Mino Carta, na Carta Capital
Antônio Cruz / Agência Brasil
Com K ou sem K, a palavra caos se oferece a diversas interpretações. Em 1964, havia quem acreditasse que o golpe de Estado salvaria a pátria ao sustar o caos no nascedouro. Passados 51 anos, não falta quem entenda que do golpe nasceria o caos.
Cinquenta e um anos atrás, e mesmo desde agosto de 1961
com a renúncia de Jânio Quadros, a casa-grande deu para sentir-se
ameaçada por Jango Goulart, o vice alçado à Presidência. O mundo era
outro, dividido ao meio entre dois impérios, beligerantes de uma guerra
dita fria. Os graúdos nativos apreciavam a condição de súditos do
império do Oeste, o qual padecia, porém, de uma espinha no flanco,
fincada bem ali a 100 quilômetros da Flórida, Cuba fidelista.
Jango
ostentava um passado buliçoso, a começar pela origem getulista, e a
prosseguir pela valente militância petebista, sem exclusão da perigosa
proximidade com o cunhado Leonel Brizola. Só faltava chamar San Tiago
Dantas para a Chancelaria. Implorada pela casa-grande e seus porta-vozes
midiáticos, sustentada por Washington, a intervenção militar se deu sem derramar uma única, escassa gota de sangue nas calçadas. Falsos pretextos fazem parte do jogo.
O golpe de 64
é uma das grandes desgraças brasileiras, a mais recente. Interrompeu um
processo natural que, ao longo dos anos, décadas talvez, demoliria a
casa-grande e a senzala. Sofremos até hoje suas consequências.
Em relação à situação atual, gravemente
turvada pelo descontrole parlamentar, pelo fracasso petista, pelo
reacionarismo tucano, pelo terrorismo da mídia em meio a uma profunda
crise econômica provocada tanto pela fé neoliberal que assola a Terra
quanto por erros governistas, a posição de CartaCapital já foi exposta inúmeras vezes. Entendemos como golpismo puro qualquer propósito de impeachment ou de convocação de novas eleições.

- Vivemos a enésima versão, revisada e corrigida, da conciliação das elites velhas de guerra, fênix nativa.
Por que, pergunto intrigado aos meus pensativos botões.
Respondem que o mundo também mudou, o maniqueísmo dos anos 60 assumiu
formas e cenários adequados a alterações fatais. Ao observar a
conjuntura mundial, constata-se que o Brasil deixou de ser aquele súdito
submisso de Tio Sam graças à política exterior praticada por Lula,
ainda que Dilma tenha baixado um tanto a bola. Vale também registrar que
o velho Sam perdeu muito do vigor de antanho. E, de resto, o Demônio
hoje em dia não é o comunista. Além disso, as Forças Armadas, conquanto
incutam um inextinguível temor como númeno, deixaram de ser, como
fenômeno, um exército de ocupação pronto ao papel de jagunço da
casa-grande.
É o pano de fundo. Na
ribalta, a “guerrilheira” Dilma não é Jango, e seu governo oferta à
casa-grande garantias suficientes para pôr em sossego seus inquilinos.
Não é por acaso que o diligente bancário Joaquim Levy lá está para
executar a lição da própria. Por que intervir, se a vivenda dos
especuladores e dos rentistas está em ordem? E, de outro ângulo, por que
enfrentar a incógnita do pós-Dilma, se por ora o governo acuado se
dispõe a levar em conta, e se possível executar, um pacote de
providências excogitadas pelo Senado, reduto, aliás, de numerosos
oligarcas?
Melhor assim. Melhor que a tensão diminua
e que o pior seja evitado. Nada impede que paneleiros incapacitados
para o exercício do espírito crítico, e mesmo para a consciência da
cidadania, renovem no domingo 16 seu protesto insensato. Pouco importa,
prevalecerá a tendência desenhada pelos graúdos, tão escassamente
preocupados com a fragilidade da democracia verde-amarela, mas
sobremaneira com sua própria paz espiritual e material.
Na circunstância, melhor assim, repito. Nem por isso perco
a oportunidade de assinalar: casa-grande e senzala continuam de pé.
Vivemos a enésima versão, revisada e corrigida, da conciliação das
elites velhas de guerra, fênix nativa. Percebo que neste momento mexe as
asas debaixo das cinzas.
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