadãos de fato. Acabando de vez com a tradição de
considerar parte da população como desprovida de cidadania ou como
"subcidadãos”.
Mesmo com a pretensa inclusão social que o Brasil viveu nos
últimos 18 anos, o índice de encarceramento aumentou vertiginosamente. E quanto
mais presos, mais delinquência, mais violência se constrói. Não há remédios
fáceis.
Nossas polícias devem ser tratadas como agências
construtoras de cidadania. Tenho pavor da expressão "soldado de polícia”.
Gostaria de ouvir "agente de polícia”, para todos. Salários dignos, formação
qualificada, "desmilitarização” (sem perder a disciplina), inteligência,
integração com a comunidade. São alguns pontos.
O maior legado nefasto do regime militar brasileiro foi
aumentar o fosso entre a polícia e o cidadão. Nossos atuais dirigentes
policiais, gente jovem com ideias novas e com valores democráticos, serão
atores importantes nesse papel. Mas, como disse, polícia e sociedade devem
caminhar conjuntas. Como aliados e interlocutores permanentes.
IHU On-Line – Como
avalia a declaração dada esta semana por Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, que
disse que o aumento da violência em São Paulo é momentâneo?
Thadeu de Sousa
Brandão – Acredito que o governador tem parcialmente razão. Os ataques do
PCC têm motivações específicas e estão ligados às suas reivindicações de
transferências, acessos a visitas e outras "regalias" prisionais. Ao
mesmo tempo, discordo do governador por um motivo: a diminuição da
criminalidade paulista foi movida por uma forte e crescente onda de
encarceramento, uma espécie de "política de tolerância zero"
paulista. Infelizmente, aumento de encarceramento, em longo prazo, gera aumento
de delinquência e criminalidade. O preso, em questão de tempo, retorna à
sociedade, mais "perigoso" e com mais qualificação criminosa para
agir. Em São Paulo, há mais um agravante: o preso termina se associando ao PCC
(na maioria das vezes é obrigado a isso), o que termina fortalecendo a
organização. Círculo vicioso e complicado.
IHU On-Line –
Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o tema?
Thadeu de Sousa
Brandão – Gostaria de dizer que sou um esperançoso e alguém que acredita
nas pessoas. Como diria o grande Darcy Ribeiro, o Brasil é um país que está se
fazendo. Acredito neste povo e em seu futuro. Mesmo com tudo o que discutimos,
os índices gerais de homicídios e de violência no Brasil, como vem mostrando o
Mapa da Violência há alguns anos, vêm decaindo. O processo é lento e nossa
sensação de insegurança não diminuiu ainda. Matamos muito. Homicídios e
trânsito mataram no Brasil, na última década, quase um milhão de seres humanos.
Só perdemos para guerras internacionais de grande porte. Precisamos construir
um pacto civilizatório para a paz e para a solidariedade. Para o amor, se assim
quiser. Educar nossos filhos para o diálogo, e não para o conflito. Além disso,
de forma conjunta, assistir nosso povo de forma efetiva. Chega de engodos
populistas e políticas públicas de faz de conta. Precisamos de saúde, educação,
moradia e dignidade para nosso povo. A falta disso tudo é a grande geradora da
violência e a disseminadora dos problemas de segurança pública catastróficos
que vivemos. O processo é lento e longo, mas está se dando.