Por Luciano Martins Costa no Observatório de Imprensa
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 3/10/2014
Encerrada a campanha eleitoral oficial nos meios de comunicação, os
dois institutos de pesquisa mais acreditados pela imprensa tratam de
ajustar seus números para a possibilidade de a presidente Dilma Rousseff
ser reeleita no primeiro turno. Embora as análises dos especialistas se
concentrem na retomada de ânimo do candidato do PSDB, Aécio Neves, que
se apresenta como destinatário do “voto útil” contra o atual governo, a
comparação entre as duas rodadas mais recentes de pesquisas mostra que
seu eleitorado não cresceu no Sudeste, onde se concentra sua principal
base.
Uma nova consulta está sendo elaborada, e deve ser divulgada noe sábado
(4/10), quando o Ibope e o Datafolha terão a última chance de comprovar
a validade de suas metodologias antes da verdade das urnas.
O discurso dos analistas oscila entre admitir a possibilidade de uma
decisão no primeiro turno e a convicção de que “a maior probabilidade é a
de um segundo turno” entre a petista Dilma Rousseff e a ex-petista
Marina Silva. De qualquer maneira, os números indicam que a imprensa,
mais uma vez, perdeu a conexão com a realidade política do país.
Pode-se afirmar que a grande maioria dos brasileiros está demonstrando
que apoia a estratégia adotada pelos governos que se sucedem em Brasília
desde 2003, mas aponta para a necessidade de algumas correções.
Desde o acirramento da disputa, com a morte do ex-governador Eduardo
Campos e o ingresso da ex-ministra Marina Silva como candidata a
presidente pelo PSB, os discursos de campanha e os temas dos debates se
concentraram na questão da corrupção e nas supostas capacidades
administrativas dos candidatos. No que se refere às diferenças de
doutrinas entre o governo atual e seus oponentes, Aécio Neves se
apresentou como o lídimo defensor do conjunto de crenças que definem o
liberalismo econômico, enquanto a presidente da República representa a
instrumentalização do Estado como garantia de orientação social para a
economia.
Marina Silva ficou entre os dois mundos: sua defesa de uma “nova
política” não passou no teste de realidade, quando ela vacilou em
questões como direitos de minorias e foi apanhada em contradições.
A imprensa perdeu
Seja qual for o resultado da votação no domingo (5), pode-se dizer que a
imprensa sai como a grande perdedora, porque não conseguiu colocar seu
candidato predileto em condições de vencer a eleição. Até este momento,
mesmo o mais otimista entre os adeptos da candidatura de Aécio Neves
considera altamente improvável que ele consiga coletar os votos para
superar o primeiro turno com potencial para levar consigo uma
porcentagem significativa de apoios entre os adeptos de Marina Silva.
Na coluna “Panorama político” do Globo, lê-se que, se a
ex-ministra não for para o segundo turno, seus correligionários vão se
dividir, com uma parte aderindo ao PSDB e outra parte voltando ao ninho
petista, onde as carreiras de Eduardo Campos e de Marina Silva foram
geradas. Em outra coluna do mesmo jornal, também se pode apreciar como a
derrota iminente pode afetar o senso crítico, em um texto que dá voz a
teorias conspiratórias e prevê uma grave crise institucional no próximo
governo.
Embora possa parecer ocioso repetir as evidências de que as grandes
empresas de comunicação agem como uma organização partidária, convém
discutir o uso que fazem dos institutos de pesquisa, como referência de
uma objetividade que de fato não existe. Uma coisa é a coleta de dados e
a complexidade das análises que são produzidas por profissionais a
serviço dessas organizações. Outra coisa é o conjunto das informações
que os editores selecionam para levar ao público.
Observe-se, por exemplo, como, segundo o Ibope, a taxa de rejeição da
presidente Dilma Rousseff caiu de 36% no dia 25 de agosto para 29% na
quinta-feira (2/10). Se isso é real, trata-se de um fenômeno de
comunicação. Na verdade, esse número sempre coincidiu com os 23% a 29%
dos que consideram seu governo “ruim ou péssimo”, que, no contexto
brasileiro, é o critério mais confiável para definir o núcleo duro da
oposição.
A mídia tradicional passou toda a campanha tentando ampliar esse campo,
em sua cruzada contra o partido que governa o país desde 2003, mas
falhou mais uma vez.
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