A onda golpista no Brasil e as derrotas recentes na eleição presidencial da Argentina e na eleição parlamentar venezuelana soam o alerta máximo para a esquerda latino-americana: afinal, onde foi que erramos? Estaríamos derrotados? Estes questionamentos foram tema de debate entre Breno Altman, diretor editorial do Opera Mundi, e José Reinaldo de Carvalho, diretor do Centro Brasileiro de Solidariedade e Luta pela Paz (Cebrapaz), mediados pela jornalista Maria Inês Nassif. A atividade ocorreu na segunda-feira (7), na sede do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, como parte do Ciclo de Debates Que Brasil é Este?.
Para Altman, nos processos de avanços sociais que já perduram por mais de uma década no continente existiram contradições que foram exploradas pelas forças de direita, desatando a ofensiva conservadora em curso na região. “Diferente da União Soviética, os processos latino-americanos do século 21 plantearam reformas sem que o Estado tenha sido destruído”, avalia. “Nos casos clássicos da URSS e de Cuba, a destruição do Estado burguês precede as mudanças e os avanços”.
Conforme pontua o jornalista, os governos progressistas da região promovem transformações sociais significativas, expandindo a renda e o emprego. “Em um primeiro momento, isso é uma formidável força propulsora da economia, dinamizando o comércio e gerando um ciclo virtuoso. Mas quando cai a capacidade de investimentos e não se muda a estrutura produtiva, nasce a contradição, que está no âmago das crises na América Latina”, argumenta. “A quantidade de dinheiro na mão dos trabalhadores sobe, porque aumentou o emprego e o salário. Mas diminui a capacidade de produzir bens e serviços necessários para satisfazer as demandas.”.
O caso da Venezuela, país que mais expandiu direitos e que mais distribuiu renda, é emblemático, de acordo com Altman: Em resumo, o processo é baseado na retirada do poder sobre o petróleo das mãos das oligarquias. A renda petroleira, apropriada pelo Estado, financia os programas sociais bolivarianos. Essa renda, porém, não foi direcionada em medida suficiente para construir uma nova base produtiva no país – uma indústria que fosse capaz de libertar o país da dependência do petróleo. Sem resolver esse desafio, a Venezuela, continua uma economia compradora, que vende petróleo e compra todo o resto, pois não produz”.
O revés sofrido nas urnas no dia 6 de dezembro, ocasião em que o povo venezuelano elegeu maioria da oposição para a composição do Congresso – 99 representantes da Mesa da Unidade Democrática (MUD) contra 46 do Grande Polo Patriótico –, é 'cataclismático', nas palavras de Altman. Afinal, é a primeira vez que o chavismo terá de governar com minoria parlamentar.
“Boa parte de quem votou contra o chavismo”, discorre Altman, “era da base chavista”, de bairros e comunidades que, tradicionalmente, votam em massa nos candidatos do Grande Polo Patriótico. Segundo ele, isso significa que não se trata de uma base ideológica de direita, mas de uma base insatisfeita, que pode transitar novamente para o lado de Nicolás Maduro. “A conjuntura, no entanto, é extremamente difícil”
O caso brasileiro
Ameaçado pelo fantasma do golpe, já que a histórica aliança entre setores conservadores e grandes meios de comunicação inflamam diuturnamente a tese do impeachment e sangram as imagens de Lula e da presidente Dilma Rousseff, o caso brasileiro guarda muitas semelhanças com o que se passa no resto do continente. De acordo com o diretor da Opera Mundi, “temos, em todos os países, enorme dificuldade em preservar a alternativa que oferecemos como viável e competitiva do ponto de vista da disputa com as classes dominantes”.
Em retrospectiva, ele lembra que chegamos praticamente no pleno emprego em 2014. “Evidentemente que um país que faz uma transferência de renda desse porte produz reação inflacionária quando não se avança na estrutura produtiva”, salienta. “Apenas a exportação agro-extrativa expandiu, caindo novamente no problema da expansão da demanda versus retração dos investimentos”. Para ele, o Estado não foi capaz de executar um modelo que construísse uma nova estrutura produtiva para sustentar essa dinâmica de distribuição de renda inaugurada na virada do século.
“Nós não detemos, previamente, o controle e o poder do Estado. Logo, a margem de erro é estreita.
Esse não é o único problema no Brasil e no continente, mas é fundamental nos atermos às condições materiais dessa crise”, sublinha. “Ou somos capazes de aglutinar forças políticas e instrumentos de disputa de hegemonia para resolver essa contradição, ou os riscos de crise e derrota serão gigantes”.
Soberania e integração em risco
José Reinaldo Carvalho elegeu a figura de Maurício Macri, típico representante da elite argentina e eleito presidente em segundo turno, no mês de novembro, como exemplo dos estragos que a direita pode causar à integração latino-americana e à soberania das nações, uma das principais bandeiras erguidas pelos projetos progressistas da região.
“A primeira atitude de Macri ao ser eleito foi vir ao Brasil fazer provocações, propondo a retirada da Venezuela do Mercosul”, dispara. “A sua vitória cria um fator de instabilidade bastante agudo na vida não só do Mercosul como espaço de integração econômica, mas também na vida política do continente”.
A integração promovida atualmente, segundo José Reinaldo, busca o desenvolvimento harmônico da região, com mecanismos e iniciativas como a Alba, a Unasul e a Comundiade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). “Trata-se da luta por uma nova configuração da ordem mundial”, sintetiza.
Após largo período de ditaduras militares e, posteriormente, de governos civis autoritários, que submeteram o continente a uma 'longa noite neoliberal' (como definiu o presidente equatoriano Rafael Correa), logrou-se conquistas importantes na região, “com a construção de uma nova democracia, um novo processo de integração e com bases para um sistema fundamentado na soberania e no progresso social”, aponta. “Sabemos onde a América Latina estava e onde ela está. Agora precisamos responder para onde ela vai”.
“O que vem ocorrendo de alguns anos para cá e que está chegando a um ponto de ruptura, s
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