Assistimos a uma tragédia iniciada há 500 anos, a
explicar como um país destinado a ser paraíso foi condenado ao inferno
por sua elite.
por Mino Carta
—
publicado
na Carta Capital. Extraído do Democracia & Política.
Debret
Em qual país dito democrático o destino do governo e do seu partido fica sujeito à chantagem do presidente da Câmara dos Deputados, disposto a vender caro a sua pele de infrator?
Somos espectadores de um enredo assustador, a negar a
democracia que acreditamos viver, mas nem todos entendem que o
espetáculo é trágico.
O PT nega-se a uma capitulação ignominiosa e preserva o que lhe resta de dignidade, logo Eduardo Cunha parte para a vingança. Também o gesto do presidente da Câmara é tipicamente brasileiro, ao exprimir a situação de um país que há tempo perdeu o senso e a compostura.
Se já a teve, a capacidade de entender a gravidade do momento político, sem contar o aspecto pueril e os complicadores econômicos e sociais.
Até ontem, o governo jogou contra si
mesmo, ao ensaiar a rendição à chantagem: desenhou-se nas últimas
semanas a tendência a instruir os integrantes petistas da Comissão a
votarem a favor de Cunha, donde a pergunta inevitável do cidadão atento
aos seus botões: quer dizer que todos os envolvidos têm telhado de
vidro?
Ora, ora. Impeachment era,
e continua a ser, golpe. Quanto a Cunha, suas mazelas são mais que
evidentes. Então, por que o governo cederia à chantagem? Quem se deixa
acuar está perdido.
Tempo de chantagem, a delação premiada
resulta dela também, a partir de prisões preventivas que põem em xeque a
presunção da inocência, o indispensável in dubio pro reo. Esta é a democracia à brasileira,
diariamente chantageada pela mídia nativa. Segundo uma pesquisa
Datafolha, a maioria dos entrevistados enxerga na corrupção o calcanhar
de aquiles do País.
Não procuro saber das técnicas empregadas
para chegar a esse resultado, de todo modo é certo que a corrupção não
passa de uma consequência de 500 anos de desmandos na terra da predação.
O poder verde-amarelo muda seu endereço, mas não altera propósitos e
comportamentos. É sempre o mesmo, desde as capitanias hereditárias.
Feroz, hipócrita, velhaco. E impune.
De pé, ainda e sempre, a
casa-grande e a senzala, e também sobrados e mocambos. Gilberto Freyre
referia-se ao Nordeste, mas a dicotomia se impõe até hoje do Oiapoque ao
Chuí, e é mesmo possível que agora, nas terras do historiador
pernambucano, seja menos acintosa do que em outros cantos.
Permanece, em pleno vigor, a lei do mais forte, e desta
brotam os nossos males, a começar pela desigualdade, pelo assassínio
anual de mais de 60 mil brasileiros, pelo caos urbano. E assim por
diante. Supor que a situação atual tem alguns responsáveis,
identificados pela Lava Jato, não esclarece a real dimensão do problema.
Responsável é quem usa o poder em proveito próprio.
Colonizadores, escravagistas, bandeirantes, capitães do mato, os
senhores do império, os militares golpistas que proclamaram a República
etc. etc.
O golpe de 64 foi precipitado para evitar uma mudança
apenas vagamente esboçada graças à convocação dos gendarmes fardados,
coroada a operação 20 anos após, paradoxalmente, pelo enterro da
campanha das Diretas Já.
A chamada redemocratização foi uma farsa, com a
contribuição dos fados que levaram à Presidência Sarney, principal
artífice da derrota da Emenda Dante de Oliveira, a favor das diretas, e
vencedor da batalha da indireta à sombra de uma Aliança pretensa e
hipocritamente apresentada como Democrática.
A casa-grande e sua mídia elegeram
Fernando Collor, para apeá-lo quando passou a cobrar pedágio alto
demais, e Fernando Henrique, que “não é tão esquerdista assim”, como
dizia Antonio Carlos Magalhães.
O governo tucano em oito anos cometeu as
maiores infâmias contra os interesses nacionais, esvaziou as burras do
Estado, organizou com as privatizações a maior bandalheira da história
brasileira, comprou votos a fim de reeleger FHC, para não mencionar as
aventuras do filho do então presidente, grandiosas e silenciadas. Quem
pode, pode.
Lula, Dilma e o PT são intrusos
nesta pantomima e esta presença, usurpada na visão dos antecessores no
poder, explica por que hoje são visados como únicos réus. A eleição do
ex-metalúrgico em 2002 ofereceu uma esperança de renovação, e assim
pareceu divisor de
águas no rumo do progresso. No poder o PT portou-se como
os demais partidos (partidos?) e os bons augúrios minguaram
progressivamente. É bom, para a dignidade do governo e do seu partido
que enfim não capitulem diante da chantagem de Eduardo Cunha.
Seria o suicídio. Infelizmente, há muitos outros erros
morais e funcionais, falhas, deslizes, e até tramoias, trambiques,
falcatruas, a serem remidos, e não é fácil imaginar que o serão.
Às vezes me colhe a sensação de que
atravessamos a fase final do longo processo da decadência crescente e
inexorável de um país destinado a ser o paraíso terrestre e condenado ao
inferno por sua elite, voltada a cuidar exclusivamente dos seus
interesses em detrimento da Nação.
E de administrá-los contra a lei, se
necessário. Na circunstância, cheia de riscos e incógnitas, a saída pela
Justiça soa como o recurso natural. Não seria o STF o guardião da
Constituição ofendida, o último defensor do Estado de Direito?
Os botões me puxam pelo paletó: que esperar desta Justiça desvendada, embora tão verborrágica, empolada, falsamente solene?
Nenhum comentário:
Postar um comentário