Por Rennan Martins | Niterói, 03/01/2015, no Blog dos Desenvolvimentistas
Transcrito do Viomundo
O ano de 2014 foi marcado por dois acontecimentos que afetam
frontalmente a Petrobras, maior e mais importante estatal brasileira.
Foram estes a enorme queda no preço do petróleo e a vinda à tona do já
antigo cartel e propinoduto que azeitava executivos de empreiteiras,
altos funcionários e partidos políticos.
Chamado de “petrolão” por razões puramente propagandísticas, o que
vimos foi o uso indiscriminado deste esquema para explicar todo e
qualquer fato negativo que envolvesse a Petrobras. Bastante clara também
foi a tentativa de emplacar no atual governo federal toda a culpa por
esse esquema atuante desde no mínimo a década de 90.
A fim de trazer uma informação contextualizada e menos influenciada
por interesses escusos, entrevistei o conselheiro do Clube de Engenharia
e colunista do Correio da Cidadania, Paulo Metri. Atento a toda a
movimentação nacional e internacional do setor, Metri enxerga uma
estratégia geopolítica em torno da baixa no preço do barril, considera
que o risco de sanções judiciais influencia nas ações da estatal e diz
ainda que os últimos governos – tanto tucanos quanto petistas – erraram
em fazer tantos leilões de áreas de reservas petrolíferas e de gás
natural.
Confira:
Este ano ocorreu uma queda substancial no preço do barril de petróleo. Como explicar este fato?
Metri: Trata-se de uma manobra de países grandes exportadores de
petróleo para forçar uma baixa no preço do barril. A pergunta que todos
fazem no momento é: “Por que os grandes exportadores estão inundando o
mercado mundial de petróleo?”
Não se trata da entrada de um novo país exportador querendo colocar
seu produto e, assim, induzindo a baixa. Também, petróleo não é um
produto com alto grau de elasticidade que, com o barateamento do preço
do barril, seu consumo passa a ser maior e, desta forma, os países
exportadores não sofrem grande perda nas suas receitas.
Por outro lado, a OPEP existe desde os anos 1960 e é um cartel dos
grandes exportadores atuando às claras. Ela sabe atuar para segurar o
preço do barril a um nível escolhido. Fizeram isto muito bem em 1973 e
1979.
Então, restam, como explicações plausíveis para o aumento da oferta
mundial de petróleo, que resultou na queda do preço do barril, duas
hipóteses: (1) “dumping” promovido para matar a concorrência do óleo e
gás de xisto e (2) jogada estratégica para criar grande dificuldade
econômica a países com forte concentração da receita do petróleo no
total das exportações.
Que países sentem os efeitos dessa baixa?
Metri: Sentem, como efeito positivo, todos os grandes importadores de
petróleo do mundo. Por exemplo: Estados Unidos, China, Alemanha, Japão,
Índia e França. Inclusive, esta queda no preço do barril deverá ajudar a
recuperação da economia mundial.
Sentem, como efeito negativo, como já foi dito no item anterior, os
exportadores nos quais a receita do petróleo é preponderante no total
das exportações. Como exemplo, creio que todos que compõem a OPEP:
Angola, Argélia, Líbia, Nigéria, Venezuela, Equador, Arábia Saudita,
Emirados Árabes Unidos, Irã, Iraque, Kuwait e Catar. Além destes, a
Rússia, que não é membro da OPEP.
Porque a OPEP está mantendo a superprodução? Que países a bancam? Quem são os beneficiados dessa medida?
Metri: Houve uma reunião recente da OPEP, na qual foi decidido, por
maioria, que os países continuariam com as cotas de exportação que
levaram à queda do preço do barril. Existia, nesta reunião, uma proposta
da Venezuela para reduzir estas cotas de forma a segurar o preço do
barril em torno de US$ 100. Ela foi derrotada.
A informação de quais países da OPEP bancaram esta decisão não é
conhecida. Mas, fala-se que foram principalmente os países do Oriente
Médio, sob a liderança da Arábia Saudita.
Quanto aos beneficiários desta medida, já foi respondido na pergunta anterior.
Uma pergunta que pode ser feita é: “Se os países-membros da OPEP, do
Oriente Médio, saem prejudicados também, com menores receitas de
exportação, porque eles forçaram a queda do preço do barril?” A única
resposta plausível é que se trata de uma jogada geopolítica, envolvendo
potências mundiais para aumentar seus poderios a nível internacional. E
os países do Oriente Médio teriam compensações. Eventualmente, as
compensações seriam dadas somente às oligarquias dominantes destes
países.
Assim, os países alvo, que sairão muito prejudicados desta possível
articulação, são Rússia, Irã e Venezuela, “casualmente” países desafetos
dos Estados Unidos.
Em relação ao fracking. O petróleo de xisto tem potencial de
fazer frente ao tradicional? Que efeitos geopolíticos são esperados com a
massificação dessa prática?
Metri: No artigo de André Garcez Ghirardi, intitulado “Petróleo: a
virada nos mercados globais e o pré-sal”, é dito que, tomando um preço
médio do barril de US$ 85 nos próximos quatro anos, “estima-se que ainda
permanecem claramente viáveis os melhores empreendimentos petroleiros
fora da OPEP – a exemplo do Golfo do Texas nos EUA – assim como a
produção brasileira na Bacia de Campos e no pré-sal de Santos, e ainda
as áreas não convencionais (xisto) mais produtivas dos EUA, a exemplo da
bacia de Bakken”.
Ele continua dizendo: “Mas o preço de 85 dólares seria insuficiente
para viabilizar a produção de petróleos mais caros como o não
convencional (xisto) de áreas menos produtivas dos EUA (Woodford no
Oklahoma) ou o pré-sal de Angola, ou as areias betuminosas canadenses,
ou mesmo o petróleo ultra-pesado da Faixa do Orinoco na Venezuela.”
Uma das conclusões destas afirmações é que cada reserva é um caso
específico, que deve ser analisada isoladamente. Grandes generalizações
não são recomendáveis.
Como ficam a Petrobras e o Pré-Sal neste quadro? A exploração do Pré-Sal permanecerá viável?
Metri: É preciso fazer análises também para valores menores que US$
85/barril. Fala-se até que o barril pode se estabilizar em US$ 60.
A Petrobras, por razões empresariais, não divulga o custo do barril
do Pré-Sal. Entretanto, conhece-se como custo médio o valor de US$ 45.
Além das condições de cada reservatório, os tributos (royalties,
participação especial, contribuição para o Fundo Social e outros),
dependem se a área foi concedida, cedida onerosamente ou entregue
através de contratos de partilha. Então, estes US$ 45 podem variar
muito. Mas, mesmo para o pior caso, o barril não deve ultrapassar US$
60.
Quanto aos campos da bacia de Campos, o custo médio do barril está em US$ 15 e, assim, não há a mínima preocupação.
Como e em que medida os escândalos da Lava-Jato contribuem com a desvalorização da Petrobras?
Metri: A desvalorização das ações da Petrobras é, no meu
entendimento, relacionada com a possibilidade dela ter que pagar altas
indenizações da Justiça, a dúvida se o governo brasileiro conseguirá
sustar a avalanche de roubos (que a nova diretoria de Governança não vai
sustar) e, também, a manipulação de grandes investidores.
Um destes investidores, quando compra uma ação da Petrobras, é porque
a perspectiva de lucros futuros e de crescimento do patrimônio
justificará a permanência do dinheiro nela aplicado. E ela, ainda hoje,
se sai muito bem nesta avaliação.
Os grandes investidores sabem que, quando as massas, sem fazer esta
análise, em movimento emocional, passam a vender, é o momento de
comprar.
Quanto ao caixa da empresa. É verdade que a Petrobras está numa situação financeira dificultosa?
Metri: Está, sim, em uma situação financeira apertada porque os
governos FHC, Lula e Dilma já colocaram mais de 1.000 áreas do
território nacional, propícias a terem reservas de petróleo e gás, em
leilão através de 12 rodadas da ANP, e graças a um esforço gigantesco da
Petrobras, para não deixar nosso petróleo ser usufruído por
petrolíferas estrangeiras, ela arrematou muitas destas áreas.
A Petrobras, com as reservas conhecidas até 2007 (ano da descoberta
do Pré-Sal), abastece o Brasil durante 17 anos. Com as reservas do
Pré-Sal pertencentes à Petrobras, o país estará abastecido por mais de
50 anos. Então, não havia necessidade de tantos leilões.
O país poderia, através da Petrobras, produzir petróleo para
exportação. Mas, a exportação só deveria acontecer se o fluxo de caixa
da empresa gerasse os recursos necessários para a implantação dos novos
campos de exportação.
Ou seja, a velocidade de leilões e da implantação de campos requerida
pela ANP devia se adequar à disponibilidade financeira da Petrobras.
Implícito está que fazer leilão para entregar o petróleo para empresas
estrangeiras que irão exportá-lo é o pior dos mundos.
Finalmente, registre-se, por tudo que foi explicado, que a corrupção
não é a causa principal para a Petrobras estar com dificuldade
financeira de curto prazo.
Porque a retórica da crise na nossa mais importante estatal é tão explorada? A que interesses ela serve?
Metri: Ao capital internacional, principalmente às petrolíferas
estrangeiras, e aos seus aliados no país, verdadeiros traidores do povo
brasileiro.
Serve, também, para a direita conseguir ludibriar incautos para, eventualmente, passar a deter o poder político do país.
A grande mídia reverbera a propaganda privatista? Porque?
Metri: A grande mídia é parte integrante do grande capital, principalmente daquele internacional.
O setor privado é menos corrupto que o público?
Metri: O corruptor, em todas as denúncias que nos chegam, é sempre um
ente privado. Nunca vi um corruptor estatal. O corruptor (o agente
ativo da corrupção) é tão corrupto quanto o agente passivo da corrupção,
que é um funcionário do Estado.
No entanto, há roubos também dentro de empresas privadas. Quantas
vezes ouve-se dizer que um sócio roubou o outro sócio? E o contador que
rouba a empresa? O caso mais didático de roubo dentro de empresas
privadas, que conheço, foi o dos CEO de empresas americanas, durante a
crise de 2008, que deixaram suas empresas à beira da falência, mas eles
tiveram excelentes remunerações.
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