sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Moço, você é fascista.

Transcrito do blog Entrelinhas

O povo foi enganado, o governo é péssimo e o presidente é corrupto, já que houve comprovação de crime de responsabilidade cometido de forma dolosa. Esta era a realidade em 1992, quando houve um cosenso popular em torno do impeachment de Fernando Collor, o caçador de marajás. A mobilização de diversas instituições como UNE, OAB e CNBB em torno da causa não apenas contribuiu para o resultado esperado como também fortaleceu a nossa jovem democracia com a qual a sociedade ainda voltava a se acostumar. Mais de vinte anos depois, porém, o processo vem a tona contra um péssimo governo que também enganou seu eleitores, porém, neste caso não há comprovação alguma de crime de responsabilidade doloso. E as tais “pedaladas fiscais”? Atrasar repasses do tesouro nacional a bancos públicos não é crime, apesar dos meme-argumentos que credenciam diariamente milhares de cientistas políticos a expor suas teses jurídicas nos mais renomados ambientes acadêmicos como o facebook.
Quando há uma onda de ódio disfarçada de amor a democracia, patriotismo, dar ao povo o que é do povo e luta nas ruas, a tendência é concentrar ainda mais poder nas mãos de um novo líder que normalmente é visto como um semideus a quem foi incumbida a tarefa de ampla transformação ou mesmo ressureição social por meio de um plano que transcende a importância das próprias instituições democráticas. Ora, a onda de ultranacionalismo popular inspira a opinião pública a posicionar-se contra princípios pelos quais este mesmo povo lutou ao longo de anos, principalmente entre 1964 e 1985. Não existe, entre os propagadores do ódio incondicional, a possibilidade de debate, já que estes mesmos militantes do quanto pior melhor agem com base em um instinto que “rejeita idéias de que os conflitos entre grupo de interesse são uma característica normal da sociedade” (MANN, 2008). Assim, a defesa da cassação do mandato de Dilma Roussef, por maior que tenha sido incompetência mostrada pela presidente e grande parte de sua equipe, é atentar de forma desesperada contra seus próprios direitos.
Não obstante, buscando a impugnação a qualquer custo, membros das duas câmaras invocam o recente e legítimo exemplo do único impeachment da república nova ao mesmo tempo em que defendem seus próprios interesses utilizando argumentos constituídos de elementos há muito passados e, por este motivo, suscetíveis a distorções agudas. Em períodos de instabilidade, o consenso para amenizar a crise política parece convergir para o apelo aos sentimentos do povo em torno de uma história mal contada repleta de exemplos de união popular, sendo, no entanto, esta a mesma distorção que mitifica a trajetória de um estado fundado sobre incertezas e que mais uma vez se deixa seduzir pelo discurso de união nacional. “A história é a matéria prima para as ideologias nacionalistas, étnicas ou funamentalistas. Se não há nenhum passado completamente satisfatório, sempre é possível inventá-lo” (HOBSBAWN, 1997). Em bom português, é muita cara de pau citar “elementos da cultura e história nacional” com o objetivo de instigar a sociedade a apoiar uma manobra juridicamente inconcebível. Ainda assim, as chances de oportunistas autoritários obterem sucesso são, infelizmente, altíssimas. Salve-se quem puder.
REFERÊNCIAS
MANN, Michael. Fascistas. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008
HOBSBAWN, Eric. Sobre história. 1. ed. São Paul: Cia. Das Letras, 1997


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