Fernanda Carlos Borges*
Que
horas ela volta? - é o nome do filme de Anna Muylaert. É também a
pergunta do menino à empregada doméstica nordestina que dorme no emprego
e cuida dele enquanto a mãe trabalha fora. Que horas ela volta? - é
também a pergunta da filha sobre a mãe que a deixou no nordeste aos
cuidados de parentes, para quem envia boa parte do seu salário
garantindo o seu sustento e estudos. E esta filha, quando termina o
ensino médio, quer
vir para São Paulo para fazer vestibular na USP, em arquitetura, e a
sua vinda desestabiliza todas as relações da casa onde a mãe trabalha. E
é assim que começa esta linda história sobre o Brasil contemporâneo que
vem incluindo milhares de jovens no ensino superior. É, neste contexto,
uma história sobre as mulheres brasileiras e seu drama na criação dos
filhos: quase 50% das famílias brasileiras é sustentada por mulheres. Na
história, cada personagem representa uma persona social brasileira. A
mãe, a elite que se identifica com a distinção do luxo, gosta disso e
quer permanecer distinta. O pai, a elite culta acomodada e impotente. O
filho, a massa de brasileiros classe-média alienada do mundo ao redor. A
empregada, a população pobre acostumada com o seu lugar desimportante
ou secundário. A filha dela, os jovens estudantes pobres cuja mobilidade
social desestabiliza as relações de poder tradicionais da sociedade
brasileira. O pai dela, o homem cuja presença só se percebe pelo efeito
machista e moralista na vida da ex mulher e da filha. Os homens desta
história são fracos. Um por representar uma elite herdeira que é culta,
mas também é impotente e preguiçosa. A revitalização desta elite depende
da ascenção dos jovens pobres capazes de inspirar um novo ânimo de
utopia, capazes de reacender a paixão. O outro é uma voz machista
invisível pois sem a subjetividade de “alguém”, sobre o qual o melhor a
fazer é ignorar e tirar da história. E ainda um outro, mais apto para
conviver com a novidade das mudanças causadas pela ascenção social dos
tradicionalmente excluídos, mas também ingênuo. Ninguém é mocinho nem
bandido, cada um é o melhor que pode ser nos limites da história social
brasileira. E as heroínas são todas mulheres e nenhuma delas é salva por
um herói, nem a patroa. Algumas vezes o filme joga com esta expectativa
e a frustração dela é uma das melhores coisas do enredo. Além disso,
raramente um filme conta uma história de mulheres que giram em torno da
responsabilidade pelo próprio destino. Pois esta história faz isso
inspirando um feminismo muito sutil que transita entre a vida privada e
pública, entre a experiência emocional e profissional. Trata de mulheres
que sobrevivem aos assédios socias, profissionais e sexuais, e trata
disso com cuidado. Trata da possibilidade de uma outra vida onde o final
não é exatamente feliz, mas pode ser melhor quando elas, finalmente,
podem voltar.
*Doutora em Comunicação e Semiótica e pós-doutora em Artes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário