quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Valorizar a única matriz de produção de riqueza: o trabalho



                                                                                        José Álvaro de Lima Cardoso*
     O Brasil atravessa, como se sabe, uma crise econômica importante, mas superdimensionada pela mídia, por razões políticas. O aprofundamento da crise econômica, inclusive, alimenta fortemente a instabilidade política: inflação mais alta, arrecadação em queda, piora do mercado de trabalho, efeitos do ajuste neoliberal que cortou gastos sociais, tudo isso joga água no moinho dos golpistas. O acirramento do enfrentamento político está também relacionado à crise internacional iniciada em 2008, que provocou queda do preço das commodities e redução do preço do petróleo, tornando mais curto o cobertor da economia internacional, e limitando as alternativas do Brasil.
     Porém, os impactos da crise, além de depender de inúmeros fatores, são diferenciados nos setores econômicos. No atual contexto de ajuste fiscal e de persistência da crise mundial, nosso vasto mercado interno é dos mais valiosos ativos que o país possui, razão pela qual devemos ampliá-lo.  Além disso, a valorização do dólar vem reduzindo a entrada de produtos importados, o que está permitindo a recuperação do saldo da balança comercial. Tanto importações quanto exportações vêm diminuindo, mas as importações caem mais rapidamente que as exportações, possibilitando o saldo comercial que, entre janeiro e novembro, atingiu US$ 13,442 bilhões.
     O setor de processamento de carnes, por exemplo, em geral vai muito bem. Como demonstra o balanço financeiro da BRF, a sétima maior companhia de alimentos do mundo e maior exportadora mundial de carne de frango, a empresa apresentou lucro líquido de R$ 877 milhões no terceiro trimestre deste ano, um significativo avanço de 53,3% em relação ao mesmo período de 2014. Seu lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (o chamado Ebitda) alcançou R$ 1,52 bilhão, expansão de quase 35% ante os mesmos meses em 2014. Tais resultados, em meio à recessão pela qual o País atravessa neste momento, são absolutamente fantásticos. Possivelmente, apenas o setor bancário apresenta resultados semelhantes.
     A empresa anunciou para 2016 uma “puxada nos preços” dos seus produtos de exportação, o que significa que suas margens devem melhorar ainda mais. Os indicadores da BRF reforçam o princípio de que devemos refutar a ideia, bastante comum em certos tipos de “urubus da conjuntura”, que 2016 já é um ano perdido para o crescimento e o emprego. Se pretendemos construir um país com desenvolvimento econômico, social e ambiental, é fundamental aumentar a produtividade, gerar empregos de qualidade e elevar a renda média. Mas só lograremos alcançar tais objetivos valorizando a única matriz de produção de riqueza e renda: o trabalho.
                       *Economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.

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