sábado, 10 de novembro de 2018

As dificuldades dos brasileiros irão aumentar


*José Álvaro de Lima Cardoso
      O cenário é de grande insegurança para os trabalhadores, tanto no aspecto econômico, quanto no político e social. As possibilidades da conjuntura são variadas, o que dificulta muito a compreensão correta do que está ocorrendo e, por consequência, a construção de prognósticos seguros. No entanto, se pode afirmar com razoável grau de certeza que a vida dos trabalhadores (esmagadora maioria da população) não irá melhorar com o governo que assumirá em janeiro de 2019. O processo de golpe que ocorreu no Brasil, que inicia um novo ciclo com a eleição de Bolsonaro, veio exatamente para fazer o contrário, ou seja, destruir a malha de direitos, construída a duras penas ao longo de décadas. Por consequência, veio também para achatar o rendimento real dos trabalhadores. Há muitas indicações de que:
a) Os ataques que os trabalhadores sofrerão serão os mais duros da história. O que vem por aí é uma outra concepção de Estado/Sociedade, na qual o “Estado do bem-estar social”, mesmo esquálido como no Brasil, não terá vez. O ensino público, por exemplo, em todas as instâncias, corre sério risco. E a privatização do ensino, não é somente para reduzir gastos públicos, mas também para abrir espaços de negócios para o setor privado, nacional e internacional;
b) irão tentar aplicar uma “política de choque” que, como o próprio nome já sinaliza, visa deixar a população sem reação, pelo menos por um tempo. De certa forma já usaram essa técnica no governo Temer, em dois anos e meio. Destruíram conquistas de 100 anos, como foi a CLT (CLT tem 75 anos, mas a luta começou antes). Mas é que o serviço não foi completado;
c) as medidas serão aceleradas por uma outra razão. Como serão completamente contra os interesses do povo têm que ser implementadas enquanto o governo ainda dispõe de um estoque de popularidade, que tende a se esvair, à medida que as políticas forem sendo conhecidas. A aceleração precisará ser feita, especialmente se a crise financeira internacional se agravar. Se uma crise internacional pegar o Brasil com política fiscal contracionista, o risco é muito grande, até de uma super recessão no país;
d) vão aprofundar as “contrarreformas” e diretrizes que vieram sendo implementadas até aqui. Em particular, uma contrarreforma da previdência, bastante agressiva, será enviada ao Congresso, eventualmente até ainda neste ano. Este foi um dos acordos do golpe, que o Temer não conseguiu entregar, e que é de grande estratégico para os bancos;
e) vão tentar acelerar as privatizações. O economista Paulo Guedes, que comandará a área econômica, tem afirmado que, se depender, privatizará todas as estatais. Não conseguirão “privatizar tudo”, obviamente, porque isso leva ao aguçamento de contradições entre o próprio grupo que apoiou o golpe. Certamente uma parcela significativa do empresariado, por exemplo, é contra a privatização do BNDES. Mas, a tendência é de uma privatização muito forte (se fala em 70 estatais no primeiro ano), com efeitos sinistros, do ponto de vista da desnacionalização da economia e dos custos dos serviços oferecidos. Especialmente nas áreas mais sensíveis, das quais dependem o grosso da população, que vive de salários muito baixos. Já estão falando em fusão do maior banco brasileiro, o BB, com o Bank of America (BofA), líder do setor bancário dos Estados Unidos. A venda do maior banco brasileiro, uma verdadeira máquina, ao principal banco americano, provavelmente a preço vil, seria um primeiro grande presente do novo governo ao sistema financeiro internacional;  
f) Mercado de Trabalho: na melhor das hipóteses haverá crescimento de emprego precário, de baixos salários, com a elevação do peso das formas precárias, que cresceram muito com a contrarreforma trabalhista vigente há um ano. As políticas neoliberais são contracionistas, e não zelam pelo emprego. Emprego é problema individual, de meritocracia. A experiência mundial é que tais políticas aumentam o desemprego, a precariedade do mercado de trabalho, e reduzem a renda dos trabalhadores. O Brasil experimentou isso no Governo neoliberal de FHC. Tais políticas são implementadas exatamente para aumentar o nível de exploração dos trabalhadores.
g) direitos em geral: o conjunto de medidas anunciadas até aqui tendem a aprofundar a perda de direitos, iniciada com força pelo governo Temer. Tanto Bolsonaro, quanto o seu vice, General Mourão, já anunciaram mais de uma vez que o trabalhador terá que optar entre direitos e salários. Não poderá ter os dois ao mesmo tempo. Se o governo Bolsonaro é uma continuidade do governo Temer, só que mais acelerado (como falou Paulo Guedes), obviamente irá procurar de todas as formas de reduzir o custo da força de trabalho. E uma forma muito eficiente é depenar os direitos. 
h) política de valorização do salário mínimo: os representantes do novo governo praticamente verbalizam que consideram o salário mínimo é muito alto. Tudo indica que irão pressionar para que o salário mínimo vá perdendo poder aquisitivo gradativamente, como já ocorreu muito no passado. O reajuste de 1,81% para o salário mínimo neste ano foi o menor dos últimos 24 anos. Ficou abaixo da inflação de foi de 2,07% em 2017. Na visão neoliberal (e o governo que assume será ultra neoliberal), a existência de uma remuneração mínima, que forneça o mínimo de dignidade para quem vive do seu trabalho, não se faz necessário. Para essa visão, se o trabalhador “merecer” o empregador pagará muito acima do Salário Mínimo;
I) Educação e Saúde públicas: o novo governo já dispõe de bases jurídicas para reduzir gastos com educação e saúde, a começar pela Emenda Constitucional 95, aprovada em 2016, cujo objetivo é justamente reduzir gastos com a população, especialmente a mais pobre. O único gasto que a EC 95 não limita são os gastos com os juros da dívida pública, que destinam bilhões e bilhões todo ano, especialmente para os banqueiros.
   Apesar do esforço para dissociar o panorama nacional do internacional, o que ocorre no Brasil está no contexto daquilo que acontece em toda a América Latina (e no mundo). A questão fundamental da conjuntura, o ponto central da crise política e econômica no Brasil, se encontra fora da fotografia: a crise mundial do capitalismo. É uma crise muito severa, que vem se arrastando há anos e não tem final previsto. A eleição de Bolsonaro, apesar do disfarce, é claramente uma continuidade do governo Temer. Ele veio para completar a missão, que tem dois eixos principais: a) entregar o que for possível das riquezas brasileiras; b) liquidar o que sobrou de direitos sociais e trabalhistas.
                                                                                                             *Economista.

Werneck Sodré e o povo brasileiro

Nelson Werneck Sodré
Por Augusto C. Buonicore, no site da Fundação Mauricio Grabois:

Neste artigo não pretendemos fazer uma exaustiva análise da rica obra do historiador comunista Nelson Werneck Sodré, e sim analisar um único texto: Quem é o povo no Brasil? Essa escolha nos parece óbvia, pois nele o autor expõe de maneira mais clara, até didática, o seu conceito de povo brasileiro. Dentro da velha e respeitável tradição marxista e leninista, abordada no artigo anterior, ele escreveu o seu pequeno ensaio, publicado na coleção Cadernos do Povo Brasileiro, da Editora Civilização Brasileira. Posteriormente, o texto foi incorporado à segunda edição de Introdução à Revolução Brasileira (1963).


Observação preliminar


Logo no início,Sodré afirma que com o aparecimento das classes sociais o conceito de povo se separa do de população, “o termo começa a designar coisas diferentes”. Assim, não haveria mais um “critério objetivo para definir o conceito de povo que não estivesse ligado ao conceito de sociedade dividida em classes (...). Daí por diante (...) povo será um conjunto de classes (ou camadas, ou grupos), ficando outras classes (ou camadas, ou grupos) excluídas do conceito”.

Nas sociedades, sucessoras do comunismo primitivo, a população se repartiria em “classes dominantes, exploradas, de um lado, e classes dominadas, de outro, aquelas que as primeiras oprimem, exploram e privam de direitos, inclusive e, principalmente, os direitos políticos. Realizam essa exploração, entretanto, afirmando sempre que representam o povo. Estão interessadas, pois, em que o conceito de povo seja vago, arbitrário e confuso. Tão confuso que engloba exploradores e explorados”.

Em alguns casos, continua ele, setores das classes dominantes poderiam realizar “o que é do interesse da maioria das classes”, mas “isso estaria longe de se constituir numa regra”. Contudo, no conjunto do seu ensaio, o autor procura provar justamente que, pelo menos no caso brasileiro, explorados e algumas frações das classes exploradoras podem ser incluídos na mesma categoria de povo. Mais do que uma exceção, isso se constituiria numa regra dos processos revolucionários brasileiros, pelo menos até o início da década de 1960.

O que é o povo? 

O autor contesta aqueles que procuravam identificar o conceito povo com o de “produtores de bens materiais”. Isso se constituiria numa “equívoca limitação”. Haveria trabalhadores que não poderiam ser englobados na categoria de “produtores de bens materiais” e, entretanto, pertenceriam ao povo. Os empregados “não produzem bens materiais, nem os funcionários, nem os intelectuais. Seria justo excluí-los do conceito de povo? Parece que não. Por aí vemos que o critério econômico restrito não pode servir de base para uma conceituação aceitável e justa”.

Se, por um lado, todos os trabalhadores (manuais ou intelectuais, produtivos ou improdutivos) pertenceriam ao povo; por outro, a noção de povo também não deveria se restringir ao conjunto desses trabalhadores. Para Sodré, “em todas as situações, povo é o conjunto das classes, camadas e grupos sociais empenhados na solução objetiva das tarefas do desenvolvimento progressista e revolucionário na área em que vive”. O conceito de povo não poderia “ser definido senão considerando as condições reais de tempo e de lugar (...). Povo, hoje, no Brasil, não é o que era há um século (...) nem o que é na China. A composição dos grupos, camadas e classes que constituem o povo muda ao longo do tempo, e varia de país para país”. Assim, o conceito de povo estaria em constante evolução e mudaria conforme a sociedade fosse se transformando.

Tentando se defender de possíveis acusações de subjetivismo, o autor afirma que tais mudanças não seriam “arbitrárias e acidentais” e existiriam “sempre critérios justos para definir o conceito exato do povo em cada fase distinta”.

As coisas não são tão simples assim. Como veremos mais à frente, esta conceituação acaba se amarrando por demais às formulações táticas e/ou estratégicas das organizações comunistas. Ela estaria estreitamente vinculada à determinada maneira (ou ângulo) de se ver a história do país. Isso dá ao conceito de povo uma fluidez muito grande. Em outras palavras: o conceito de povo apresenta muito menos “estabilidade”, por exemplo, que o conceito de classe social.

Existem poucas dúvidas – embora existam algumas –entre os marxistas, sobre o que sejam proletariado, burguesia e pequena burguesia. Mas, existem diferenças monumentais sobre a análise da composição social das frentes formadas na luta pela Independência, pela Abolição, pela República e a Revolução de 1930. Existem polêmicas acirradas em torno do papel desempenhado pelos latifundiários na luta pela Abolição e pela República ou o da burguesia (e suas frações) na Revolução de 1930. Isso para não falar na polêmica infernal em relação à existência ou não de duas etapas na revolução brasileira e de qual papel desempenhado pela burguesia nacional, caso ela realmente exista. Rios de tintas foram gastos nesse debate e não vamos entrar nele neste momento.

O povo na história do Brasil 

Depois de apresentar aquela que seria a sua definição marxista de povo, Sodré passa a exemplificar as mudanças na configuração do povo brasileiro ao longo da história. Começa suas análises no início do XIX: “Se a tarefa do desenvolvimento progressista do Brasil, nessa fase histórica, é a realização da Independência (...) e se o povo, em tal fase, é representado pelo conjunto de classes e camadas e grupos sociais empenhados na solução objetiva daquela tarefa, o povo brasileiro abrange então todas as classes, camadas e grupos da sociedade brasileira”.

As coisas se complicam quando afirma logo a seguir: “Como os servos e escravos, tanto quanto os pequenos grupos de trabalhadores livres que se dispersam, particularmente em áreas urbanas, não têm consciência política, embrutecidos que se acham pelo regime colonial, só participam da luta pela autonomia a classe dominante de senhores e as camadas intermediárias”.

Aqui surge um problema: se a independência foi obra exclusiva – ou quase – das classes dominantes e das camadas médias, como aqueles que “não estavam empenhados na solução objetiva da tarefa” da independência – a maioria dos trabalhadores (escravos e livres) – poderiam ser considerados parte do povo? Sabemos que a Constituição brasileira de 1824 não considerava os escravos verdadeiros brasileiros. Mais tarde adquiririam a condição de brasileiros, mas não de cidadãos.

Exageramos na argumentação visando a demonstrar a existência de certa imprecisão na formulação de Sodré e dos comunistas em geral. É claro que eles jamais deixaram de considerar os escravos e os agregados rurais como partes integrantes do povo brasileiro do período colonial. Mas, sabem também que esses segmentos não desempenharam papel algum no movimento pela Independência, embora pudessem ter tido simpatias por ele. Para muitos a notícia da Independência chegou muitos meses depois do famoso grito dado às margens do Ipiranga.

A Independência, segundo Sodré, abriria uma nova fase da história da nação e, por isso mesmo, mudaria a composição do povo brasileiro, pois classes e frações de classe dele se desprenderiam. Assim, “o povo tornar-se-á outra coisa. Dele já não fará parte a classe dominante senhorial que tratará, na montagem do Estado, de afastar as demais classes, camadas e grupos do poder e da participação política”. Referindo-se especificamente à “classe latifundiária”, diria que ela não mais faria parte do povo, pois “seu último serviço fora a Independência”. Até 1822 (ou 1831), os latifundiários compunham o povo brasileiro, depois não mais.

Na segunda metade do século XIX, outra tarefa progressista colocar-se-ia diante da Nação: seria a liquidação do Império e a Proclamação da República. Isso significaria eliminar “todas as velhas relações econômicas e políticas que entravavam o desenvolvimento do país”. Assim, as classes interessadas na implantação do novo regime “compunham uma ampla frente, englobando setores latifundiários e a burguesia nascente, a que se somavam a pequena burguesia, o proletariado, o semiproletariado e os servos”.

Estas classes constituíam o povo brasileiro no final do século XIX, pois eram aquelas que “estavam interessadas na tarefa progressista, historicamente necessária, de criar a República”. Estranhamente, mais uma vez aparecem setores (frações) do latifúndio como ainda pertencentes ao povo brasileiro. Claro, não se trata mais de toda a classe latifundiária, como o fora no processo de Independência, mas de um pequeno setor dela. Afinal, não é possível negar a participação dos fazendeiros do Oeste paulista no movimento republicano.

Como ocorreu na sua análise sobre o processo de Independência, ao falar da composição social do movimento pela República, corretamente “relativiza” a participação dos trabalhadores, especialmente os manuais. Escreveu ele: “o reduzido proletariado e particularmente o semiproletariado não haviam alcançado ainda o grau de consciência política necessário a uma participação eficiente; e a servidão permanecia estática, isolada no vasto mundo rural”. Essas classes poderiam até ser beneficiadas pela substituição da monarquia pela República, mas não tinham consciência disso e nem participaram desta luta enquanto classe.

Pesquisas recentes tenderam a minimizar – sem negar – o papel da oligarquia cafeeira paulista no movimento que culminou na Proclamação da República e a realçar o papel desempenhado pelos setores médios urbanos. O que parece consensual é o reconhecimento da baixa participação das massas populares naquele evento importante na modernização política do país.

O interessante, neste ensaio, é o fato de Sodré não ter dado devida atenção ao movimento pela libertação dos escravos, que foi muito mais popular – e mais radical – do que o movimento republicano. Gorender chegou a afirmar que esta teria sido a única revolução social ocorrida no país e por isso deu-lhe o nome de “revolução abolicionista”.

Seja como for, esses dois acontecimentos (Abolição e Proclamação da República) fizeram parte de um único e mesmo processo de destruição do império escravista, condição indispensável para o desenvolvimento do capitalismo em nosso país. Portanto, cumpriram um papel progressista na nossa história. Foram, de certa forma, revolucionários.

O problema é que a base social (de classe) desses dois movimentos, transcorridos num mesmo período histórico, não foi necessariamente a mesma. Parte significativa dos fazendeiros paulistas escravistas aderiu ao Partido Republicano (PRP) e não protagonizou o movimento abolicionista, pelo menos até 1887. Muitos abolicionistas, inclusive radicais, foram (ou passaram a ser) ardentes monarquistas. Lembramos que, após a Abolição, massas de negros urbanos, em geral ex-escravos, passaram a compor fileiras ao lado dos monarquistas e instituíram um verdadeiro culto em torno da figura da Princesa Isabel. Criaram, inclusive, a temida Guarda Negra visando a proteger o trono ameaçado pelos republicanos radicais. Ao fazê-lo, teriam perdido a condição de povo? É óbvio que não!

Assentar a definição de povo, fundamentalmente, na participação (ou não) de uma classe social nas principais lutas transformadoras de um período histórico pode nos trazer sérias dificuldades. Isso porque nem todas as classes ou frações de classe têm consciência de seus interesses históricos e às vezes atuam contra eles. Lembremos apenas um episódio trágico da nossa história republicana: a campanha contra o arraial de Canudos. Naquele conflito, jovens oficiais davam vivas à República e ao Marechal Floriano Peixoto enquanto massacraram camponeses simpatizantes da monarquia deposta. O resultado do sangrento conflito acabou sendo o fortalecimento do latifúndio no interior do país e a derrota definitiva do jacobinismo, expressão das classes médias urbanas, como força política nacional.

O povo e a revolução brasileira 

O principal objetivo de Sodré era entender o Brasil do seu tempo – final da década de 1950 e início da de 1960. Pretendia descobrir a dinâmica da “revolução brasileira”, ou seja, quais suas tarefas e as forças sociais interessadas na sua realização. Acreditava, como a maioria dos comunistas, que a revolução em curso deveria ser, pelo seu conteúdo,democrático-burguesa e não socialista.

Quais tarefas revolucionárias estavam colocadas naquela etapa histórica? Quais obstáculos deveriam ser eliminados para que o país pudesse seguir na senda do progresso? Sodré sintetizaria a resposta em uma única frase: “Libertar o Brasil do imperialismo e do latifundiário”.

As classes interessadas nessa tarefa seriam “parte da alta, média e pequenaburguesia, desligada de associação, compromisso ou subordinação ao imperialismo; o proletariado; o semiproletariado e o campesinato”. Portanto, esse era o “povo” que deveria realizar a “revolução brasileira” em meados do século XX.

No esquema de Sodré – e do PCB –, os setores da grande burguesia que tinham “seus interesses confundidos com o interesse nacional e lutavam por este” também comporiam o povo brasileiro, enquanto uma parte da pequenaburguesia “comprometida com o imperialismo” estaria excluída dele.

Como já falamos anteriormente, essa definição de povo nos parece muito fluída, pois está demasiadamente amarrada não às etapas do movimento histórico real, mas à evolução da tática e da estratégia de uma organização de esquerda. A cada inflexão política desta – e foram muitas –, as classes e frações eram incluídas e excluídas sumariamente da definição de povo brasileiro.

Vejamos um breve resumo desse movimento pendular. Entre 1945 e 1948, o PCB incluiu a grande burguesia no seio da frente anti-imperialista e antilatifundiária (e, portanto, no interior do povo brasileiro); entre 1948 e 1952 ela foi excluída daquela frente (e da condição de povo) para de novo voltar a compô-la em 1954, após a morte de Vargas. Na Declaração de Março de 1958 e na resolução do V Congresso do PCB (1960), retomou posição de destaque na frente estratégica proposta por aqueles comunistas, que passaria a ser integrada, inclusive, por setores modernos (e produtivos) do latifúndio. A grande burguesia e frações do latifúndio voltavam assim a compor o povo brasileiro.

Sodré escreveu seu ensaio justamente nos marcos de tal concepção estratégica, dentro de certo esquema da revolução brasileira. Predominava no interior do PCB – já em pleno processo de cisão – a ideia de que a nossa revolução ainda seria democrático-burguesa.Isso implicava o reconhecimento da existência de uma burguesia nacional portadora de contradições (antagônicas) com o imperialismo estadunidense e o latifúndio semifeudal. Tais esquemas não foram confirmados pela história. O golpe de 1954 e, particularmente, o de 1964 demonstraram o papel contrarrevolucionário desempenhado pelo conjunto dos latifundiários e da grande burguesia brasileira, inclusive sua fração industrial.

Não se trata aqui de questionar a necessidade de se estabelecer alianças pontuais com elementos e frações da burguesia contra o imperialismo e o latifúndio – especialmente no início da década de 1960 –, e sim a possibilidade de construção de uma aliança estratégica (de longo termo) com aqueles setores das classes dominantes. Dentro da perspectiva do próprio Sodré, podemos dizer que, pelo menos, desde meados dos anos 1950 a grande burguesia, enquanto classe, não poderia ser incluída nas fileiras do povo brasileiro.

Outro historiador comunista, Caio Prado Jr., teria uma visão diferente sobre a participação das frações das classes dominantes em todos esses episódios essenciais da história brasileira e por isso mesmo construiria sua própria noção de povo brasileiro.

* Este texto, com algumas revisões e alguns complementos, compõe o ensaio Descobrindo o povo brasileiro, publicado no livro Marxismo, história e revolução brasileira: Encontros e desencontros (Editora Anita Garibaldi, 2009).
* Augusto César Buonicore é historiador, mestre em Ciência Política pela Unicamp e diretor de publicações da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira; Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas; e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução, publicados pela Fundação Maurício Grabois e Editora Anita Garibaldi.

Bibliografia 

LEITE, Dante Moreira. O Caráter Nacional Brasileiro. São Paulo: Pioneira, 1973.

MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974). São Paulo: Ática, 1985.

RUY, José Carlos. Visões da História.Princípios, n. 53 e 54. São Paulo: Anita Garibaldi, 1999.

SODRÉ, Nelson Werneck. Introdução à revolução brasileira.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1967.

______. Formação histórica do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

______. A história da burguesia brasileira. Petrópolis (RJ): Vozes, 1983.

______. Capitalismo e revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Graphia, 1997.

______. A Ideologia do Colonialismo: seus reflexos no pensamento brasileiro. Petrópolis (RJ): Vozes,1984.

Escola Sem Partido e a Segunda Guerra Mundial


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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O programa de guerra contra o povo do candidato Bolsonaro


                                                                                                     *José Álvaro de Lima Cardoso
     Se o candidato fascista Jair Bolsonaro se eleger, os golpistas terão conseguido, através de um processo fraldado, institucionalizar, e praticamente “fechar”, o golpe de Estado de 2016. Corremos o risco, ademais, do processo eleger Bolsonaro com folga, o que será acachapante para as forças democráticas. Seria de fato desmoralizante eleger um fascista, antipovo e antiBrasil, e ainda com boa margem de vantagem. A tendência é a arrogância e a agressividade da extrema direita, tomar definitivamente as ruas contra negros, pobres, LGBTs, e trabalhadores em geral. 
      Mas a situação não é grave apenas porque o candidato fascista pode obter uma vitória eleitoral. Isso, claro, é um sintoma da gravidade da situação. O problema essencial é o de que os golpistas, ganhando com Bolsonaro, irão dar continuidade à sua política de política de guerra contra o povo. Esta é a questão central. Se o candidato do fascismo se eleger, irá colocar em prática um programa de governo que fará a política econômica de Temer, nestes dois anos, parecer brincadeira de criança.  Isso são os próprios membros da equipe do candidato que dizem. Por exemplo, o economista Paulo Guedes, virtual ministro da fazenda de Bolnosaro, já antecipou que o programa que irão implantar é o mesmo do Temer, só que muito acelerado. 
      O candidato já antecipou que quem irá tomar as decisões econômicas no seu governo será o chamado “mercado”. Ao mercado já sinalizou que irá entregar o encaminhamento da reforma da previdência uma das primeiras medidas a serem encaminhadas. Considerando a relação de Bolsonaro com o capital e com os militares, fica fácil prever que tipo de reforma da previdência seria levada à cabo. Paulo Guedes já falou que, se depender dele, privatizaria todas as estatais, sem exceção. Segundo Bolsonaro, o grande problema da previdência no Brasil é o funcionalismo público que teria uma "fábrica de marajás".
     Como é ainda candidato, e alguns incautos acreditam que ele seja “nacionalista” está dizendo que é contra a privatização do "miolo" da Eletrobrás e da Petrobras. Ou seja, no caso da energia elétrica, pretende privatizar a distribuição e não a geração de energia. De qualquer forma este é um discurso de candidato. Considerando a falta de programa e o desconhecimento de economia, este candidato irá comer na mão dos “especialistas” do setor e aí tudo pode acontecer. Quanto à Petrobrás, vem falando em privatizar o refino do petróleo. Sobre o Pré-sal, repete, como papagaio amestrado, a fala do seu dono, o Império Americano: "Nós não temos recursos para explorar o pré-sal. Arrebentaram com a Petrobras. Daqui a 20 anos, 30 anos a energia será outra. O refino dá para privatizar. Mas tem que ver o modelo. Para exploração, temos tecnologia mas não temos recurso." Segundo o candidato da extrema direita mais de 50 estatais no Brasil dão prejuízo e a ideia é partir imediatamente para privatizar ou até mesmo extinguir tais empresas.
     Lendo atentamente o que o candidato e sua equipe repetem sobre os temas econômicos e sociais, não precisa ter bola de cristal para saber que irão acelerar o programa de guerra contra o povo que Temer vinha cumprindo:   
a) entrega das riquezas naturais (petróleo, água, minerais essenciais, terras férteis, etc.). É grande a voracidade neocolonial do império;
b) privatização radical entrega das estatais à preço de banana. Se tiverem correlação de forças para tal, irão entregar também a Petrobrás;
c) enfraquecimento e diminuição do Estado (o Estado republicano, evidentemente);
d) liquidação dos direitos sindicais e das políticas sociais;
e) destruição do conceito de nação e de soberania (querem que o Brasil vire um proterado dos EUA).
     Como desgraça pouca é bobagem, num eventual governo Bolsonaro o Brasil estará automaticamente alinhado à política externa dos EUA, que empurra o Brasil para uma agenda militarista e hostil aos vizinhos latino-americanos. Como se sabe, as hostilidades do governo estadunidense contra a Venezuela vêm numa escalada total. Aparentemente o desejo do império norte-americano é utilizar países da América do Sul, incluindo o Brasil, em uma investida contra a Venezuela. Não se consegue implantar uma agenda contra a população sem intimidação e violência, e sem a adoção de métodos fascistas. É o que estamos assistindo em todo em país, mesmo antes do segundo turno das eleições. Com a possibilidade de eleição de Bolsonaro, as instituições serão definitivamente ameaçadas, os sindicatos estarão em grande perigo, os movimentos sociais estarão ameaçados. Irão acabar com a fresta de democracia que ainda resta no país e as liberdades democráticas serão definitivamente abolidas.
      O certo é que não iremos derrotar o fascismo com medidas “meia boca”, via redes sociais, alianças com a direita e ações judiciais. A extrema direita vem agredindo pessoas frágeis, idosos, pessoas em menor número e em situação de fragilidade, etc. Uma vitória do Bolsonaro deixará a direita ainda mais assanhada e, não temos dúvida, iremos para uma ditadura. Os trabalhadores são a única força que pode resistir a um ataque dessa magnitude contra a democracia e o país. Só que eles têm que ser mobilizados e organizados.  
                                                                                                              *Economista