domingo, 5 de outubro de 2014

Brasil, desafio imenso que vale a pena




                       *Daniel dos Passos                                                                                                  
                    *José Álvaro Cardoso    
    

 Além da histórica retirada do Brasil do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas, o mês de setembro trouxe outras boas novas para o país:  
1.A renda média mensal das famílias, segundo a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD-IBGE/13), subiu 3,4% acima da inflação no ano passado e o rendimento médio dos trabalhadores assalariados apresentou aumento de 3,8% acima da inflação. Apesar da crise mundial, os dados de 2013 mostram que o Brasil continuou elevando a renda, na contramão do que vem ocorrendo no mundo;
2. Entre 2004 e 2013, a renda média da população como um todo cresceu 35% acima da inflação. Mas, a dos 10% mais pobres expandiu cerca de 73%. Considerando os 50% mais pobres, o avanço foi superior a 60%, com impactos evidentes sobre a demanda e a produção.
    Apesar da pobreza da discussão sobre o assunto, o Brasil se encontra na melhor situação em termos de distribuição de renda em toda a sua história. O que não é pouca coisa, considerando que a economia mundial enfrenta a sua mais grave crise desde 1929. O que surpreende diante desse contexto internacional é que os indicadores sociais apresentam um balanço é extremamente positivo. A concentração de renda diminuiu significativamente, o salário mínimo teve aumentos reais expressivos, 36 milhões de pessoas saíram da miséria e a taxa de desemprego atingiu seus menores níveis históricos. Nos últimos anos, poucos países apresentaram um desenvolvimento social tão amplo quanto no Brasil. Por isso o combate à fome obteve tanto êxito.
     Algumas dificuldades históricas do país têm que ser enfrentadas ainda com maior determinação. Os juros continuam entre os maiores do mundo e o câmbio precisa ser desvalorizado, sob pena de a indústria brasileira perder cada vez mais espaço no mercado interno e externo. Por conta dos juros, os encargos da dívida pública continuam drenando boa parte dos esforços da sociedade brasileira. Essa transferência de renda faz com que o 1% da população adulta mais rica concentre mais de 25% de toda a renda da 7ª economia do planeta. Esta questão, difícil de ser compreendida pela maioria da população, está por detrás de todo o debate atual sobre Banco Central independente, nível da taxa Selic, e temas relacionados.  
     Certamente não foram os problemas apontados acima que derrubaram as ações da Petrobrás em 10% na última semana de setembro, levando a Bovespa a maior queda em um dia nos últimos três anos. A rigor, não há razões econômicas objetivas que justifique uma queda das ações da empresa. Pelo contrário, os dados positivos abundam: Somente os campos de Libra, Búzios, Florim, Iara e Nordeste de Tupi (todos do pré-sal), somados, farão saltar a produção entre 18 e 26 bilhões de barris, consolidando o país como um dos maiores produtores de petróleo do mundo. As novas reservas de petróleo do Brasil, são responsáveis por 40% de toda as descobertas mundiais de petróleo nos últimos cinco anos e a empresa tem a maior carteira de investimento do planeta. Caso a lógica da bolsa estivesse vinculada ao desempenho financeiro das empresas as ações da Petrobrás deveriam “bombar”. Não devemos ser ingênuos: por trás dos ataques à Petrobrás, além do interesse eleitoral mais imediato, estão poderosos e dissimulados interesses das grandes multinacionais do petróleo.  
     É inegável que a queda recente da bolsa está muito mais relacionada à especulação e à tentativa de chantagear a sociedade, no atual processo eleitoral. Essa situação, amplamente divulgada na mídia como se fosse o fim dos tempos, dá a impressão do país estar passando por grave crise econômica. Segundo o site Infomoney, que acompanha rotineiramente a evolução das ações, o lucro dos investidores com as ações da Petrobrás na bolsa foi, somente em setembro, de 1.120% (sem considerar os custos da operação). Portanto, a queda das ações da empresa, que vinham subindo consistentemente desde o início do ano, apesar dos ataques sofridos, não tem nenhum fundamento econômico, sendo fruto tão somente da especulação eleitoral e da ganância dos investidores.
    Objetivamente, o Brasil dispõe atualmente de alguns fatores de resistência à crise mundial que não são triviais, e que são perseguidos por qualquer nação do mundo, com pretensões de desenvolvimento: reservas em moeda estrangeira de US$ 376 bi; estoque de petróleo e gás, que pode chegar a 100 bilhões de barris, avaliada em cerca de R$ 5 trilhões; crescimento contínuo da renda das famílias nos últimos dez anos e a constituição de um dos maiores mercados de massa do planeta. Não é pouco, e dar continuidade aos avanços sócio econômicos deste país é desafio imenso que vale a pena. 
                                                   *Economistas e técnicos do DIEESE.

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