Gustavo Loyola: se não cumprir meta cheia de superávit primário, espaço para cortar os juros deve diminuirA divisão dentro do governo sobre abrir mão do cumprimento da meta "cheia" de superávit primário para elevar o investimento, discutida em reportagem publicada ontem pelo Valor, explicita que chegou à equipe econômica um dilema apontado por boa parte dos especialistas em contas públicas.
Com a perspectiva de desaceleração das receitas e alta das despesas, parece muito difícil a União investir com mais força e ao mesmo tempo fazer uma economia para pagar os juros (o superávit primário) na casa de 3% do PIB, sem descontar gastos com investimentos. O risco, para alguns, é que essa estratégia diminuia o espaço para a redução dos juros.
Segundo a reportagem do Valor que o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, defende o aumento mais forte do investimento, enquanto o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o BC são favoráveis ao cumprimento da meta cheia, para permitir uma queda maior da Selic.
Se optar por acelerar o investimento público para impulsionar a atividade, não será possível cumprir a meta "cheia", a não ser que haja um ganho excepcional de arrecadação, acredita o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria. O aumento de cerca de 14% do salário mínimo vai provocar uma alta expressiva dos gastos do governo com aposentadorias e programas assistenciais, lembra ele.
O economista Mansueto Almeida, especialista em contas públicas, tem uma avaliação parecida. Não descarta o cumprimento da meta, dada a capacidade de arrecadação da Receita Federal, mas vê como improvável a conciliação de uma alta forte do investimento da União e a meta de superávit primário de 3% do PIB.
Para Loyola e Almeida, uma economia para pagar juros um pouco mais modesta tira algum espaço para cortar a taxa Selic, hoje em 11% ao ano. "Se elevar os investimentos à custa de uma piora do superávit primário, o governo vai exercer força expansionista na economia", diz Loyola. Além disso, o BC tem reiterado que trabalha com o cumprimento da meta cheia.
Para outro analista ouvido pelo Valor, faz sentido que Mantega, tido como flexível, esteja com uma posição mais próxima da do BC, trabalhando para que a política fiscal abra espaço para juros menores. Ele considera Barbosa como um partidário mais convicto dos benefícios de uma alta do investimento para a economia, que não veria grandes riscos de pressão de curto prazo sobre a demanda.
Para Júlio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica da Fazenda e diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), é natural que o debate exista dentro do governo. "O assunto está na ordem do dia." Em sua percepção, após a crise internacional iniciada em 2008, houve um esgotamento das medidas fiscais que poderiam ser adotadas para estimular a economia não apenas no Brasil, mas também em outros países.
Com isso, a política monetária, com a redução dos juros, ganhou papel mais relevante como instrumento de estímulo ao crescimento e, paralelamente, a política fiscal precisou ser menos expansionista, diz ele. Nesse quadro, o governo deve indicar que cumprirá a meta de superávit primário. "Pelo lado das expectativas, reafirmar o compromisso com a meta é muito importante para dar sustentação à trajetória de queda dos juros. Acho que a opção do governo será por reafirmar o superávit de 3% do PIB, mas claramente com uma carta no colete, que é o investimento em infraestrutura. É uma reserva que poderá usar em contexto de endurecimento do cenário externo".
O incentivo deve ser usado em duas situações, para Gomes de Almeida: caso a crise internacional se torne mais aguda ou se a desaceleração da economia se provar mais forte e duradoura do que o antecipado. Defensor dessa postura, ele admite que, se o governo decidir ampliar os investimentos públicos, não terá como cumprir a meta "cheia" de superávit primário, já que outras despesas, como as de custeio, são difíceis de ser manejadas no curto prazo. Ainda assim, avalia, como o BC olha um horizonte de tempo mais amplo para tomar decisões, isso não deve ter efeito importante sobre a condução da política monetária e o ciclo de redução dos juros.
Samuel Pessôa, chefe do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), acredita que irá prevalecer, no governo, o compromisso com a meta de superávit primário, mas sem abandono dos investimentos. "A solução fiscal será acelerar a agenda de privatizações e incentivar o investimento por parte da iniciativa privada, com forte contribuição do BNDES. Aparentemente, a presidente Dilma Rousseff quer uma política fiscal sólida para abrir espaço para uma redução maior da Selic."
Mansueto vê a aceleração das concessões à iniciativa privada como uma opção para haver aumento dos investimentos e cumprimento da meta cheia de superávit primário. A questão, segundo ele, é que o governo parece pouco disposto a caminhar nessa direção.
Pessôa diz que o governo petista tem credibilidade na área fiscal: em nove anos, em apenas dois a meta não foi cumprida. A primeira, em 2009, por causa da crise global e dos incentivos concedidos para reaquecer a atividade econômica. A segunda vez foi em 2010, em decorrência do ciclo eleitoral, que, segundo Pessôa, é parte inerente ao processo democrático. "Se o governo disser que irá cumprir a meta do superávit primário, eu acredito." A maioria dos analistas, porém, não tem essa avaliação - as instituições ouvidas te pelo BC projetam 2,8% do PIB.
Em entrevista ao Valor também publicada ontem, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, diz que o principal desafio fiscal de 2012 é auxiliar o crescimento. Para Loyola, é um sinal de que o governo tem hoje um excesso de metas. Além da de inflação, a única oficial, há metas informais para crescimento, juros e câmbio, diz ele, que vê dificuldade para conciliar todas elas.
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