quarta-feira, 2 de julho de 2014

BELO MONTE E A SÍNDROME DO ATRASO

Mauro Santayama, em seu blog



 A ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica, está analisando pedido do Consórcio Norte Energia, responsável pela construção da Usina de Belo Monte, para adiar a entrada, por mais um ano, em operação da usina, que fica no Rio Xingu, no Pará.
Belo Monte não é uma obra qualquer. Em potência instalada, será a terceira usina hidroelétrica do mundo, depois da chinesa Três Gargantas, e da binacional, brasileiro e paraguaia, Itaipu.
A polêmica em torno de sua construção, é emblemática do ponto de vista do processo de ocupação e aproveitamento da Amazônia, como patrimônio de todos os brasileiros, e com relação à falta  de convergência que existe em nossa sociedade em torno dos objetivos nacionais.
A Amazônia precisa ser protegida, mas, ao mesmo tempo que deve ser preservada, ela necessita de um projeto integrado e sinérgico de desenvolvimento que abarque toda a região.
É hipocrisia tentar impedir a construção, depois, sabotar o aproveitamento hídrico, e finalmente, paralisar por dezenas de vezes uma obra, da qual depende um país que tem uma das mais altas tarifas de energia elétrica do mundo, e que concorre nesse quesito com outros países no mesmo estágio de desenvolvimento, como se a região à qual pertence, não sofresse há décadas, dos mesmos problemas que afetam a Amazônia como um todo. Questões que derivam da ausência - e não da presença - da mão organizadora e mobilizadora do Estado.
É preciso preservar a cultura indígena no Brasil? Sem dúvida alguma. Mas é preciso também reconhecer, que aqui somos 200 milhões de pessoas, e que, para as populações indígenas já foram reservados, e entregues, mais de 100 milhões de hectares, ou 12,5% do território brasileiro, o que torna o Brasil o país que mais terras dedica para esse fim, entre todas as nações do mundo.
Da mesma forma, é preciso reconhecer que o índio, infelizmente, depois de sua aculturação, passa a ser, muitas vezes, mais um elemento da degradação da região, na extração ilegal de madeira, no assoreamento e contaminação de rios para a exploração de garimpos clandestinos - como está ocorrendo na Terra Indígena Roosevelt - na exploração e contrabando, em conluio com estrangeiros, da nossa biodiversidade.
Com planejamento, organização, e sobretudo, pleno exercício da soberania do Brasil na região, é possível concililiar a proteção da natureza e das populações indígenas, com a exploração sustentável do patrimônio hídrico, das florestas, da mineração, do turismo, da navegação. Para isso, basta que se associem a União, os Estados da Região, a iniciativa privada nacional, e, minoritariamente, capital estrangeiro, em uma grande empresa, com dinheiro e estrutura suficiente para fazê-lo.
O atraso de Belo Monte, no entanto, não é exceção no Brasil de hoje. O país está coalhado de obras que tem sido sucessivamente, repetidamente, paralisadas pela sabotagem ou impedidas pela justiça.
Muitas vezes, uma mesma empreiteira brasileira trabalha, simultâneamente, com uma grande obra no Brasil e outra no exterior. Enquanto, lá fora, a obra sai dentro do cronograma, e com o preço inicialmente previsto, aqui o atraso pode passar de um terço do prazo e o orçamento se multiplicar por três ou cinco.
Por que isso ocorre? Porque nos outros países, é impossível paralisar por dezenas de vezes obras gigantescas, de bilhões e bilhões de dólares de orçamento,  que são essenciais para o progresso de um país, por  impunemente. Fazendo isso a cada vez que pequenos grupos - manipulados ou não - se manifestam, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Lá fora, existe um mínimo de alinhamento estratégico entre os diferentes setores da sociedade e do Estado, e os poderes constituídos, para a execução, de forma permanente, perene, das obras necessárias ao desenvolvimento nacional.
Acontece um terremoto no Japão, e, em dias, as rodovias que foram avariadas ficam prontas. Na China, prédios são construídos em 72 horas, e cidades inteiras são erguidas - com ruas, sistemas de saneamento, eletricidade, prédios públicos e   residenciais - em menos tempo do que é necessário para se construir um viaduto no Brasil.
Essa situação, em que vem um e faz, e vem o outro e desfaz, repetidamente, uma mesma obra, tem que acabar.
O que prejudica um determinado governo também pode paralisar outros, independente de orientação política, e enquanto nações emergentes avançam, o Brasil, paralisado pela “síndrome do atraso”, continuará dando um passo à frente e três para trás, indefinidament

Copa: Quebrou a cara quem “apostou contra” por cálculo político



por Bob Fernandes, transcrito do blog Democracia & Polítca




"Imagina na Copa!" Por anos, esse bordão carregou a promessa e o medo do fracasso, da vergonha.

A Copa traria o caos, aéreo e urbano, o vexame diante do mundo …

A Copa está na metade. Tudo, inclusive de ruim, ainda pode acontecer.

Mas, até aqui, o que dizem "os estrangeiros", que alguns brasileiros tanto temiam?… Ou buscaram influenciar.

O "The Guardian", o grande jornal inglês, já aposta: "Pode ser a melhor (…) e a mais emocionante Copa da história".

O Telegraph conta que passou por 6 aeroportos, "na maioria excelentes", e lamentou "as histórias de terror" pré-Copa.

Mundo afora a mídia revê suas opiniões e repete… "uma linda festa … a grande Copa… a melhor da história…".

E, claro, a mídia honesta mostra os protestos. Lembra que o Brasil é desigual, injusto, que moradores foram desalojados por conta da Copa e Olimpíadas.

Imprensa séria registra que tanto o governo federal como governos da oposição se irmanaram na bilionária farra dos estádios.

Qualquer um, óbvio, tem o direito de ser a favor ou contra a Copa. Não faltam motivos.

Mas quem apostou contra apenas por cálculo político errou, e quebrou a cara.

Dizer agora que o catastrofismo foi obra da imprensa estrangeira é cinismo. É dobrar a aposta na falta de inteligência de quem recebe informações.

Técnicos, como Capello, dizem: "É a Copa de maior nível técnico da história". Capello resumiu: no imaginário do planeta futebol, o "estádio do mundo é o Maracanã".

O alemão Podolski escreveu: "Não teria melhor lugar para uma Copa (…) o país do futebol".

Certamente por isso, jogadores e seleções estão jogando tudo que sabem… Muitos, até mais do que podem.

Até aqui uma seleção não jogou futebol à altura da sua história e conquistas: o Brasil.
Por muitos motivos… inclusive a descomunal tarefa de carregar um país, um povo [e uma mídia derrotista e seus partidos políticos] nas costas.

Povo que por anos repetiu um bordão: "Imagina na Copa!"

FONTE: escrito e apresentado por Bob Fernandes no portal "Terra Magazine"  (http://terramagazine.terra.com.br/bobfernandes/blog/2014/07/01/copa-quebrou-a-cara-quem-apostou-contra-por-calculo-politico/).

LEGADO DA COPA: FATOS E FALÁCIAS

do blog Democracia & Política




Legado da Copa: fatos e falácias

"A realização da Copa neste momento em que todos desejam que o PIB cresça mais do que está permitindo a crise mundial, é fundamental para o país. 

Por José Augusto Valente (*) 

Em relação ao chamado “Legado da Copa”, o que a grande imprensa tem veiculado sobre o assunto tem mais falácias do que fatos comprováveis. É o que estou tentando demonstrar numa série de artigos. (Clique aqui e leia a parte 1)

Falácia – Dinheiro utilizado na construção dos estádios poderia ser destinado para a saúde e educação

Eu acredito, assim como os críticos à realização da Copa no Brasil, que os governos federal, estadual e municipal têm que investir, com alta prioridade, em saúde e educação, entre outras políticas sociais. O Brasil precisa e merece isso.

Ao contrário deles, entretanto, defendo que o governo tem que investir, também, no desenvolvimento do país. Para isso, há várias formas, entre elas o financiamento pelo BNDES, com seus juros subsidiados e eventuais parcerias, a empreendimentos com potencial de gerar desenvolvimento econômico e social.

A realização da Copa, no Brasil, neste momento em que todos desejam que o PIB cresça mais do que está permitindo a crise mundial, é fundamental para a realização dos investimentos nas arenas, nos aeroportos e em obras de mobilidade urbana, como também pelos serviços daí decorrentes, pois esses gerarão receitas diretas e indiretas nos próximos anos.

Como afirmamos no artigo anterior, os locais onde acontecem as partidas da Copa não são simples estádios de futebol, mas arenas multiuso, e isso faz toda a diferença.

Essas arenas foram projetadas para receber, além de partidas de futebol, grandes eventos, como shows, espetáculos, conferências e reuniões, com conforto, segurança e qualidade.

Do ponto de vista de legado da Copa, isso tem impacto na geração de possibilidades de ganhos dos cidadãos, uma vez que, na maioria das capitais do país, não existem espaços como esses para a realização de megaeventos.

Várias arenas estão formatadas para PPP ou concessão (governos estaduais/empresas privadas), além de três que são exclusivamente privadas. Todas demandaram recursos do BNDES.

As equipes altamente qualificadas desse órgão analisaram os empreendimentos por essa ótica, não só para garantir o retorno financeiro do mesmo, mas também para alavancagem de novos projetos econômicos e sociais, na cidade e na região.

Para se ter ideia, a arena de Brasília, que é totalmente pública, em seis meses, recebeu 27 eventos, entre jogos de futebol e shows , como da Beyoncé e das bandas Aerosmith e Metallica. Nesse período, a nova arena atraiu 640 mil pessoas. Para se ter um comparativo, o antigo Mané Garrinha teve público de 340 mil torcedores em 36 anos.

Mas o BNDES não poderia financiar saúde e educação?

É importante frisar que o BNDES financia basicamente empresas e não governos (há alguns poucos casos de financiamento a governos). Os juros subsidiados têm a ver com a expectativa de desenvolvimento econômico e social de cada empreendimento. Há um montante de recursos disponíveis para empréstimos, há critérios para aprovação dos projetos, são exigidas garantias e o BNDES é muito rigoroso no caso de inadimplência.
Mas, arguem os críticos à Copa no Brasil, os recursos do BNDES não têm origem no orçamento da União, o que permite deslocar parte deles para saúde e educação?

Basicamente, a origem dos recursos do BNDES é não orçamentária, como segue: os de capital; as receitas operacionais e patrimoniais; os oriundos de operações de crédito; a remuneração que lhe for devida pela aplicação de recursos originários de fundos especiais instituídos pelo Poder Público e destinados a financiar programas e projetos de desenvolvimento econômico e social; os resultantes de prestação de serviços e, quando for necessário, as dotações que lhe forem consignadas no orçamento da União.

Saúde e educação públicas são despesas de investimento e de custeio que precisam ser realizadas, de forma permanente, por prefeituras, estados e governo federal, através de recursos orçamentários definidos via PPA, LDO e LO ou pela iniciativa privada, com seus próprios recursos.

Entretanto, saúde e educação, com recursos do BNDES, de forma contínua, não há como!

Assim, no máximo, o que se poderia dizer é “em vez de financiar arenas, o BNDES deveria direcionar esses recursos para portos privados, concessões rodoviárias/ferroviárias e coisas do gênero”. Mas não foi essa a escolha do governo federal, na ocasião, com o apoio da maioria da população.

O custo total da Copa, com recursos federais, estaduais e da iniciativa privada, entre empréstimos e recursos a fundo perdido, foram estimados em R$ 28 bilhões, dos quais: R$ 8 bilhões com as arenas; R$ 8,4 bilhões com obras de mobilidade urbana; R$ 8,4 bilhões em aeroportos e R$ 1,9 bilhões em segurança.

Todos esses investimentos geraram produtos que serão um legado da Copa, pois continuarão atendendo às necessidades do país, pelos próximos cinquenta anos.

Cabe finalizar com a informação da Secretaria Geral da Presidência, de que, desde 2010, o governo federal investiu em educação e saúde R$ 825,3 bilhões.

O mais interessante é que, no rol de pessoas com quem me relaciono, as que apregoam a tese de não investir na Copa são as mesmas que foram favoráveis a retirar R$ 40 bilhões/ano da saúde [ação do PSDB-DEM-PPS], através de campanhas nas redes sociais, e conseguiram que o Congresso Nacional extinguisse a CPMF, importante fonte de recursos para esse fim, além de [extinguir o] mecanismo efetivo para reduzir a sonegação fiscal, que impede, todo ano, que mais alguns bilhões [mais de R$ 400 bilhões/ano sonegados] possam ser direcionados para saúde e educação.

Nos próximos artigos, tratarei de discutir as obras de mobilidade urbana constantes do “Legado da Copa 2014”, onde também há mais falácias do que fatos."


FONTE: escrito por José Augusto Valente (*), especialista em logística e infraestrutura. Publicado no site "Carta Maior"  (http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Legado-da-Copa-fatos-e-falacias-parte-2-/4/31286). [Trechos entre colchetes adicionados por este blog 'democracia&política']. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Produção no pré-sal atinge patamar de 500 mil barris diários

Maurício Thuswohl transcrito do site Carta Maior

postado em: 01/07/2014

Rio de Janeiro – A chegada ao patamar de 500 mil barris diários de petróleo produzidos nos campos de exploração do pré-sal nas bacias de Campos e Santos será comemorada nesta terça-feira (1) pela Petrobras em cerimônia na sede da empresa no Rio de Janeiro. Com a boa nova, a expectativa do governo e da direção da estatal é dar início a uma agenda positiva que sirva como contraponto ao noticiário negativo sustentado pela grande mídia desde a prisão do ex-diretor Paulo Roberto Costa pela Polícia Federal e do surgimento das denúncias de má gestão durante a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos.

Após a cerimônia, a presidente da Petrobras, Graça Foster, e o diretor de Exploração e Produção da empresa, José Formigli, se reunirão com jornalistas e blogueiros para uma entrevista coletiva. Serão debatidos temas como o aumento da produção e a expectativa de investimentos para os campos do pré-sal, além do recente contrato firmado com o governo federal para a produção direta do excedente da cessão onerosa feita pela União há quatro anos, que pode render até 14 bilhões de barris de petróleo.

Graças ao pré-sal, a estatal brasileira é a única, entre as maiores empresas petrolíferas do mundo, a ter registrado aumento de produção nos últimos seis anos. Em 2013, essa produção atingiu um total de dois milhões e 59 mil barris diários, e a previsão do governo é que haja um aumento de 7,5% até o fim de 2014. Esse volume foi obtido com a operação de 24 poços, sendo 15 na Bacia de Campos e nove na Bacia de Santos, e a direção da Petrobras ressalta que isso aconteceu somente oito anos após a confirmação das reservas do pré-sal, um tempo menor do que a média obtida por empresas do setor em outros grandes campos como, por exemplo, o Golfo do México ou o Mar do Norte.

Durante um congresso internacional do setor de Óleo e Gás realizado em junho na Rússia, no qual apresentou um painel sobre exploração e produção de petróleo em águas profundas, a gerente executiva da Petrobras para o recém-negociado Campo de Libra, Anelise Lara, afirmou que no período entre setembro de 2008 e abril de 2014 a produção acumulada no pré-sal chegou a 343 milhões de barris de petróleo e gás equivalente, com um índice de sucesso geológico de 100%: “Até 2020, teremos mais 24 sistemas definitivos de produção no pré-sal que vão produzir em torno de dois milhões de barris de petróleo por dia”, disse a executiva.

Investimentos

No mesmo congresso, que aconteceu em Moscou, o gerente geral da área de exploração da Petrobras, Jeferson Luiz Dias, afirmou que os investimentos da empresa em exploração e produção no período 2014-2018 serão de US$ 153,9 bilhões. Desse total, US$ 23 bilhões serão destinados exclusivamente à exploração, sendo 27% apenas para o pré-sal (US$ 6,2 bilhões). Outros US$ 18 bilhões serão investidos em infraestrutura, e os US$ 112,9 bilhões restantes serão investidos na produção, com 64% totalmente voltados ao pré-sal (US$ 72,2 bilhões): “Considerando-se a parcela da Petrobras mais a participação dos parceiros, que é de US$ 44,8 bilhões, o total desembolsado em exploração e produção para esse período será de quase US$ 200 bilhões”, disse.

Dias afirmou que os campos do pré-sal respondem por aproximadamente 16% do total da produção atual da Petrobras, e fez uma projeção da participação do pré-sal na curva de produção da empresa até 2020, quando responderá por 53% do total de 4,2 milhões de barris diários que, segundo as estimativas do governo, estarão sendo produzidos: “A contribuição do pré-sal será decisiva para a Petrobras alcançar as metas estabelecidas pelo PNG 2014-2018 e o Planejamento Estratégico 2030”, afirmou o gerente.

Cessão onerosa

Somente este ano, segundo a Petrobras, já foram postas em operação duas novas plataformas na Bacia de Campos. A plataforma P-58 começou a operar no campo do Parque das Baleias, e a plataforma P-62 no campo de Roncador. Até setembro, começará a operar a P-61 no campo de Papa-Terra. Ainda no segundo semestre, prevê a direção da estatal, serão instaladas também novas unidades de produção flutuantes, conhecidas com FPSOs: Cidade de Mangaratiba, no campo Lula/Iracema, e Cidade de Ilhabela, no campo de Sapinhoá, ambos localizados no pré-sal da Bacia de Santos.

O contrato firmado entre a Petrobras e o governo, sob regime de partilha, para a produção do petróleo excedente ao que foi estabelecido pela cessão onerosa feita pela União em 2010 prevê a exploração em quatro blocos no pré-sal da Bacia de Santos: Búzios, Florim, Nordeste de Tupi e Entorno de Iara. A estimativa é que a empresa invista R$ 15 bilhões até 2018 para em 2021 iniciar a produção nestes blocos. A grande mídia e os partidos de oposição ao governo de Dilma Rousseff criticam este desembolso, mas ele é defendido por Graça Foster: “O contrato é uma boa oportunidade e importantíssimo para a Petrobras”.



“Não estamos caminhando para uma sociedade homogênea, medianizada, mas para uma sociedade mais polarizada”. Entrevista especial com Márcio Pochmann

Transcrito do IHU On-line


“Hoje vivemos em uma sociedade de serviços, e isso requer um reposicionamento do Estado brasileiro em relação a essa questão. Inclusive as manifestações ocorridas desde o ano passado têm demandas voltadas para os serviços, sejam privados ou públicos: bancários, de saúde, de educação, de transporte”, pontua o economista. 
 Foto: www.ceviu.com.br
O cenário econômico e social brasileiro “repete o que ocorreu no pós-guerra nos países desenvolvidos”, assinala Márcio Pochmann à IHU On-Line, ao analisar as políticas públicas que favoreceram a ascensão econômica de uma parcela da população, sem com isso garantir a incorporação dessas pessoas à classe média. “O que está acontecendo no país é a pauta que o novo sindicalismo foi construindo desde as greves dos anos 1970, ou seja, crescimento dos salários de acordo com a produtividade mais a inflação, melhora nas políticas de renda, etc. Tudo isso permitiu uma ampliação do acesso ao consumo, melhorou a renda, o emprego, mas os valores continuam os mesmos. (...) Então, imagino que não é possível fazer essa transição da classe trabalhadora para a classe média sem uma mudança na estrutura produtiva, e isso depende de ações mais abrangentes do que essas que nós tivemos até o momento”, adverte.
Na avaliação do economista, o crescimento do setor de serviços com base em baixos salários e queda do setor industrial na participação do PIB são fatores que impedem a transição de uma classe trabalhadora para uma classe média assalariada no país. “Mas é claro que se o Brasil tiver uma política de reindustrialização, de fortalecimento de determinados setores industriais, associado aos serviços produtivos, certamente terá condições de avançar em termos de uma classe média assalariada. Do contrário, isso se torna mais difícil. O que se tem visto no Brasil desde a primeira década deste século é uma difusão de empregos não vinculados à indústria, mas aos serviços – pessoais, sociais, de distribuição , cujo emprego é de menor qualidade do que aquele vislumbrado na indústria. Tanto é que dos 22 milhões de empregos que o Brasil gerou, 95% são relacionados à faixa de até dois salários mínimos mensais”, destaca.
Apesar de as políticas públicas dos últimos anos terem permitido aumento da renda salarial e terem incluído mais pessoas em programas sociais, há uma série de contradições nesses processos. Entre os exemplos, o economista menciona o Programa Minha Casa, Minha Vida, que possibilita a construção da casa própria em “áreas que não vêm acompanhadas de serviços públicos, transportes, áreas de lazer, postos de saúde, escolas”. Além disso, pontua, “mais de dois milhões de jovens tiveram acesso ao ensino superior por meio do ProUni e do Fundo de Financiamento Estudantil – Fies. Apesar disso, evidentemente há problemas na educação brasileira”. E acrescenta: “Há problemas, mas eles não estão sendo capturados pelas instituições tradicionais, sejam elas associações de bairros, sindicatos, ou o movimento estudantil”.
Autor do livro recém-lançado, O mito da grande classe média: capitalismo e estrutura social (São Paulo: Boitempo, 2014), Pochmann comenta, na entrevista a seguir, concedida por telefone, o mito em torno da classe média e a tendência a uma polarização entre ricos e uma “classe trabalhadora mais alargada submetida a empregos precários, com baixos salários, maior informalidade, maior flexibilidade nas contratações”. Segundo ele, o emprego assalariado de classe média estava associado ao capitalismo industrial, mas hoje há um deslocamento das indústrias para a Ásia, “de tal forma que a divisão internacional do trabalho de classe média sofre um deslocamento da classe média dos países europeus e da América para a Ásia. É dentro desse contexto que o Brasil se coloca, convivendo com o esvaziamento de empregos e da classe média tradicional”. E conclui: “É por isso que a classe média se converte num mito, porque estamos vendo uma estrutura de classe cada vez mais polarizada e não medianizada, como foi o capitalismo do pós-Segunda Guerra, assentado no fordismo”.
Márcio Pochmann é doutor em Economia e professor do Instituto de Economia da Unicamp. Entre seus livros, destacamos E-trabalho (São Paulo: Publisher Brasil, 2002) e Desenvolvimento, trabalho e solidariedade (São Paulo: Cortez, 2002).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Em que consiste o mito da classe média do qual trata o seu livro O Mito da Grande Classe Média – Capitalismo e Estrutura Social (São Paulo: Editora Boitempo, 2014)?
Márcio Pochmann – Este livro é resultado de uma pesquisa que busca analisar o conceito de classe média, o qual foi utilizado, ao longo do tempo, em situações muito distintas. Na constituição do capitalismo, a definição de classe média foi adotada para identificar justamente a política nascente, os pequenos empresários, como a classe média intermediária entre a aristocracia fundiária e os trabalhadores. Esse é um conceito que foi se alterando, e tal como o utilizamos ao longo do século XX, refere-se à classe assalariada em geral, embora compreenda também a classe média proletária, os pequenos comerciantes, que de certa forma, em algum momento, se transformariam em comerciantes maiores, ou seriam incorporados nos segmentos maiores. A classe média assalariada está relacionada ao que se identifica como sendo o capitalismo urbano e industrial, associado à grande empresa, inclusive ao fordismo, que permitiu, dentro das grandes empresas, o estabelecimento de ocupações vinculadas à maior escolaridade. Nesse caso, trata-se especificamente dos gerentes, dos administradores, dos supervisores, das atividades que demandam ensino médio ou ensino superior.
O que conhecemos hoje sobre o conceito de classe média se associa, portanto, à fase do desenvolvimento do capitalismo urbano e industrial, associado à grande empresa privada, que foi responsável pela geração de um segmento de salários mais altos e de empregos que se relacionavam com um nível de educação superior ou ensino médio especializado (técnico).
Esse segmento tinha sua remuneração através de salários, os quais, de maneira geral, eram complementados por benefícios, como cartão de crédito, aluguel de moradia, pagamento de mensalidades escolares dos filhos dos funcionários, de tal forma que a remuneração dessa classe média resultava do salário mais os adicionais vinculados a metas de produção e venda.
Além dessa classe média assalariada da empresa privada, também houve uma expansão da classe média assalariada vinculada ao Estado, seja na administração pública, seja nos empregos oriundos através de concursos públicos, como de juízes, promotores, oficiais das Forças Armadas, ou seja, uma tecnocracia que se constitui em torno do Estado por meio do emprego público.

"Se considerarmos outras fontes de renda que não a do trabalho, é possível perceber melhor as desigualdades"

Decréscimo
Esse segmento assalariado que se denominou classe média vem apresentando sinais de decréscimo da década de 1970 para cá. Tanto é que a literatura internacional especializada usa expressões como “adeus à classe média” assalariada, seja a oriunda das empresas privadas, seja as do emprego público. Isso porque houve uma transição da empresa privada anteriormente organizada em torno do fordismo para a empresa organizada em torno do toyotismo. Essa transição gerou a chamada empresa enxuta, na qual grande parte do emprego foi externalizado, ou seja, saiu da grande empresa e se transformou em serviços terceirizados, vinculados à produção, mas não mais vinculados à grande empresa. Isso fez com que se tivesse uma redução do emprego assalariado de classe média tradicional. Da mesma forma, a revolução informacional acabou permitindo que várias das atividades que a classe média exercia fossem agregadas a novas ocupações, que simplificaram a própria estrutura ocupacional da classe média. Por fim, o avanço do próprio neoliberalismo terminou por reduzir várias das funções do Estado, principalmente aquelas em que se tinha uma tecnocracia avantajada com o enxugamento de vários empregos, de tal forma que estamos caminhando para uma estrutura de ocupação, para uma estrutura de classe desse capitalismo do século XXI, que de certa maneira vai comprimindo o processo de medianização do pós-guerra.
Hoje estamos caminhando para uma polarização, porque esse emprego de classe média está sendo comprimido, e avança, de um lado, uma classe trabalhadora mais alargada submetida a empregos precários — há autores que denominam esse fenômeno de o novo precariado —, com baixos salários, maior informalidade, maior flexibilidade nas contratações, e, no outro extremo, há um fortalecimento dos muito ricos, que vêm crescendo e indicando inclusive o aumento da desigualdade. Por fim, esse emprego assalariado de classe média estava muito associado ao capitalismo industrial, e observamos, hoje, olhando o mundo como um todo, um deslocamento das indústrias e do emprego para a Ásia, que responde por 80% da manufatura mundial, de tal forma que a divisão internacional do trabalho de classe média sofre um deslocamento da classe média dos países europeus e da América para a Ásia. É dentro desse contexto que o Brasil se coloca, convivendo com o esvaziamento de empregos e da classe média tradicional.
É por isso que a classe média se converte num mito, porque estamos vendo uma estrutura de classe cada vez mais polarizada e não medianizada, como foi o capitalismo do pós-Segunda Guerra, assentado no fordismo.
IHU On-Line – Ainda existe uma classe média?
Márcio Pochmann – Sim, existe, mas não nas proporções que se estabeleceram no período anterior. É uma classe média mais contida, mas que convive com enormes dificuldades de reprodução, seja porque os empregos tradicionais de classe média têm dificuldade de serem expandidos, seja pelo esvaziamento industrial, seja porque ela está submetida a uma competição muito acirrada, pois aquilo que anteriormente era quase um monopólio de classe média e dos ricos, sofreu um processo de universalização, de tal forma que hoje há mais pessoas qualificadas para disputar empregos que, anteriormente, eram ofertados para segmentos de classe média e, portanto, menor quantidade de pessoas disputavam postos de trabalho de classe média. Hoje há mais pessoas e menos empregos.
IHU On-Line – Como se dá esse mito da classe média no mundo? Por que não foi possível constituir uma classe média? Algumas políticas poderiam ter sido implementadas nesse sentido?
Márcio Pochmann – O livro analisa o mito da classe média no mundo. Percebe-se que o esvaziamento industrial, seja nos EUA, seja na União Europeia, está levando ao esvaziamento da classe média nesses países, que são países que convivem com uma estrutura social polarizada. No caso brasileiro, vive-se um quadro de esvaziamento do setor industrial. Basta dizer que nos anos 1980 a indústria respondia ao redor de um terço do PIB brasileiro e hoje é algo ao redor de 20%. Houve um esvaziamento do setor industrial e ao mesmo tempo houve um deslocamento de várias indústrias para diferentes regiões do país.
Então, o Brasil sofre desse problema. Mas é claro que se o Brasil tiver uma política de reindustrialização, de fortalecimento de determinados setores industriais, associado aos serviços produtivos, certamente terá condições de avançar em termos de uma classe média assalariada. Do contrário, isso se torna mais difícil. O que se tem visto no Brasil desde a primeira década deste século é uma difusão de empregos não vinculados à indústria, mas aos serviços  pessoais, sociais, de distribuição , cujo emprego é de menor qualidade do que aquele vislumbrado na indústria. Tanto é que dos 22 milhões de empregos que o Brasil gerou, 95% são relacionados à faixa de até dois salários mínimos mensais.
Esse é um aspecto interessante de ser destacado, porque a geração desse tipo de emprego foi fundamental para incorporar um segmento da sociedade que era praticamente intocável por políticas públicas. Porque se fossem gerados empregos de quatro, cinco ou mais salários mínimos mensais, dificilmente esses segmentos de baixa escolaridade, que viviam na informalidade, teriam tido acesso ao emprego. Na minha avaliação, foi muito positiva a expansão desse tipo de emprego, pois permitiu que determinados segmentos da sociedade que estavam engajados na estrutura social pudessem ter essa oportunidade. Além da geração de empregos, foram importantes as políticas de renda – do salário mínimo, de transferência de renda, como o Programa Bolsa Família  associadas às políticas de crédito e até mesmo à mudança dos preços relativos. O meu livro se debruça um pouco sobre a análise da estrutura de preços, bens e serviços, e se percebe que os preços dos produtos manufaturados não acompanharam a inflação, enquanto os preços dos serviços subiram acima da inflação. Isso fez com que determinados segmentos com menor renda pudessem, através da sua remuneração maior ou do crédito, ter acesso a bens de consumo duráveis que até então não teriam.

"O que tivemos no capitalismo industrial foi uma melhora no nível de vida dos trabalhadores"

IHU On-Line – Essa combinação de acesso a crédito com aumento do salário mínimo permitiu ascensão econômica de uma parcela significativa da população. À época do governo Lula falava-se da ascensão da classe C, da “nova classe média”. Contudo, apesar de ter possibilitado acesso ao mercado de consumo, essa política teve contradições no sentido de não possibilitar acesso a outros bens, tais como educação de qualidade, saúde? É possível fazer a transição da classe trabalhadora para a classe média?
Márcio Pochmann – A mudança do conceito de classe média ao longo do capitalismo está diretamente relacionada à estrutura produtiva, ou seja, dependendo do tipo de emprego que o capitalismo gera, tem como reflexo uma estrutura de classe. Todavia, o que tivemos no capitalismo industrial foi uma melhora no nível de vida dos trabalhadores. Eu sempre gosto de dizer que, na década de 1940, de cada dez operários franceses, apenas um tinha automóvel. Na de 1970, de cada dez operários franceses, nove tinham automóveis. Eles elevaram o nível de renda, tiveram acesso a crédito, ou seja, uma expansão do estado de bem-estar social permitiu-lhes ampliar o consumo, ter acesso à casa própria, mas isso não mudou a condição de classe: eles continuaram sendo operários.
O que acontece no Brasil simplesmente repete o que ocorreu no pós-guerra nos países desenvolvidos. O que está acontecendo é a pauta que o novo sindicalismo foi construindo desde as greves dos anos 1970, ou seja, crescimento dos salários de acordo com a produtividade mais a inflação, melhora nas políticas de renda, etc. Tudo isso permitiu uma ampliação ao acesso ao consumo, melhorou a renda, o emprego, mas os valores continuam os mesmos. Os serviços não foram profundamente alterados. Não obstante, apesar da elevação da quantidade para o acesso à educação, a qualidade da educação no país ainda é muito difícil. Então, imagino que não é possível fazer essa transição da classe trabalhadora para a classe média sem uma mudança na estrutura produtiva, e isso depende de ações mais abrangentes do que essas que nós tivemos até o momento.
IHU On-Line - O senhor disse recentemente que o que acontece hoje é parecido com o que acontecia à época da ditadura, referindo-se às pessoas que têm acesso ao Programa Minha Casa, Minha Vida, mas moram distante e não têm acesso a outros bens. Isso é consequência de que processo?
Márcio Pochmann – Aí é outro debate, porque a ampliação da classe trabalhadora no Brasil desde os anos 1970, mesmo durante a ditadura, foi repleta de contradições que geraram grandes possibilidades de mobilizações sociais. Quer dizer, muitos trabalhadores saíam da zona rural e vinham para as cidades, que não estavam preparadas para recebê-los, mas eles vinham trabalhar na indústria moderna e não tinham habitação e transporte adequados.
Essas dificuldades foram muito bem compreendidas pelas associações de bairro das áreas em que foram sendo construídas habitações, gerando um ambiente de pressão e organização social. Ou seja, os anseios dos trabalhadores foram capturados, se não pelas direções dos sindicatos, pelas oposições às direções dos sindicatos, que souberam trabalhar e utilizar esse mal-estar para forjar lutas que viabilizaram a transição para a ditadura e para a criação de partidos políticos. Na realidade essa ascensão dos anos 1970 teve a ver com a expansão do emprego industrial. O que acontece desde a primeira década deste século é uma expansão de empregos de serviços, os quais têm uma natureza distinta do trabalho industrial: é quase imaterial e não vem associado ao surgimento de algo concreto e palpável, mas associado às tecnologias da informação e comunicação, e estamos tendo dificuldades de representação desses setores que emergiram no Brasil. Basta dizer que, segundo pesquisas, de cada dez novos empregos gerados, apenas dois trabalhadores buscaram os sindicatos. Há várias razões que explicam isso, mas não quer dizer que os trabalhadores não estão vivendo um quadro de contradições.
Contradições
Nesse sentido, o Programa Minha Casa, Minha Vida está sendo construído em muitas áreas que não vêm acompanhadas de serviços públicos, transportes, áreas de lazer, postos de saúde, escolas. Há problemas, mas eles não estão sendo capturados pelas instituições tradicionais, sejam elas associações de bairros, sindicatos, ou o movimento estudantil. Mais de dois milhões de jovens tiveram acesso ao ensino superior por meio do ProUni e do Fundo de Financiamento Estudantil – Fies. Apesar disso, evidentemente, há problemas na educação brasileira, mas esses problemas não são capturados pelo movimento estudantil.
Acredito que isso está associado ao descolamento entre as insatisfações desse novo mundo do trabalho no país e as instituições que devem representá-lo e que hoje têm grande dificuldade para fazer isso. Talvez estejamos próximos de viver um novo ciclo de instituições, como ocorreu nos anos 1970, sem que o governo à época oferecesse resultados adequados.
Guardadas as devidas proporções, acho que estamos numa situação parecida. Basta ver o que acontece hoje: sindicatos e empregadores firmam um acordo de trabalho, e no dia seguinte tem uma paralisação porque os trabalhadores não foram consultados ou estão insatisfeitos com o acordo. Isso demonstra que não estamos caminhando para uma sociedade homogênea, medianizada, mas para uma sociedade mais polarizada, tensa, em torno dos direitos que têm de ser adequados às demandas.

IHU On-Line - As manifestações de junho passado são um reflexo desse mito da classe média ou ao menos dessa ascensão econômica que não gera outros ganhos para a população?
Márcio Pochmann – Essa mobilidade social que aconteceu é positiva e demonstra que um segmento que parecia intocável por políticas públicas passou a ter acesso a emprego, a programas de capacitação, programa habitacional — o país tem um grande déficit habitacional concentrado nas famílias de baixa renda. Há iniciativas fundamentais e importantes que representam uma inversão de prioridades do Estado brasileiro, mas ao mesmo tempo não podemos deixar de lembrar que há contradições nessa ascensão social, as quais derivam da falência das grandes cidades brasileiras, das catástrofes que foram as cidades em termos de investimento público a partir das décadas de 1980 e 1990, ou seja, houve uma paralisia em termos de investimento de mobilidade social. Temos contradições que exigem um programa de reformas que olhem para essa situação. O problema das cidades é o grande estopim para grandes manifestações, porque o cotidiano da vida nas cidades é muito perverso: as pessoas saem cedo de suas casas e voltam tarde. Hoje vivemos uma sociedade de serviços e isso requer um reposicionamento do Estado brasileiro em relação a essa questão.
Inclusive as manifestações ocorridas desde o ano passado têm demandas voltadas para os serviços, sejam privados ou públicos: bancários, de saúde, de educação, de transporte.
IHU On-Line - O Brasil parece ser visto com bons olhos no exterior no sentido de ser um país em ascensão econômica e desenvolvimento, se comparado com outros países que estão em crise atualmente. No que se refere ao crescimento econômico e ao desenvolvimento, o Brasil está num caminho certo ou também pode-se falar de um mito nessa área?
Márcio Pochmann – O Brasil como país subdesenvolvido tem determinados graus de autonomia em momentos em que os países do centro do capitalismo vivem em crise. Tivemos dois momentos que se assemelham ao que estamos vivendo no mundo de hoje: um ocorreu no final do século XIX, do ano de 1873 a 1896; e o segundo foi a grande depressão de 1929-1939. Esses dois períodos de problemas sérios abriram  para o Brasil a possibilidade de trilhar caminhos próprios e ele o fez, seja na década de 1980, quando fez uma reforma política, seja a mudança mais antiga de passar do Império para República. Isso permitiu ao Brasil se inserir no ciclo de comércio mundial e através da economia cafeeira criar as bases para a própria industrialização a partir de 1930. Na segunda grande depressão, o Brasil fez uma transição, abandonando a sociedade agrária e construindo um setor urbano e industrial.
Hoje o país está criando um novo caminho — não muito bem identificado —, mas é um caminho que permitiu ao Brasil se diferenciar do que está acontecendo no mundo. Basta ver que segundo a Organização Internacional do Trabalho - OIT, entre 2008 e 2013, o mundo destruiu 62 milhões de empregos e o Brasil criou 11 milhões de empregos. Isso é uma demonstração de que o Brasil está trilhando um caminho próprio, o qual deriva de uma maioria política que dá sustentação a iniciativas dessa natureza, em defesa da produção e do emprego. Apesar da dificuldade internacional, o Brasil segue crescendo. Cresce um pouco menos, mas esse crescimento permite continuar reduzindo a pobreza e a própria desigualdade de renda. Há um ambiente internacional desfavorável, mas o Brasil dá passos firmes no sentido de evitar o aumento da pobreza e da desigualdade como estamos vendo nos países ricos.
IHU On-Line - O livro Capital in the Twenty-First Century (O capital no século XXI), do economista Thomas Piketty, retomou o debate em relação às desigualdades sociais. Para o senhor, quais são as razões de ainda termos tantas desigualdades?
Márcio Pochmann – A desigualdade é um fenômeno intrínseco ao capitalismo. A natureza do capitalismo é a produção da desigualdade. A desigualdade entre aqueles que têm propriedade e condições de constituir sua renda oriunda de lucros, aluguéis, da terra, são segmentos que acumulam e ampliam a sua renda e o seu poder de forma mais rápida em relação a outros que não possuem propriedade, mas somente o seu próprio esforço, através do trabalho, de acumular riqueza.
Em 2003, foi publicado o livro Os ricos no Brasil, que utiliza dados equivalentes aos que Piketty utilizou, e mostra que 20 mil famílias controlam quatro quintos da propriedade brasileira. A desigualdade da propriedade é muito maior do que essa desigualdade que medimos através do fluxo de renda do trabalho ou de benefícios de políticas públicas que é capturado pelo IBGE. Então, se considerarmos outras fontes de renda que não a do trabalho, é possível perceber melhor as desigualdades.
O fato é que com o processo de financeirização e globalização, esse 1% de ricos analisados por Piketty se constituiu numa grande elite mundial que vem sendo favorecida enormemente pelo processo de financeirização do capitalismo.
A tentativa de resolver as desigualdades já é recorrente e há um certo consenso teórico acerca da tributação de grandes fortunas. A questão é que não há maioria política no mundo para se fazer esse tipo de tributação, sobretudo em países como Inglaterra e EUA, que são os principais centros financeiros. Eles não aceitam essa proposta, de modo que é muito difícil a aplicação de políticas dessa natureza. De certa forma, também se abre uma lacuna, porque até a década de 1980-1990 a construção do Estado era apenas de caráter nacional, mas hoje estamos diante de um capitalismo global que exige uma regulação supranacional; e esse é um dos grandes desequilíbrios que temos hoje. Esse desequilíbrio gera pressões e basicamente aprofunda ainda mais o processo de desigualdade entre pessoas, classes e países.

O RECADO ALEMÃO


  Encaradas, por alguns setores, apenas como uma espécie de “chilique” da Presidente Dilma, as reações do governo brasileiro às ações de espionagem levadas a cabo pela NSA,     dos Estados Unidos, têm sido até brandas quando comparadas às de outras nações.
Ontem, a Alemanha mandou duro recado a Washington, com a suspensão de vultoso contrato com a norte-americana Verizon.
“Há indicações de que a Verizon é legalmente obrigada as fornecer informações à NSA, e essa é uma das razões pelas quais a cooperação com a Verizon não continuará. - afirmou Tobias Plate, porta-voz do Ministério do Interior do governo alemão.

Com a  decisão, os contratos, relativos à prestação de serviços de internet a vários órgãos governamentais, deverão ser repassados para a Deutsche Telekom, que tem participação do governo, e administra as comunicações de alguns ministérios e dos órgãos de inteligência do país.
Enquanto isso ocorre na Alemanha - tradicional aliada dos Estados Unidos e maior economia do continente europeu -  no Brasil o governo insiste em continuar contratando serviços de empresas estrangeiras para setores estratégicos sensíveis.
Esse é o caso da INDRA, empresa espanhola de telecomunicações, que conta, atualmente, com importantes contratos na área de defesa concedidos pelo  governo brasileiro, nas áreas de comunicações  militares via satélite (é fornecedora das estações terrestres do exército), de sistemas de vigilância por radar, e - pasmem os leitores - de nossos sistemas de guerra eletrônica, que estão voltados justamente para enfrentar ameaças a ameaça de inimigos externos.
E isso, apesar de ter um governo estrangeiro, membro da OTAN, como um de seus principais acionistas. O governo espanhol, que detêm mais de 20% de suas ações, é um dos mais abjetamente subalternos aos Estados Unidos, não apenas do ponto de vista de sua política externa, mas também no campo militar, como mostra sua atuação como linha auxiliar das forças armadas dos EUA em lugares como  a Líbia e o Afeganistão. Nos EUA, a INDRA coopera diretamente com o governo, e possui uma subsidiária, instalada na cidade de Orlando.
O governo brasileiro precisa entender que existem limites no que pode ser contratado a uma empresa estrangeira. Comprar, ou desenvolver, ou copiar, por engenharia reversa, uma determinada peça, de uma empresa de outro país, é uma coisa. Outra, muito diferente, é encomendar lá fora sistemas fechados, que podem ser anulados ou sabotados facilmente em caso de conflito. O que precisamos é desenvolver, aqui dentro, mesmo, nossos projetos de defesa, e, quando não pudermos fazer isso, contratar técnicos e cientistas, no exterior, para trabalhar dentro de nossas fronteiras. Foi isso que os norte-americanos e os russos sempre fizeram. E nunca se arrependeram.

O Brasil e suas complexidades




*José Álvaro de Lima Cardoso
     Conforme já registramos em artigo anterior, falar mal do Brasil virou esporte predileto de muitos no Brasil e no mundo. Nunca se falou tão mal da economia do país, por exemplo, exatamente em um período em que os indicadores, possivelmente, sejam os melhores da história do Brasil. Os imensos desafios do Brasil, obviamente não podem ser desconsiderados. Por exemplo, o país ainda não possui um projeto nacional de desenvolvimento, fruto do debate da maioria da sociedade. Um projeto que leve em conta as mudanças na conjuntura mundial e reconheça a necessidade da política econômica brasileira se readequar a uma trajetória de longo prazo. Isso tudo requer um pesado e democrático debate na sociedade, de difícil construção.  
     Não se sabe, ademais, qual a proposta da sociedade para as despesas com juros do governo, que drena parcela significativa do esforço nacional. No ano passado, o país gastou R$ 249 bilhões com juros, que vão para o bolso de uma minoria. De 2009 a 2013, os gastos com juros alcançaram R$ 1,065 trilhão, equivalente a cerca de 22% do PIB brasileiro. Os gastos com as arenas para a Copa do Mundo (que serão devolvidos, pois são fruto de empréstimos), representam duas semanas de juros recebidos pelos rentistas no ano passado. Conforme já foi veiculado, desde que começaram as obras da Copa, em 2010, o governo investiu R$ 825 bilhões em saúde e educação, o que representa mais de cem vezes os gastos com arenas. Mas isso não se discute, afinal quem leva 5% do PIB todo ano tem muita força sobre a opinião pública.
    Outra questão fundamental: como reverter o processo de desindustrialização? Para a economia gerar empregos e salários de qualidade e receita fiscal compatível com as urgências sociais e logísticas, não é possível imaginar o país sem indústria, que é o principal polo irradiador de produtividade e inovação da economia. Dá para ter indústria competitiva com a atual nível de câmbio e juros, sem pensar em controle de capitais?
    Continuamos sendo, além disso, um dos 10 países mais desiguais do mundo e segundo a principal pesquisa sobre paraísos fiscais, da Tax Justice Network, nos paraísos fiscais existe entre US$ 21 trilhões a US$ 30 trilhões. E a estimativa é que o Brasil teria cerca de US$ 520 bilhões – quase R$ 1 trilhão. O PIB do Brasil é R$ 4,84 trilhões, ou seja, estamos falando de quase 25% do PIB brasileiro desviado para paraísos fiscais.
     No entanto, os desafios devem ser analisados sob perspectiva histórica, do contrário as críticas ficarão no plano abstrato e genérico. Por exemplo, de fato a taxa média de crescimento do PIB do Brasil, nos últimos anos, (2%), realmente é muito baixa. Mas vivenciamos ainda os efeitos da maior crise do capitalismo nos últimos 80 anos; isso não conta? No Brasil o consumo das famílias sobe, ininterruptamente, durante 120 meses seguidos, o que explica, inclusive, a pressão sobre a inflação, já que ocorreu a mudança da estrutura de distribuição de renda e a inclusão de milhões de brasileiros, nos últimos anos, no processo de consumo, o que é extremamente positivo.
     A comparação da evolução da economia brasileira com a mexicana é interessante, porque alguns analistas gostam de mencionar aquela como um exemplo de sucesso, pelo seu alinhamento com a pregação neoliberal e com as políticas emanadas dos EUA. Desde 2003 a economia brasileira (que cresceu pouco para as nossas necessidades) expandiu 45,44% e a economia mexicana, no mesmo período, cresceu 30,47%. E com um detalhe importante: no Brasil a participação dos salários na renda nacional, é de 45% e no México é de 29%.  Isto significa que o Brasil cresceu mais (ainda que insuficiente) e com menos desigualdade.
     Queiramos ou não, para vários assuntos o Brasil se tornou uma referência internacional e isso incomoda muita gente. Por exemplo, mudamos o padrão de nossas relações comerciais, fortalecendo a relação Sul-Sul, tanto na América do Sul com o reforço do Mercosul, quanto em relação ao Continente Africano. As forças armadas do país, recentemente, firmaram parcerias com a Suécia, com a aquisição de caças e transferência de tecnologia. Em parceria com a França e Argentina, o país está fabricando submarinos movidos à propulsão nuclear. Tudo isso mostra uma nova postura do Brasil em política internacional, que certamente desagrada interesses dominantes mundo afora, especialmente dos EUA.
     Um capítulo importante deste processo complicado e novo foi a entrega à Petrobras, pelo governo, de quatro das seis áreas de cessão onerosa utilizadas como garantia no processo de capitalização da empresa. Essas áreas, que estão concentradas no campo de Franco (agora Búzios), tem entre 10 e 14 bilhões de barris de petróleo recuperáveis, praticamente tudo que o país possui de reservas comprovadas. Para termos uma ideia, Franco possui 25% acima das reservas de Libra, o maior campo de petróleo descoberto no mundo nos últimos anos. Segundo avaliações dos especialistas, o campo de Franco deve disponibilizar à educação e à saúde, algo próximo a R$ 700 bilhões, fora as receitas de impostos. Para a extração das reservas a Petrobras deverá investir no país cerca de R$ 500 bilhões, nada mal para uma empresa que alguns qualificam como “endividada” ou “quebrada”.  
*Economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.