Pochmann, no Cesit
Para Marcio Pochmann, falência do sistema político herdado da ditadura militar e a relação Estado-mercado são questões que precisam ser enfrentadas pelo país
Por Glauco Faria | Publicado originalmente pela revista Forum
“Estamos muito prisioneiros da perspectiva de ‘curto-prazismo’”. O
diagnóstico do economista e presidente da Fundação Perseu Abramo Marcio
Pochmann diz respeito à forma como se analisa a economia brasileira
atualmente, um tipo de avaliação que pode gerar interpretações que ele
considera equivocadas. “Claro que isso diz respeito a uma lógica do
mercado financeiro, que tem que tomar decisões de curtíssimo prazo, mas,
do ponto de vista de um país, de uma análise acerca da sua economia, é
preciso considerar aspectos de maior amplitude”, afirma.
Para Pochmann, a presidenta Dilma
Rousseff (PT) enfrenta um cenário complicado não somente por conta da
crise econômica, mas pela falência do sistema político atual e a relação
Estado-mercado, duas questões que deixaram de ser enfrentadas no
processo de redemocratização do país. “O sistema político, herdeiro da
ditadura, não permite uma conexão decente entre o conjunto da população e
seus representantes. Não estou dizendo que são representantes ilegais,
mas há uma desconexão. O resultado eleitoral de 2014 mostrou uma coisa
estranha: como um país que tem 86% da sua população morando nas cidades
tem a maior bancada do Legislativo formada por ruralistas?”, questiona.
Outro ponto que ele considera crucial
para 2015 é a necessidade de se separar os crimes cometidos por
dirigentes de empresas de suas atividades. “O Ministério Público,
imbuído de boas intenções, quer implantar no Brasil o silêncio dos
cemitérios. No cemitério tem silêncio, mas não tem vida. Se você
entender que o problema da corrupção é das empresas e não de seus
dirigentes pode, na verdade, liquidar uma parte significativa da
engenharia nacional”, acredita.
Pochmann analisa também o significado
das manifestações ocorridas nos dias 13 e 15 de março, que também foram
objeto de pesquisa da Fundação Perseu Abramo. “São naturezas distintas
de mobilização e expressão. A manifestação da sexta-feira foi organizada
por instituições tradicionais, os sindicatos. Embora houvesse
movimentos populares, estudantis, são instituições que estão aí há
quanto tempo? Já a outra é uma expressão do que as tecnologias de
informação nos permitem, que é o engajamento pontual. As pessoas que vão
em uma manifestação em um dia não vão necessariamente em outro, não
existe um contínuo”, avalia.
Confira a seguir a íntegra da entrevista.
Fórum – Em relação à
situação econômica atual, a presidenta Dilma diz que a causa da crise é
conjuntural, derivada de fatores externos, e alguns economistas dizem
que, na verdade, ela seria estrutural. O cenário é fruto mais de uma
questão conjuntural, estrutural, ou essa é uma análise que não pode ser
feita nesses termos?
Marcio Pochmann – Parto
do pressuposto que o debate sobre a economia política brasileira está
mal posto. Estamos muito prisioneiros da perspectiva de
“curto-prazismo”, de olhar se a inflação desse mês é maior que a
passada, o mesmo com a questão dos empregos, dos salários, de uma
maneira geral. Claro que isso diz respeito a uma lógica do mercado
financeiro, que tem que tomar decisões de curtíssimo prazo, mas, do
ponto de vista de um país, de uma análise acerca da sua economia, é
preciso considerar aspectos de maior amplitude.
Particularmente, entendo que a
estratégia de buscar o desenvolvimento do capitalismo brasileiro
introduzido com o presidente Lula em 2003, e que teve continuidade com a
presidenta Dilma, foi de se apoiar no mercado externo – àquela época em
um grande momento, estimulado pela China –, formando-se uma proteção em
relação ao caráter especulativo do capitalismo internacional por meio
da criação das reservas, aproveitando o saldo comercial para liquidar o
problema da dívida externa, algo que nos aprisionava. Foram praticamente
duas décadas transferindo entre 5% e 6% do PIB para pagamento desta
dívida. Ao mesmo tempo em que a estratégia se apoiava no mercado
externo, buscou-se uma expansão do mercado interno sustentada na
distribuição de renda, um fato inédito no capitalismo brasileiro nos
últimos 50 anos, já que nunca tínhamos tido a capacidade de combinar
democracia, crescimento econômico e distribuição de renda. Nos anos 1960
o crescimento foi muito mais vigoroso, inclusive, mas dado o
autoritarismo vigente não distribuímos o que conseguimos expandir do
ponto de vista das forças produtivas do capitalismo. Tanto que tivemos
no início dos anos 1980 o Brasil como oitava economia, mas como o
terceiro país mais desigual do mundo.
Nos anos 1980 e 1990, tivemos a retomada
da democracia, mas não do crescimento, então não tínhamos o que
distribuir. Foram décadas ruins porque de certa maneira houve uma
regressão econômica e social, o país caiu para 13ª economia mundial no
ano 2000.
Essa estratégia adotada pelos governos
Lula/Dilma teria fôlego longo, inclusive, porque com o PAC introduzido
em 2006 buscava-se instaurar um ciclo de expansão por meio de
investimento, mas isto foi interrompido por conta da crise de 2008. Não
foi apenas uma crise que alguns diziam ser em “V”, com uma queda na
atividade que depois volta a se recuperar. A crise de dimensão global
iniciada em 2008 estabeleceu um novo regime possível de expansão das
economias capitalistas, que é um regime de expansão muito menor do que o
verificado antes daquele ano.
Se você fizer uma comparação dos países
mais relevantes economicamente do período de 2008 a 2014 com a variação
média anual entre 2000 e 2007, vai perceber que os países estão
crescendo muito menos. Os Estados Unidos estão crescendo 30% do que
cresciam antes de 2008; a Europa praticamente não está crescendo, está
estagnada, o Brasil cresce 45% do que crescia antes; a China, 75%, o
melhor desempenho vem sendo da Índia, com 83%, 84%. A crise de dimensão
global estabeleceu um novo regime de expansão possível que é de
baixíssimo crescimento. Todos os países decresceram.
O Brasil, que havia constituído o PAC
como a possibilidade de se fazer a ampliação de investimentos, teve que
utilizá-lo não mais com essa finalidade mas sim no âmbito das políticas
anticíclicas, usando-se o fundo público com o objetivo de evitar que os
efeitos dessa crise e, depois de 2011/2012, que os efeitos do baixo
dinamismo econômico viessem a ser transferidos para os mais pobres.
Mesmo os Estados Unidos, que cresceram em torno de 13% acumuladamente de
2008 pra cá, teve um desempenho do mercado acionário que cresceu 150%;
os lucros empresariais aumentaram 50%, e a renda média dos trabalhadores
decaiu 3%. Ou seja, a crise estabeleceu um regime de menor crescimento
e, quando o país cresce, os efeitos se dão de forma concentrada.
O que aconteceu é que o governo
brasileiro, na expectativa de que a crise estabelecesse uma
possibilidade de voltar a crescer como anteriormente, adotou políticas
anticíclicas evitando que os efeitos recaíssem sobre os mais pobres.
Mesmo tendo crescido menos, que é o caso do período de 2011 pra cá, os
pobres praticamente não foram atingidos, continuou caindo a taxa de
pobreza, os salários subiram acima da inflação e não houve aumento do
desemprego.
Mas a presidenta Dilma se deu conta de
que não seria mais suficiente manter essas políticas de caráter
anticíclico por mais tempo porque a crise não vai viabilizar no curto
prazo a retomada do crescimento, e nós temos que trabalhar com esse
horizonte. Dentro desse quadro que vem de fora, a meu modo de ver, há
uma tentativa de se reorganizar. O que é essa reorganização? Acredito
que há uma leitura equivocada, de maneira geral, das ações da presidenta
que, antes de tomar as decisões, tem acesso a muitas informações que
nem sempre a gente tem. A impressão que tenho é que ela optou, em
primeiro lugar, por tentar reorientar o eixo da economia, e mudar o
centro político.
Não sei se isso vai ser suficiente ou
viável, há uma série de reações. Mas essa mudança de centro político é
importante, pois o início do segundo governo da presidenta se dá diante
de dois esteios que estão se esfarelando. Eles já eram frágeis e
conhecidos de seus antecessores, que nunca os enfrentaram, e são herança
da ditadura militar, nunca confrontada pela transição democrática.
Trata-se da falência do sistema político atual, que, de certa maneira, é
uma herança do Golbery, da maneira com que a ditadura preparou a
transição do autoritarismo. Está ali, não foi mexido. Tem gerado
desconexões que vêm desde o Sarney. Embora ele [Sarney] tenha sido
ungido pelo PMDB, que em 1986 teve vitórias nas eleições para governador
em todos os estados menos um, não conseguia governar só com o partido,
teve que fazer um “Centrão”.
O sistema político, herdeiro da
ditadura, não permite uma conexão decente entre o conjunto da população e
seus representantes. Não estou dizendo que são representantes ilegais,
mas há uma desconexão. O resultado eleitoral de 2014 mostrou uma coisa
estranha: como um país que tem 86% da sua população morando nas cidades
tem a maior bancada do Legislativo formada por ruralistas? É
desproporcional. É impossível que uma população urbana eleja
representantes do mundo rural, que correspondem a 7% do PIB.
Fórum – Existem dois dados
interessantes da pesquisa publicada pela Fundação Perseu Abramo a
respeito das duas manifestações, dos dias 13 e 15 de março, mostrando
que em ambas a maioria é a favor da adoção de crianças por casais
homoafetivos e contra a prisão da mulher que faz aborto, no sentido
contrário de parte do Congresso Nacional…
Pochmann – Isso vem
ganhando cada vez maior expressão, a bancada evangélica tem a segunda
maior bancada, tem a bancada da bola… A sociedade brasileira é formada
por mais de metade de mulheres, que não têm representação, assim como os
negros. Grande parte da população é composta de jovens, que também não
são representados. Os empresários, que segundo o IBGE representam 3,6%
da estrutura ocupacional, no Legislativo representam 40%. Alguma coisa
está errada.
Como o Executivo ganha a eleição e os
partidos que o apoiam não lhes dão maioria? Isso fica mais claro ainda
quando se verifica que a cada eleição há menos representantes populares,
porque a eleição se transformou em um grande negócio no qual o poder
econômico tem maior expressão. Esse sistema está falido. Nunca tivemos, a
não ser na crise de 1992 com o Collor, uma credibilidade de todos os
partidos políticos tão baixa. E isso é profundamente preocupante em um
país com tão pouca tradição democrática.
O segundo esteio que está fragilizado e
que vem da ditadura, não sendo fato novo, é a relação entre Estado e
mercado comprometida. O Brasil começou a constituir grandes empresas do
setor privado no governo Juscelino Kubitschek, que trouxe as grandes
companhias privadas, as montadoras, mas que também, na construção de
Brasília, abriu a oportunidade de se criarem as grandes construtoras,
com a formação do grande empresariado da construção civil, grupos
familiares etc. Na ditadura militar isso ganhou mais expressão com a
Transamazônica, Ponte Rio-Niterói, para citar alguns exemplos, havendo
uma simbiose na relação entre o Estado e o mercado. E a democracia não
mexeu nisso.
O que se percebe hoje são relações
completamente contaminadas entre o Estado e o mercado. O processo
licitatório atualmente é infelizmente contaminado por esquemas. Em todos
os níveis, municipal, estadual e federal. É uma bobagem querer focar no
plano federal. Óbvio, as somas são maiores, mas se for feito um
levantamento vai se perceber que existem coisas estranhas em todas as
instâncias e isso é na educação, na saúde, nos transportes, na definição
de tarifas nas cidades…
Há uma falência desse modelo de
capitalismo que vem consolidado da ditadura e em que a democracia não
mexeu. E agora se chegou a uma situação calamitosa que precisa ser
enfrentada. E como se enfrenta isso? Há um descontentamento generalizado
em relação à questão da corrupção, por exemplo, mesmo se sabendo que
não é um fato novo e que foi feito um conjunto grande de iniciativas que
certamente constrangeu a possibilidade de haver mais corrupção, mas ela
está aí. Como se enfrenta isso, como se muda o sistema político, como
se muda a relação Estado-mercado? Não tem saída simples.
Tenho a percepção de que estamos
chegando no ponto ótimo da crise. Obviamente não é mais possível
empurrar com a barriga, terão que ser tomadas medidas difíceis. E
medidas difíceis obviamente impõem riscos.
Fórum – Em relação à questão
da corrupção. Nessa relação Estado-mercado, a impressão que se tem,
pela cobertura da mídia tradicional e de parte da opinião pública, é que
a corrupção é fruto quase exclusivo do Estado. Por que a participação
do mercado, das grandes companhias, é tão pouco abordada?
Pochmann – Em primeiro
lugar porque não temos fiscalização sobre as atividades privadas, não há
essa informação. Imagino que a corrupção seja igual ou maior no setor
privado em relação ao setor público, nenhuma empresa faz questão de
divulgar que detectou um processo ilícito em sua contabilidade. São
pouquíssimos, raríssimos os casos de corrupção do setor privado que são
divulgados e conhecidos. Também tem mais expressão a corrupção no setor
público por serem recursos dos contribuintes.
É claro também que há uma opção das
coberturas. Nós temos o funk ostentação e teremos a “corrupção
ostentação”, isso vai dominando o noticiário e dando a impressão que o
Brasil é um país corrupto. Levantamentos idôneos feitos por instituições
mostram que o país tem esse problema, mas não é nada exacerbado. Aliás,
comparado com os chamados Brics – Rússia, China, Índia, África do Sul
–, o Brasil tem menos. Claro que é um problema que tem que ser
enfrentado, mas infelizmente vai sempre haver se não houver
fiscalização, monitoramento, prisão, enfim. O que a legislação
estabeleceu, e acho que temos nos aperfeiçoado nisso, é permitir pela
primeira vez identificar não apenas o corrupto mas o corruptor. É um
avanço inegável.
Obviamente isso se tornou um tema
político, a direita no Brasil se realinhou à direita latino-americana.
Se o PT, junto com seus partidos coligados, conseguiu vencer as eleições
de 2014, a partir do encerramento do processo eleitoral a oposição vem
ganhando todas. Por quê? Porque mudou a natureza da direita que, no
Brasil, tinha uma postura à la europeia, ou seja, fazia o embate, a
tensão no período eleitoral e, uma vez encerrada a eleição, tanto os
vitoriosos como os derrotados encerravam ali a campanha e o partido
vitorioso teria seis, oito meses para implantar o seu plano de governo e
então sofrer críticas, avaliações, o que é natural.
Mas a direita latino-americana, com o
encerramento dos governos pós-neoliberais, passou a fazer um processo de
oposição permanente, usando todos os meios para isso. Algo que não era
identificável no Brasil, mas não há dúvida que, quando se encerrou a
eleição passada, a direita não se desorganizou, não se desfez da sua
máquina eleitoral. Quem se desorganizou foram os vitoriosos, achando que
ali havia se encerrado o processo eleitoral. Mas ele continua. A
oposição vem ganhando as batalhas porque se manteve organizada e passou a
entender que estamos diante de um novo processo político nacional.
Somente agora, ao que parece, tanto o PT como os partidos da base
entenderam que precisam se reorganizar novamente, porque as eleições
infelizmente não se encerraram. Hoje é um procedimento novo, se você
observar, a direita brasileira está se comportando assim, mas a
venezuelana age dessa maneira, na Bolívia, no Equador, na Argentina
também operam desta forma.
Isso tem permitido essa vitória
recorrente sobre o governo, que venceu a eleição e entrou em uma fase de
formação, que é tensa, divide, separa, porque se escolhe um e não
outro. O governo se fragmentou na escolha de seus ministros, na ocupação
de cargos. Depois se fragmentou ainda mais na definição dos dirigentes
do Legislativo, e a oposição se manteve unida, articulada, e atuando de
forma muito sistêmica. Criou-se um quadro estranho porque que quem
venceu a eleição aparece como fracassado e quem perdeu sai como
vitorioso.
Fórum – Mas nesse período
que vai do fim da eleição até a formação do governo e as primeiras
medidas não existe uma falta de interlocução com a esquerda, que foi
fundamental no segundo turno? Houve medidas de austeridade econômica,
foram alteradas regras do seguro-desemprego, o próprio ministro Joaquim
Levy criticou a política econômica anterior, e não houve qualquer aceno à
esquerda nesses primeiros meses.
Pochmann – Dado esse
contexto em que a presidenta precisou formar seu governo, a relação
entre Estado e mercado, os limites que foram se estabelecendo, os
obstáculos vindos do exterior que mostram não ser possível crescer a uma
taxa razoável, ela, na verdade, fez concessões. Obviamente essas
concessões foram estabelecidas em um horizonte de quatro anos, o que
apareceu agora foram medidas que mexem muito mais na sua base do que com
aqueles que não votaram nela. O que não é uma tática diferente do que o
presidente Lula fez em 2003. É verdade que ele, ao assinar a Carta aos
Brasileiros, já dava indicação de que tomaria algumas decisões que
poderiam contrariar expectativas.
Não identifico, nas medidas tomadas até
agora, que Dilma esteja pondo em prática o programa da oposição. Do
ponto de vista da questão fiscal, isso foi recorrente no governo Lula,
sempre houve superávit. Essa concessão foi estabelecida, nunca mudamos o
tripé da política macroeconômica. Podemos julgar se foi correto ou
incorreto, mas, na verdade, foi uma ação gradual. O presidente Lula, por
exemplo, quando assumiu elevou a taxa de juros, mas olhando a longo
prazo a taxa de juros caiu.
Não foram governos de choque, mas
governos de ações graduais. Quem se propôs a fazer uma política de
choque foi a oposição, seja pela Marina, seja pelo Aécio, que inclusive
anunciava que diante do caos da economia teria de fazer um superávit
primário de 3,5% a 4,5% do PIB. Quero lembrar que no último ano do
primeiro governo Dilma foi enviada uma proposta orçamentária cujo
superávit primário era de 2,5% do PIB, claro, uma estimativa baseada no
fato de que a economia iria crescer em 2014. E foi reprogramado para um
superávit de 1,2%, um dos menores que tivemos em termos de meta.
Na semana passada, o Armínio Fraga, que
seria ministro da Fazenda do Aécio, deu uma entrevista dizendo que o
ajuste era “fraquinho”. É preciso ter clareza, senão misturamos as
coisas, os governos do PT têm um certo compromisso com a questão fiscal,
há uma ação nesse sentido, mas não a vejo como uma aplicação do
programa da oposição.
Concordo que há um certo desequilíbrio
na apresentação das propostas que se deram mais do ponto de vista da
aliança capital-trabalho do que em relação a outros setores que não
pagam impostos, são improdutivos… Mas aí é uma opção da presidenta e
talvez isto até justifique ela estar mal avaliada, porque as escolhas
que fez para buscar uma recuperação da economia se deram de forma
unilateral.
Fórum – Sem diálogo.
Pochmann – Essa é uma
marca da presidenta, ela não faz muito diálogo. Quando tomou medidas
como baixar taxas de juros, promover desonerações, nunca fez nada
dialogado, é uma característica dela. Mesmo quando fez coisas boas para a
população, não reuniu as pessoas, é uma postura diferente da do
presidente Lula, a gente cobra dela o que é muito comum nele, mas são
características diferentes. Não acredito que isso possa ser imputado
como uma postura autoritária. Podemos julgar se é errado, correto, mas a
avaliação do ponto de vista do desempenho, de como se faz política, é
que ela faz política de uma forma diferente.
Fórum – Em relação à taxa de
juros, houve uma tendência longa de queda nos dois primeiros anos da
primeira gestão da presidenta e havia uma perspectiva de chegar a um
outro patamar, mas essa curva acabou se revertendo e voltou a subir. O
que deu errado naquele momento?
Pochmann – A taxa de
câmbio no Brasil é uma expressão da baixa autonomia que o país tem de
fixar política monetária. Isso tem a ver com o ajuste que os Estados
Unidos imprimiram no final dos anos 1970 com o Paul Volker, de tentar
recuperar a diplomacia do dólar. Na verdade, os países perderam a
capacidade de fazer política monetária, fazem sempre olhando para os
EUA. Se eles sobem a taxa de juros, então têm que subir porque senão
corre-se o risco do dinheiro sair daqui e ir pra lá.
A taxa de câmbio acaba refletindo a
contabilidade do país em relação ao mundo. Foi possível reduzir a taxa
de juros de forma mais intensa em 2011, 2012, porque nossas contas
externas estavam boas, tinha-se acesso a fluxos financeiros
internacionais, nossas exportações estavam relativamente bem, usava-se
ali as taxas de juros muito mais para evitar um possível problema de
inflação de demanda do que qualquer outra coisa. No entanto, nesses dois
últimos anos, em 2013 e 2014, há uma alteração da relação do Brasil com
o mundo porque passamos a operar com déficit na conta de capital.
Tivemos um déficit de mais de 4% do PIB, isso hoje em dia é algo ao
redor dos US$ 100 bilhões.
O Brasil não fecha suas contas se não
houver ingresso de capital pra cá. Ao meu juízo, as decisões sobre taxas
de juros do Banco Central têm muito mais a ver com essa questão de
atrair recursos, você tem que operar com a taxa de juros acima dos
demais países para que o Brasil continue a ser interessante para o
capital especulativo, para fechar a conta de capital. Muito mais do que
problema de inflação, já que hoje temos inflação vinculada a preços
administrados que agora foram liberados, não tem efeito, não são os
preços competitivos que estão pressionando a inflação. Nós temos um
déficit comercial e na conta de serviços porque ainda tem muito dinheiro
saindo em função de turismo e pagamento de serviços. A impressão que
tenho é que a taxa de juros está sendo definida mais em função da
balança de pagamentos do que pelo comportamento da inflação.
Fórum – Dentro desse cenário, a valorização do dólar perante o real pode ter um efeito positivo na balança.
Pochmann – Nós
aumentamos em um prazo muito pequeno a taxa de juros e tivemos uma
desvalorização de nossa moeda. Isso normalmente não acontece assim, com a
taxa de juros alta se atrai muito dinheiro por causa das possibilidades
de ganho especulativo, e ao trazer mais dinheiro de fora, em tese sua
moeda se apreciaria. E tivemos o contrário, uma desvalorização da moeda.
A taxa de juros evitou que ela fosse mais intensa ainda.
A desvalorização, a meu ver, é positiva,
trata-se da mudança de eixo da economia. A Dilma está praticando uma
desvalorização da nossa moeda com o objetivo de proteger nosso mercado
interno e de fazer avançar as exportações. A estrutura produtiva que
temos hoje, dado o coeficiente de importação, dado o período anterior de
valorização cambial, qualquer crescimento que se tenha aqui “vaza” para
o exterior. O aumento de salários vai corresponder à compra, essa
compra vai ser realizada internamente, mas grande parte dessa produção
interna vem de importações. Então crescemos dependendo cada vez mais dos
importados.
Há uma mudança do eixo econômico que, de
certa maneira, buscar centralizar mais no mercado interno e forçar as
empresas a fazerem substituição de importações.
Fórum – Os efeitos dessa mudança de eixo demorariam quanto tempo para serem visíveis?
Pochmann – A
desvalorização cambial tende a ter um efeito bastante razoável nas
exportações, mas isso depende também do comportamento da economia
internacional. Hoje os países são muito mais agressivos, acredito que
isso pode comprometer um ano, um ano e meio.
Fórum – Há uma crítica
recorrente em relação ao planejamento do governo no tocante ao setor
industrial. Houve o que poderíamos chamar de descuido nessa área?
Pochmann – A discussão
industrial no Brasil é bem complexa. Não há dúvida de que a indústria
perdeu participação no PIB nacional, que era algo em torno de um terço e
caiu para 12%. Ainda que essa queda em parte esteja associada ao
processo de terceirização que ocorreu na década de 1980, todos os
serviços estavam dentro da indústria e depois eles saíram, passando-se a
contar apenas o que ficou. Não sei se caiu de forma tão expressiva como
os números frios apresentam. São comparações inadequadas.
Ao mesmo tempo, há estados, como é o
caso de São Paulo, por exemplo, onde ocorreu uma desindustrialização
enorme. Mas há outros em que aumentou a indústria como no Nordeste e no
Centro-Oeste. No quadro geral há uma redução do peso da indústria com
estados que diminuíram e outros que aumentaram.
De toda maneira, o que está havendo no
capitalismo é um deslocamento da produção de manufatura do Ocidente para
o Oriente. É difícil ter um país no Ocidente que não tenha perdido
participação da sua indústria. Fora isso, perdemos porque fizemos opções
ao ter colocado o combate à inflação como uma função-fim do Estado. Os
anos 1990 foram os piores do ponto de vista da desindustrialização,
quando houve a pior queda, mas de 1995 tem sido uma constante a
valorização cambial, que é um mal para o setor produtivo, não permite a
ele competir. A presidenta Dilma tomou uma decisão dura que é usar o
câmbio como tentativa de forçar a defesa do parque produtivo que temos
hoje.
Esse movimento de desindustrialização
também foi contaminando a própria burguesia industrial. Conversando com
gente vinculada à direção das indústrias em São Paulo, perguntei, em
2012: “Por que vocês estão reclamando tanto da Dilma se ela teria
atendido em parte o que vocês pediram, desvalorizou a moeda, reduziu os
juros, promoveu desoneração…”. E me responderam: “É, ela nos atendeu,
mas isso não foi muito bom. Uma parte do faturamento das indústrias vem
do setor financeiro, quando reduz a taxa de juros, nós perdemos dinheiro
no banco”. É um setor contaminado pela lógica financeira. E
continuaram, sobre a desvalorização cambial. “De um lado ela é boa,
porque nos incentiva a exportar, mas, por outro lado, nós que somos
grandes importadores, compramos dos fornecedores de fora, com a
desvalorização aumentou nossos custos. Então não gostamos.”
Não é um problema da burguesia
industrial brasileira. O Obama, quando iniciou o seu governo, fez uma
proposta de reindustrialização dos Estados Unidos. Não teve sucesso. A
maior oposição foi dos próprios industriais americanos que preferiram
manter sua produção fora do país. Não quero isentar o governo das
falhas, mas não é só ele.
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