Mário Magalhães
Publicado em 14-Jan-2013
Pesquisa
extenuante, riqueza de detalhes, revelações, inteligência na exposição
e honestidade. Essas são apenas algumas das qualidades de
“Marighella”, livro do jornalista Mário Magalhães lançado no fim do ano
passado. É com o autor que este blog tem o prazer de fazer a entrevista
deste mês.
A
biografia de Carlos Marighella já recebeu diversos, empolgados e mais do
que merecidos elogios desde que foi lançada. São 732 páginas de uma
história fascinante, resultado de mais de nove anos de pesquisa em
diversos países e com 256 entrevistados.
“Sua
trajetória tem muita ação, aventura, drama, humor, mistérios,
espionagem, ideias, amor e histórias. Permitiu contar a história
trepidante de quatro décadas do Brasil e do mundo, de 1930 a 1960.
Dezenas de coadjuvantes ou coprotagonistas merecem, eles mesmos,
biografias exclusivas, tal seu encanto. Com o que mais um repórter
poderia sonhar, além disso?”, diz Magalhães.
Carteira
do PCB emitida em um período de legalidade do partido, de 1945 a 1947
[Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro - Aperj]
Um
dos muitos pontos altos da biografia foi o de não fazer o julgamento
de Marighella, não o elegendo como um herói ou um bandido: “Mais do que
pintar Marighella como um facínora destituído de decência, certa
historiografia oficial se empenhou em eliminá-lo da memória do país.
Perderam: não lograram apagá-lo da história.”.
Para
ele, o silêncio sobre Marighella no ensino de história representa um
crime de desonestidade intelectual. Acompanhem a entrevista:
[ Zé Dirceu ] Mário, como aconteceu a ideia deste trabalho sobre o Marighella?
[ Magalhães ] Nasci
na primeira semana de abril de 1964, a do golpe de Estado que derrubou
o governo constitucional do presidente João Goulart. Em 2003, eu tinha
39 anos. Antes de completar os 40, queria mergulhar em uma reportagem
de fôlego, sem as amarras de tempo e espaço próprias de uma redação de
jornal. Decidi escrever uma biografia. Não encontrei personagem com
vida mais fascinante, goste-se ou não dele, do que Carlos Marighella
(1911-69).
Sua
trajetória tem muita ação, aventura, drama, humor, mistérios,
espionagem, ideias, amor e histórias. Permitiu contar a história
trepidante de quatro décadas do Brasil e do mundo, de 1930 a 1960.
Dezenas de coadjuvantes ou coprotagonistas merecem, eles mesmos,
biografias exclusivas, tal seu encanto. Com o que mais um repórter
poderia sonhar, além disso?
[ Zé Dirceu ]
Conte-nos um pouco como foi seu trabalho de pesquisa, quanto tempo
durou e como se deu a reunião da documentação, das entrevistas.
[ Magalhães ] Foram
mais de nove anos de trabalho, dos quais cinco anos e nove meses em
dedicação exclusiva. Entrevistei 256 pessoas, das quais cerca de 30 já
faleceram _não sou pé-frio, eram na maioria octogenários e nonagenários,
contemporâneos de Marighella. Até com a professora de inglês dele e
seu camarada Maurício Grabois, Heddy Peltier, eu conversei. Ela lhes
deu aulas no fim dos anos 1920, no célebre Ginásio da Bahia.

Em
17 de abril de 1945, Marighella viaja da Ilha Grande para o Rio de
Janeiro, onde seria solto no dia seguinte, depois de quase seis anos de
prisão [Aperj]
Os
documentos foram garimpados em arquivos públicos e privados de Rússia,
República Tcheca, Estados Unidos, Paraguai e Brasil. No total,
consultei mais de 70 mil páginas de documentos. Em boa parte secreta
(no caso de papéis produzidos pelo Estado) ou clandestina (por
militantes de oposição) na origem. A bibliografia somou 600 títulos,
equivalendo a quase 700 volumes.
Organizado,
esse material rendeu em torno de 5.500 arquivos digitais, incluindo a
transcrição de perto de mil horas de entrevistas. Com um comando de
busca, posso encontrar todas as informações armazenadas referentes a um
determinado personagem do livro.
[ Zé Dirceu ] Gostaríamos de saber mais sobre essas entrevistas. Você pode citar alguma que te marcou mais ou que foi mais representativa?
[ Magalhães ] Eu
seria profundamente injusto se destacasse um só entrevistado. Todos
foram relevantes para contar a história de Marighella. Dos seus
partidários mais fiéis aos inimigos mais encarniçados. Para muitas
pessoas, a entrevista para a biografia serviu como desabafo, com
confidências guardadas por décadas. Não foram poucas as que se
emocionaram. Um dos aspectos que mais me chamaram a atenção foi como os
antagonistas respeitavam ou mesmo se assombravam com a coragem de
Marighella. Não foram apenas seus correligionários que o qualificaram
como valente, mas perseguidores como o policial Cecil Borer, que o caçou
no Rio de Janeiro por mais de 30 anos.
[ Zé Dirceu ]
O que mais te impressiona no Marighella? Se você fosse contar para
alguém que jamais ouviu falar dele, como você o sintetizaria?
[ Magalhães ] Marighella
foi um revolucionário que deu a vida pelos ideais que defendia. Era
um homem valente, essencialmente de ação. Viveu intensamente. Para ele,
a vida estava muito longe de se resumir à política. Ele se autodefiniu
em meados da década de 1940: “Sou um mulato baiano”.
[ Zé Dirceu ] Como você avalia a memória dos brasileiros em relação ao Marighella e, também, ao período militar como um todo?
[ Magalhães ] A
memória está sendo construída. Mais do que pintar Marighella como um
facínora destituído de decência, certa historiografia oficial se
empenhou em eliminá-lo da memória do país. Perderam: não lograram
apagá-lo da história. Assim como não “colou” o papel de vilão a que tal
historiografia pretendeu condenar os militantes que combateram
legitimamente a ditadura, a despeito das viúvas daquele regime que ainda
hoje esperneiam.
Isso
tudo apesar de Marighella ainda ter hoje muito mais projeção no
exterior do que no Brasil. É impossível fazer uma relação dos
brasileiros mais conhecidos mundo afora no século XX, excluindo artistas
e desportistas, sem incluir Marighella. É incrível que a Bahia ainda
hoje não tenha um Memorial Marighella. O político baiano mais famoso no
exterior em todos os tempos não é Juracy Magalhães (nascido no Ceará,
mas com carreira na Bahia), Antonio Conselheiro (outro cearense), Otávio
Mangabeira ou Antonio Carlos Magalhães. É Marighella, disparado!
Em
2012, o Brasil conheceu um pouco mais Marighella. Foram lançados o
filme dirigido por Isa Grinspum Ferraz; o clipe de Daniel Grinspum, com
os Racionais MC’s; a música “Um comunista”, de Caetano Veloso; e a
biografia que escrevi – tudo sobre Marighella.
Ainda
há muito por se descobrir a respeito do nosso passado, mas os
brasileiros sabem que a ditadura foi nefasta. Por que não aparece um só
candidato a cargo majoritário em eleição defendendo o regime que
vigorou de 1964 a 85? Porque só obteria meia dúzia de votos.
Espero
que a Comissão Nacional da Verdade contribua decisivamente para o
reencontro do Brasil com sua memória e para que se faça justiça.
Enquanto responsáveis por crimes contra os direitos humanos não forem
punidos, novas gerações de carrascos se sentirão desimpedidas para
perpetrar de novo as mesmas violações do período inaugurado em 1964. A
rigor, já perpetram, na tortura e extermínio cotidiano de jovens pobres
por agentes do Estado.
[ Zé Dirceu ] Você
afirmou que projeção internacional de Marighella é maior do que a no
Brasil. Por quê? Fale-nos mais sobre esse reconhecimento internacional.
[ Magalhães ] Ao
se tornar o personagem mais influente e conhecido da luta armada
contra a ditadura no Brasil, Marighella tornou-se figura mundial. O
jornal francês “Le Monde” o chamava de “mulato hercúleo”. A revista
americana “Time” se referiu ao “mulato de olhos verdes” – Marighella se
transformava em mito; seus olhos na verdade eram castanhos. Quando a
Ação Libertadora Nacional (ALN), organização fundada e comandada por
Marighella, tomou os transmissores da Rádio Nacional paulista, em agosto
de 1969, o “New York Times”, um dos diários mais importantes do
planeta, dedicou ao fato mais de 250 linhas.

Marighella quando era deputado, em 1946 ou 1947 [Aperj]
A
Central Intelligence Agency, a CIA norte-americana, apontou Marighella
como o sucessor do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara
na inspiração de movimentos rebeldes na América Latina. Em todo o
mundo, movimentos contestatórios e revolucionários se inspiraram em
Marighella e seu “Minimanual do guerrilheiro urbano”, brochura de junho
de 1969. “Todo o mundo” mesmo, dos Panteras Negras nos Estados Unidos à
Organização para a Libertação da Palestina (OLP) no Oriente Médio.
Sem
contar a dimensão de Marighella no Brasil enquanto viveu e não foi
alvo da tentativa de eliminá-lo da história. Para ficar em um exemplo, a
revista “Veja” dedicou-lhe duas vezes a capa, em novembro de 1968 e
novembro de 1969. Quantos personagens ganharam duas vezes a capa de
“Veja” em um período tão curto?
[ Zé Dirceu ]
Você traz duas importantes novidades na pesquisa. A primeira que
Marighella não trocou tiros com os militares durante a emboscada. Como
você descobriu isso?
[ Magalhães ] A
rigor, o livro tem centenas de revelações, do lugar onde Marighella
realmente nasceu às circunstâncias de seu assassinato. Sobre Marighella
não ter disparado um só projétil na noite de 4 de novembro de 1969,
quando o mataram, inexiste controvérsia: jamais apareceram relatos de
que ele tenha atirado. A polícia montou uma farsa na versão oficial da
morte de Marighella, mas não chegou ao ponto de inventar que ele tivesse
dado algum tiro. O que eu fiz foi checar todas as fontes, dos
registros balísticos e da necropsia até entrevistar pessoas presentes
na cena do crime, incluindo alguns agentes repressores e dois frades
partidários de Marighella.
O
que os funcionários da ditadura fantasiaram foi a existência de
seguranças de Marighella. No livro, eu esquadrinho todas as provas de
que isso não passa de cascata. Narro a morte em minúcias no capítulo
“Tocaia”. O capítulo seguinte é “Post mortem: anatomia de uma farsa”.
Nele, explico em minúcias as provas que permitem descrever com segurança
os momentos derradeiros de Marighella. Por exemplo: como saber que
Marighella, ao contrário de tantas versões, estava mesmo desarmado?
Explico na biografia.
[ Zé Dirceu ] Como você chegou à conclusão de que Marighella entrou com 23 anos no Partido Comunista e não com 19?
[ Magalhães ] Esse
é o típico empenho de apuração que passa despercebido ao leitor. Na
página 68, gasto uma só frase, com menos de dez palavras, para cravar
que Marighella ingressou no PCB em 1934, ano do seu 23º aniversário.
Quase todos os relatos conhecidos dão conta de que Marighella foi
admitido com 18 ou 19 anos no partido. Eu já sabia que isso era
impossível, pois em agosto de 1932 ele fora preso por apoiar o movimento
paulista contra Getulio Vargas. Como o Partido Comunista se opunha
tanto ao presidente da República como aos oligarcas de São Paulo,
Marighella não poderia ser na época militante daquela agremiação.
Na
Casa de Oswaldo Cruz, li um depoimento do médico Manuel Isnard
Teixeira, que recepcionou Marighella na Juventude Comunista. Seu relato
indica que isso ocorreu a partir de 1933, mas não determina o ano.
Só
em 2012 foi possível ter certeza, com base numa fonte privilegiada: o
próprio Marighella contou que se integrou ao PCB em 1934. A informação
consta de uma autobiografia manuscrita por ele em castelhano. Em sete
páginas, foi redigida em 1954, na então União Soviética. Até hoje está
guardada em Moscou, em arquivos da ex-URSS que o dirigente russo
Vladímir Pútin manteve fechados por muitos anos, mas que recentemente
voltaram a ser abertos ao público.

Marighella fotografado pela polícia paulista em junho de 1939, um mês depois de sua terceira prisão [Arquivo Nacional]
[ Zé Dirceu ] Como você avalia o lugar de Marighella na história?
[ Magalhães ]
Carlos Marighella é um gigante da história do Brasil,
independentemente do juízo que se faça sobre ele. É legítimo amá-lo ou
odiá-lo, mas é impossível ficar indiferente à sua história fascinante.
Enquanto ele for mantido à margem dos livros escolares, continuará a
ser um brasileiro maldito. Não defendo que os manuais de história o
promovam, nem que o condenem. Mas não podem mais calar sobre ele.
O
silêncio sobre Marighella no ensino de história representa um crime de
desonestidade intelectual. Seria como apagar o nome de Carlos Lacerda,
o mais tonitruante anticomunista no Brasil do século XX. Ou seja, um
absurdo. E Lacerda nunca teve maior projeção internacional, ao contrário
de Marighella, que até hoje inspira revolucionários em todo o mundo.
[ Zé Dirceu ] Qual o papel do jornalismo investigativo hoje e o que é necessário para fazer uma boa biografia?
[ Magalhães ] O
jornalismo dito investigativo não pode se conter nas aparências. Tem
de apurar a essência. Não deve ser preconceituoso. Tem de ser mais
substantivo e menos adjetivo. Em outras palavras, ater-se à informação,
sem se deixar contaminar por tanta opinião. Repórteres e jornalistas
que contam histórias não deveriam nutrir veleidades de promotor (por
exemplo, para acusar personagens como Marighella ou instituições às
quais ele pertenceu); de advogado (para defendê-los); e muito menos de
juiz (cabe aos repórteres, biógrafos ou não, fornecer informações que
permitam ao leitor tirar as suas próprias conclusões).
No
caso de Marighella, não o julguei. A biografia que escrevi não afirma
nem que ele é herói, nem que é vilão. Narro o que ele fez, disse e
pensou. Ofereço matéria-prima para cada pessoa concluir o que quiser,
conforme suas próprias ideias. Marighella já tem muitos partidários e
inimigos; meu propósito foi o de contar sua história frenética.
Uma
necessidade indispensável para o biógrafo é a de tempo. Eu poderia
produzir no período de dois ou três anos um livro sobre Marighella. Mas
não seria a biografia que escrevi. A redação do livro me tomou mais
tempo do que a apuração, por mais imensa que esta tenha sido. Há um
risco altíssimo de transformar um volume monumental de informações em
texto de tom relatorial, enfadonho. Eu me propus a redigir o livro como
se ele fosse um romance, com a diferença escrupulosa de que nele tudo é
verdade _ao fim do volume, 2.580 notas indicam a fonte de cada
informação interessante ou relevante. Pensei assim: ao contar uma vida
de tirar o fôlego, meu propósito estético tem de ser o de produzir uma
narrativa de tirar o fôlego. Não sei se consegui, mas é o que tentei
fazer.
[ Zé Dirceu ] Você afirma que Marighella é um gigante da História. O que é preciso para que ele seja reconhecido como tal?
[ Magalhães ] É preciso que se conheça sua história – ela fala por si.
“Marighella”
Autor: Mário Magalhães
Editora: Companhia das Letras
784 páginas
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