1. Os países
latino-americanos ou a maioria deles optaram por
um modelo mais intervencionista e considerado
desenvolvimentista, com foco maior no social. Exemplos
como Venezuela, Bolívia e até recentemente o Brasil,
podem servir de paradigma para um novo rumo, entre
capitalismo e o dito socialismo?
Depende do que você chame de
socialismo. De fato, os governos boliviano,
equatoriano e venezuelano têm utilizado esta palavra
para se referir ou definir a nova estratégia de
desenvolvimento que adotaram na primeira década do
século XXI. Mas se formos mais ortodoxos e fiéis às
definições clássicas, o que se pode dizer é que estes
governos e também o governo brasileiro - estão
revolucionando a trajetória tradicional e secular de
suas sociedades e estão mudando sua face e estrutura
extraordinariamente elitista e desigual. Assim mesmo, as
economias destes países seguem sendo capitalistas e,
neste sentido, seus governos me parecem mais próximos do
antigo projeto socialdemocrata europeu de construção de
um estado de bem estar social, do que do projeto cubano
clássico de estatização da propriedade e construção do
socialismo.
2. Com a
equipe econômica nomeada pela presidenta Dilma
Rousseff, o Brasil abandona as políticas anticíclicas
e retoma o rumo da ortodoxia. Qual a sua visão sobre
esta guinada? Significa um abandono dos aliados
latino-americanos?
Já escrevi em vários momentos
e reitero no meu livro que não acredito que existam
políticas econômicas estritamente de esquerda, nem mesmo
considero que o único caminho progressista seja o das
politicas heterodoxas. Acho que a politica econômica
sozinha não define nada, até porque todas elas são, em
grandes linhas, pró-capitalistas. Neste sentido, cada
politica econômica deve ser analisada e julgada dentro
do seu momento e contexto, e sobretudo em função da sua
consistência ou não com os objetivos estratégicos de
médio e longo prazo de cada governo. A mesma politica
econômica pode ter efeitos completamente diferentes em
distintas circunstancias geopolíticas e geoeconômicas.
Por isto também acho que a avaliação da atual politica
econômica do governo brasileiro terá que ser avaliada e
criticada a cada momento em função dos objetivos de
longo prazo deste mesmo governo e dos seus antecessores
imediatos.
3. A
política comercial do Brasil sofre muitas críticas.
Para alguns economistas, o País não pode ser refém do
Mercosul e de outros emergentes. Teria de fazer
acordos bilaterais com grandes economias, como a
europeia e a americana, para expandir seu comercio e
integrar-se às cadeias produtivas globais. O senhor
concorda com esta avaliação? O que significa em termos
geopolíticos?
Acho que temos que começar
pela análise e compreensão de como funcionam os mercados
internacionais que mais se assemelham à uma guerra de
movimentos entre forças desiguais, do que a um jogo de
troca-troca entre unidades iguais e bem informadas. Uma
guerra assimétrica entre estados e capitais, que atuam
como grandes predadores na luta pelo controle
monopólico de posições de mercado, inovações
tecnológicas e lucros extraordinários. Por isto, acho
que o problema do Brasil não é apenas o de multiplicar
acordos comerciais de todo e qualquer tipo, ou de se
integrar a qualquer preço em algumas cadeias
produtivas cujo centro de comando e inovação se
encontre fora do país. O verdadeiro desafio é saber como
construí-las e/ou conquistá-las a partir de sua própria
capacidade de expansão e inovação. Para avançar neste
campo, os empresários e os economistas brasileiros, de
dentro e fora do governo, teriam que deixar de lado por
um tempo os seus manuais e as suas fórmulas ideológicas,
para aprender com a história e a estratégia dos grandes
ganhadores, os grandes estados e capitais vitoriosos que
lideraram e lideram os mercados, a inovação tecnológica
e a acumulação de capital, em todo o mundo, desde o
século XVI. O México, por exemplo, calculou que poderia
integrar-se às grandes cadeias produtivas mundiais
abrindo sua economia e se integrando de forma radical
com a economia norte-americana e canadense. O NAFTA já
tem vinte anos, e até hoje o México não avançou quase
nada na sua participação ou integração nas cadeias
produtivas globais e nem mesmo naquelas capitaneadas
pelas grandes empresas norte-americanas. Porque no
balanço final destes acordos de livre comercio entre
economias assimétricas, os países mais fracos só
conseguem ganhos tecnológicos infinitesimais, e acabam
sempre ocupando a posição da presa dos grandes
predadores. Por fim, acho que são os objetivos
estratégicos de longo prazo do país, geopolíticos e
geoeconômicos, que devem definir a natureza e extensão
dos seus acordos comerciais, em distintos momentos de
sua trajetória interna de desenvolvimento e da projeção
externa do seu poder internacional.
4. Há um
modelo de desenvolvimento ideal para o Brasil, a
exemplo da influência da escola cepalina em passado
recente?
Acho que não há nem nunca
houve nenhum modelo ideal de desenvolvimento. O que
existem são algumas regularidades estreitamente
associadas ao momento e à localização do país dentro da
luta internacional dos estados e das economias pelo
poder e pela riqueza mundiais. Dependendo da coesão
interna de suas elites e da capacidade de mobilização de
suas sociedades em torno dos seus objetivos
prioritários. Aliás, do meu ponto de vista, a escola
cepalina nunca teve um modelo ideal de desenvolvimento,
nem nunca se propôs definir regras de validade
universal. O que ela sempre defendeu e que me parece que
segue sendo válido, era a industrialização dos países
latino-americanos, como forma de expansão progressiva da
sua capacidade tecnológica, e do controle soberano de
suas próprias políticas econômicas.
5. A retomada das
relações diplomáticas entre Cuba e os EUA significa o
que para o pensamento e a prática dos governos
latino-americanos?
Acho que a reaproximação dos
dois países foi uma extraordinária vitória politica da
sociedade cubana, mas refletiu também a necessidade dos
EUA redefinirem sua politica para a América Latina, em
face do extraordinário avanço da presença econômica da
China. E mais imediatamente, foi uma tentativa de
resposta dos EUA ao projeto chinês de construção do
Grande Canal da Nicarágua, que anuncia uma concorrência
direta com os norte-americanos pelo controle comercial
do Mar do Caribe. De qualquer maneira, estra
reaproximação também foi uma vitória dos demais países
latino-americanos que sempre se colocaram ao lado de
Cuba e contra o bloqueio econômico dos EUA . Neste
sentido, esta vitória fortalece também o objetivo e o
ideal de uma comunidade latina mais autônoma e soberana
com relação à tradicional hegemonia hemisférica dos EUA.
6. O Banco
dos Brics tem qual importância para este grupo tão
heterogêneo? Qual a importância geopolítica frente ao
FMI, por exemplo?
Creio que a criação deste
banco de desenvolvimento junto com o fundo de
compensações, acordados na VIº Reunião de Cúpula, em
Fortaleza, em julho de 2014, representou uma mudança
qualitativa na trajetória do grupo dos BRICS, porque é
de fato a sua primeira materialização concreta. A partir
desta decisão, por mais longo que venha a ser o seu
processo de montagem e institucionalização, o BRICS
deixou de ser apenas um grupo diplomático e político
informal e passou a ter um instrumento concreto de ação
econômica e de administração conjunta. Talvez tenha sido
a decisão mais importante no campo financeiro
internacional das últimas décadas, e a primeira que
escapa inteiramente aos desígnios da finança publica e
privada anglo-americana, mesmo sem confrontá-la. Esta
decisão não muda de forma imediata e radical a velha
ordem monetário-financeira do planeta, que foi liderada
num primeiro momento pela moeda inglesa e que hoje segue
sendo liderada pela moeda norte-americana. Mas o mais
importante é a forma em que foi dado este passo,
assumido como um gesto simbólico e político, e como
parte de uma estratégia de construção de circuitos
monetários e financeiros paralelos e de contenção, mas
não necessariamente contraditórios com a ordem monetária
e financeira anglo-saxônica.
7. As
recentes crises financeiras puseram em xeque a
hegemonia do capitalismo. Paralelamente, contudo, não
surgiram modelos que pudessem aperfeiçoar o substituir
o vigente. Como o senhor avalia este cenário?
Não creio que as crises
econômicas recentes, ou mesmo as grandes crises
financeiras dos séculos XIX e XX, tenham posto em
cheque, em algum momento, a hegemonia do capitalismo.
Talvez tenham posto em discussão a supremacia do modelo
liberal anglo-saxônico de organização e gestão do
capitalismo, mas não o próprio capitalismo. E também
acho que cada uma destas crises contribuiu sim para o
surgimento de novas formas ou novos modelos de
organização e gestão do capitalismo. O próprio sucesso
da China, hoje, e do modelo asiático de capitalismo
desde os anos 70 do século passado, parecem sugerir a
existência de muitas formas distintas, alternativas e
renovadas de desenvolvimento do mesmo capitalismo.
8. Em que
sentido o Brasil poderia retomar o protagonismo nos
fóruns mundiais? Aparentemente, após Lula, o País
perdeu voz nos grandes temas, ou estamos enganados?
Acho que de fato a politica
externa do governo Dilma teve menos presença e destaque
internacional do que a politica do governo Lula. Em
parte porque o próprio Lula foi e é um fenômeno de
interesse e destaque internacional por si mesmo, e além
disto, seu governo contou com um ministro de relações
exteriores que sempre valorizou a presença ativa mais do
que a simples tomada de posições no campo internacional.
Mas isto não quer dizer que este governo não tenha
tomado ou mantido posições extraordinariamente corajosas
e inovadores com relação à crise da Ucrânia, com relação
aos recentes ataques de Israel à Faixa de Gaza, com
relação a expansão do Brics e da Unasul, com relação à
crise politica da Venezuela e do Paraguai, com relação à
politica de renovação e modernização do material bélico
brasileiro, etc etc, ou mesmo com relação à situações
conjunturais, como foi o caso de espionagem americana do
governo brasileiro, denunciada pelo Sr. Snowden.
9. Mujica,
no Uruguai, foi um presidente admirado e quase
endeusado na América Latina. Trata-se de um ponto fora
da curva ou uma forma de administrar que pode ser
replicada?
Considero o ex-presidente
Mujica uma pessoa e uma figura política extraordinária,
igual que o presidente Evo Morales, por exemplo. Mas
acho que é necessário ter em conta as pequenas dimensões
territoriais, demográficas e econômicas do Uruguai, para
que se possa extrair lições úteis e replicáveis do
estilo de gestão do seu ex-presidente José Mujica.
10. Quais
os desafios principais da América do Sul neste
momento?
Enfrentar os efeitos críticos
imediatos e de médio prazo da desaceleração econômica
global, sem abrir mão da estratégia da maioria dos seus
países, de ataque à desigualdade social e promoção e
mobilização social ativa de sua população mais pobre e,
ao mesmo tempo, sem abrir mão do seu projeto comum de
unificação política do continente, e de expansão da sua
presença, da sua influencia, do seu poder e de sua
participação na riqueza internacional.
11. O
recente ataque ao jornal Charlie Hebdo reflete um
mundo cuja intolerância é uma característica? Como
lidar com a absorção de crenças diferentes?
De fato, depois do fim do
guarda-chuva ideológico da Guerra Fria, e do rápido
fracasso da utopia da globalização e do projeto imperial
e unipolar dos EUA, aumentou em vários pontos do mundo a
intensidade dos conflitos e da intolerância, sobretudo
religiosa e racial. E acho também que o esvaziamento
ideológico do projeto de unificação europeia junto com
sua progressiva desintegração vem contribuindo
decisivamente para este aumento da intolerância dentro
da própria Europa e de sua antiga zona de dominação
colonial, na África e Oriente Médio, onde os europeus e
a OTAN seguem atuando como se fossem povos escolhidos
por Deus para gerir o mundo. Você me pergunta como lidar
com estas diferenças e antagonismos crescentes entre
crenças e civilizações? Me parece que segue válido o
modelo helênico da convivência, do diálogo, do respeito
pelas diferenças, além de aceitar de uma vez por todas
que não existem mais apenas dois ou três países que
sejam os responsáveis pela produção dos valores e pela
arbitragem e gestão da ética internacional. E por cima
de tudo, enterrar definitivamente a fantasia arrogante
de que existam povos que tenham sido escolhidos e
nominados por Deus, e por isto possuam um mandato divino
para civilizar, converter ou mandar nos demais..
12. Como o
senhor avalia a recente vitória eleitoral da esquerda
e do Syriza, e a formação do novo governo liderado por
Alexis Tsipras, na Grecia ?
É difícil de avaliar e prever
as consequências desta vitória no médio prazo. Mas sem
duvida é um acontecimento de extrema importância e um
momento decisivo na trajetória da crise e desintegração
que está vivendo o projeto de unificação europeia,
liderado hoje com mão de ferro pela Alemanha. Como é
sabido, o Syriza não tem o objetivo de deixar a UE,
apenas exige uma revisão radical dos termos do acordo e
das politicas de austeridade impostos à Grécia em troca
da ajuda financeira concedida pela Alemanha e pelo FMI,
em 2010. Políticas que destruíram neste quatro anos a
estrutura produtiva e a sociedade grega. Mas atenção
porque o significado desta vitória da esquerda grega vai
muito além da questão econômica e da pura renegociação
da dívida e do acordo. Ela de fato dá voz e força a um
movimento subterrâneo que está atravessando toda Europa
neste momento, de insatisfação e de questionamento de um
projeto de unificação que perdeu vigor com o
desaparecimento do seu grande inimigo externo, a URSS,
mas sobretudo deixou de ser um sonho coletivo, perdeu
sua dimensão utópica e se transformou apenas num projeto
realista e incremental de construção da supremacia
europeia da Alemanha. Uma supremacia que traz lembranças
trágicas para toda a Europa, e para a Grécia muito em
particular. Neste sentido a vitória do Syriza é um grito
de protesto dos desempregados da Grecia e de toda a
Europa e dos desherdados do estado de bem estar social,
mas também de todos os europeus que se resistem à uma
dominação alemã vazia de qualquer conteúdo utópico ou
societário. A pobreza ideológica da Sra Merkel e de sua
retórica vazia e autoritária, reflete apenas a pobreza a
que se viu condenado um projeto que foi concebido depois
da II Guerra Mundial, pelos aliados, para conter a
Alemanha, e que acabou se transformando num instrumento
de dominação europeia da própria Alemanha.
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