terça-feira, 15 de setembro de 2015

Sobre o filme Que horas ela volta?

Fernanda Carlos Borges*

Que horas ela volta? - é o nome do filme de Anna Muylaert. É também a pergunta do menino à empregada doméstica nordestina que dorme no emprego e cuida dele enquanto a mãe trabalha fora. Que horas ela volta? - é também a pergunta da filha sobre a mãe que a deixou no nordeste aos cuidados de parentes, para quem envia boa parte do seu salário garantindo o seu sustento e estudos. E esta filha, quando termina o ensino médio, quer vir para São Paulo para fazer vestibular na USP, em arquitetura, e a sua vinda desestabiliza todas as relações da casa onde a mãe trabalha. E é assim que começa esta linda história sobre o Brasil contemporâneo que vem incluindo milhares de jovens no ensino superior. É, neste contexto, uma história sobre as mulheres brasileiras e seu drama na criação dos filhos: quase 50% das famílias brasileiras é sustentada por mulheres. Na história, cada personagem representa uma persona social brasileira. A mãe, a elite que se identifica com a distinção do luxo, gosta disso e quer permanecer distinta. O pai, a elite culta acomodada e impotente. O filho, a massa de brasileiros classe-média alienada do mundo ao redor. A empregada, a população pobre acostumada com o seu lugar desimportante ou secundário. A filha dela, os jovens estudantes pobres cuja mobilidade social desestabiliza as relações de poder tradicionais da sociedade brasileira. O pai dela, o homem cuja presença só se percebe pelo efeito machista e moralista na vida da ex mulher e da filha. Os homens desta história são fracos. Um por representar uma elite herdeira que é culta, mas também é impotente e preguiçosa. A revitalização desta elite depende da ascenção dos jovens pobres capazes de inspirar um novo ânimo de utopia, capazes de reacender a paixão. O outro é uma voz machista invisível pois sem a subjetividade de “alguém”, sobre o qual o melhor a fazer é ignorar e tirar da história. E ainda um outro, mais apto para conviver com a novidade das mudanças causadas pela ascenção social dos tradicionalmente excluídos, mas também ingênuo. Ninguém é mocinho nem bandido, cada um é o melhor que pode ser nos limites da história social brasileira. E as heroínas são todas mulheres e nenhuma delas é salva por um herói, nem a patroa. Algumas vezes o filme joga com esta expectativa e a frustração dela é uma das melhores coisas do enredo. Além disso, raramente um filme conta uma história de mulheres que giram em torno da responsabilidade pelo próprio destino. Pois esta história faz isso inspirando um feminismo muito sutil que transita entre a vida privada e pública, entre a experiência emocional e profissional. Trata de mulheres que sobrevivem aos assédios socias, profissionais e sexuais, e trata disso com cuidado. Trata da possibilidade de uma outra vida onde o final não é exatamente feliz, mas pode ser melhor quando elas, finalmente, podem voltar.
 
 *Doutora em Comunicação e Semiótica e pós-doutora em Artes.

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