Janio de Freitas
No dia 23, o Brasil estava endoidecido de ódio a Getúlio. No dia 24, enlouquecido de saudade
Era
um agosto assim, quase todo de dias luminosos, porém mais quentes no
Rio. Exausto, mal começava a dormir no início da manhã, quando ouvi a
clarinada de um "Repórter Esso" fora de hora. Foi só o tempo de tatear o
botão do rádio para ouvir a frase dura e aguda como um punhal: "O
presidente Getúlio Vargas cometeu suicídio com um tiro no peito". Em
minutos, era o telefonema de Pompeu de Souza: "Vai para a Redação o mais
rápido possível". Começava o dia mais inesperadamente espantoso de que
me lembre: 24, claro que de agosto.
Do final da
véspera à alta madrugada, Armando Nogueira e eu andáramos, ida e volta,
ida e volta, na calçada paralela à fachada do Palácio do Catete, do
outro lado da rua alargada naquele trecho. Foi a maneira de observarmos
os ocupantes de carros que entravam e saíam do palácio, valendo-nos de
que a Polícia do Exército proibira a parada de curiosos, mas permitia a
passagem na faixa isolada.
Esse andar incessante
se confundia com meus primeiros passos no jornalismo, há pouco
registrado como jornalista profissional no "Diário Carioca" e sem pensar
em sê-lo de fato. O futuro imaginado ainda combinava asas e motores
--para sempre inesquecidos. Já era quase dia quando vimos que o portão
do palácio ficou meio aberto, e arriscamos uma arrancada para entrar.
Deu certo. Só na sala de estar bem interior vimos, afinal, uma pessoa.
Sentado em uma das poltronas avermelhadas, uma perna sobre o braço da
poltrona, a testa apoiada em alguns dedos e voltada para o chão.
Sozinho.
Ministro da Justiça, o mais moço do
ministério, Tancredo Neves nos mostrava muito mais do que nos dizia: a
situação continuava muito difícil, a reunião do presidente com os
generais não foi conclusiva (eles propunham a licença de Getúlio, que a
recusava na certeza de que não o deixariam reassumir), hoje será um dia
de muita tensão. Deixamos Tancredo, cansado e triste, um dos poucos a
não desertar da lealdade ao presidente.
Minha
primeira tarefa, cedo ainda, foi ver o que se passava na Base Aérea do
Galeão. Tornara-se a República do Galeão, assim chamada a exacerbação de
poder militar adotada por coronéis e majores da FAB, na represália ao
atentado a Carlos Lacerda em que morreu um major dos que lhe davam
proteção. Desde 6 de agosto, dia seguinte ao atentado, o país passou a
viver em torno da exaltação concentrada na República do Galeão, e em
crescendo permanente sob a agitação furiosa feita por Lacerda.
Logo
acusado do crime por Lacerda, Getúlio ficou indefeso, objeto de um ódio
coletivo que se propagava sem limites: monolíticos, a imprensa, a
incipiente TV e o rádio, mais do que se aliarem à irracionalidade, foram
seus porta-vozes sem considerar as previsíveis consequências para o
Estado de Direito. Só a "Última Hora" diferenciava-se, com a
desmoralizada voz de causadora inicial da crise, por seu recente e
grandioso nascimento sob patrocínio do governo e com dinheiro do Banco
do Brasil.
Na caça vingativa à guarda pessoal de
Getúlio, dada como autora do atentado, a República do Galeão ensandeceu
o país. O getulismo, quase uma religião, evaporou. Os políticos
governistas emudeceram ou sumiram. Até os sindicatos do trabalhismo
voltaram-se contra o seu criador. Getúlio não tinha saída. Os majores e
coronéis que vi chegarem ao Galeão, já sob enorme guarda, ornavam a sua
arrogância com os ares de vitória proporcionados pelo suicídio.
O
jornal me mandou voltar depressa. A República do Galeão não interessava
mais: a cidade enlouquecia. Manhã ainda, multidões vagavam pelo centro.
As caras, ou encharcadas de lágrimas ou enrijecidas de raiva. A
"Tribuna da Imprensa" de Lacerda foi empastelada. A redação de "O Globo"
foi atacada, carros do jornal foram destruídos, o "Jornal do Commercio"
teve sua oficina invadida, vários dos 17 jornais foram alvos da massa.
Lojas, portarias, ônibus, bondes, automóveis, carros da polícia em fuga,
a Câmara dos Deputados e o Senado, as cercanias dos guarnecidos
ministérios do Exército e da Marinha, tudo devia pagar pelo abandono em
que Getúlio fora deixado por todos, e pela própria massa.
No
dia 23, o Brasil estava endoidecido de ódio a Getúlio. No dia 24,
enlouquecido de paixão e saudade. Uma reversão assim súbita,
generalizada e radical da opinião coletiva, de um extremo ao seu exato
oposto, por certo é um fenômeno que não merecia o descaso dos pagos para
pesquisar e estudar o Brasil.
Mais ainda porque
são poucos a terem percebido, com o tempo, o que estava no substrato da
convulsão. Sobretudo a Petrobras, mas também as muitas outras criações
do governo, como o BNDE, contrapunham-se à situação de um país dócil ao
capital estrangeiro das espoliações típicas da época, e seus associados
nacionais. A campanha contrária, no meio militar até segregacionista,
ainda hoje pode ser vista, por exemplo, no sentido acusatório dado a
"nacionalista". O embaixador Adolf Berle Jr., contra Getúlio, abriu o
caminho para o embaixador Lincoln Gordon, contra Jango. E os militares
iniciaram em 1954 a marcha para 1964.
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