Elias Jabbour*, extraído de O Cafezinho.
Há quase um mês a China virou manchete dos editoriais dos principais
periódicos de economia do mundo. Não mais noticiando recordes de
crescimento. Ao contrário, as preocupações giram em torno da
sustentabilidade do crescimento, para quanto mesmo irá cair seu
crescimento e quanto o mundo sentirá esta queda de índice. A presente
instabilidade no gigante devolve ao centro do debate a sustentabilidade,
de fato, do chamado “modelo chinês”. Não demorou muito para que o
debate tomasse contornos ideológicos com os ortodoxos colocando a
cabecinha de fora, opinando como se o problema do mundo fosse o excesso
de Estado na China e não o contrário (falta de Estado) em outros países,
inclusive o Brasil.
Evidente que a questão a ser respondida é se o país continuará a
crescer ou não. Ou até onde vai a capacidade do Estado chinês em
continuar dando as rédeas do processo e até onde deverá ser encaminhada
uma reversão de papéis interna com o mercado tomando posições. Daí a
vaticinar uma nova crise financeira tendo como epicentro a China é um
exagero razoável. Mais honesto seria colocar os olhos sobre a quantas
andam as operações de derivativos no sistema financeiro norte-americano,
pois é de lá que os podres do padrão financeirizado de acumulação
continuarão a brotar, não na China. É do mercado autorregulado que
devemos ter medo. E desde 1929 é isso o que a história tem demonstrado.
A China decide em 1978 implementar uma política de profundas reformas
econômicas e de abertura à tecnologia exterior, mantendo o caráter
socializando do regime. Esse movimento não se deu isoladamente. Motivos
de ordem externa e interna aceleraram esta opção. A decadência do
fordismo, levando consigo seus clones socialistas, na década de 1970
acrescido pelo surgimento de um novo paradigma tecnológico no Japão, a
ascensão dos Tigres Asiáticos às suas portas e com performance econômica
capaz de demonstrar a iniquidade do modelo soviético e a suposta
superioridade do socialismo. Afora isso, persistiam pendências
históricas não solucionadas (Taiwan, Hong-Kong, Macau), além –
internamente – dos dissabores de um modelo de crescimento marcado por
desiguais relações entre campo e cidade (modelo soviético) e suas
imensas repercussões, entre elas o da sustentação política de uma força
que chega ao poder em 1949 como expressão de uma grande revolta
camponesa.
Em mais de 35 anos, pode-se dizer que a China enfrentou com sucesso
grande parte de todos os desafios elencados acima. Sua produção agrícola
continua a crescer, camponeses enriqueceram, o país se transformou numa
potência financeira capaz de proscrever os imperativos de dominação
intrínsecos às instituições forjadas no âmbito de Bretton Woods. A
fusão, em 1978, do Estado Revolucionário fundado por Mao Tsétung em 1949
e o Estado Desenvolvimentista de tipo asiático internalizado por Deng
Xiaoping, tem determinado o poder de transformação e desafio aos
paradigmas impostos pelo Consenso de Washington.
Porém, o peso da indústria nacional (oficina do mundo) e de seu
respectivo efeito demanda sobre economias de todo planeta, um
crescimento pautado por altas taxas de investimento e, consequentemente,
com variável consumo sobre o PIB muito baixa, além de uma crescente
interação financeira com o resto do mundo têm posto o país diante de
óbices nada pequenos: o momento é de mudança de modelo. O consumo deverá
tomar a dianteira do processo. Não somente isso, o próprio mercado
deverá tender a ganhar mais peso e importância na alocação de fatores de
produção e determinação de preços. Evidente que uma transição deste
nível não ocorrerá sem grandes percalços, afinal o próprio
desenvolvimento soluciona e engendra contradições. Ninguém cresce
durante 35 anos consecutivos, “impunemente”, ainda mais num modelo onde a
prática de tentativa e erro é parte essencial da metodologia.
A crescente internacionalização da economia do país coloca no centro
da agenda a conversibilidade de sua moeda, além disso os efeitos de um
pacote de US$ 600 bilhões implementado em 2009 para enfrentar os efeitos
domésticos da crise financeira internacional provocaram injeção
demasiada de liquidez na economia doméstica, além de forte endividamento
interno no nível provincial. Ao adentrar na era do mercado de capitais é
preciso saber que é no mercado de capitais onde estas contradições se
esgarçam, o que não significa que esteja ocorrendo uma grave crise
financeira por lá (o alcance de mercado de capitais ainda é muito
pequeno em comparação com as congêneres europeias e norte americana),
porém é sugestivo o desafio da nova era à governança chinesa e mesmo aos
países dependentes de seu mercado doméstico, incluindo o Brasil.
Não vejo uma crise na China. O país deverá cumprir sua meta de
crescimento aos próximos anos de algo entre 6,5% e 7%. Também se foi o
tempo do crescimento quantitativo, aquela loucura de dois dígitos. O
país está diante do desafio de trânsito de modelo, justamente num país
em que o investimento é quase um vício, não somente isso: o próprio
investimento é elemento de avaliação política e ascensão de dirigentes
municipais e provinciais na hierarquia do PCCh. Num ambiente deste é
muito difícil uma transição, mesmo que suave, pois demanda profunda
mudança de mentalidade política e empresarial. Além do mais, o sucesso
da transição demanda imensa mobilização das maiores taxas de poupança
represada do mundo, ao consumo. O que significa, na outra ponta, o
desafio de construção de um poderoso Welfare State, cujo sucesso de
implementação poderá ser principal objeto de comparação entre o sucesso
e, real, superioridade do socialismo ante um capitalismo em estado
rápido de putrefação.
Por fim, o desafio do Estado e do mercado. Um processo de
liberalização financeira está na ordem do dia das autoridades de Pequim,
o que não redunda na adoção de uma noção neoclássica de autorregulação
mercantil, longe disso. Na outra ponta está o desafio do Estado Nacional
chinês de ampliar o alcance de seu próprio Estado e do papel do
planejamento, muito além do planejamento soviético e das novas formas
surgidas no âmbito das reformas econômicas. Formas superiores de
planejamento como instrumento de relação com as instabilidades anexas
aos mercados financeiros. Nunca o exercício da estratégia foi tão
necessário quanto na China de nossos dias, sentindo as dores do parto de
um complexo e difícil processo de mudança de modelo e paradigma
internos.
____________
* Professor Adjunto da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (FCE-UERJ) e autor de “China Hoje: Projeto
Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado” (Anita
Garibaldi/EDUEPB, 2012)