José Álvaro de Lima Cardoso*
As
centrais sindicais, assessoradas pelo DIEESE, e as organizações empresariais,
iniciaram o processo de negociação dos pisos estaduais de salários (atualmente
existentes em cinco estados do Brasil). As centrais estão reivindicando para os
pisos algo em torno de 15%, o que representa cerca de 4,5% de ganho real. A
negociação ocorre em meio a um processo de dificuldades da economia brasileira,
que é real, mas superdimensionado pelos interesses políticos. Parte das
dificuldades econômicas, inclusive, advêm da crise política, visto que houve
contaminação da economia pelo acirramento das posições.
A
postura das centrais nessa campanha dos pisos é não aceitar a ideia, bastante
difundida entre certos segmentos empresariais, que 2016 já é um ano perdido
para o crescimento e o emprego. Se pretendemos forjar um país com
desenvolvimento econômico, social e ambiental, e com soberania, é fundamental
aumentar a produtividade, gerar empregos de qualidade e elevar a renda média.
Mas não conseguiremos alcançar estes objetivos pagando salários miseráveis, e
sim buscando um modelo de desenvolvimento que valorize a produção e o trabalho.
O que os
trabalhadores estão reivindicando, através das centrais, é melhorar a
capacidade de adquirir pão, leite, feijão e arroz. O pleito é o de ampliar em
4,5% um salário de R$ 908, quando uma cesta básica suficiente para um adulto,
em Florianópolis, está custando R$ 378,45, (quase 42% do piso estadual).
Dezenas de milhares de catarinenses dependem diretamente do piso estadual para
comer, vestir e se deslocar. Correção salarial de salários na base da pirâmide
representa imediata melhoria das condições de vida do trabalhador e sua
família, possibilitando, ao mesmo tempo, a movimentação de toda a economia
catarinense. O aumento do valor dos pisos irá melhorar um pouquinho a dura vida
do trabalhador, e, ao mesmo tempo, impulsionará o funcionamento da economia
como um todo, incrementando imediatamente o consumo de alimentos, roupas e
outros itens básicos, gerando produção e emprego.
A luta
das lideranças sindicais, é importante lembrar, visa elevar um pouco salários
que são, na média, muito baixos. O argumento de que as empresas não irão
aumentar salários porque querem preservar empregos, não nos convence.
As empresas em Santa Catarina já vêm ajustando seus custos com mão de
obra, via redução do quadro de pessoal: nos últimos 12 meses até
setembro a economia catarinense reduziu em 37.000 postos o emprego formal.
Ademais, estamos assistindo um processo de rebaixamento salarial através da
rotatividade, visto que as empresas vêm demitindo trabalhadores com salário um
pouco maior, substituindo por outro com salário menor. Quem se manteve no
emprego, além disso, está tendo que compensar, pelo menos em parte, a ausência
dos trabalhadores demitidos, o que significa uma elevação da produtividade do
trabalho pelo lado ruim, ou seja, através da diminuição do quadro de pessoal.
O peso
da despesa com pessoal no custo total das empresas, de modo geral, é baixo
(especialmente para as grandes empresas), o que significa que o impacto do
aumento dos pisos será reduzido. Mesmo porque apenas uma parcela dos
trabalhadores recebe o piso. Outros impactos de custo, como juros e câmbio, por
exemplo, são muito mais significativos para as empresas. As firmas exportadoras
catarinenses, por exemplo, têm sido muito beneficiadas pela grande
desvalorização do real nos últimos meses.
A
ampliação do nível de renda das famílias é o melhor caminho para abreviar o
atual período recessivo do ciclo econômico porque possibilita a manutenção da
distribuição de renda e dos níveis de consumo. A distribuição de renda via
aumento dos salários garante que a recuperação econômica seja antecipada,
impedindo um ciclo vicioso de aumento do desemprego, queda nos salários reais e
redução na demanda efetiva.
*Economista
e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.
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