https://youtu.be/Yw1MqcN0lJw
sexta-feira, 31 de março de 2017
Temer determina cortes no 'Mais Médicos'
Com a desculpa esfarrapada do ajuste fiscal – já que não mexe nos rendimentos dos rentistas, que abocanham quase 50% das receitas da União –, o Judas Michel Temer está decidido a golpear os tímidos avanços sociais dos últimos anos. Nesta quarta-feira (29), o ministro do Planejamento do covil golpista, Dyogo de Oliveira, publicou portaria no Diário Oficial que modifica a lei orçamentária e tira a obrigatoriedade da destinação de R$ 3,3 bilhões para custeio do Programa Mais Médicos. Ao tornar a despesa discricionária, o governo ilegítimo abre a possibilidade do contingenciamento (corte) de parte dos recursos previstos para pagar as bolsas dos profissionais selecionados para o programa.
Como alerta o deputado federal Jorge Solla (PT-BA), a medida “é uma grave ameaça ao Mais Médicos. Todo o orçamento do programa agora poderá ser cortado. O Orçamento foi enviado a essa Casa, foi aprovado pelo Congresso, aí vem uma mera portaria e altera substancialmente o orçamento de um programa tão importante como esse”. Para o parlamentar, a iniciativa da quadrilha que assaltou o poder visa desmontar esta política que beneficia milhões de pessoas mais carentes. Ele lembra que “a presidente Dilma, à custa de muito esforço, venceu a resistência que os profissionais brasileiros tinham ao Mais Médicos, deu credibilidade ao programa, e agora o governo golpista propositalmente retira essa credibilidade, desmonta um dos programas mais bem-sucedidos de ampliação do acesso à saúde dos últimos anos”.
Instituído em 2013 pelo governo Dilma Rousseff, o Mais Médicos ampliou a assistência na Atenção Básica, fixando médicos nas regiões onde não havia esse profissional. Por meio do programa, 18.240 médicos passaram a atender à população de 4.058 mil municípios, cobrindo 72,8% do total de municípios do país e os 34 Distritos Sanitários Indígenas. Até meados do ano passado, cerca de 63 milhões de brasileiros foram beneficiados. Antes do programa, cinco estados brasileiros possuíam menos de um médico para cada mil pessoas, enquanto 700 municípios não dispunham de nenhum médico na atenção básica.
O programa foi considerado uma das iniciativas mais relevantes para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em publicação da Organização das Nações Unidas (ONU). A informação está na publicação “Good Practices in South-South and Triangular Cooperation for Sustainable Development” (ou “Boas Práticas de Cooperação Triangular Sul-Sul para o Desenvolvimento Sustentável”), primeira de uma série desenvolvida pelo Escritório da ONU para a Cooperação Sul-Sul e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). As informações foram divulgadas pela ONU Brasil em junho do ano passado.
Mas estes avanços, como alerta o deputado petista Jorge Solla, já estão
sendo golpeados. Segundo o noticiário da imprensa nesta semana, mais da
metade dos 1.302 profissionais contratados para atuar em mais de 600
localidades estão sem receber seus salários desde fevereiro – cada um
recebe cerca de R$ 12 mil. Eles foram contratados, por determinação do
covil golpista de Michel Temer, para substituir cubanos que atuavam no
programa. Agora, porém, os médicos brasileiros estão sem receber
salários e podem abandonar o atendimento às populações mais carentes do
país. Um baita retrocesso!
quinta-feira, 30 de março de 2017
quarta-feira, 29 de março de 2017
Entrevista de Samuel Pinheiro Guimarães - para a Carta Capital
Samuel Pinheiro Guimarães
1. Como o Senhor definiria a passagem de José Serra pelo Itamaraty e
avaliaria seu pedido de demissão?
SPG: A
passagem de José Serra poderia ser definida como desastrosa.
Revelou um notável despreparo para o
exercício da missão de Chanceler. Seus pronunciamentos, seu desconhecimento de
temas triviais, suas tentativas de rever princípios da política externa, tais como
a não intervenção nos assuntos internos de outros Estados, em especial na América
do Sul; a prioridade da política brasileira para América do Sul e a necessidade
de diversificar as relações do Brasil com todos os Estados; a necessidade de
articular a ação brasileira com a de países de circunstâncias semelhantes,
demonstraram seu despreparo.
Finalmente, a tentativa de alinhar o
Brasil com a política externa americana em todos os temas, sem colocar acima de
tudo os interesses brasileiros, aliás de acordo com a política geral praticada
pelo Governo Temer, revelou seu descompasso com o Brasil.
Pelo seu comportamento, revelou desprezo
pelos quadros do Itamaraty e pela sua experiência, isolando-se, quando em
Brasília, em seu Gabinete, dedicando especial atenção às questões de imprensa, e
passando grande parte de seu tempo em São Paulo.
Seu pedido de demissão pode estar
ligado a quatro fatores: a decepção com sua pequena influência no Governo, em
especial nas questões econômicas; sua relativa incompatibilização com os Estados
Unidos, apesar de suas posições tradicionais de grande proximidade com esse
país, devido a sua inoportuna e depreciativa declaração sobre Donald Trump durante
a campanha eleitoral americana; a necessidade de organizar sua candidatura a
presidente ou mesmo a Governador nas eleições de 2018; a precariedade de sua
saúde, inclusive física.
2. De que forma o Brasil conseguirá recuperar o protagonismo internacional
perdido recentemente?
SPG: Em primeiro
lugar, pela execução de uma política externa que se fundamente no respeito aos
princípios que garantem a ordem internacional, que protegem os Estados mais
fracos e que estão consagrados na Constituição Federal e na Carta das Nações
Unidas, quais sejam os princípios da não intervenção; da autodeterminação; da
igualdade soberana e da reciprocidade.
Em segundo lugar, por uma política
externa que priorize o desenvolvimento do Brasil, em todas as suas dimensões, e
a ampliação da participação do Brasil nos organismos internacionais, inclusive
no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Em terceiro lugar, pela denúncia firme
e serena de toda e qualquer ação arbitrária e violenta, em especial de Grandes
Potências, contra os Estados periféricos e frágeis.
Em quarto lugar, pelo reconhecimento
de que a realidade da localização geográfica do Brasil, suas fronteiras e
número de vizinhos, a dimensão do território e de sua população, a riqueza de
recursos naturais, o elevado grau de urbanização e de industrialização impõem
uma estratégia de política externa de afirmação nacional.
A ação serena e prudente dos
executores da política externa, seu conhecimento dos temas e sua determinação
na defesa dos interesses do Brasil diante de qualquer Estado são fatores
indispensáveis para recuperar o respeito e o protagonismo internacional.
Só é respeitado quem se respeita e
quem defende seus interesses.
3. O Senhor acredita que os EUA, na presidência de Donald Trump, irá
formalmente apoiar a ideia de um Estado único Israel-Palestina como querem os
israelenses?
SPG: Acredito
que muitas das manifestações iniciais sobre política externa emitidas pelo
Presidente Trump, tais como as que se referiam à OTAN, ao México, à Austrália,
à Europa, à China, à Rússia e, inclusive, a Israel, virão a ser modificadas.
A questão de Israel é vital para os
povos árabes e muçulmanos e os interesses americanos nestes países, em especial
devido ao petróleo, são tão grandes e estratégicos que as pressões internas nos
EUA serão muito intensas para que o Governo Trump volte à sua posição tradicional:
· financiar Israel em montante superior
a 3 bilhões de dólares por ano, o que sustenta a economia e o poder militar israelense;
· apoiar militarmente e em atividades
de inteligência o Governo de Israel;
· aceitar a expansão, desde que discreta,
de assentamentos israelenses na Cisjordânia e condená-los retoricamente;
· apoiar a solução de dois Estados;
· apoiar a resolução do Conselho de
Segurança da ONU sobre a retirada israelense dos territórios ocupados em 1968 mas
nada fazer, na prática, para implementá-la.
4. Como explicar essa onda reacionária no planeta?
SPG: A onda reacionária
começa em 1979 com a ascensão de Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Helmut Kohl
que promoveram, de um lado, o combate às políticas e aos programas keynesianos
e a desregulamentação do setor financeiro e das megaempresas (fim das leis
anti-trust) e adotaram políticas neoliberais e que, de outro lado, enfrentaram agressivamente
o que Reagan chamou de Império do Mal e todos os regimes de economia mista e de
políticas externas menos submissas.
A desintegração da União Soviética em
1991, a gradual adesão, a partir de 1979, da China ao capitalismo e a esmagadora
vitória americana na Guerra do Golfo permitiram ao primeiro Bush proclamar uma Nova
Ordem Mundial, com a hegemonia americana, a única Grande Potência mundial, em
um mundo unipolar.
A partir desta vitória do capitalismo
neoliberal sobre o socialismo estatal, os governos da periferia e do centro
aderiram ao capitalismo selvagem e às políticas neoliberais, sintetizadas no
Consenso de Washington, com a redução dos direitos dos trabalhadores e dos
direitos civis, estes em especial a partir de 2001 com a legislação americana e
internacional de combate ao terrorismo, o novo inimigo, o aumento dos gastos militares
e de restrição aos direitos civis.
A recessão, que se inicia em 2007,
que se prolongou e se transformou em estagnação, trouxe um novo elemento e impulso
à onda reacionária, qual seja o colapso da economia globalizada, devido à falência
do sistema financeiro, a necessidade de sua recuperação com enormes recursos do
Estado, e a culpa jogada nos gastos sociais e, portanto, nos trabalhadores.
As políticas recessivas, implementadas para
recuperar a “confiança” dos investidores (isto é, do capital), que levaram ao
desemprego e às reduções de salários, de direitos trabalhistas e
previdenciários, estimularam a xenofobia e os movimentos de direita, enquanto
as agressões militares a países como a Líbia e a Síria, onde já morreram mais
de 400 mil pessoas, geraram as ondas de refugiados, deslocados e imigrantes, e
as políticas anti-imigrantes nos países centrais.
5. Por que tem sido tão fácil derrubar as políticas progressistas na América
do Sul, principalmente na Argentina e no Brasil?
SPG: Há quatro
fatores principais que levaram à possibilidade de derrubar as políticas
progressistas a partir da derrubada dos Governos que as promoveram:
· As operações de regime change, isto é, de golpe de Estado “suaves” desencadeadas
pelos Estados Unidos após as vitórias democráticas de Chávez; Lula; Kirchner;
Tabaré, Evo, Lugo e Correa, devido aos programas progressistas e de afirmação
nacional que passaram a executar e que afetariam, em maior ou menor medida, os
interesses políticos e econômicos americanos;
· Em segundo lugar, a forte e
articulada reação das classes hegemônicas, beneficiárias de séculos de mecanismos
de concentração de riqueza, renda e poder, contra os programas progressistas, a
favor dos trabalhadores e dos miseráveis, implementados por esses Governos,
inclusive através da articulação sistemática e permanente da mídia e dos poderes
Legislativo e Judiciário contra esses Governos;
· Em terceiro lugar, a não mobilização,
em maior ou menor escala, das massas beneficiárias daqueles programas pelos
Governos progressistas em defesa de seus programas e de esclarecimento sobre os
mecanismos de dominação das classes hegemônicas;
· Em quarto lugar, no caso de alguns
países, a incapacidade política e de visão estratégica dos Governantes.
6. O senhor acredita que o processo de globalização está sob risco, por
conta da ascensão do populismo de direita?
SPG: O
processo de globalização, isto é, de criação de uma economia global, foi
impulsionado pelas megaempresas multinacionais (e por seus Governos de origem)
com o objetivo de eliminar os obstáculos à sua ação em todos os mercados em
busca de maiores lucros, sob a orientação e a propaganda ideológica do
neoliberalismo.
A globalização levou a uma maior
concentração de riqueza e renda dentro dos países, desenvolvidos e
subdesenvolvidos, e entre os países.
O processo de globalização levou à
crise financeira, econômica e social de 2007 e à consagração, ideológica inclusive, sob “o novo conceito” de cadeias
globais de valor, da divisão internacional do trabalho entre, de um lado, as
economias altamente desenvolvidas e tecnológicas e, de outro lado, as economias
periféricas, produtoras e exportadoras de matérias primas e de manufaturados
simples.
Este processo de globalização
certamente não beneficiou o Brasil pois acentuou sua característica de economia
primária-exportadora e concentrou a renda no campo e no setor financeiro.
O populismo de direita é uma
consequência do processo de globalização inclusive na medida em que muitos partidos
e Governos de esquerda aderiram às visões e às políticas neoliberais e
permitiram que, em nome de uma pseudo-utopia capitalista globalizante, os
trabalhadores de seus países ficassem desempregados e fossem vítimas de
políticas sociais anti-trabalho.
7. De qualquer forma, os grandes tratados internacionais devem passar por
uma fase de congelamento, não?
SPG: Acredito
que sim. O Relatório anual sobre política comercial enviado pelo Presidente Donald
Trump ao Congresso americano indica esta orientação de política comercial de
dar preferência a acordos bilaterais para reduzir seus déficits, ao
unilateralismo, à ressurreição das
práticas de retaliação previstas pela Seção 301 da Lei de Comércio americana contra
politicas julgadas “injustas” e de desprezo pela Organização Mundial do
Comércio-OMC e seu sistema de solução de controvérsias.
Diz o Relatório (e, portanto, o
Presidente Trump):
“Desde que os Estados Unidos ganharam
sua independência, tem sido um claro princípio de nosso país que os cidadãos
americanos estão sujeitos apenas às leis e aos regulamentos feitos pelo Governo
dos Estados Unidos --- não a decisões adotadas por Governos estrangeiros ou
organizações internacionais”.
Para o Brasil, é sempre preferível o
sistema multilateral de negociação e de solução de controvérsias da OMC, onde
temos maior capacidade de articular, com outros países, a defesa de nossos
interesses econômicos
Por outro lado, aqueles grandes
acordos internacionais, que vinham sendo tão louvados pela imprensa e pela
academia, de um lado não atenderiam aos nossos interesses e, de outro, nem
deles poderíamos participar por não sermos, no caso do TransPacific
Partnership-TPP, um país do Pacífico, e no caso do TransAtlantic Trade and
Investment Partnership-TTIP, por não sermos um país europeu.
8. O Senhor enxerga interesses geopolíticos por trás da Operação Lava Jato?
SPG: O fato de
haver interesses geopolíticos atrás da Operação Lava-Jato é importante, porém mais
relevante é procurar identificar as consequências geopolíticas para o Brasil e
para seu projeto nacional.
O projeto nacional brasileiro tem as
seguintes características:
§
Construir
uma economia moderna industrial capitalista;
§
Construir
um sistema de defesa, de natureza dissuasória, através do programa do submarino
nuclear e da expansão da indústria aeronáutica e espacial;
§
Construir
gradualmente, através da ação do Estado, um sistema econômico e social menos desigual em termos regionais, de renda,
de etnia, de gênero etc.;
§
Desenvolver
uma política externa soberana com os seguintes instrumentos e objetivos:
· articular um bloco político sul americano, a
UNASUL;
· articular um bloco latino-americano, a CELAC;
· fortalecer um bloco regional na América meridional, o Mercosul;
· desenvolver relações políticas e
econômicas com todos os países, sem prejulgar seus regimes políticos, econômicos e sociais;
· reformar os organismos internacionais,
em especial o Conselho de Segurança da ONU e os organismos financeiros como o
FMI, para conquistar para o Brasil a possibilidade
de maior participação e defesa de seus interesses;
· articular alianças com os grandes
Estados da periferia, como o IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) e o BRICS
(Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).
Estes objetivos confrontam
profundamente os interesses dos Estados Unidos e das potências a eles aliadas,
ou mesmo não aliadas como é o caso da China e da Rússia.
A nenhuma Grande Potência, isto é aos
membros permanentes do CSNU, às potências nucleares e missilísticas e às
grandes potências econômicas como o Japão e a Alemanha, interessa o surgimento
de uma nova potência, isto é de um Estado de fato autônomo e soberano pois isto
prejudica seus interesses de obter acesso a todos os mercados produtivos e
financeiros e às vias de acesso a mercados na disputa permanente por uma parcela
maior da riqueza e do poder político e militar mundial.
A ação geopolítica externa se
desenvolveu da seguinte forma:
· como se tornou público e reconhecido pelo
Governo americano, a NSA (National Security Agency) há décadas monitora e grava
todas as comunicações eletrônicas entre todas as pessoas no mundo, em especial
as lideranças, como foram monitorados e
gravados os aparelhos celulares de Angela Merkel e Dilma Rousseff, e as
principais autoridades de todos os Governos e tais informações podem ser
repassadas a suas megaempresas e servem para sua política externa;
· o Juiz Sergio Moro, como muitos dos
procuradores da Operação Lava Jato, foi treinado em programas especiais,
patrocinados pelo Governo americano, e mantem permanente contato com as
autoridades americanas;
· o Foreign Corrupt Practices Act
(FCPA) é um poderoso instrumento contra as empresas estrangeiras que competem
com as megaempresas americanas no mercado mundial, isto é no mercado de cada
país;
· o Governo americano, através do
Departamento de Justiça e do FBI,
através de acordos, fornece informações à Polícia Federal e aos
Procuradores do Ministério Público para auxiliar suas investigações.
Neste contexto, a Operação Lava Jato
tem importantes consequências geopolíticas, e colabora para os objetivos das
Grandes Potências, em especial dos Estados Unidos, pelas seguintes razões:
· abala a autoestima da sociedade
brasileira, convencida pela mídia de sua
corrupção intrínseca e excepcional;
· contribui para afetar o prestígio político
dos partidos de esquerda e progressistas em geral;
· afeta o prestígio e a capacidade de
articulação do Brasil na América Latina e, em especial, na América do Sul;
· contribui para desarticular a aliança
política entre os Estados da América do Sul (UNASUL) e da América Latina
(CELAC);
· corrói o prestigio político e
econômico brasileiro na África ocidental;
· corroi a posição do Brasil nos BRICS
e nas Nações Unidas
· desarticula e destroça as grandes
empresas brasileiras do setor de construção e de engenharia pesada que eram
altamente competitivas;
· abre o mercado brasileiro, onde deixa
de haver concorrência de empresas locais, para as megaempresas internacionais
de construção de grandes obras de infraestrutura, mercado que é estimado em
mais de um trilhão de reais.
· contribui para desacreditar o BNDES
como agência de financiamento da política comercial brasileira;
· ao desmoralizar o Estado, contribui
para o projeto de redução ao mínimo do Estado brasileiro, principal instrumento
capaz de vencer os desafios do desenvolvimento, da soberania e das
desigualdades.
9. Há alguma semelhança entre este momento histórico e os anos 30 do século
passado?
SPG: A partir
da Revolução de 30, se inicia no Brasil o projeto de construção de uma economia
moderna capitalista industrial, de organização de seu mercado de trabalho, de
consolidação da unidade nacional, de construção de um Estado capaz de enfrentar
os desafios de construção da infraestrutura de energia e transportes e de
financiamento de seu setor privado.
A tentativa de construção de uma
economia moderna industrial e capitalista no Brasil enfrentou forte oposição
das classes hegemônicas tradicionais situadas no setor agropecuário, defensoras
do neoliberalismo e da tradicional divisão internacional do trabalho que reserva
ao Brasil o papel de produtor e exportador de produtos primários, e mais
recentemente de território para a exploração das megaempresas multinacionais,
sem capacidade de desenvolvimento tecnológico, importador de produtos industriais
sofisticados e de capitais predadores e
especulativos.
O contraste entre os anos 30 e o período
que se inicia com Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso é que neste
último as classes hegemônicas brasileiras, em aliança com as classes
hegemônicas do Império norte-americano, retomaram seu projeto permanente de congelar
o Brasil como produtor primário, sem indústria de capital nacional, com a redução
do Estado ao mínimo, sem capacidade de regulamentar e empreender, com a redução
dos direitos dos trabalhadores e do custo do trabalho.
Vivemos, no momento atual, a
desconstrução do projeto que se inicia em 1930 de construção de uma economia
moderna capitalista industrial, soberana, e menos desigual.
Procuram as classes hegemônicas
tradicionais finalizar a tarefa que iniciaram em 1990, e que se interrompeu em
2003, com a vitória do Presidente Lula nas eleições.
Como declarou o principal ideólogo e
líder das classes hegemônicas, Fernando Henrique Cardoso, em um momento
revelador de rara sinceridade:
“Nosso objetivo é acabar com a Era
Vargas!”
e agora procuram consagrar na Constituição,
através de uma maioria corrupta no Congresso,
e de uma circunstância fortuita, seus desígnios antinacionais,
antissociais, anti-trabalhador, anti-povo e sua política de subserviência
diante do mega-capital internacional das grandes corporações produtivas e, em
especial, financeiras.
O povo brasileiro não permitirá que os
objetivos das classes hegemônicas e de seus representantes políticos, cuja
natureza e instrumentos são antidemocráticos, concentradores de renda e de
riqueza, contrários ao capital e ao trabalho nacionais, se consolide.
O povo vencerá as eleições presidenciais de
2018 e o processo de construção de uma sociedade desenvolvida, dinâmica,
democrática, mais igual, mais justa e soberana, que se iniciou em 1930, será
retomado.
* * *
terça-feira, 28 de março de 2017
domingo, 26 de março de 2017
Operação Carne Fraca foi o segundo avião nas Torres Gêmeas
Miguel do Rosario no blog O Cafe_inho.
Lembrei do segundo avião a se chocar com as Torres Gêmeas, no atentado de 11 de setembro de 2001, em Nova York.
O primeiro avião, apesar da constituir uma tragédia de proporções ciclópicas, foi entendido como um acidente.
As pessoas olhavam para a televisão em estado de choque, tristes e perplexas.
O segundo avião, porém, mudou completamente a percepção mundial.
A perplexidade se transformou em medo.
Porque o segundo avião mostrou que havia ali uma intenção.
Não era um acidente, e sim um ataque!
A indústria nacional de carne não pode ser vista apenas como uma atividade que movimenta mais de R$ 400 bilhões, mas sobretudo um fator de protagonismo brasileiro no mundo.
A imprensa comercial está tratando o caso como uma “trapalhada” da Polícia Federal.
As revistonas falam em “politicagem” da PF.
O jornalismo brasileiro é muito estranho. Os barões da mídia querem impor à opinião pública a fantasia que o imperialismo não existe.
Que é uma invenção esquerdista.
Imperialismo não é uma invenção esquerdista. É um fato histórico.
Pretender impor a noção de que o imperialismo não existe é queimar novamente a biblioteca de Alexandria, e jogar no lixo toneladas de livros de história e economia que já trataram do tema, ao longo dos últimos cinquenta anos.
Os EUA patrocinam golpes, ditaduras, espionam presidentes de outros países. Sempre fizeram isso, e continuam fazendo.
A narrativa sobre a corrupção é uma cortina de fumaça para ocultar, tanto da classe trabalhadora, como da classe média e da própria grande burguesia nacional, o que verdadeiramente está em jogo: o imperialismo está atacando o Brasil.
A atual ofensiva – dos mesmos setores que destruíram, com a Lava Jato, a engenharia nacional, e oriundos do mesmo núcleo em Curitiba – contra a indústria nacional de carne, é o segundo avião nas Torres Gêmeas.
Não é “trapalhada”. Não é acidente.
É um ataque!
Os setores de esquerda que vêem a questão da carne com uma visão puramente moralista (embora fantasiada de ideologia), de que seria “bem feito” para uma indústria que explora trabalhadores e agride o meio ambiente, não entenderam nada.
A Polícia Federal não atacou a indústria da carne por suas agressões a indígenas, a trabalhadores, ao meio ambiente.
A PF conduziu uma investigação por dois anos não apenas sem fazer praticamente nenhuma perícia nas carnes, como também não entrevistou nenhum indígena, nenhum sindicato, nenhum trabalhador, nenhum especialista em meio ambiente.
Não foi por isso.
O Brasil tem um problema fundiário extremamente grave. Após o golpe, intensificaram-se os assassinatos de índios e a violência no campo, de forma geral.
A Polícia Federal está investigando e combatendo esses crimes? Não. Ela prefere convocar uma coletiva da grande imprensa nacional para divulgar que a carne brasileira é podre e tem papelão.
Se a esquerda quiser humanizar a indústria nacional de carne, precisa entender que isso deve ser feito com instrumentos democráticos: aprimorando a regulamentação, discutindo-se novas leis, intensificando a fiscalização.
Não é destruindo as empresas que isso vai acontecer.
Humanizar a indústria de carne através de uma campanha de difamação do produto no mundo não é uma boa estratégia porque, evidentemente, os principais prejudicados serão os milhões de trabalhadores que perderão seu emprego.
Milhões de empregos serão transferidos para países ricos exportadores de carne, países que, ao contrário do Brasil, detêm um rígido controle sobre suas estruturas de polícia, de justiça, de mídia…
A mídia brasileira, mais uma vez, está mentindo, porque ela está a serviço do imperialismo, embora seus jornalistas, possivelmente até mesmo seus editores, não tenham sequer consciência disso.
Os grandes meios de comunicação agora estão tentando passar a imagem de que são amigos da “indústria nacional da carne”, que estão indignados com os erros da PF. Com isso, estão mais uma vez enganando a burguesia nacional, que talvez seja a mais medíocre do mundo.
A mídia brasileira é o que sempre foi: representante de uma elite “compradora”, ou seja, de uma classe aliada ao imperialismo.
Os grandes frigoríficos americanos e europeus já tomaram, em questão de dias, o market share conquistado pelo Brasil, com muito trabalho, com muita certificação internacional, ao longo de 20 anos.
Tudo isso com ajuda da Polícia Federal, do Judiciário e, não se esqueçam, da mídia brasileira!
O único trunfo da indústria nacional de carne é a inteligência da elite política chinesa.
A China é uma força anti-imperialista e já começou a entender que isso é um jogo para debilitar o espaço de seu parceiro de Brics, o Brasil, no cenário geopolítico. Entendido o jogo, ela começa a voltar a comprar a carne brasileira, embora o Brasil, agora, tenha menos espaço para negociar preços melhores para o produto.
A opinião pública brasileira precisa acordar.
O segundo avião já bateu nas Torres Gêmeas.
É hora de alguém chegar ao ouvido do povo brasileiro e dizer o que um assessor do presidente Bush disse naquela manhã do dia 11 de setembro de 2011, enquanto Bush conversava com criancinhas numa escola pública.
– Presidente, estamos sob ataque!
Brasil ocupado
Fernando Rosa, no Facebook
A matéria publicada no jornal Estadão neste sábado não deixa mais qualquer dúvida sobre o caráter insidioso e lesa-Pátria da Operação Lava Jato. “Odebrecht começa a ter operação monitorada”, diz a chamada, seguida da informação de que “profissionais indicados pelo MPF, do Brasil, e DoJ, dos EUA, farão plano de trabalho” – por três anos. O DoJ é o equivalente ao Ministério da Justiça no Brasil e, portanto, se reporta diretamente aos chefes do governo norte-americano.
A Odebrecht Defesa é, ou era, responsável pela construção do submarino nuclear, e sua controlada, a Mecatron, pelos mísseis nacionais. A empresa foi uma das primeiras atingidas pela Operação Lava Jato, com a prisão de seu presidente, condenado a 23 anos, Marcelo Odebrecht, ainda na cadeia. Na sequência, o responsável pelo projeto do submarino nuclear, Almirante Othon, também foi preso e condenado à 43 anos, ou seja, à prisão perpétua.
A agenda que desembocou na situação atual, já estava em andamento em 2015, como já dissemos em artigo anterior. Na época, o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, encontrou-se com Leslie Caldwell, procuradora-adjunta da Divisão Criminal do Departamento de Justiça dos EUA, ex-sócia do escritório Morgan Lewis de Nova York. O escritório é especializado em contenciosos no setor de energia, especialmente nuclear.
Na sequência do encontro, a Operação Lava Jato apontou para a Eletronuclear, deflagrando a “Operação Radioatividade”, com objetivo de investigar suspeitas na área nuclear. Em 2 de abril de 2015, dois meses após a visita de Janot aos EUA, o almirante Othon Luiz Pereira da Silva foi denunciado, preso e condenado a 43 anos de prisão. O Almirante Othon é velho alvo da CIA, desde os anos oitenta, quando a agência manteve um agente, Ray H. Allar, morando no apartamento ao lado do seu, em São Paulo.
Não bastasse isso, o juiz Sergio Moro também autorizou o compartilhamento de delações premiadas de empresários brasileiros com autoridades estrangeiras. Segundo matérias da imprensa, Moro autorizou conversas feitas diretamente com o Departamento de Justiça dos EUA, sem passar pelo Estado brasileiro, como prevê a lei. A situação só veio a público, contra a vontade do juiz, depois de denúncia dos advogados do ex-presidente Lula, durante os depoimentos.
Segundo a matéria do Estadão, “os dois monitores independentes vão analisar o que a empresa está fazendo em termos de compliance e traçar seu plano de trabalho – que será entregue às autoridades no fim de abril”. Diz ainda a matéria que “embora sejam financeiramente bancados pela empresa, os dois monitores são independentes e prestam contas apenas ao Ministério Público e ao DoJ”. Em resumo, o país foi invadido, seu setor de ponta da Defesa Nacional ocupado e, se nada for feito, acabará destruído.

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