Transcrito do blog Entrelinhas
O povo foi
enganado, o governo é péssimo e o presidente é corrupto, já que houve
comprovação de crime de responsabilidade cometido de forma dolosa. Esta
era a realidade em 1992, quando houve um cosenso popular em torno do
impeachment de Fernando Collor, o caçador de marajás. A mobilização de
diversas instituições como UNE, OAB e CNBB em torno da causa não apenas
contribuiu para o resultado esperado como também fortaleceu a nossa
jovem democracia com a qual a sociedade ainda voltava a se acostumar.
Mais de vinte anos depois, porém, o processo vem a tona contra um
péssimo governo que também enganou seu eleitores, porém, neste caso não
há comprovação alguma de crime de responsabilidade doloso. E as tais
“pedaladas fiscais”? Atrasar repasses do tesouro nacional a bancos
públicos não é crime, apesar dos meme-argumentos que credenciam
diariamente milhares de cientistas políticos a expor suas teses
jurídicas nos mais renomados ambientes acadêmicos como o facebook.
Quando há uma onda de
ódio disfarçada de amor a democracia, patriotismo, dar ao povo o que é
do povo e luta nas ruas, a tendência é concentrar ainda mais poder nas
mãos de um novo líder que normalmente é visto como um semideus a quem
foi incumbida a tarefa de ampla transformação ou mesmo ressureição
social por meio de um plano que transcende a importância das próprias
instituições democráticas. Ora, a onda de ultranacionalismo popular
inspira a opinião pública a posicionar-se contra princípios pelos quais
este mesmo povo lutou ao longo de anos, principalmente entre 1964 e
1985. Não existe, entre os propagadores do ódio incondicional, a
possibilidade de debate, já que estes mesmos militantes do quanto pior
melhor agem com base em um instinto que “rejeita idéias de que os
conflitos entre grupo de interesse são uma característica normal da
sociedade” (MANN, 2008). Assim, a defesa da cassação do mandato de Dilma
Roussef, por maior que tenha sido incompetência mostrada pela
presidente e grande parte de sua equipe, é atentar de forma desesperada
contra seus próprios direitos.
Não obstante, buscando a impugnação a qualquer custo, membros das duas câmaras invocam o recente e legítimo exemplo do único impeachment
da república nova ao mesmo tempo em que defendem seus próprios
interesses utilizando argumentos constituídos de elementos há muito
passados e, por este motivo, suscetíveis a distorções agudas. Em
períodos de instabilidade, o consenso para amenizar a crise política
parece convergir para o apelo aos sentimentos do povo em torno de uma
história mal contada repleta de exemplos de união popular, sendo, no
entanto, esta a mesma distorção que mitifica a trajetória de um estado
fundado sobre incertezas e que mais uma vez se deixa seduzir pelo
discurso de união nacional. “A história é a matéria prima para as
ideologias nacionalistas, étnicas ou funamentalistas. Se não há nenhum
passado completamente satisfatório, sempre é possível inventá-lo”
(HOBSBAWN, 1997). Em bom português, é muita cara de pau citar “elementos
da cultura e história nacional” com o objetivo de instigar a sociedade a
apoiar uma manobra juridicamente inconcebível. Ainda assim, as chances
de oportunistas autoritários obterem sucesso são, infelizmente,
altíssimas. Salve-se quem puder.
REFERÊNCIAS
MANN, Michael. Fascistas. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008
HOBSBAWN, Eric. Sobre história. 1. ed. São Paul: Cia. Das Letras, 1997
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