Sensor publica texto de Aloysio Castelo de Carvalho e Venício A. de Lima. Extraído do Carta Maior.
“Brasil: uma Biografia”, recentemente publicado pela Companhia
das Letras, apresenta importantes contribuições sobre questões que vêm
desafiando a imaginação dos cientistas sociais. Entre os significativos
momentos de nossa vida cultural e política, Lilia Schwarcz e Heloisa
Starling abordam o golpe de 1964, um dos episódios mais importantes da
história republicana. Diversos atores participantes do processo que
levou a tomada do poder pelos militares aparecem na interpretação das
autoras: o Congresso, os três grandes partidos (PSD, PTB, UDN), os
empresários, os proprietários de terra, as ligas camponesas, o
sindicalismo operário, o CGT, o Ibad, a CIA, o Ipes, as ESG, as Forças
Armadas, entre outros.
Há, todavia, uma ausência importante: a imprensa. Não que não exista no texto referências eventuais a veículos de comunicação. Sim, há. Mas omite-se a imprensa que assume posições partidárias e se coloca na disputa pelas decisões do Estado. Estamos falando da imprensa que faz parte de nossa cultura política e tem forte influência sobre o imaginário coletivo, a que se considera representante da opinião pública, mas está comprometida com os interesses das camadas privilegiadas e seus projetos de poder, como foi o caso da tomada do poder em 1964.
O livro, portanto, padece de uma grave lacuna: a ausência da mídia [aliás, o termo mídia não aparece no livro] como ator político, para usar a expressão contemporânea.
Fica difícil entender 1964 sem considerar as conexões dos grupos de mídia com a atuação dos diversos atores no governo Goulart. Um dos exemplos mais eloquentes encontra-se na “Rede da Democracia”, que foi um programa radiofônico inspirado na militante internacional do anticomunismo Suzanne Labin, criado em outubro de 1963 e comandado pelas rádios Tupi, Globo e Jornal do Brasil. Ia ao ar quase todos os dias e repercutia pelo país através de outras centenas de emissoras afiliadas. Os pronunciamentos difundidos pelas emissoras eram posteriormente publicados nos respectivos jornais: O Globo, Jornal do Brasil e, sobretudo, O Jornal. Esse amplo sistema de comunicação nacional deu voz aos representantes políticos, militares, empresários, jornalistas, professores, intelectuais, sindicalistas e estudantes. Dessa forma, possibilitou a articulação no campo discursivo dessas emissoras e jornais do Rio de Janeiro com partidos e grupos de oposição ao governo, principalmente com a União Democrática Nacional (UDN), o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), que financiava as campanhas eleitorais dos candidatos anticomunistas.
Os jornais da Rede da Democracia criticavam as concepções nacionalistas e reformistas, bem como as decisões do governo Goulart. Em sua narrativa defendiam a preservação das instituições representativas liberais, mas evocavam a legitimidade da luta contra o comunismo e a necessidade de ordem interna, como condição para a retomada do desenvolvimento econômico. Isso significa que os representantes da imprensa carioca compartilharam temas abordados pela ideologia de segurança nacional, desenvolvida pela Escola Superior de Guerra, que preconizava um papel interventor para os militares na sociedade brasileira.
A Rede da Democracia, criada por Assis Chateaubriand, Roberto Marinho e Nascimento Brito foi, portanto, um arranjo midiático, de cunho liberal conservador, voltado especificamente para fomentar o golpe contra o governo Goulart.
O livro “A Rede da Democracia” de Aloysio Castelo de Carvalho aparece citado em nota de rodapé no trabalho das historiadoras. Está indicado, todavia, como leitura para compreensão da Rede da Legalidade, organizada em 1961 por Brizola. Assim, afirma a nota número 59 da página 552 do livro “Brasil: uma Biografia”:
“Para a Rede da Legalidade, ver…. A Rede da Democracia: O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-1964), EDUFF, 2010. ”
Ocorre que o livro “A Rede da Democracia” não investiga a Rede da Legalidade. Seu foco é o discurso dos jornais cariocas no governo Goulart.
O equívoco dessa nota dá a exata dimensão da importância que as autoras reservaram para a mídia na interpretação do golpe civil-militar de 1964.
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Aloysio Castelo de Carvalho é doutor em História Social pela USP e professor de economia e ciência política da UFF.
Venício A. de Lima é doutor em Comunicação pela Universidade de Illinois e professor de ciência política e comunicação da UnB (aposentado).
Há, todavia, uma ausência importante: a imprensa. Não que não exista no texto referências eventuais a veículos de comunicação. Sim, há. Mas omite-se a imprensa que assume posições partidárias e se coloca na disputa pelas decisões do Estado. Estamos falando da imprensa que faz parte de nossa cultura política e tem forte influência sobre o imaginário coletivo, a que se considera representante da opinião pública, mas está comprometida com os interesses das camadas privilegiadas e seus projetos de poder, como foi o caso da tomada do poder em 1964.
O livro, portanto, padece de uma grave lacuna: a ausência da mídia [aliás, o termo mídia não aparece no livro] como ator político, para usar a expressão contemporânea.
Fica difícil entender 1964 sem considerar as conexões dos grupos de mídia com a atuação dos diversos atores no governo Goulart. Um dos exemplos mais eloquentes encontra-se na “Rede da Democracia”, que foi um programa radiofônico inspirado na militante internacional do anticomunismo Suzanne Labin, criado em outubro de 1963 e comandado pelas rádios Tupi, Globo e Jornal do Brasil. Ia ao ar quase todos os dias e repercutia pelo país através de outras centenas de emissoras afiliadas. Os pronunciamentos difundidos pelas emissoras eram posteriormente publicados nos respectivos jornais: O Globo, Jornal do Brasil e, sobretudo, O Jornal. Esse amplo sistema de comunicação nacional deu voz aos representantes políticos, militares, empresários, jornalistas, professores, intelectuais, sindicalistas e estudantes. Dessa forma, possibilitou a articulação no campo discursivo dessas emissoras e jornais do Rio de Janeiro com partidos e grupos de oposição ao governo, principalmente com a União Democrática Nacional (UDN), o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), que financiava as campanhas eleitorais dos candidatos anticomunistas.
Os jornais da Rede da Democracia criticavam as concepções nacionalistas e reformistas, bem como as decisões do governo Goulart. Em sua narrativa defendiam a preservação das instituições representativas liberais, mas evocavam a legitimidade da luta contra o comunismo e a necessidade de ordem interna, como condição para a retomada do desenvolvimento econômico. Isso significa que os representantes da imprensa carioca compartilharam temas abordados pela ideologia de segurança nacional, desenvolvida pela Escola Superior de Guerra, que preconizava um papel interventor para os militares na sociedade brasileira.
A Rede da Democracia, criada por Assis Chateaubriand, Roberto Marinho e Nascimento Brito foi, portanto, um arranjo midiático, de cunho liberal conservador, voltado especificamente para fomentar o golpe contra o governo Goulart.
O livro “A Rede da Democracia” de Aloysio Castelo de Carvalho aparece citado em nota de rodapé no trabalho das historiadoras. Está indicado, todavia, como leitura para compreensão da Rede da Legalidade, organizada em 1961 por Brizola. Assim, afirma a nota número 59 da página 552 do livro “Brasil: uma Biografia”:
“Para a Rede da Legalidade, ver…. A Rede da Democracia: O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil na queda do governo Goulart (1961-1964), EDUFF, 2010. ”
Ocorre que o livro “A Rede da Democracia” não investiga a Rede da Legalidade. Seu foco é o discurso dos jornais cariocas no governo Goulart.
O equívoco dessa nota dá a exata dimensão da importância que as autoras reservaram para a mídia na interpretação do golpe civil-militar de 1964.
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Aloysio Castelo de Carvalho é doutor em História Social pela USP e professor de economia e ciência política da UFF.
Venício A. de Lima é doutor em Comunicação pela Universidade de Illinois e professor de ciência política e comunicação da UnB (aposentado).
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