quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Nada é tão ruim que não possa piorar.




                                                                                 José Álvaro de Lima Cardoso.
     Para os povos dos países sul-americanos, o golpe no Brasil representa um atraso dramático, pela importância quase que natural que tem o país na Região. Com 48% da área total da América do Sul e praticamente metade da população da Região, tudo de importante que acontece no Brasil, em política, economia ou sociedade, tem um peso enorme na América do Sul. Um dos maiores equívocos das forças populares no Brasil, assim como dos governos anteriores ao golpe, foi supor que o imperialismo norte-americano iria observar de braços cruzados o desenvolvimento de governos com vocação popular no Brasil, ainda que resultados de coalizões com o empresariado e forças conservadoras. A própria agressividade do imperialismo, em relação aos governos legitimamente eleitos da Venezuela, era uma amostra eloquente (e bastante recente) de que qualquer desvio da linha estabelecida pelo imperialismo, iria despertar forte oposição do capital internacional e dos Estados Unidos.  
     Um dos marcos importantes das demonstrações de independência foi a discussão e a votação da lei de Partilha em 2010, que instituiu regras mais soberanas no marco regulatório de exploração do petróleo, nos poços do pré-sal no Brasil. A aprovação foi feita contra a vontade das multinacionais do petróleo, especialmente as norte-americanas, como revelam as informações acerca das movimentações de bastidores dos executivos das petrolíferas. Segundo divulgação do site WikiLeaks, em 2009 o então pré-candidato à Presidência, José Serra, prometeu à representante da Chevron, que iria alterar as regras da Lei, em benefício das multinacionais, caso vencesse as eleições.
     Como em se tratando de petróleo, poucas coisas acontecem por acaso, Serra virou ministro do governo ilegítimo, e uma das primeiras ações dos golpistas foi, aproveitando o conteúdo de um projeto de Serra no Senado, castrar a lei de Partilha, no que ela tinha de essencial: a) desobrigaram a Petrobras de atuar com exclusividade de operação nos campos do pré-sal; b) reduziram as exigências de conteúdo local; c) recentemente ampliaram para 20 anos o Repetro - regime aduaneiro especial, que permite a importação de equipamentos específicos para serem utilizados diretamente nas atividades de pesquisa e lavra. 
     Está em curso a crise mais grave da história do capitalismo, com queda da taxa de lucro, financeirização e rápida inovação tecnológica, com o advento da quarta revolução industrial. Neste cenário as multinacionais e os países ricos agem para deixar livres os acessos para as fontes de matérias primas, em todo o mundo. Governos com algum grau de soberania, representam um obstáculo a essa estratégia e à liberdade que as multinacionais almejam para a realização de seus lucros.
     O Brasil, e a América do Sul, são ricos em petróleo, água, nióbio, ferro, etc., além de toda a biodiversidade da Amazônia. Daí o interesse do grande capital em financiar grupos de direita e a extrema direita em toda a América Latina. Dedicando, claro, neste momento, uma “atenção especial” à Venezuela, que, detentora da maior jazida de petróleo, água, vários minerais e uma das maiores reservas de Coltan[1] do mundo, se recusa, com muito destemor, a se postar de joelhos para o Império do Norte.   
     No Brasil os operadores do golpe, além de estarem destruindo os mecanismos de que o Estado dispunha para promover a recuperação da economia (por exemplo, o BNDES), estão vendendo o que podem, e de forma muito rápida. É o caso do leilão recente das empresas elétricas de Minas Gerais, vendida por R$ 12,1 bilhões, valor equivalente a 2% do que o Brasil gasta com serviços da dívida pública anualmente. O imperialismo tem projeto estratégico, mas não os seus prepostos, os que operam o golpe no Brasil. Os R$ 12,1 bilhões não irão para investimentos em infraestrutura ou qualquer outra ação estratégica, mas vão imediatamente ajudar a cobrir o rombo do déficit público, de R$ 159 bilhões, o maior da história. Ou seja, vendem o almoço para poder jantar.
      O déficit púbico no Brasil, como se sabe, decorre fundamentalmente do pagamento dos serviços da dívida pública que, em 12 meses, segundo o último dado divulgado, alcançaram R$ 432,2 bilhões, impressionantes quase 7% do PIB. O Brasil é o pais que mais gasta com serviços da dívida do mundo. E a narrativa do governo e dos empresários é de que o culpado pelo déficit público são os gastos sociais e os salários do funcionalismo público. Narrativa essa devidamente empurrada goela abaixo da sociedade.
     Somente a espinha dorsal das medidas golpistas, o cerne do golpe (EC da Morte, terceirização sem limites, destruição da Petrobrás, contrarreforma trabalhista, e a liquidação da seguridade social), já representará uma das maiores transferências de riqueza dos trabalhadores para as burguesias nacionais e internacionais, já ocorrido na história. É difícil imaginar que, conforme tais medidas forem minando as condições de vida da maioria da população, não irá haver reação popular. Afinal, além de serem políticas que empobrecerão dramaticamente o povo, elas vêm do governo mais entreguista e impopular da história. Neste contexto o risco de golpe militar, visando liquidar por completo a democracia e conter uma eventual reação popular, é bastante concreto. A história do Brasil nos ensina que este é um perigo que não deve ser subestimado.    
                                                                                 *Economista.


[1] Mineral composto principalmente por outros dois minerais, columbite e tantalite. Da columbite é possível extrair o nióbio, e da tantalite extrai-se o tântalo. O Coltan. é muito utilizado na maioria dos eletrônicos portáteis, fundamentais para o avanço de todos os tipos de tecnologias.

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