*Adhemar Mineiro
*José Álvaro Cardoso
O baixo
crescimento da economia brasileira é preocupante. Não
há melhor indicação do nível de atividade que os próprios dados do Produto
Interno Bruto (PIB). Este teve queda de 0,6% no segundo
trimestre, em relação ao primeiro, levando o país à chamada recessão
técnica
(isto é, dois trimestres seguidos de crescimento negativo).
É importante ter claro que a recessão técnica, na prática, funciona mais como
um sinal de alerta de que algo não vai bem na economia. É diferente de uma
recessão real na economia, com vários indicadores negativos, como altas taxas
de desemprego, falências, queda na produção e no nível de consumo. A situação
do Brasil é bastante diferente dessa, com elevação do consumo das famílias (que
subiu
0,3% no segundo trimestre em relação ao primeiro trimestre),
e com as menores taxas de desemprego da história do país. A Europa pós-crise de
2008, por exemplo, vem atravessando situações de recessão, com alguns países
enfrentando vários trimestres seguidos de queda da produção de riqueza.
Entre os vários fatores explicativos do baixo crescimento da economia
brasileira, a crise internacional, sem dúvida tem um papel importante. Mas não
explica tudo. Em 2011, os chamados países emergentes cresceram 6,4%, enquanto o
Brasil, 2,7%. Em 2012, os emergentes 5,1% e o Brasil, 1%. Em 2013 os
crescimentos foram, respectivamente, de 4,7% e 2,5%. Para este ano, a projeção
de crescimento dos emergentes é 4,6%, e a do Brasil pouco acima de 1%. O
crescimento de 2,5% do Brasil em 2013 foi o 119º num total de 188 países.
No
segundo trimestre deste ano, o PIB na indústria caiu 1,5%, e o de serviços,
0,5%. O melhor
desempenho coube à agropecuária, que cresceu 0,2% no
período. A alta acumulada do PIB em 12 meses é de meros 1,4%.
Além do sofrível desempenho do PIB (em boa parte, previsível, pelos rumos dos
indicadores antecedentes), para piorar o IBGE revisou a variação do PIB
no primeiro trimestre deste ano, que, de um avanço de 0,2%
anunciado anteriormente, apresentou um recuo de 0,2% na comparação com o
quarto trimestre de 2013.
A
situação da indústria ocupa um papel central na explicação do problema do baixo
crescimento. Depois de 2010 ela praticamente parou. Como o consumo das famílias
continuou aumentando nesse período, grande parte dessa demanda foi suprida com
importações de bens industriais. O déficit na balança comercial industrial do
Brasil, em 2013, chegou a US$ 105 bilhões. Cálculos de alguns economistas
estimam que a perda de demanda interna pelo setor manufatureiro, em função da
sobrevalorização do câmbio, entre 2010 e 2014, tenha chegado a US$ 229 bilhões.
Grande parte do problema está relacionada ao uso da política cambial com arma
de combate à inflação.
A sobrevalorização do câmbio, por sua vez, está relacionada a maior taxa
de juros real do mundo, que desestimula investimentos e atrai capitais
especulativos. Os resultados da indústria no mês de julho que são muito
importantes, ao invés de significarem uma reversão de tendência, parecem estar
muito mais relacionados à baixa base de comparação, após cinco meses seguidos
de queda na produção. O problema da indústria, como têm alertado vários economistas,
é mundial. O risco é de desindustrialização mesmo, em função principalmente da
brutal concorrência chinesa. O resultado disso é que no Brasil vem diminuindo o
peso da indústria no PIB, além da economia estar sofrendo um processo de
desnacionalização crescente, que é igualmente grave.
Um dos grandes trunfos que o Brasil construiu nos
últimos anos, e que diferencia o país de uma parcela expressiva das economias
mundiais, especialmente das chamadas Desenvolvidas, foi a constituição de um
mercado de massas, através da geração de empregos, expansão do salário mínimo e
de elevação da renda. Ao contrário do que podem supor alguns incautos, um
grande mercado consumidor e em processo de expansão é o maior ativo que um país
pode dispor. Principalmente num contexto em que (ao que tudo indica) o Brasil
terá que se acostumar com a ideia de que, dificilmente, logrará os elevados
superávits comerciais verificados na última década. Daí a necessidade de
continuar ampliando o mercado consumidor interno, através do emprego e da
elevação gradativa da renda.
*Economistas
do DIEESE.
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