Por Conceição Lemes, no blog Viomundo:
Em 23 de outubro, o Viomundo publicou esta denúncia: Professor
foi ver ato pró-impeachment, acabou xingado e espancado por fascistas:
“Um me aplicou choque elétrico, como os torturadores do DOI-CODI. A PM
assistiu a tudo e nada fez”.
O professor em questão é Daniel Valença, licenciado do curso de
Direito, da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), atualmente
fazendo doutorado em Direitos Humanos na Universidade Federal da
Paraíba (UFPB). O fato ocorreu Natal (RN) na quarta-feira anterior, 21
de novembro.
Ele mesmo conta:
Fui ver com meus próprios olhos o ato em Natal pró-impeachment. Eram
cerca de 15 manifestantes e mais 10 “seguranças” contratados para
“proteger” os bonecos de Dilma e Lula. Como em todo o Brasil, novamente a
UJS rasgou os bonecos – o fizeram, aliás, em São Paulo, no Recife e em
João Pessoa.
Corri para acalmar a confusão e impedir que os
jovens fossem agredidos fisicamente. No meio do caminho, um dos
organizadores do ato me aplicou um mata-leão, hora em que perdi meus
óculos e celular. A PM assistiu a tudo e nada fez, exceto deter os
jovens da UJS que, já algemados, continuaram sendo agredidos física e
verbalmente.
Fui cercado por todo esse grupo que berrava
“petista!”, “comunista!”, “bandido filho da puta”. Respondi
insistentemente que era petista e comunista com muito orgulho e que
tinha o direito de sê-lo. Foi então que um manifestante fascista veio
por trás e me aplicou um choque elétrico, prática comum aos torturadores
do DOI-CODI
(…)
Ao final, sugeríamos aos leitores que assistissem ao vídeo.
De lá para cá:
1) Descobriu-se que assessores dos deputados federais Felipe Maia (DEM) e Rogério Marinho (PSDB) organizaram o ato contra Dilma, Lula e o PT,
embora os participantes se dissessem “apartidários”. São dois: Jean do
Rego Rocha (matrícula de nº 218182) e Francisco Washington Cavalcanti
Dantas (matrícula de nº 219469), nomeados, respectivamente, nos
gabinetes do democrata e do tucano em Brasília (DF). Felipe Maia é
filho do senador Agripino Maia (DEM-RN).
2) Na quarta-feira passada 28, por volta das 17hs, três jovens jovens da
União da Juventude Socialista (UJS) foram parados e revistados pela
polícia, quando saíam da sede do PCdoB, em Natal. Estranhamente são três
dos cinco jovens da UJS presos no dia do ato. Coincidência?
Intimidação? Provocação?
3) Os vídeos postados sobre o ato , inclusive o publicado aqui no
Viomundo, foram sendo derrubados um a um, provavelmente por
participantes do ato pró-impeachment, para evitar o reconhecimento dos
que praticaram violência.
4) Porém, com a ajuda de um leitor, nós conseguimos uma coletânea de 19
vídeos, de diferentes tamanhos, a quase totalidade sem edição. Eles
mostram a violência de vários ângulos. Inclusive num deles o agressor
pede que a câmera (provavelmente de um celular) seja desligada. O áudio,
porém prossegue. Somam 43min19s. Nós subimos para o You Tube e para o
Vimeo, do jeito que recebemos. Por precaução, salvamos também nos nossos
computadores.
A partir do minuto 29 da coleção de vídeos, o que se assiste é um
conluio criminoso: três jovens da UJS detidos, já imobilizados, de
joelhos no chão e rosto para a parede, são agredidos, xingados e
ameaçados por líderes do ato pró-impeachment com a conivência de
policiais.
Atente à movimentação de três, especialmente. O careca, de camisa
listrada de branco e azul, é Washington Dantas, que trabalha no gabinete
do tucano Rogério Marinho.
Os outros dois ainda não conseguimos identificar. Um, o que aplicou
choque elétrico no professor Daniel Valença e em vários jovens da UJS e
do PT, usa camiseta verde e boné. O outro, também de boné, veste
camiseta amarela.
Qualquer semelhança com a barbárie diária diariamente nas periferias do
Brasil contra jovens, principalmente pretos e pobres, não é mera
coincidência.
Manifestações populares fazem parte da democracia. Mas não se pode aceitar a incitação ao ódio e à violência.
É o alerta do manifesto (na íntegra, ao final) de entidades de direitos
humanos, acadêmicas, movimentos sociais, sindicatos e pessoas físicas
(na íntegra, abaixo) em solidariedade a Daniel Valença e aos jovens
vítimas da violência dos fascistas. O Viomundo divulga-o em primeira
mão:
As manifestações populares são legítimas. Contudo, deve-se repudiar
qualquer iniciativa que vise a propagar o discurso do ódio e incite à
violência. Não se pode tolerar a naturalização da violência e do ódio
que, agora, manifestam-se a pretexto do exercício de “liberdade
política” – “liberdade” essa que tem vindo acompanhada de instrumentos
de repressão, usados contra quem discorda dos atos: armas de choque e
seguranças particulares pagos.
(…)
Consideramos que os/as responsáveis pela violência praticada no dia 21/10 devem ser punidos/as.
*****
NOTA DE SOLIDARIEDADE AO PROFESSOR DO CURSO DE DIREITO DA UFERSA
DANIEL VALENÇA E ÀS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA NO ATO DO DIA 21/10 NA CIDADE
DE NATAL/RN
As pessoas, entidades e organizações abaixo assinadas
vimos manifestar apoio e solidariedade ao professor universitário
Daniel Valença, bem como repudiar as acusações injuriosas que estão
sendo divulgadas a seu respeito.
Na quarta-feira, dia 21/10, o
professor foi vítima de agressões verbais, morais e físicas durante
manifestação contra o governo da presidenta Dilma e ao Partido dos
Trabalhadores em Natal – RN. Na ocasião, os bonecos infláveis utilizados
pelos manifestantes foram furados e os jovens apontados como
responsáveis (Wangle Alves, Pedro Henrique, Frederico Germano, Eduardo
Silvestre e Leonardo Rodrigues), rapidamente detidos pela polícia. Em
atitude completamente desproporcional, líderes do movimento
pró-impeachment agrediram esses jovens – já imobilizados -, iniciando um
linchamento.
O professor Daniel Valença, ao tentar impedir as
agressões, passou a ser o foco deles. Chegaram a imobilizá-lo com um
golpe no pescoço (“mata-leão) e utilizaram uma arma de choque no seu
corpo, além de lhe dirigirem xingamentos e palavras de ódio.
A
violência continuou pela internet e os mesmos envolvidos passaram a
veicular informações distorcidas a respeito do professor, com o objetivo
nítido de deturpar sua imagem, especialmente em seu espaço de trabalho,
a UFERSA, instituição à qual sempre teve uma dedicação exemplar.
Atestamos
a reputação ilibada do professor Daniel Valença, cujas trajetórias
política e profissional sempre foram comprometidas com a defesa dos
direitos humanos e contrárias a quaisquer manifestações de propagação de
ódio e violência, como as que foram observadas no dia 21.
O que
ocorreu em Natal não está dissociado do mesmo contexto de ódio do qual
recentemente foram vítimas o militante do MST João Pedro Stédile, o
Professor Mauro Iasi, bem como Fernando Haddad e Eduardo Suplicy. Tem
sido recorrente em diversas manifestações similares à de Natal o repúdio
a valores progressistas e aos direitos humanos, bem como ofensivas
destrutivas, de truculência, contra quaisquer pessoas que apresentem
posicionamento contrário às ideias que procuram disseminar (entre elas, a
volta da ditadura militar e a ojeriza a ideais de esquerda).
As
manifestações populares são legítimas. Contudo, deve-se repudiar
qualquer iniciativa que vise a propagar o discurso do ódio e incite à
violência. Não se pode tolerar a naturalização da violência e do ódio
que, agora, manifestam-se a pretexto do exercício de “liberdade
política” – “liberdade” essa que tem vindo acompanhada de instrumentos
de repressão, usados contra quem discorda dos atos: armas de choque e
seguranças particulares pagos.
Por fim, estendemos nossa
solidariedade aos jovens e demais que foram agredidos/as fisicamente na
manifestação e consideramos que os/as responsáveis pela violência
praticada no dia 21/10 devem ser punidos/as.
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