Por PAULO MOREIRA LEITE, jornalista e escritor, diretor do portal "247" em Brasília
"Como ocorre com grandes
operações de natureza político-policial dos anos recentes, a 'Lava
Jato' não costuma ser justificada apenas por seus benefícios materiais,
como a localização e punição de corruptos e às vezes de corruptores, nem
só pela recuperação de ativos furtados de uma riqueza que pertence à
maioria dos brasileiros.
Outra justificava seria a
capacidade para contribuir para uma suposta "regeneração moral" dos
brasileiros, este povo que, conforme um diagnóstico partilhado pela
unanimidade de nosso pensamento conservador, em qualquer de suas
ramificações, sobrevive e se reproduz à margem de bons princípios
morais. É um ponto de vista tão difundido como duvidoso.
Um dos patronos do
pensamento do século XX, o pensador Isaiah Berlim, produziu uma das mais
conhecidas contribuições para o debate ético contemporâneo. Berlim
ensinou que os bons princípios não podem ser aqueles que nos trazem
vantagem. Pelo contrário: "são aqueles que contrariam nossos interesses."
Moral, desse ponto de vista, envolve uma noção de desprendimento e mesmo sacrifício -- e não admite vantagens do ponto de vista pessoal.
O desinteresse de que
fala Berlim é obviamente incompatível com o caráter seletivo
[partidário] das investigações, que atende às conveniências políticas da
oposição e ajuda a entender o caráter espetaculoso da operação. Como se
pode saber, sem maiores investigações, que as doações de campanha para o
Partido dos Trabalhadores são uma forma de propina disfarçada, enquanto
os donativos das mesmas empresas, com o mesmo CNPJ, na mesma época,
para o PSDB, são legítimas contribuições eleitorais? Sem uma prisão
preventiva. sem uma delação premiada?
Mas um aspecto essencial
envolve as delações premiadas, como se viu na surpreendente acareação
promovida pela CPI em Curitiba quarta-feira passada.
Chamado a responder às
denúncias de Augusto Mendonça, da "Toyo Setal", o diretor da Petrobras
Renato Duque devolveu toda e cada uma das acusações com a frase: "ele é um grande mentiroso." Pelas contas de Duque, Mendonça mentiu 80 vezes, depois, 90 vezes e por fim mais de "cem vezes."
Falando baixo, evitando
olhar Renato Duque, Mendonça confirmou a maior parte do que disse nas
delações premiadas. Mas a acareação colocou uma dúvida importante sobre
recursos repassados por Mendonça ao Partido dos Trabalhadores. Mendonça
admitiu que, embora representassem o pagamento de propinas, jamais havia
agido como se não fossem contribuições legítimas de campanha. Quando
disse que não se recordava de determinado episódio, Mendonça foi
atingido por Duque: "mentiroso esquecido." Perguntado se era
verdade, como Mendonça dissera, que havia recorrido aos serviços dele
para remeter dinheiro ao PT, Duque retrucou dizendo que, se quisesse
mandar dinheiro ao PT, teria feito isso por sua própria conta.
A mesma questão ética
apareceu dias antes, com outro personagem. O empreiteiro Marcelo
Odebrecht disse que não pretendia "dedurar" ninguém. Explicou que em
primeiro lugar não tinha o que "dedurar". Mas também deu um argumento
moral. Citando a educação das filhas, revelou que o ato de dedurar
alguém por uma falta cometida pode ser até mais grave do que a própria
falta.
À frente de um grupo
econômico que, conforme uma reportagem recente da revista britânica "The
Economist", cultiva princípios e valores, Odebrecht chegou a ser
criticado pelo exemplo. Mas é difícil negar que tenha colocado um
elemento ético à mesa: o da lealdade que se justifica como um valor em si, e não se dobra às conveniências.
Na prática, a delação é
tão favorável aos interesses do delator que parece ter mais apoio numa
nova versão da "lei de Gerson" anunciada numa propaganda de cigarros ("tirar vantagem em tudo, certo?") do que na formulação de Berlim.
Depois de desviar
recursos durante anos, criminosos apanhados em flagrante têm a
oportunidade de salvar a pele desde que apontem para colegas de
trabalho, quem sabe auxiliares que eles trouxeram para o esquema, que
tiveram o azar de não terem sido aprisionados com antecedência -- ou
que, menos envolvidos na trama, têm segredos menos interessantes para
contar.
Pelas regras da delação, os grandes corruptos são os candidatos a grandes delatores.
É como se a mesma "organização criminosa" continuasse a funcionar, agora com o sinal trocado: quanto
maior o grau de responsabilidade de um acusado pelos crimes cometidos,
maior será o interesse por sua delação -- e maior o benefício recebido
pelo desempenho. Quem explica é o professor Renato Mello Jorge
Silveira, diretor-adjunto da Faculdade de Direito da Universidade de São
Paulo: “beneficia-se o criminoso de alta gama, aquele que teria mais
informações. Pactua-se, portanto, com quem mais delinquiu. Pune-se, por
outro lado, a menor criminalidade ou outros, que simplesmente ficaram
aquietados.”
FONTE: escrito por PAULO MOREIRA LEITE, jornalista e escritor, diretor do portal "247" em Brasília (https://www.brasil247.com/pt/blog/paulomoreiraleite/195606/Dela%C3%A7%C3%A3o-beneficiou-um-dos-maiores-criminosos.htm).
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