quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Marina e o sindicalismo

João Franzin, no Repórter Sindical

O sindicalismo é construção dos trabalhadores e da sociedade brasileira. Os trabalhadores o constroem quando organizam entidades e por meio delas buscam direitos e dignidade. A sociedade participa ao reconhecer a legitimidade das organizações e apoiar suas demandas.
Há um terceiro elemento nessa construção. É o Estado, que se coloca a favor ou contra, conforme os governos em seu comando. No Brasil, mesmo regimes autoritários não conseguiram frear os avanços trabalhistas. Nos últimos anos, com Lula e Dilma, como aponta o Diap, houve muitos ganhos, e reais, em praticamente todas as categorias profissionais.
Dilma, Aécio e Eduardo (este menos) procuraram se compor com o sindicalismo, respeitando diversidades. Agora, só Dilma e Aécio acenam compromissos com o campo sindical. Dilma, no 1º de Maio, usou rede nacional para reafirmar a política de aumento real do salário mínimo. Aécio, em reunião com Centrais em São Paulo, prometeu rever os descontos do imposto de renda nos salários.
Nos anos 50, mesmo clandestino, o PCB, então forte entre os trabalhadores, atuou pró-criação da Petrobras e em prol de Juscelino, em cujo governo o salário mínimo deu um salto. Nos anos seguintes, o sindicalismo foi vanguarda e também retaguarda durante o governo de Jango. Com a ditadura, entrou na linha de tiro do regime, mas sem abrir mão de lutar, ainda que com escassos meios.
O período seguinte viu um movimento sindical ativo em três frentes: 1) Contra o arrocho salarial e a carestia; 2) Retorno das liberdades democráticas; 3) Pela Assembleia Constituinte e durante seu período de vigência. O desfecho de tudo isso foi a maciça presença nas Diretas-Já. Com a eleição presidencial de 1989, cada segmento seguiu sua orientação.
Nos governos Lula e Dilma, o sindicalismo foi ativo, obteve ganhos reais para suas categorias, conseguiu legalizar as Centrais, apoiou as políticas de inclusão social e deu um salto de qualidade ao compor a Pauta Unificada.
A ascensão de Marina sinaliza a reversão desse ciclo. A ideia de “nova política”, na essência, fere também o sindicalismo, que não se adequa à suposta onda modernizadora. Marina combate o imposto sindical; aprova a Convenção 58 da OIT; seu programa agasalha a terceirização; seus conselheiros econômicos são neoliberais; a conselheira-mor do Itaú coloca um banqueiro em posição só vista na campanha de FHC, que teve o dono do Bamerindus como tesoureiro.
Tudo isso aponta contra o movimento sindical. A terceirização, como está posta, é a gota do veneno letal.

João Franzin é consultor de jornalista da Agência Sindical
E-mail: joaofranzin@agenciasindical.com.br

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