Artigo transcrito do Portal Desacato
“A demência da nova direita brasileira
está realmente abusando. Alguns cartazes e gritos de guerra trazidos a
público no Brasil em 16 de agosto de 2015 lembram a operação anterior ao
golpe contra o governo Salvador Allende, derrubado em
11 de setembro de 1973. No Brasil do terceiro turno, temos o desprazer
de ler frases como “Foda-se a Venezuela”, o clássico “Vai para Cuba”, ou
então coro político cantando: “Pé na bunda dela, isso aqui não é a
Venezuela!”. E, obviamente, lado a lado com os neoliberais marcham
saudosos da ditadura brasileira, incluindo faixas em inglês pedindo
intervenção do Comando Sul dos EUA no Brasil”, escreve Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais.
Eis o artigo.
Em tempos de avançada da nova direita ideológica
brasileira, nota-se o retorno de uma velha prática política
latino-americana. Na metade do século XX vivíamos na América Latina um paradoxo.
Por um lado, havia alguns governos com cortes nacionalistas e apelos
populares (e populistas, por mais que se reconheça a controvérsia em
torno deste termo). O exemplo acabado era o governo de Juan Domingo Perón na Argentina (ao menos no período 1946-1955), mas poderíamos reparar o mesmo no Brasil de Getúlio Vargas, em especial no seu segundo governo para o qual fora eleito em 1950 e derrubado por um golpe que o levara ao suicídio em 24 de agosto de 1954.
Vale observar um detalhe nas trajetórias. Por mais que Getúlio
tenha influenciado líderes semelhantes no Continente, é preciso
constatar que o apelo populista implica mobilização das massas
organizáveis e em disponibilidade, e Vargas só usara este recurso no
período de 1930 a 1945 quando do final da ditadura do Estado Novo (período de 1937 a 1945), quando estabelecera uma aliança com o Partido Comunista do Brasil (então PCB) e conclamara o trabalhismo para exigir o Queremos Vargas.
Assim, não seria equivocado considerar o auge do populismo varguista
justamente com o período mais tenso de sua trajetória, antes de seu suicídio. As coincidências não param por aí. Perón também foi derrubado por um golpe militar, conhecido como Revolução Libertadora,
em 16 de novembro de 1955. Este paradoxo se reproduzia em maior ou
menor medida, fazendo da emancipação nacional o fator a agregar as
massas, infelizmente superando a luta de classes e popular, ao menos em
sua forma direta.
Assim, o nacionalismo latino-americano, de raízes anti-coloniais e antiimperialistas, fora revivido em período de Guerra Fria, trazendo à tona o conflito entre “gorilas” x “populistas”. No Brasil, esta versão ganhara o contorno do conflito entre “nacionalistas” x “entreguistas”, cujo termo equivalente em castelhano é o de “vende pátria”. Dentro das Forças Armadas (FFAA) o conflito se dera entre as alas Nacionalistas (mais vinculadas ao varguismo ou ao PCB) e tendo em contra primeiro a chamada Cruzada Democrática, mas cujo embrião pariu o ovo da serpente, com o partido militar e os conspiradores que resultaram no golpe militar de 1964 e o regime ditatorial instalado pelos altos mandos castrenses (1964-1985).
Como caracterização poderíamos afirmar a prática do gorilismo
como sendo essencialmente uma ação política com identidade anti
latino-americana, como uma espécie de ódio auto-proclamado a si mesmo
(nós mesmos) e com evidentes contornos racistas. O
contraponto ao gorilismo seria o ideal de progresso e desenvolvimento
inclusivo, refletido desde o pensamento cepalino (inspirado nas teses da
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe,CEPAL, órgão permanente das Nações Unidas), passando pelas diversas correntes do estruturalismo e também manifestado na Teoria da Dependência, ou nas teorias da dependência e do subdesenvolvimento. Os latino-americanos integral ou parcialmente alinhados com o “Ocidente”
querem uma integração de nossos países de forma subordinada e submissa,
e este marco tem uma história pregressa que vem de muito antes das
relações carnais com os EUA (manifesta pelo ex-presidente argentino, o
mafioso Carlos Saúl Menem) ou asneiras semelhantes.
Infelizmente, este alinhamento submisso
se mantem como expectativa da boa política através da restauração
imperialista. As práticas gorilas, como as manifestadas nas ruas do Brasil quando a direita ideológica e neoliberal
sai às ruas aos domingos, após a missa e antes do futebol com direito a
transmissão dos “protestos” em rede nacional de TV, estão justamente
expressas no afastamento do Brasil para com a América Latina. Quando
muito, esta “nova” direita, uma espécie de versão pós-moderna dos mesmos
Chicago Boys de sempre, faz o elogio da linha chilena, cujo país fora laboratório de sociopatas, alunos de Milton Friedman na Universidade de Chicago, e onde a ditadura militar deAugusto Pinochet foi acompanhada do pior do neoliberalismo.
A demência da nova direita brasileira
está realmente abusando. Alguns cartazes e gritos de guerra trazidos a
público no Brasil em 16 de agosto de 2015 lembram a operação anterior ao golpe contra o governo Salvador Allende,
derrubado em 11 de setembro de 1973. No Brasil do terceiro turno, temos
o desprazer de ler frases como “Foda-se a Venezuela”, o clássico “Vai para Cuba”,
ou então coro político cantando: “Pé na bunda dela, isso aqui não é a
Venezuela!”. E, obviamente, lado a lado com os neoliberais marcham
saudosos da ditadura brasileira, incluindo faixas em inglês pedindo
intervenção do Comando Sul dos EUA no Brasil.
Assim, embora o ministro da Fazenda de Dilma Rousseff em seu segundo mandato, o executivo do sistema financeiroJoaquim Levy, seja ele próprio um autêntico Chicago Boy, isso não basta para aliviar a pressão sobre um governo de centro-direita. Mesmo com Levy tendo obtido seu Ph.D. em economia pela Universidade de Chicago, título obtido em 1993 com a tese “Two empirical tests of exchange rate target zones”, cuja área de concentração é economia internacional , e logo após trabalhado para o FMI de 1992 a 1999, a sanha continua.
A oposição ideológica é tão anti-latinoamericana que identifica as agendas sociais do pacto de classes do lulismo(tímidos
investimentos, cujo montante não se compara com os mais de 40% do
orçamento brasileiro alocado para rolagem da dívida pública, garantindo a
farra dos bancos e agiotas) com as práticas de assistência e
paternalismo promovidas por lideranças de estilo populista e de corte
latino-americano.
Nada poderia ser mais falso e, ao mesmo
tempo, trata-se da desinformação perfeita. Como o
anti-latinoamericanismo brasileiro é parte da formação do país e o
absurdo pacto de independência, onde os patriarcas do novo Império aceitaram
manter a escravidão em troca da integridade territorial do país, é
fácil atingir qualquer governo de centro-esquerda (por mais que este
seja tímido, policlassista e subordinado aos interesses dos agentes
econômicos nacionais) taxando-o de pró América Latina. Logo, em sendo a
favor do Sul, por oposição evidente, estaríamos em contra o “grande irmão do norte”, a matriz do Ocidente contemporâneo localizado no Império dos Estados Unidos.
Não surpreende observar que todas as posições oligárquicas a combater os governos de centro-esquerda na América Latina da virada democrática pós-1998 (primeira eleição de Chávez) reproduzam a mesma linha dos atuais opositores neoliberais. Particularmente nunca acreditei em etapismo, como se o desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo
nos levaria rumo a uma sociedade justa e soberana. Longe disso. Mas, ao
mesmo tempo, seria absurdo não reconhecer a urgente necessidade de,
ainda dentro das condições concretas do capitalismo periférico e
semi-periférico que se pratica na América Latina, é urgente deixarmos de
ancorar as balanças comerciais em venda de produtos primários e na
exploração de recursos minerais e hidrocarbonetos.
Apenas esta constatação já nos coloca em
oposição aos desígnios da superpotência – o império dos EUA – para
nossos destinos. No caso brasileiro não é diferente. Como o Brasil – em
função de sua envergadura e peso relativo – termina sendo o fiel da
balança no Continente, afastar o país da América Latina colocando-o de
costas para os países hermanos é objetivo estratégico e finalista de
qualquer política reacionária promovida por oligarcas latino-americanos e
que odeiam suas/nossas próprias raízes.
Foto: Antônio Cruz. Agência Brasil.

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