Virou moda nos círculos influentes
neoliberais exigir que o Brasil volte a negociar a ALCA, redirecione
suas prioridades para os Estados Unidos e a Europa, e se engaje no
Acordo do Pacífico. Para esses círculos, a economia norte-americana já
teria retomado seu crescimento firme, indicando que a crise teria ficado
para trás.
Para azar deles, as notícias do primeiro
trimestre de 2015 sobre a economia do colosso do norte são nebulosas.
Não tanto pelo inverno que já se foi, mas principalmente, segundo
analistas locais, pela queda do preço do petróleo e pela valorização da
moeda americana, que influem negativamente nas exportações e nos
investimentos. Mais intrigante do que isso seria a queda do consumo das
famílias norte-americanas, consumo que move dois terços da economia
ianque.Assim, ao invés do esperado crescimento de 3% no primeiro
trimestre de 2015, propalado pelo Federal Reserve e pelo Departamento de
Comércio, o que ocorreu foi uma queda que 0,7% do PIB.
Nessas condições, apesar de os otimistas
continuarem achando que a economia estadunidense chegará ao final do
ano com um crescimento de mais de 2%, os mais realistas estão prevendo,
na melhor das hipóteses, uma taxa de 0,8%.
Alguns indicadores apontam que os
Estados Unidos devem continuar patinando em sua crise econômica, não
tanto por problemas conjunturais, mas principalmente por questões
estruturais. Em 2014 os salários subiram apenas 2,2%, indicando que o
desemprego se tornou uma variável importante na definição dos preços no
mercado de trabalho. A criação de novos postos de trabalho caiu cerca de
50%, em comparação com o primeiro trimestre de 2014. Assim, embora a
gasolina esteja mais barata, isto não foi suficiente para compensar as
perdas de emprego.
Os Estados Unidos projetaram a
recuperação de sua economia tendo por base a expansão do gás de xisto na
indústria de energia. No entanto, os problemas ambientais que essa
expansão causou fizeram crescer os custos dos investimentos. Fato
agravado pela queda do preço do petróleo no mercado internacional.
Tornaram-se economicamente inviáveis os investimentos no setor,
reduzindo-os em cerca de 25 bilhões de dólares em 2014.
Para complicar, a infraestrutura dos
Estados Unidos está num intenso processo de deterioração. Ela exige
investimentos. Mas o poder público não está em condições de supri-los,
em virtude de seus déficits orçamentários e comerciais. E as empresas
privadas não têm interesse nesses investimentos porque a rentabilidade
oferecida é baixa. E é justamente aqui que reside a principal causa
estrutural da crise norte-americana.
A rentabilidade, medida pela taxa média
de lucro da economia dos Estados Unidos, colapsou. Para reverter tal
situação, os capitais norte-americanos precisam obter lucros extras
através da especulação financeira e/ou da transferência de suas plantas
industriais para países de baixos salários.
Ambas as medidas são de alto risco. A
especulação financeira é geradora de crises devastadoras, como a que
teve início em 2008, se espalhou pela Europa, atingiu a maior parte dos
países do mundo, e continua se arrastando até hoje. A transferência de
plantas industriais promove desindustrialização e reduz a capacidade de
geração nacional de riqueza. Nessas condições, as possibilidades de os
Estados Unidos retomarem seu crescimento sustentado são pouco
consistentes, apesar de boa parte dos capitais mundiais estarem
acumulados ou centralizados em algumas poucas mãos norte-americanas.
Assim, o que os círculos brasileiros
neoliberais propõem não passa de embuste. Ou de cegueira gerada em
indivíduos colonizados pela miragem norte-americana.
*Wladimir Pomar é analista político e escritor.
Fonte: Correio da Cidadania
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