Banqueiros,
bancários e sociedade
Clemente
Ganz Lúcio[1]
Os bancários estão em plena negociação
coletiva para definir
as regras que regerão as relações de trabalho para o período
2015/2016. Como as
demais categorias, as campanhas enfrentam uma situação econômica
adversa
decorrente da recessão pela qual passa a economia brasileira, em
um ambiente
político conturbado.
Entretanto, muito diferente das dificuldades
que atingem parte
do setor produtivo, em especial a indústria e a construção – e
que tem reflexos
no setor de serviços e comércio - o setor bancário mantém um
sorriso econômico
largo de quem atua em céu de brigadeiro. Para os bancos, no
Brasil, as crises
só fazem aumentar os seus lucros.
O estudo “Desempenho dos Bancos em 2104”,
produzido
pela Rede Bancários do DIEESE (www.dieese.org.br),
evidencia essa contradição. Naquele ano, os bancos apresentaram
um fraco
crescimento do crédito, desempregaram e melhoraram seus
resultados. O estudo
destaca que os cinco maiores bancos – Bradesco, Banco do Brasil,
Caixa, Itaú e
Santander – consolidaram, em 2014, um total de ativos de R$ 5,3
trilhões,
crescimento de mais de 14% e o capital próprio é da ordem de R$
370 bilhões,
aumento de mais de 18% em relação a 2013.
Esses cinco bancos obtiveram em 2014, um lucro
líquido de
mais de R$ 60 bilhões, o que representa um crescimento de 18,5%
em relação ao
ano anterior. Os dados já divulgados com os resultados do
primeiro semestre desse
ano revelam que a tendência de ótimos resultados permanece,
mesmo diante da
crise pela qual passa o país, como pode ser visto em estudo
sobre o primeiro semestre de 2015 que o DIEESE divulgou esta
semana.
O aumento da taxa básica de juros (Selic), as
extorsivas
taxas de juros cobradas de consumidores e empresas, o valor e os
elevados
reajustes das tarifas bancárias, conformam uma assustadora
capacidade de
transferência de renda da sociedade (trabalhadores, consumidores
e setor
produtivo) para o setor bancário e para os rentistas. Uma
economia que tem e
alimenta esse perverso fluxo de apropriação da riqueza não
conseguirá alçar um
projeto nacional de desenvolvimento. A renda e a riqueza
produzidas pelo trabalho
serão concentradas, ampliando desigualdades. Os bancos operam,
nas condições atuais
da política econômica e institucionalidade do país, essa brutal
deformação.
Entretanto, na sociedade capitalista, os
bancos devem cumprir
um papel relevante, determinado por uma política econômica de
desenvolvimento
produtivo, para emprestar os recursos que a sociedade deposita
em seus cofres
para que: (a) as empresas invistam na ampliação da capacidade
produtiva (novas
plantas, novas máquinas); (b) financiando a compra de insumos e
pagamento dos
salários para que as empresas produzam as demandas que recebem;
(c) financiando
o crédito para o consumidor e habitação; (d) emprestando para o
governo fazer
investimentos em infraestrutura econômica e social. O custo
desses empréstimos
deve seguir o critério de razoabilidade, algo desconhecido pelo
sistema
financeiro brasileiro.
Os bancários lutam pelos seus salários e
condições de
trabalho. Os bancos oferecem uma proposta provocativa, metade da
inflação do
período, ou seja, propõem arrochar os salários. A luta será
dura!
A sociedade quer alçar seu desenvolvimento.
Para isso terá
que alterar radicalmente o papel dos bancos no Brasil, mexer na
estrutura da
dívida pública, na sua composição e forma de remuneração; criar
os mecanismos
de crédito de longo prazo para que empresas e governos invistam;
atuar de
maneira determinada para reduzir os spreads
bancários com consequente redução dos juros para o consumidor.
Precisa, ainda,
refrear a atividade bancária de remessa de riqueza para paraísos
fiscais bem
como impedir a circulação de recursos de caixa dois desviados da
estrutura
tributária. Se a sociedade brasileira quer mesmo alçar seu
crescimento
econômico e desenvolvimento social terá uma dura e longa luta
para mudar os
bancos no Brasil!
1) Sociólogo e diretor técnico do DIEESE.
Nenhum comentário:
Postar um comentário