Por Flávio Aguiar
no Carta Maior
"Como em 1954, há uma
burguesia e uma classe média que se sente ameaçada pela ascensão social
de setores dos 'de baixo': essa é a raiz dos panelaços.
Uma amiga minha,
veterana militante do Partido Socialista no começo dos anos 50, me
contou a seguinte história. No dia 24 de agosto de 1954, ela se
preparava, na cidade onde vivia, no interior paulista, para sair à rua
comemorando com outros militantes comunistas a queda de Vargas. Nesse
momento, ela e todos os outros foram surpreendidos pela notícia do
suicídio e a leitura da "Carta Testamento" no "Repórter Esso". Ficaram
perplexos, atônitos, nada fizeram.
Enquanto isso, “as
massas” saíam às ruas, notadamente no Rio de Janeiro e em Porto Alegre,
depredando os jornais e as sedes dos partidos conservadores. Militantes
do PC tentaram assumir o controle das manifestações, em parte para
“dirigi-las”, em parte para evitar que suas sedes fossem igualmente
empasteladas (na época o termo era esse), como foram rádios e
jornais conservadores. A foto com uma caminhonete do jornal "O Globo"
virada deveria servir de exemplo para os aprendizes de golpe de hoje,
mas certamente será em vão.
A perplexidade de minha amiga dura até hoje.
Sinal de que ela ainda não entendeu o que então estava acontecendo.
Dá para compreender. As
esquerdas tinham um esquema na cabeça. E o que o primeiro período Vargas
provocara fugia aos esquemas. Era mais fácil então sair pelo esquema
moralista de se refugiar nas denúncias programadas pelo grupo liberal - com Lacerda, ex-comuna à frente - do que tentar o vislumbre do que acontecera nos últimos vinte e tantos anos, desde 1930.
A partir de 30, duas coisas tinham se consolidado: uma classe média ciente de seus direitos - que consideravam privilégios -
e que se identificava com Lacerda, e uma classe trabalhadora urbana,
recém-ciente de seus direitos e de suas conquistas, e que se
identificava com as propostas de Vargas, CLT, nacionalismo etc. O
conflito social se expressou através dos manifestos do estamento militar
- o famoso “dos Coronéis" à frente - e da pressão para que Getúlio caísse.
O caso se resolveu à
bala. Uma única, que postergou o golpe por dez anos, apesar das novas
tentativas contra Juscelino e a de 1961.
Por detrás da crise
política, havia de fato uma crise social que não cabia nos manuais da
esquerda de então. Supostamente, nos manuais comunistas, o Brasil vivia
uma crise de um sistema feudal pré-capitalista que necessitava passar ao
“estágio do capitalismo superior”. nas teorias mais radicais, o
conflito entre capital e trabalho estava adormecido pelas políticas
populistas de Vargas. E o que acontecera de fato, a imersão de uma nova
massa de trabalhadores no mundo capitalista urbano, vinda de seus
direitos, passava despercebido, ou era desconsiderado. A crise social
ficava em segundo plano, a crise política aparecia no primeiro e a
esquerda via tudo como uma crise moral - como queria a propaganda lacerdista.
Hoje, acontece algo
análogo. Há de fato uma crise política. Ressentidos se agrupam em torno
de um candidato derrotado, mas inapetente pela busca de vencer a eleição
seguinte, até por medo de seus correligionários. O governo, inepto em
matéria de comunicação, comete erros atrás de erros, como o de ter seu
Chefe da Casa Civil fazendo um mea-culpa sem razão de ser diante de
inimigos que só querem sangue de pescoço. A extrema-esquerda, com seus
braços acadêmicos, se esmera em tentar fazer o Brasil retornar a seus
esquemas teóricos insuficientes. Clama que os governos Lula, Dilma e FHC
são braços do mesmo tronco. No meio disso, um deputado em busca de uma
corda de salvação para o poço em que vai afundar promete um processo de
impeachment sem qualquer base legal, mas que satisfaz a seus anseios, ao
do candidato derrotado que quer reverter o relógio da historia, e ao
ex-presidente meio avariado pela ameaça de ver seu sonhado reino
submergir como um mero interregno entre a era Vargas e a era Lula. De
quebra, vozes da mídia conservadora e esclerosada querem ganhar a
medalha do mérito lacerdista, contribuindo ou derrubando um governo de
esquerda.
Mas ninguém presta
atenção no pano de fundo que aduba essa crise política, que é de fato
uma crise de natureza social. Aliás, esse sim é um erro que o PT -
genericamente falando - cometeu. Qual seja, o de imaginar que a paisagem
social brasileira poderia mudar sem conflitos emergindo. Como em 54, há
uma burguesia e uma classe média que se sente ameaçada pela ascensão
social de setores dos “de baixo”, como dizia o saudoso Florestan
Fernandes. A estrutura social não mudou, é certo, como quer a
extrema-esquerda e seus porta-vozes acadêmicos, que querem enquadrar o
Brasil pleno - ou pós-PT - nos seus moldes nos quais ele não cabe mais.
Mas a composição social da paisagem mudou, com mais gente no convés do
meio, menos no de baixo, e o da turma da primeira-classe se sentido
ameaçada pelo acesso crescente dos “de baixo” às escadas até então de
acesso privilegiado dos “de cima”: de aeroportos a shopping centers e universidades, nessa ordem de importância atribuída pelos usuários.
Esta é a raiz dos panelaços: gente que não se sentia ameaçada agora se sente perdida. Ou sente que vai perder os anéis e os dedos. Esse é o caldo de cultura em que os golpistas de hoje navegam.
Vão se dar mal, ganhem
ou percam. Se perderem, vão amargar mais uma derrota. Se ganharem, e
conseguirem derrubar o atual governo, vão herdar uma massa falida - não a da esquerda ou a do governo -
mas a própria. As direitas hoje não têm qualquer projeto para o país.
Alias, se há algo completamente estranho ao seu universo, é esta palavra
- país. O que veem é um espólio de passado colonial à venda,
sendo a questão mais importante a de definir quem vai recolher o produto
da venda, ou a mais valia decorrente do processo. À extrema-esquerda
interessa revogar - como em 54 - o “empecilho” de um governo que
“adormece” as massas. E o Brasil que vá às traças. Melhor salvaguardar
as teorias, para os acadêmicos, do que se por mãos a obras e pesquisar o
novo para entender o que está se passando. É mais fácil desqualificar o
que aconteceu - construir a saída de milhões de pessoas da miséria e da pobreza - do que tentar entender o que aconteceu, por que acontece e o que a partir daí pode acontecer.
Para as direitas só interessa morder o governo, desprezar a democracia e semear o caos.
Há um senão nisso tudo.
As direitas de hoje são muito mais díspares do que as de 64 ou de 54.
Vão resistir ao proprio caos em que navegam? Não vão. Nem mesmo se sabe
se conseguirão seu objetivo imediato, tão frágil que ele é de qualquer
ponto de vista que se olhe, do jurídico ao moral, e sem apoio na caserna
militar. O que pode lhes sobrar é uma tremenda ressaca, que já houve no
período entre abril e agora, agosto.
Agosto, mês de desgosto. Cuidado, pode ser para todos."
FONTE: escrito por Flávio Aguiar e publicado no portal "Carta Maior" (http://cartamaior.com.br/?/Coluna/Brasil-o-buraco-e-mais-em-cima/34189).
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