J. Carlos de Assis* no site Carta Maior
Deixo claro que isso não se deve exclusivamente às escolhas ministeriais. Com a situação que temos na balança em conta corrente (US$ 86 bilhões de déficit) não temos graus de liberdade para adotar uma política keynesiana de estímulo à demanda agregada através de políticas monetária, fiscal e cambial. Se tentarmos baixar muito os juros, o que seria desejável para retomar o crescimento, correríamos o risco de uma crise no balanço de pagamentos com a brusca redução de entrada e, ainda pior, com um grande fluxo de saída de capitais.
Se tentássemos jogar para os ares o superávit primário e ampliar o gasto público de forma a sustentar um rápido crescimento da demanda agregada e do investimento, correríamos dois riscos, um objetivo, outro de fundo ideológico. Objetivamente, na vigência de taxas de juros básicas muito altas, como é o nosso caso, os estímulos fiscais não funcionam, ou funcionam ao contrário: o gasto público adicional ou é esterilizado pela taxa de juros ou se converte em demanda externa, agravando a crise na balança em conta corrente.
O segundo risco é de natureza ideológica, mas sendo capaz de converter-se rapidamente em um problema objetivo, ou seja, a desclassificação pelas agências de risco. Sabemos muito bem que, em recessão, o aumento do déficit público não gera inflação necessariamente. Entretanto, usando o pretexto da inflação, as agências de risco agem como vigilantes da confiabilidade do déficit e da dívida pública. Enquanto isso fosse apenas um problema ideológico, poderíamos simplesmente lavar as mãos e ir adiante. Mas não é o caso.
Uma desclassificação implica o aumento do custo da tomada de novos empréstimos externos e de renovação das dívidas antigas para governo, empresas e instituições financeiras. Seria traumático para o setor privado e tremendamente desconfortável para o setor público. Podemos não gostar disso, mas isso é da natureza de uma ordem global denominada “arquitetura financeira internacional”, da qual nós só escaparemos – e aqui estou adiantando um tema para outro artigo, este mais otimista – no contexto de um aprofundamento das relações com os BRICS.
Temos uma estreita margem de manobra no câmbio. Se desvalorizarmos mais, abriremos um pouco o espaço para as exportações de manufaturados: isso seria fácil, pois bastaria que o Banco Central manobrasse o pião na compra e venda de dólares. Entretanto, não é uma receita fácil porque, se usada para além de um nível que acomode mudanças de preços relativos, pode gerar inflação: os preços externos se tornarão mais caros internamente, e grande parte dos preços internos se alinharão aos internacionais que seriam mais elevados.
Tudo isso é para dizer que, no campo macroeconômico, não temos mesmo muita margem de manobra para superar a crise de estagnação em que estamos. Contudo, o fato de respeitarmos as margens não significa que automaticamente vamos fazer as coisas certas. Concordo com muita coisa que o ministro Joaquim Levy disse em duas grandes entrevistas, uma no Valor e outra no Estadão. Refletem o mesmo realismo exposto acima. Entretanto, algumas declarações parecem sair do obituário revigorado do Consenso de Washington.
Vou me ater apenas a um ponto: o que ele chama de “dualidade” do mercado de crédito. Ele propõe acabar com essa “dualidade” a partir de uma analogia: teríamos acabado com a dualidade no mercado de trabalho e a dualidade no mercado de câmbio, o que resultara bom para todo mundo. Ora, é falso que tenhamos acabado com a dualidade no mercado de trabalho. O mercado de trabalho informal reduziu-se, mas não acabou. E reduziu-se não em função de qualquer mudança institucional relevante – exceto da Lei das Domésticas -, mas por força do aumento do emprego e da renda média que turbinaram os serviços, por onde se ampliou a formalização. Mesmo a dualidade no câmbio não acabou; temos câmbio para turismo e câmbio para comércio. E isso não dói em ninguém.
O que significa exatamente acabar com a “dualidade” no mercado de crédito? Acaso significa eliminar o crédito público como instrumento de política, inclusive de política anticíclica, como aconteceu notoriamente com imensas vantagens para o Brasil em 2009 e 2010? E o que faríamos, eliminando a “dualidade”, com os fundos públicos de longo prazo administrados pelo BNDES e Caixa? Suponho que serão repartidos com os bancos privados para que eles apliquem à taxa que quiserem, a exemplo das pornográficas taxas atuais, apropriando-se de uma margem razoável. Isso democratizaria o crédito? Acho que democratizaria o alto custo do crédito!
O fato de essa ser uma posição essencialmente ideológica – não quero levantar suspeitas de favorecimento aos bancos privados - me deixa um pouco tranquilizado, pois acredito que as forças reais presentes na sociedade brasileira, a despeito dos banqueiros que a inspiram, não a deixarão acontecer por razões de sobrevivência. O outro ponto ideológico da entrevista de Levy é a clara defesa de acordos de livre comércio com os Estados Unidos e a União Europeia. Tudo isso se originou no falido Consenso de Washington, e tudo isso está sendo revivido tendo em vista a profundidade da crise em que estamos e certo desespero diante dela por parte de pessoas com a responsabilidade de enfrentá-la. A tendência, nesse caso, é se encostar em alguma autoridade externa para se legitimar num ambiente indefinido. Da mesma forma que a “dualidade” do crédito, os tratados de livre comércio provavelmente não acontecerão, não porque sejam “tecnicamente” equivocados, mas por razão de sobrevivência da indústria brasileira.
Em qualquer hipótese, o melhor caminho que o Ministro deve tomar é o da prudência. Lembro a ele um incidente que me foi relatado por Luís Pinguelli Rosa, então presidente da Eletrobrás nos idos de 2003 e 2004. Pinguelli estava determinado, por razões essencialmente técnicas, a construir a segunda etapa de Tucuruí. Tinha os estudos e todo o dinheiro necessário. Joaquim Levy, então secretário do Tesouro, o procurou e tentou convencê-lo muito cortesmente, por todos os meios, a abandonar o projeto. Certamente queria o dinheiro para fazer superávit primário dentro da política de Palocci. Pinguelli resistiu, a obra começou e afinal o potencial de Tucuruí foi duplicado. Se isso não tivesse acontecido, estaríamos hoje em risco de racionamento. E a situação fiscal não seria diferente de hoje. Portanto, ministro Levy, aja com prudência, veja o que vai cortar!
*Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.
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