quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Economia brasileira: desafios e seu maior ativo




                                           *Adhemar Mineiro                                                                          
                                                                            *José Álvaro Cardoso
   
    O baixo crescimento da economia brasileira é preocupante. Não há melhor indicação do nível de atividade que os próprios dados do Produto Interno Bruto (PIB). Este teve queda de 0,6% no segundo trimestre, em relação ao primeiro, levando o país à chamada recessão técnica (isto é, dois trimestres seguidos de crescimento negativo). É importante ter claro que a recessão técnica, na prática, funciona mais como um sinal de alerta de que algo não vai bem na economia. É diferente de uma recessão real na economia, com vários indicadores negativos, como altas taxas de desemprego, falências, queda na produção e no nível de consumo. A situação do Brasil é bastante diferente dessa, com elevação do consumo das famílias (que subiu 0,3% no segundo trimestre em relação ao primeiro trimestre), e com as menores taxas de desemprego da história do país. A Europa pós-crise de 2008, por exemplo, vem atravessando situações de recessão, com alguns países enfrentando vários trimestres seguidos de queda da produção de riqueza.
     Entre os vários fatores explicativos do baixo crescimento da economia brasileira, a crise internacional, sem dúvida tem um papel importante. Mas não explica tudo. Em 2011, os chamados países emergentes cresceram 6,4%, enquanto o Brasil, 2,7%. Em 2012, os emergentes 5,1% e o Brasil, 1%. Em 2013 os crescimentos foram, respectivamente, de 4,7% e 2,5%. Para este ano, a projeção de crescimento dos emergentes é 4,6%, e a do Brasil pouco acima de 1%. O crescimento de 2,5% do Brasil em 2013 foi o 119º num total de 188 países.
     No segundo trimestre deste ano, o PIB na indústria caiu 1,5%, e o de serviços, 0,5%. O melhor desempenho coube à agropecuária, que cresceu 0,2% no período. A alta acumulada do PIB em 12 meses é de meros 1,4%. Além do sofrível desempenho do PIB (em boa parte, previsível, pelos rumos dos indicadores antecedentes), para piorar o IBGE revisou a variação do PIB no primeiro trimestre deste ano, que, de um avanço de 0,2% anunciado anteriormente, apresentou um recuo de 0,2% na comparação com o quarto trimestre de 2013.
         A situação da indústria ocupa um papel central na explicação do problema do baixo crescimento. Depois de 2010 ela praticamente parou. Como o consumo das famílias continuou aumentando nesse período, grande parte dessa demanda foi suprida com importações de bens industriais. O déficit na balança comercial industrial do Brasil, em 2013, chegou a US$ 105 bilhões. Cálculos de alguns economistas estimam que a perda de demanda interna pelo setor manufatureiro, em função da sobrevalorização do câmbio, entre 2010 e 2014, tenha chegado a US$ 229 bilhões. Grande parte do problema está relacionada ao uso da política cambial com arma de combate à inflação.
     A sobrevalorização do câmbio, por sua vez, está relacionada a maior taxa de juros real do mundo, que desestimula investimentos e atrai capitais especulativos. Os resultados da indústria no mês de julho que são muito importantes, ao invés de significarem uma reversão de tendência, parecem estar muito mais relacionados à baixa base de comparação, após cinco meses seguidos de queda na produção. O problema da indústria, como têm alertado vários economistas, é mundial. O risco é de desindustrialização mesmo, em função principalmente da brutal concorrência chinesa. O resultado disso é que no Brasil vem diminuindo o peso da indústria no PIB, além da economia estar sofrendo um processo de desnacionalização crescente, que é igualmente grave.
       Um dos grandes trunfos que o Brasil construiu nos últimos anos, e que diferencia o país de uma parcela expressiva das economias mundiais, especialmente das chamadas Desenvolvidas, foi a constituição de um mercado de massas, através da geração de empregos, expansão do salário mínimo e de elevação da renda. Ao contrário do que podem supor alguns incautos, um grande mercado consumidor e em processo de expansão é o maior ativo que um país pode dispor. Principalmente num contexto em que (ao que tudo indica) o Brasil terá que se acostumar com a ideia de que, dificilmente, logrará os elevados superávits comerciais verificados na última década. Daí a necessidade de continuar ampliando o mercado consumidor interno, através do emprego e da elevação gradativa da renda.

    
*Economistas do DIEESE.



                                                                         

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