Diplomata critica sistema de imposto condescendente com grandes fortunas, diz que o rigor do ajuste afasta o PT de sua base social e vê a mídia em plena caça de Lula para impedir seu retorno
por Helder Lima e Marilu Cabañas, da RBA
publicado
10/10/2015 18:57,
última modificação
10/10/2015 19:29
Jornalistas Livres
Samuel Pinheiro Guimarães considera importante o Brasil ter assento no Conselho de Segurança da ONU
São Paulo – Brasil e Estônia são os únicos
países que não taxam milionários, afirmou o embaixador Samuel Pinheiro
Guimarães, durante gravação do primeiro programa Entrevista Coletiva,
parceria do coletivo Jornalistas Livres e da TV dos Trabalhadores –
TVT, que deve estrear em breve. O diplomata fez uma análise da
conjuntura política econômica do país e criticou o ajuste fiscal. Para
ele, o ajuste fiscal promovido pelo governo federal mina as bases do
Partido dos Trabalhadores.
Guimarães exerceu cargo de secretário-geral de
Relações Exteriores do Itamaraty e foi ministro-chefe da Secretaria de
Assuntos Estratégicos da Presidência da República, no governo Lula. No
início do primeiro mandato de Dilma Rousseff trabalhou como Alto
Representante Geral do Mercosul.
O diplomata critica a injustiça tributária brasileira
pelo fato de o sistema de impostos ser condescendente com os detentores
de grandes fortunas. E refuta as tentativas dos setores da imprensa de
criminalizar o ex-presidente Lula com objetivo de minar seu caminho de
volta ao Planalto em 2018. "É um jogo político em que a mídia
tradicional participa ativamente. Como não tem outra alegação, vão
surgindo alegações totalmente absurdas."
Outra preocupação levantada pelo embaixador, que justifica a insistência do Brasil por um assento no Conselho
de Segurança da ONU, é o risco de Amazônia vir a ser usada como
argumento para a ruptura de paz firmada em acordos internacionais, que
poderia ser usado pelos países desenvolvidos em eventual conveniência.
Participaram da entrevista jornalistas de coletivos
de mídias progressistas: Altamiro Borges, do Centro de Estudos de Mídia
Barão de Itararé, Kiko Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, Manu
Thomaziello, da União Estadual dos Estudantes, Marco Aurélio Mello, da
TVT, Rodrigo Vianna, do blog Escrevinhador com mediação de Laura
Capriglione, do Jornalistas Livres.
Confira a seguir alguns dos temas tratados pelo embaixador e ouça a reportagem.
Crise dos Brics na mídia conservadora
Não me consta que a China esteja em crise, ela está
crescendo 7% ao ano, uma taxa expressiva diante dos 2% que crescem os
europeus ou os Estados Unidos. Na minha opinião, a questão fundamental
dos Brics é que eles colocam em jogo a estrutura de sistemas de controle
dos países periféricos pelos países ocidentais, exercidos pelo Banco
Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Os países muitas
vezes entram em dificuldades e o banco dos Brics é uma alternativa que
permite que os países tenham acesso a recursos sem ter de se submeter
(aos organismos tradicionais). Eu acho que a experiência dos Brics não
está em crise. Os eternos defensores dos organismos internacionais estão
contra os Brics.
Investigação do ex-presidente Lula por tráfico de influência
Essa acusação não faz o menor sentido. Todas as autoridades
dos Estados, como Estados Unidos, França, Alemanha, Grã-Bretanha,
procuram defender os interesses das empresas de sua nacionalidade. Isso é
normal, isso ocorre. Autoridades estrangeiras também vem ao Brasil
defender a posição de suas empresas. Não há nada de errado nisso. Não
sei se o ex-presidente Fernando Henrique faria isso, será? Ou será que
ele não defendia o Brasil? Talvez ele não defendesse o Brasil. Que eu
entenda, o presidente Lula nunca recebeu recurso para, como presidente e
mesmo depois, defender os interesses de empresas brasileiras. Não há
nenhum crime nisso.
Nós estamos em um processo político cujo objetivo, vamos
deixar claro, é fazer com que as classes tradicionais recuperem o poder
que tinham no Brasil durante 500 anos, e que se interrompeu em 2003. O
objetivo, naturalmente, é impedir que o presidente Lula volte ao poder,
por meio de sua desmoralização, de sua criminalização e assim por
diante. É um jogo político em que a mídia tradicional participa
ativamente. Como não tem outra alegação, vão surgindo alegações
totalmente absurdas.
Conselho de Segurança da ONU
O Conselho detém o monopólio do uso da força ao nível
mundial, da força direta e das sanções. Tem cinco membros permanentes.
Isso tem uma grande importância porque os membros permanentes estão fora
do alcance das decisões do Conselho. Ele nunca examinou a guerra do
Vietnã, nem a guerra na Argélia, nem a invasão do Afeganistão à época da
União Soviética. Isso não entra na pauta.
O Conselho tem importância à medida que o Brasil, que não é
um pequeno país, tem um potencial muito grande, mas não tem uma
projeção externa e econômica, nem militar, nem política à altura desse
potencial. Isso porque uma grande parte da economia do país não é
nacional. Quando você escuta na imprensa sobre a “indústria nacional”
estão falando de quem? Da Volkswagen do Brasil? Da General Electric do
Brasil? É transnacional, e obedece a outros interesses.
Política externa do Brasil e protagonismo internacional
O presidente Lula, antes de tomar posse, já tinha feito 110
viagens ao exterior. E recebeu o primeiro mandatário em 1975, na cada
dele. Ele criou o Foro de São Paulo, uma organização com reuniões
periódicas dos partidos, movimentos de esquerda democráticos, então, ele
conhecia muito as pessoas, e dava grande importância à integração
sul-americana. Esse foro era odiado pela direita.
Naturalmente, são os movimentos de esquerda democráticos,
que eles têm horror absoluto, aliás, do ponto de vista deles, com muita
razão (risos). Quando o adversário começa a te elogiar muito é que tem
algum problema com você (risos). O presidente Lula tinha um interesse
pessoal na questão, e uma compreensão grande da América do Sul para o
futuro político, econômico e social do país.
Diga-se de passagem que o presidente Lula lançou a ideia de
combater a fome ao nível internacional. Já a presidenta Dilma vem de
uma outra trajetória histórica. Em todos os momentos importantes ela
tomou a decisão correta. Exemplos: na questão da condenação do golpe no
Paraguai, e depois com o ingresso da Venezuela no Mercosul.
É uma decisão que foi combatida, de uma forma
extraordinária, e havia pessoas que consideravam que não era necessário.
Depois na questão dos Brics, o apoio que ela tem dado, foi criado o
banco dos Brics na reunião de Fortaleza, tudo isso dentro de uma
burocracia conservadora dos ministérios.
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