Parceria
estratégica com a China
*José Álvaro de Lima Cardoso
**Adhemar S. Mineiro
O Brasil
e China selaram recentemente 35 acordos que irão representar US$ 53 bilhões (ou
aproximadamente R$ 160 bilhões) para investimentos diretos em infraestrutura e
logística no Brasil. Os acordos são bastante amplos, abrangendo áreas como
planejamento estratégico, transportes, infraestrutura, energia e
agricultura. Vão desde a
compra de 40 aeronaves da Embraer, até a abertura do mercado chinês para a
carne bovina produzida no Brasil. Outro ponto estratégico
central nesse conjunto de acordos foi um salto de qualidade definido na
operação para o lançamento de satélites em parceria. O empreendimento começa a
sair da troca de dados de Ciência e Tecnologia para a fase propriamente
comercial. Esses acordos, anunciados em maio, se seguiram a um empréstimo de
US$ 3,5 bilhões feito a Petrobrás por um banco estatal chinês (Banco de
Desenvolvimento da China) no começo de abril desse mesmo ano.
Os acordos firmados incluem um financiamento de US$ 7 bilhões para a Petrobrás,
que necessita de dinheiro barato para suportar os vultosos investimentos em
expansão da produção e beneficiamento de petróleo e seus derivados. A previsão
é que com a concretização dos acordos, o comércio bilateral (US$ 79 bilhões de
dólares em 2014), alcance nos próximos anos US$ 100 bilhões, alavancando o
desenvolvimento do Brasil e beneficiando toda a América do Sul.
Dentre todos os acordos anunciados o projeto mais ousado e significativo
é o da Ferrovia Transcontinental, ligando o litoral brasileiro ao Peru,
oferendo assim uma nova e mais eficiente saída do Brasil para o Oceano Pacífico
(já está em funcionamento desde 2010 a Rodovia Interocenânica, ou Estrada do
Pacífico, ligando o Acre aos portos peruanos). Não ter uma saída para o
Pacífico obviamente representa uma importante limitação do Brasil do ponto de
vista comercial. A ferrovia terá o objetivo estratégico fundamental de
transportar em suas composições grãos e manufaturas produzidos no Brasil, de
que tanto necessita a China. A previsão inicial é de que a ferrovia comece no
Rio de Janeiro, atravesse a Floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes e
chegue à costa peruana no Oceano Pacífico. É uma obra estratégica do ponto de
vista econômico, geopolítico e social, para o Brasil e o Sul da América.
Estes acordos se inscrevem em uma
estratégia mais geral da China, que tem procurado uma aproximação maior com
toda a América Latina e se comprometeu em janeiro último (durante um fórum de
países latino americanos, Celac) de investir cerca de US$ 250 bilhões em
projetos de infraestrutura no Continente, na próxima década. Para o Brasil
estes acordos são fundamentais, principalmente neste momento em que setores
articulados internacionalmente tentam destruir a indústria brasileira de
petróleo e inviabilizar financeiramente a Petrobrás, utilizando como pretexto o
combate à corrupção.
Os acordos com os chineses revelam que
Pequim reconhece a importância da América do Sul, e do Brasil, na geopolítica
mundial. A China demonstra que conhece bem as potencialidades do Brasil, em
termos de território, população, economia e recursos naturais. Para o Brasil
esse tipo de parceria é estratégica sob todos os pontos de vistas, a começar
pela necessidade de diversificarmos alternativas de obtenção de financiamento
internacional. Os BRICS (do qual Brasil e China fazem parte) estão estruturando
um fundo de reserva de bilhões de dólares, que representa uma alternativa ao
FMI e ao Banco Mundial, e também um Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos
BRICS), para financiar infraestrutura a nível mundial. Resta prestar atenção
para que essa relação seja uma relação de construção de um desenvolvimento
mútuo não desigual, pois muito da parceria estratégica hoje desenhada reforça o
papel do Brasil de fornecedor de commodities energéticas, minerais e agropecuárias,
e a China como fornecedor de produtos manufaturados, um projeto desequilibrado
que já conhecemos do passado, com europeus, estadunidenses e japoneses.
*Economista
e supervisor técnico do DIEESE.
**Economista
e técnico do DIEESE/REBRIP.
Nenhum comentário:
Postar um comentário