Paulo Moreira Leite.
A impressão de que muito lentamente as nuvens mais negras da situação
política começaram a dissipar-se ganhou um novo reforço na tarde desta
quinta-feira, no Planalto.
O encontro da presidente Dilma Rousseff com lideranças daquela parte
do país profundo que costuma ser chamada de "movimentos sociais" foi
especialmente bem sucedido. Confirmou que o governo tem uma base social
organizada, muito mais importante do que a verdade numérica captada
pelas pesquisas de opinião. Num país habitado por movimentos golpistas,
foi uma importante iniciativa em defesa da democracia. Mas o evento
deixou perguntas essenciais para o dia seguinte, num país onde o
desemprego sobe e a perspectiva de recessão se tornaram questões
urgentes.
As entidades que precisavam comparecer -- sindicatos, sem-terra,
sem-teto, entidades de mulheres e outros mais -- estavam presentes. Os
oradores disseram exatamente aquilo que faziam questão que a presidente
ouvisse. Gritaram "não vai ter golpe" e bateram duro na política
econômica, em especial na taxa de juros e na recessão. Vários oradores
pediram a cabeça de Joaquim Levy, o que não é surpresa, pois ele é alvo
frequente de várias lideranças presentes. Recentemente, o MST ocupou a
sede do ministério da Fazenda por 24 horas, obrigando o titular da pasta
a despachar em casa. Guilherme Boulos, líder do MTST, que tem 40 000
famílias organizadas em oito estados -- metade em São Paulo -- considera
que aquilo que se chama de "lulismo" é um fenômeno extinto e acusa
Dilma de promover uma política "neoliberal" com Levy.
Algumas intervenções foram tão duras que, em determinado momento,
ouviu-se um grito da platéia que provocou risadas: "nóis báti mas nóis
te ama, Dilma!".
A presidente fez um discurso que boa parte dos presentes com os quais
conversei classifica como o mais claro desde a posse. Assumiu um
compromisso solene em relação ao pré-sal, hoje uma pauta quente no
Congresso, em função do projeto 131 que pretende mudar as regras do
pré-sal: "enquanto eu for presidenta, vou lutar com todas as nossas
forças contra qualquer mudança na lei de partilha". A presidente também
assumiu a defesa dos programas de conteúdo nacional, responsáveis pela
geração de empregos e ampliação do mercado para a industria -- ameaçados
pelo desmantelamento em curso depois das investigações da Lava Jato.
Falando de improviso a partir de anotações, Dilma mostrou-se à
vontade como poucas vezes. Fez defesas oportunas das regras da
democracia. Defendeu o diálogo e lembrou que "diálogo é diferente de
pauleira." Depois de lembrar que viveu muitas experiências na vida, a
presidente disse: "eu tenho lado", frase que sugere que os presentes
gostaram de ouvir. Numa observação especialmente feliz, registrou que o
Brasil pode ter a sétima economia do mundo, e que isso é bom, mas ainda
está longe de ter obtido o mesmo desenvolvimento em sua construção como
nação, o que é mais difícil e mais importante.
Horas antes do encontro de Brasília começar, ocorreu um protesto na
avenida Paulista, em São Paulo, que por três horas reuniu lideranças
sindicatos e empresários ligadas a Abimaq, pedindo redução nos juros,
para estimular investimentos e criação de empregos. Na cidade que é
também a principal fortaleza da oposição ao governo, o afundamento da
economia começa a causar preocupações reais em autoridades. Emissários
do prefeito Fernando Haddad têm procurado entidades populares para
debater medidas de emergência -- como transporte gratuito para
desempregado. Os sindicatos de trabalhadores também têm sido procurados
pelo governo de Geraldo Alckmin pela mesma razão.
Hoje, um conjunto de oito sindicatos de São Paulo, ligados à CUT,
Força Sindical e UGT, as maiores do país, publicam um anúncio nos
grandes jornais.
É um documento com relevância política inegável. Assinado por Miguel
Torres, dos Metalúrgicos de São Paulo, Jovandia Moreira Leite, dos
Bancários, Ricardo Patah, dos Comerciários, entre outros, o anúncio
defende a democracia e condena a política econômica. Numa resposta
direta aos movimentos golpistas, repudia os "intentos
desestabilizadores", que conduzem a um "retrocesso
político-institucional". Diz ainda que a situação exige um "claro
posicionamento em defesa da democracia, do calendário eleitoral, do
pleno funcionamento dos poderes da República" como condição para "a
rápida e sustentada transição para o crescimento econômico."
São questões da vida real que estão em toda parte. Em Brasília,
depois do evento, a caminho de casa -- e para o aeroporto -- a pergunta
em muitas mentes era outra. Será que o governo irá oferecer respostas
para a vida real da maioria dos brasileiros?
Ou, mais uma vez, irá confirmar que "só usa vermelho quando está perto da gente" como observou uma liderança, na saída?
Embora a profundidade do estrago econômico já provoque perplexidade e
mesmo temor junto a uma parcela dos empresários, não há dúvida de que a
política de austeridade conduzida com indisfarçável dogmatismo por
Joaquim Levy garante a Dilma um respaldo importante em outras esferas.
Mas a menos que a dureza de hoje se transforme, rapidamente, num
crescimento pujante que não se consegue enxergar, a persistência do
ajuste tem um preço previsível. Será o gradual afastamento daquelas
pessoas que, ontem, gostaram de sentir-se do mesmo "lado" que a
presidente.
Na medida em que pequenas vitórias mostram a consciência democrática
entre os brasileiros, surge um problema que o governo não sabe como
resolver. Como dar respostas para aqueles que sempre estiveram lado de
Dilma, inclusive quando o governo se encontrava num ponto tão baixo que
ninguém imaginava que poderia ser atingido?
Considerando que as críticas de ontem são o contraponto necessário
aos pontos da Agenda Brasil, que Renan Calheiros apresentou, lideranças
que participaram do ato de ontem se uniam a parlamentares para defender
uma proposta que pode apontar uma perspectiva: reativar para valer o
Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, também conhecido como
Conselhão. A ideia é que ali será possível debater e avançar propostas
concretas de empresas e sindicatos que apontem para o ponto cada vez
mais essencial, preparar a retomada do crescimento.
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