Por Najla Passos, no site Carta Maior:
"O
acolhimento do pedido de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff
pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), motivou
posicionamentos diferenciados entre os setores do campo progressista
brasileiro. Os principais movimentos sociais e sindicais do país
defendem a permanência da presidenta no cargo, mas entre os partidos
tidos como de esquerda que não compõem a base do governo há divergências
fundamentais.
O PSOL mantém suas duras críticas à política adotada pelo governo federal – em especial a econômica.
Mas não se associa aos setores conservadores que reivindicam o
impeachment da presidenta e defende o exercício do mandato por quem foi
democraticamente eleita pelo povo para fazê-lo. Para o PSOL - autor do processo que pede a cassação do presidente da Câmara no Conselho de Ética ao lado da Rede - o parlamentar carece de legitimidade para conduzir um processo desse porte.
“Processo
de impeachment, que pode culminar no ato mais extremo da dinâmica
política legal - a destituição do governante -, tem previsão
constitucional (arts. 85 e 86 da CF). Mas este, decidido por Eduardo
Cunha, o ilegítimo presidente da Câmara dos Deputados, construído num
ambiente de chantagens mútuas e posições oportunistas de todos os
grandes partidos, foi descarada retaliação, no marco de barganha que o
deputado pratica permanentemente, dentro do Legislativo e fora dele”, diz em nota, divulgada na sexta (4).
O partido alega ainda que as chamadas “pedaladas fiscais” – razão alegada para justificar a destituição da presidenta - não são razão suficiente para embasar um rompimento democrático de tamanha envergadura. “Governos
estaduais de diversos partidos também as praticaram, o que é
questionado pelos que se vinculam à concepção neoliberal do ajuste
fiscal contra o povo, com supressão de direitos. Para nós, no plano fiscal e orçamentário, é imperativa a auditoria da dívida e o fim do superávit primário”, afirma a nota.
Na quarta
(2), após Cunha deflagrar o processo de impeachment, o presidente da
legenda, Luiz Araújo, já havia se manifestado nesse sentido. “O PSOL
faz oposição de esquerda ao governo Dilma, combate seu pacote de ajuste
fiscal nas ruas e no parlamento. Da mesma forma, temos defendido
rigorosa apuração de toda corrupção no Brasil, com o fim do
financiamento privado das campanhas eleitorais. No entanto, concordar
com o impeachment é reforçar a estratégia da direita de acelerar o
ajuste e a pauta conservadora”, diz o texto.
Posicionamento diferente – e bastante controverso - tem o PSTU que, na quinta (3), divulgou a nota oficial ‘Fora Dilma, Fora Cunha, Fora Temer, Fora Aécio e esse Congresso Nacional! Fora todos eles!’. “O
PSTU vem defendendo já há algum tempo a necessidade de os trabalhadores
se organizarem e irem às ruas para dar um basta ao governo da Dilma,
mas também a Cunha, a Aécio, a Temer e a esse Congresso”, diz o documento.
De acordo
com o partido, não basta tirar Dilma e, por isso, ele entende que o
impeachment não é suficiente para resguardar os direitos dos
trabalhadores frente a uma política cada vez mais corrupta e
conservadora. A proposta defendida pelo PSTU é deflagrar greve geral,
convocar novas eleições para todos os cargos eletivos do país e, assim,
avançar rumo ao governo socialista. “Só um governo da nossa classe vai mudar o Brasil, construir uma sociedade socialista e assegurar vida digna a todos e todas”, propõe.
Mais à
direita do espectro partidário, a Rede Sustentabilidade apresenta uma
posição confusa em relação ao tema, o que reflete a falta de unidade
entre suas principais lideranças. Em nota da Comissão Executiva
Nacional, divulgada na quinta (4), defende que “impeachment não é golpe”.
Portanto, entende o processo iniciado por Cunha como legítimo. Ao mesmo
tempo, deixa claro que as alegações da petição inicial não são
suficientes para redundar na cassação da presidenta.
A Rede
Sustentabilidade não define claramente, no documento divulgado, o
posicionamento que seus parlamentares terão quando o impeachment for
votado no Congresso. O partido apenas defende a continuidade das
investigações via Lava Jato e Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e
expressa que seus parlamentares terão liberdade e autonomia para formar
juízo a partir das provas apresentadas no devido processo legal.
Movimentos sociais e sindicais
Em um tom
bastante duro, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) – um dos
mais importantes do Brasil da atualidade - repudia a abertura do
processo de impeachment contra a presidenta Dilma, embora mantenha a
oposição sistemática a sua política econômica. Em nota divulgada na
quinta (3), a coordenação nacional do movimento lembra que Cunha
representa o que existe de pior na política brasileira e não possui
legitimidade sequer para seguir como deputado.
“É
importante pontuar que Dilma faz um governo indefensável, marcado por um
ajuste fiscal que joga nas costas dos trabalhadores a conta da crise
econômica. O MTST tem combatido essa política nas ruas, com grandes
mobilizações durante todo o ano. Continuaremos nesse combate
intransigente contra o ataque aos direitos e programas sociais. Mas a
luta contra o ajuste não pode se confundir com iniciativas golpistas
pela direita”, ressalta.
Para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), a atitude de Cunha é um claro golpe contra a democracia. "Repudiamos
o comportamento do deputado Eduardo Cunha e afirmamos que ele é reflexo
da aliança explícita entre a mídia empresarial, liderada pela Rede
Globo, seguida por partidos políticos de direita. Logo, não tem
legitimidade moral, ética ou política de propor o impedimento da
presidência da república", diz em nota.
No
documento, o movimento salienta a necessidade de o governo Dilma se
comprometer com uma pauta mais voltada para os trabalhadores, mas
garante que não irá aceitar retrocesso democrático. “Salientamos a
necessidade de o Governo Dilma assumir a pauta que a elegeu em 2014 e
fazer um mandato que defenda a classe trabalhadora. Porém, não aceitamos
nenhum tipo de golpe e vamos defender o mandato da Presidenta
legitimado pelas urnas”, afirma.
Já a
Central Única dos Trabalhadores (CUT) avisa que irá ocupar as ruas do
país contra o golpe e contra o retrocesso patrocinado pelo o que chamou
de “atitude chantagista e antidemocrática do presidente da Câmara dos
Deputados, Eduardo Cunha, de acolher o pedido de impeachment contra a
presidenta da República, Dilma Rousseff, como retaliação ao fato de o PT
ter declarado que votará pela admissibilidade do processo de cassação
contra ele no Conselho de Ética”.
A maior
central sindical brasileira lembra que não pesa contra Dilma sequer uma
denúncia de prática de ato ilícito e se compromete a defender o mandato
delas nas ruas. “A sociedade brasileira, que lutou contra a ditadura
militar não vai aceitar passivamente essa tentativa declarada de golpe
de Estado. O mandato da presidenta Dilma foi outorgado pelo povo de
maneira transparente e democrática e só termina em 2018”, diz em nota divulgada na quinta (3).
FONTE: escrito por Najla Passos, no site Carta Maior . Transcrito no Democracia & Política.
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