sábado, 6 de fevereiro de 2016

Crise e a obsessão pela austeridade - José Álvaro



José Álvaro de Lima Cardoso*

Enquanto incautos sonham que o Brasil é uma ilha de crise, cercada de prosperidade por todos os lados, analistas da economia mundial alertam para o risco de que a década atual seja perdida para o crescimento. Na melhor das hipóteses, a economia irá padecer alguns anos de medíocre crescimento. Os indicadores dos Estados Unidos, por exemplo, estão longe de ser alentadores. Há pouco essa economia era tida por alguns como estando em franca recuperação. Porém, nos últimos três meses de 2015, o PIB estadunidense cresceu meros 0,7%, abaixo dos dois trimestres anteriores (3,9% e 2%), fruto, dentre outras razões, da desaceleração dos gastos das famílias. Também contribuíram para a diminuição do ímpeto da economia a desaceleração das exportações e dos gastos dos governos estaduais e locais.
        Para entender o que se passa nos EUA e no mundo, tem que se observar o comportamento da economia chinesa, que apresentou o mais baixo crescimento dos últimos 25 anos (6,9%). Claro, em função do peso da economia chinesa, a diminuição do seu ritmo de crescimento provoca forte impacto econômico no restante do mundo. No entanto, o processo de desaceleração chinês está sendo realizado de forma controlada, o que é variável bastante importante neste momento. Ademais, a capacidade ociosa em muitos setores e a desaceleração das exportações naquele país, têm sido compensadas pelo forte consumo das famílias e pela continuidade dos investimentos em infra estrutura. 
        A economia estadunidense sofre também os efeitos da crise do petróleo. O setor de shale oil nos EUA, apresentado há alguns anos como a “salvação da lavoura”, enfrenta graves percalços em função da queda do preço do petróleo. Só no ano passado foram 26 falências no setor. No último ano a quantidade de sondas operando em “shale” caiu 61%. Com a crise o crédito escasseou, elevando o custo de captação. Este setor, é importante lembrar, se ergueu há alguns anos, com crédito abundante, oriundo dos caixas das empresas e do endividamento bancário. Estimasse em mais de 5 trilhões de dólares o custo para construção da infra estrutura e exploração do gás e óleo de xisto betuminoso nos Estados Unidos. Mas ninguém podia esperar que o petróleo despencasse de mais de US$ 100 para os atuais menos de US$ 30 (com previsão de queda ainda maior). Não por acaso, está se comparando a crise atual no setor com a do sub prime a partir de 2007.
        Quem acompanha, desprovido de senso crítico, as informações relativas ao petróleo, disponíveis nos grandes meios, pode supor que a Petrobrás é um “antro de corrupção e ineficiência”. Exatamente a imagem que tentam forjar da empresa há algum tempo, por razões inconfessáveis. Mas o lucro das principais petrolíferas do mundo chegou a praticamente zero no ano passado. O resultado do balanço das seis principais empresas que divulgaram balanço até o momento (Royal Dutch, Shell, Exxon Mobil, Chevron, BP, Statoil e Pemex) revela que o seu resultado líquido ficou em US$ 1,6 bilhão durante 2015, um recuo quase inacreditável de 98% (prestem atenção neste número) em relação a 2014. Estas empresas, que estão entre as maiores do mundo em produção, diminuíram seus investimentos em US$ 38 bilhões (20% do previsto), tanto para manutenção dos campos já em atividade quanto para as novas extrações, que permitem a reposição dos barris em reserva. A Petrobrás, por sua vez, de janeiro a setembro obteve lucro líquido de US$ 971 milhões, 58,8% a menos do que no mesmo período de 2014 (a empresa, como a maioria, ainda não divulgou o balanço relativo a todo 2015).
       O economista estadunidense Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia de 2001, enxerga quatro razões básicas para a demanda global estar fraca: 
1) desigualdade de renda. Quanto mais cresce a desigualdade mais a demanda se enfraquece;
2) transformações estruturais que estão acontecendo em quase todos os países. Nos EUA, a transição da indústria manufatureira para os serviços, na China, transição das exportações para a demanda interna;
3) bagunça na zona do euro, com políticas econômicas de austeridade, que ajudaram a derrubar o crescimento. E que pegam outros países, inclusive EUA;
4) queda drástica do preço do petróleo. Os países que exportam petróleo têm reduzido os gastos e os que importam o produto - e, portanto, ganham com o menor preço - não necessariamente gastam os recursos poupados, por não saberem se o ganho se manterá no longo prazo.
        Alguns analistas importantes, como Stiglitz e outros, colocam a desigualdade de renda como questão central dos riscos presentes na economia global. O Comitê de Oxford de Combate à Fome (Ofxam, na sigla em inglês) publicou no mês de janeiro, um informe sobre a desigualdade no mundo, estudo que mostra que a distância entre ricos e pobres vem aumentando no mundo e o 1% mais rico detêm mais riqueza que os 99% restantes.  A renda média anual dos 10% mais pobres da população mundial, onde se concentram a fome e a exclusão social, aumentou menos de três dólares por ano em quase um quarto de século.
        Em parte as dificuldades econômicas mundiais estão ligadas à visão basicamente ideológica de querer praticar a austeridade fiscal, mesmo com a economia em ritmo de baixo crescimento. Há verdadeira obsessão com o equilíbrio orçamentário, mesmo com estagnação econômica ou recessão, como no caso do Brasil. O Brasil deveria aproveitar seus aspectos positivos para, com força, enfrentar a crise e não ficar só mencionando corte de gastos, especialmente quando se tratam de gastos sociais. Por exemplo, o rápido ajuste das contas externas, com o superávit comercial em 2015 de quase US$ 20 bilhões, o maior desde 2011, fruto da queda da demanda interna com a depreciação do real. Esse fato, somado a outros, tem que ser potencializados para o enfrentamento da crise mundial. O problema é que as ações, que teriam que ser acionadas de forma imediata, até são mencionadas pelo governo em discursos e entrevistas, mas não saem do papel. Esta é a hora de viabilizar recursos urgentes para investimentos públicos robustos em setores estratégicos. E enfrentar com determinação o problema da dívida pública, este sim, o grande causador do déficit público.
                                       *Economista e supervisor técnico do Dieese em Santa Catarina.

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