quarta-feira, 3 de junho de 2015

Parceia estratégica com a China



Parceria estratégica com a China
*José Álvaro de Lima Cardoso
**Adhemar S. Mineiro    
     O Brasil e China selaram recentemente 35 acordos que irão representar US$ 53 bilhões (ou aproximadamente R$ 160 bilhões) para investimentos diretos em infraestrutura e logística no Brasil. Os acordos são bastante amplos, abrangendo áreas como planejamento estratégico, transportes, infraestrutura, energia e agricultura.  Vão desde a compra de 40 aeronaves da Embraer, até a abertura do mercado chinês para a carne bovina produzida no Brasil. Outro ponto estratégico central nesse conjunto de acordos foi um salto de qualidade definido na operação para o lançamento de satélites em parceria. O empreendimento começa a sair da troca de dados de Ciência e Tecnologia para a fase propriamente comercial. Esses acordos, anunciados em maio, se seguiram a um empréstimo de US$ 3,5 bilhões feito a Petrobrás por um banco estatal chinês (Banco de Desenvolvimento da China) no começo de abril desse mesmo ano.
     Os acordos firmados incluem um financiamento de US$ 7 bilhões para a Petrobrás, que necessita de dinheiro barato para suportar os vultosos investimentos em expansão da produção e beneficiamento de petróleo e seus derivados. A previsão é que com a concretização dos acordos, o comércio bilateral (US$ 79 bilhões de dólares em 2014), alcance nos próximos anos US$ 100 bilhões, alavancando o desenvolvimento do Brasil e beneficiando toda a América do Sul.
     Dentre todos os acordos anunciados o projeto mais ousado e significativo é o da Ferrovia Transcontinental, ligando o litoral brasileiro ao Peru, oferendo assim uma nova e mais eficiente saída do Brasil para o Oceano Pacífico (já está em funcionamento desde 2010 a Rodovia Interocenânica, ou Estrada do Pacífico, ligando o Acre aos portos peruanos). Não ter uma saída para o Pacífico obviamente representa uma importante limitação do Brasil do ponto de vista comercial. A ferrovia terá o objetivo estratégico fundamental de transportar em suas composições grãos e manufaturas produzidos no Brasil, de que tanto necessita a China. A previsão inicial é de que a ferrovia comece no Rio de Janeiro, atravesse a Floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes e chegue à costa peruana no Oceano Pacífico. É uma obra estratégica do ponto de vista econômico, geopolítico e social, para o Brasil e o Sul da América. 
     Estes acordos se inscrevem em uma estratégia mais geral da China, que tem procurado uma aproximação maior com toda a América Latina e se comprometeu em janeiro último (durante um fórum de países latino americanos, Celac) de investir cerca de US$ 250 bilhões em projetos de infraestrutura no Continente, na próxima década. Para o Brasil estes acordos são fundamentais, principalmente neste momento em que setores articulados internacionalmente tentam destruir a indústria brasileira de petróleo e inviabilizar financeiramente a Petrobrás, utilizando como pretexto o combate à corrupção.
     Os acordos com os chineses revelam que Pequim reconhece a importância da América do Sul, e do Brasil, na geopolítica mundial. A China demonstra que conhece bem as potencialidades do Brasil, em termos de território, população, economia e recursos naturais. Para o Brasil esse tipo de parceria é estratégica sob todos os pontos de vistas, a começar pela necessidade de diversificarmos alternativas de obtenção de financiamento internacional. Os BRICS (do qual Brasil e China fazem parte) estão estruturando um fundo de reserva de bilhões de dólares, que representa uma alternativa ao FMI e ao Banco Mundial, e também um Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS), para financiar infraestrutura a nível mundial. Resta prestar atenção para que essa relação seja uma relação de construção de um desenvolvimento mútuo não desigual, pois muito da parceria estratégica hoje desenhada reforça o papel do Brasil de fornecedor de commodities energéticas, minerais e agropecuárias, e a China como fornecedor de produtos manufaturados, um projeto desequilibrado que já conhecemos do passado, com europeus, estadunidenses e japoneses.
*Economista e supervisor técnico do DIEESE.
**Economista e técnico do DIEESE/REBRIP.

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