José Álvaro de Lima
Cardoso*
Tem ocorrido, nos últimos meses, um desaquecimento
no ritmo de geração de empregos no mercado formal de trabalho brasileiro em
relação aos anos anteriores. Já era esperado até, em função do lento ritmo de
expansão do Produto Interno Bruto (PIB), verificado no último biênio. O
surpreendente pode-se dizer, é ter demorado tanto a desaquecer, dado o ritmo
lento de crescimento do produto. A desaceleração do ritmo de criação de
empregos reduz um pouco o poder de barganha salarial do trabalhador no mercado.
Por exemplo, pelos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED),
do Ministério do Trabalho e Emprego, tem aumentado um pouco a diferença entre a
média salarial dos admitidos e a média salarial dos demitidos. A diferença no
primeiro trimestre deste ano ficou em 7,3%, um aumento razoável em relação aos
4,4% do primeiro trimestre de 2012. Essa diferença vinha caindo ao longo dos
últimos anos. É lógico que quanto menor a diferença entre as duas médias, mais
aquecido estará o mercado de trabalho, o que é positivo para o trabalhador.
O dado é preocupante porque estamos
falando de salários baixos: o salário médio de admissão no primeiro semestre de
2013, segundo o CAGED, foi de R$ 1.090,53. De qualquer forma é natural que haja
alguma diferença nas médias porque entre os admitidos estão jovens que nunca
trabalharam e pessoas que, demitidas do emprego anterior, aceitam salário
inferior ao que vinham recebendo. É claro que esses dados têm que ser vistos em
perspectiva, já que a situação do mercado de trabalho no Brasil é a melhor da
história. Mas a melhora dos indicadores do mercado de trabalho não significa
que não haja ainda muito por ser feito, do ponto de vista da quantidade e da
qualidade dos empregos gerados.
Um dos problemas sérios do emprego no
Brasil, atualmente, é o emprego industrial. Pelos dados do CAGED, nos últimos
12 meses a indústria gerou apenas 186.000 empregos no Brasil, 22% do total de
empregos gerados. A crise da indústria, como se sabe, em boa parte está
relacionada à apreciação do câmbio, que vem ocorrendo, com algumas interrupções,
há vários anos. É esse fenômeno, basicamente, que vem
causando a queda das exportações e a elevação das importações, colocando o
déficit externo a níveis perigosos. No período 2003/2008, quando a economia
internacional nadava de braçada e as commodities
se valorizaram como em poucos momentos da história, o problema do câmbio
ficou temporariamente escondido. Mas numa conjuntura mundial com média de
crescimento menor e clima de “guerra cambial” o problema reapareceu com força.
E não é pra menos. Segundo alguns estudos o nível atual do câmbio (R$ 2,30)
está próximo ao patamar mínimo da série histórica. A desvalorização cambial dos
últimos meses deu uma trégua para a indústria, mas, ao que parece, ainda
insuficiente.
Uma outra decorrência da apreciação
cambial é o efeito na balança comercial. Entre janeiro e
junho de 2013, houve um déficit comercial da ordem de US$ 3,1 bilhões que contribuiu
para colocar o saldo negativo das transações correntes nos últimos 12 meses em
US$ 72,5 bilhões. Isso ocorre fundamentalmente porque os governos, pelo menos
desde o Plano Real, vêm utilizando a âncora cambial para controlar a inflação e
atrair capital especulativo, através de taxas de juros muito superiores à média
mundial. O resultado disso é danoso para o país: quase 5% do PIB transferidos anualmente
pela União a título de juros da dívida pública, perda permanente de
competividade das empresas que atuam no país e déficit em transações correntes.
Este coberto com Investimentos Estrangeiros Diretos (IED ) que, ao invés de ser
uma possibilidade interessante para o país, acabam fazendo o papel de tábua de
salvação para as contas externas nacionais.
*Economista e
supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.
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