José Álvaro de Lima
Cardoso*
O Brasil atravessa, como se sabe, uma
crise econômica importante, mas superdimensionada pela mídia, por razões
políticas. O aprofundamento da crise econômica, inclusive, alimenta fortemente
a instabilidade política: inflação mais alta, arrecadação em queda, piora do
mercado de trabalho, efeitos do ajuste neoliberal que cortou gastos sociais,
tudo isso joga água no moinho dos golpistas. O acirramento do enfrentamento
político está também relacionado à crise internacional iniciada em 2008, que
provocou queda do preço das commodities e redução do preço do petróleo,
tornando mais curto o cobertor da economia internacional, e limitando as
alternativas do Brasil.
Porém, os impactos da crise, além de
depender de inúmeros fatores, são diferenciados nos setores econômicos. No
atual contexto de ajuste fiscal e de persistência da crise mundial, nosso vasto
mercado interno é dos mais valiosos ativos que o país possui, razão pela qual
devemos ampliá-lo. Além disso, a
valorização do dólar vem reduzindo a entrada de produtos importados, o que está
permitindo a recuperação do saldo da balança comercial. Tanto importações
quanto exportações vêm diminuindo, mas as importações caem mais rapidamente que
as exportações, possibilitando o saldo comercial que, entre janeiro e novembro,
atingiu US$ 13,442 bilhões.
O setor de processamento de carnes, por
exemplo, em geral vai muito bem. Como demonstra o balanço financeiro da BRF, a sétima
maior companhia de alimentos do mundo e maior exportadora mundial de carne de
frango, a empresa apresentou lucro líquido de R$ 877 milhões no terceiro
trimestre deste ano, um significativo avanço de 53,3% em relação ao mesmo
período de 2014. Seu lucro antes de juros, impostos, depreciação e
amortização (o chamado Ebitda) alcançou R$ 1,52 bilhão, expansão de quase
35% ante os mesmos meses em 2014. Tais resultados, em meio à recessão pela qual
o País atravessa neste momento, são absolutamente fantásticos. Possivelmente,
apenas o setor bancário apresenta resultados semelhantes.
A empresa anunciou para 2016 uma “puxada
nos preços” dos seus produtos de exportação, o que significa que suas margens
devem melhorar ainda mais. Os indicadores da BRF reforçam o princípio de que devemos
refutar a ideia, bastante comum em certos tipos de “urubus da conjuntura”, que
2016 já é um ano perdido para o crescimento e o emprego. Se pretendemos
construir um país com desenvolvimento econômico, social e ambiental, é
fundamental aumentar a produtividade, gerar empregos de qualidade e elevar a
renda média. Mas só lograremos alcançar tais objetivos valorizando a única
matriz de produção de riqueza e renda: o trabalho.
*Economista e supervisor
técnico do DIEESE em Santa Catarina.
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