Clemente
Ganz Lúcio[1]
As adversidades do momento são enormes e
complexas. Não há
alternativas fáceis e a ausência de saída, por meio do
crescimento econômico,
poderá significar mais um longo período de letargia, semelhante
àquele vivido
nos anos 1990. Pela frente, há o risco de desemprego, queda dos
salários,
desestruturação do sistema de proteção social, informalidade,
precarização,
entre outras sequelas econômicas e sociais bem conhecidas. Como
a sociedade
reagirá a um retrocesso como esse? Quais as expectativas criadas
pela inclusão
social e expansão do consumo na última década?
Há dois vetores que deveriam orientar a luta
pela transição
rápida e pela sustentação duradoura do crescimento: o primeiro,
manter o
emprego e a renda para garantir e ampliar o mercado interno de
consumo de
massa; o segundo, mobilizar a máxima capacidade para recuperar o
investimento
público, de forma articulada com o investimento privado. Esses
dois vetores estruturam
a demanda e mobilizam a capacidade empreendedora para produzir e
crescer. A
trajetória de crescimento precisa vir acompanhada de um projeto
de
desenvolvimento focado em reformas estruturantes, que modernizem
o Estado, com
reforma tributária, simplificação institucional e
administrativa, transparência
e governança, reforma política e eleitoral, aperfeiçoamento do
sistema de
relações de trabalho (fortalecimento da negociação coletiva,
solução ágil de
conflitos, aumento da representatividade), entre tantas outras
mudanças.
Em curto prazo, a ação sindical tem o desafio
de conduzir as
campanhas salariais em um contexto muito adverso. Uma pesquisa
divulgada pelo
DIEESE (disponível no site www.dieese.org.br),
com
os resultados das negociações dos reajustes do 1o
semestre,
revela que há mudanças em curso. A inflação mais alta e a
recessão têm colocado
novos limites para os aumentos salariais. Ainda assim, o
movimento sindical
conseguiu resultados robustos diante da enorme adversidade: mais
de 2/3 das
negociações foram concluídas com aumento salariais no período
analisado.
Nessa frente de luta, há um desafio
fundamental: desenvolver
campanhas salariais que coloquem no debate, com o empresariado,
a comunidade e
os governos, a importância da manutenção dos empregos e dos
salários para a constituição
da massa salarial, que sustenta ¾ do mercado interno de consumo,
parte
essencial da formação da demanda que anima o
investimento
empresarial e incrementa o nível de atividade econômica.
É preciso disputar, para se formar, a opinião
pública sobre o
papel do emprego e dos salários na mobilização do crescimento do
país, condição
essencial para se superar as graves desigualdades sociais
existentes na cidade
e no campo brasileiro. Há um país a ser reconstruído. É preciso
criar demanda
para uma atividade produtiva que propicie condições para gerar o
bem-estar
social e a qualidade de vida. O tipo de crescimento, que é
também uma
oportunidade estratégica, pode e deve ser mobilizador da
inovação que modifica,
mas preserva o meio ambiente. Há, portanto, um enorme espaço
para o crescimento
com sustentabilidade ambiental. Isso exige aumento dos
investimentos publico e
privado, que geram emprego e renda, melhoram a capacidade fiscal
do Estado,
enfim, abrem espaço para um movimento virtuoso de crescimento
sustentado pelo
investimento e pela capacidade distributiva do Estado e dos
sindicatos.
O movimento sindical tem o desafio de
recolocar no centro da
estratégia econômica de crescimento e de desenvolvimento o
emprego e os
salários como elementos dinamizadores de um grande mercado
interno de consumo
em permanente formação, expansão e disputa. As campanhas
salariais são uma
oportunidade ótima para promover essa agenda.
[1]
Sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES –
Conselho de
Desenvolvimento Econômico e Social.
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