Artigo do Brasil Debate
Por Eduardo Fagnani*
Política econômica e política social são faces da mesma moeda. Não há
como conciliar política econômica que concentre a renda e política
social que promova a inclusão social.
O projeto de Aécio Neves é neoliberal, anti-desenvolvimentista e
antissocial. Armínio Fraga (ministro da Fazenda de um eventual governo
do PSDB) partilha da visão de que “a atual meta de inflação é muito
alta”.
Prega a redução gradativa da meta atual (4,5% ao ano), Banco Central
independente, gestão ortodoxa do “tripé macroeconômico”, forte ajuste
fiscal, desregulação econômica, abertura comercial e câmbio flutuante. Essa opção aprofundará as desigualdades sociais.
A redução da meta de inflação requer juros elevados (no governo FHC,
atingiu mais de 40% ao ano). A primeira consequência é a recessão
econômica, afetando a geração de emprego e a ampliação da renda do
trabalho – a mais efetiva das políticas de inclusão social e redução da
desigualdade.
O ajuste recessivo implícito ampliará o desemprego e inviabilizará o
processo em curso de valorização gradual do salário mínimo, reduzindo a
renda dos indivíduos, o que realimentará ciclo perverso da recessão.
A segunda consequência da alta dos juros é a explosão da dívida
pública (como ocorreu nos anos de 1990, quando passou de 30% para 60% do
PIB em apenas oito anos). Os gastos para pagar parte dos juros poderão
retornar para patamares obscenos (chegou a 9% do PIB nos anos de 1990),
exigindo ampliação do superávit primário, o que restringirá o gasto
social, agravando o ajuste recessivo.
Essa receita clássica é incompatível com políticas sociais universais
que garantam direitos de cidadania, cujo patamar de gastos limita o
ajuste fiscal. Promessas de campanha não serão cumpridas e novas rodadas
de reformas para suprimir esses direitos voltarão para o centro do
debate. A única “política social” possível é a focalização nos “mais
pobres”, cerne do Estado Mínimo.
Para essa corrente, o “desenvolvimento social” prescinde da geração
de emprego, renda do trabalho, valorização do salário mínimo e políticas
sociais universais. Sequer o crescimento da economia é necessário.
Apenas políticas focalizadas são suficientes para alcançar o “bem-estar”
social.
Essa suposta opção pelos pobres escamoteia o que, de fato, está por
trás de objetivos tão nobres: políticas dessa natureza são funcionais
para o ajuste macroeconômico ortodoxo. As almas caridosas do mercado
reservam 0,5% do PIB para a promoção do “bem-estar”.
Para os adeptos do Estado Mínimo, ao Estado cabe somente cuidar da
educação básica (“igualdade de oportunidades”) da população que se
encontra “abaixo da linha de pobreza”, arbitrada pelos donos da riqueza.
Os que “saíram da pobreza” devem buscar no mercado privado a provisão
de bens e serviços de que necessitam.
Essa “estratégia única” abre as portas para a privatização e
mercantilização dos serviços sociais. Não causa surpresa que um
conhecido economista do PSDB defenda que a universidade pública deve ser paga.
A volta do Estado Mínimo é apenas um dos retrocessos facilmente
previsíveis. Não há nada mais velho e antissocial do que o enganoso
“culto da austeridade”, remédio clássico seguido no Brasil dos anos de
1990 e que está sendo aplicado na Europa desde 2008 com resultados
catastróficos (na opinião de Paul Krugman, crítico insuspeito).
Tem razão o economista Ha-Joon Chang (Cambridge
University) quando afirma que a “a crise financeira global de 2008 tem
sido um lembrete brutal que não podemos deixar a nossa economia para
economistas profissionais e outros tecnocratas.”
É bom lembrar aos mais jovens que Armínio Fraga, ex-presidente do
Banco Central no segundo mandato de FHC, deixou o Brasil (2002) com
inflação quase três vezes acima da meta (12,5%), juros Selic superiores a
23% ao ano, dívida líquida quase duas vezes maior que a atual (em
proporção do PIB), vulnerabilidade externa preocupante (reservas
cambiais equivalentes a cerca de 10% do patamar de 2014) e taxa de
desemprego mais que o dobro da vigente.
Na primeira década do século 21, o Brasil logrou importantes
progressos sociais. Os fatores determinantes para alcançar aqueles
progressos foram o crescimento da economia e a melhor conjugação entre
objetivos econômicos e sociais.
Após mais de duas décadas, o crescimento voltou a ter espaço na
agenda macroeconômica, com consequências na impulsão do gasto social e
do mercado de trabalho, bem como na potencialização dos efeitos
redistributivos da Seguridade Social fruto da Constituição de 1988.
Essa melhor articulação de políticas econômicas e sociais contribuiu
para a melhora dos indicadores de distribuição da renda do trabalho,
mobilidade social, consumo das famílias e redução da miséria extrema.
De forma inédita, conciliou-se crescimento do PIB (e da renda per
capita) com redução da desigualdade social. O Brasil saiu do Mapa da
Fome e mais de 50 milhões de “desinformados” (na visão do ex-presidente FHC) deixaram a pobreza extrema.
Em suma, o que está em jogo é uma disputa entre: o retrocesso ou o
aprofundamento das conquistas sociais recentes; a concentração da
riqueza ou o enfrentamento das múltiplas faces da crônica questão social
brasileira; os interesses dos gênios da política ou dos
“desinformados”, historicamente deserdados.
Crédito da foto: EBC
*Eduardo Fagnani é professor do Instituto de Economia da
Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho
(CESIT) e coordenador da rede Plataforma Política Social.
De fato é considerável afirmar que o projeto de Aécio Neves é anti-desenvolvimentista , porém se for visto de um plano mais amplo, o verdadeiro projeto a ser feito seria no desenvolvimento educacional do país, pois é a partir deste que nascem os desinformados, além de uma população alimentada por projetos conformadores. O governo que se fez anteriormente esteve fundamentado em uma inflação de grande porcentagem e hoje deixa uma inflação ainda maior. Reformas políticas seriam viáveis, mas a verdadeira reforma deveria haver no intelecto da população para com uma visão mais ampla do governo político- administrativo.
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