Extraído da Carta Capital
Estrada de ferro que ligará Ferrovia Norte-Sul à costa do
Pacífico será financiada pela China, com interesse nas matérias-primas
do Brasil
Dentre os 35 acordos firmados entre Brasil e China durante a visita do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, ao Brasil em maio, o de maior magnitude é a Ferrovia Transoceânica.
Além da compra de 80% do banco brasileiro BBM pelo chinês Bank
of Communications e acordos envolvendo 53 bilhões de reais, em áreas de
planejamento estratégico, infraestrutura, transporte, agricultura,
energia, mineração, ciência e tecnologia e comércio, o Brasil pode
conseguir, através da China, realizar o sonho de ter uma porta de acesso
ao Pacífico. Chamada de Ferrovia Transoceânica, Bioceânica ou mesmo
Transcontinental, a estrada de ferro partiria do Porto do Açu, no estado
do Rio de Janeiro, cruzando todo o País até desembocar nos portos
peruanos.
O acordo envolvendo os três países está dentro do plano de cooperação Brasil-China
até 2021 e tem custo estimado entre 4,5 bilhões e 10 bilhões de
dólares. O projeto ambicioso da Transoceânica permitirá que o Brasil
exporte via Oceano Pacífico soja e minério de ferro, dois dos seus
principais produtos no comércio com a China.
Além de ser um alicerce importante na integração sul-americana, ao
ligar a região centro-oeste ao Pacífico, a ferrovia é uma estratégia
para o barateamento do frete e redução do tempo de escoamento de outros
produtos brasileiros para exportação, como grãos e carne.
A ligação da capital de Rondônia ao Pacífico significa ainda aos
produtores brasileiros uma alternativa ao escoamento via Atlântico e
através do Canal do Panamá para o mercado chinês.
Considerada pela própria presidenta Dilma Rousseff como “estratégica
para o Brasil”, a ferrovia é também importante para a China, uma vez que
o gigante asiático é um grande consumidor de matérias-primas
brasileiras. Sob o projeto da ferrovia, Pequim pretende aumentar sua presença econômica no continente e facilitar o acesso às commodities da região sul-americana, ponto de interesse também para o Peru.
A ferrovia que pode chegar a 3,5 mil quilômetros começaria no
norte da costa fluminense, atravessando a Floresta Amazônica e a
Cordilheira dos Andes até terminar no litoral peruano banhado pelo
Pacífico.
O projeto ganhou novo impulso com a visita de Li ao Brasil,
Colômbia, Peru e Chile em maio, quando foram confirmados os estudos de
viabilidade da conexão ferroviária entre o Atlântico e o Pacífico.
Mas a construção da estrada, que representaria um novo patamar
nas relações China-Brasil, teria de superar grandes obstáculos não
apenas em matéria de engenharia (ao passar pelos Andes, por exemplo),
como também desafios ambientais e políticos. Pela provável rota que
terá, é possível que a Ferrovia Transoceânica passe por locais próximos
ou dentro de territórios indígenas e áreas de preservação ambiental.
De Rondônia até a cidade de Pucallpa, no Peru, há ao menos três
reservas indígenas no Acre – a Terra Indígena Poyanawa, com 566
habitantes e duas aldeias; a Terra Indígena Jaminawa do Igarapé Preto,
com 211 moradores e quatro aldeias das etnias jaminawá e jaminawá-arara;
a Terra Indígena Nukini, com 672 habitantes e três aldeias –, além do
Parque Nacional da Serra do Divisor, com mais de 846 mil hectares, 1.233
espécies animais, sendo algumas ameaçadas de extinção.
Os estudos finais sobre a viabilidade da Ferrovia Transoceânica só
ficarão prontos em maio do ano que vem. Mas o governo brasileiro vem
deixando cada vez mais claro que aposta no projeto.
No novo pacote de concessões, anunciado em 9 de junho, Dilma Rousseff
ressaltou que o plano de privatizações de 198,4 bilhões de reais
priorizará as ferrovias, que terão concessões no valor de 86,4 bilhões
de reais.
O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, ressaltou em 17 de junho
que a extensão da malha ferroviária, passando por Mato Grosso (maior
produtor de grãos), Rondônia e Acre até chegar ao Peru, é de fundamental
importância para o Brasil e pode movimentar o equivalente a 40 bilhões
de reais em investimentos.
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