segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
A PASSAGEM DE UM FURACÃO DESENVOLVIMENTISTA
Ministro Aldo Rebelo, no Jornal Valor
"O país-sede não vence, necessariamente, a Copa do Mundo dentro do campo, mas festeja a passagem de um furacão desenvolvimentista que deixa em seu rastro benfazejo um legado incomensurável.
O megaevento esportivo mais cobiçado e acompanhado do planeta, disputado com unhas e dentes pelos países mais desenvolvidos, é um motor de progresso e farol de projeção geopolítica.
Como desejo, esperamos que, ao soar o apito final no Maracanã, em 13 de julho de 2014, o Brasil seja campeão. Como realidade concreta e irreversível, ficará um resultado extraordinário para benefício do povo brasileiro.
Os números são auspiciosos. O último balanço da Copa, que tem como referência o mês de setembro, mostra que os investimentos públicos e privados já alcançam R$ 25,6 bilhões dos quais:
- R$ 8 bilhões em obras de mobilidade urbana
- R$ 8 bilhões em construção e reformas de estádios
- R$ 6,3 bilhões em aeroportos
- R$ 1,9 bilhão em segurança
- R$ 600 milhões em portos
- R$ 400 milhões em telecomunicações
- R$ 200 milhões em infraestrutura turística
- R$ 200 milhões em instalações complementares
As consultorias "Ernst&Young" e a "Fundação Getúlio Vargas" calculam que, entre 2010 e 2014, serão movimentados R$ 142,39 bilhões adicionais na economia nacional. Para cada R$ 1 aplicado pelo setor público, R$ 3,4 serão investidos pela iniciativa privada a partir das obras estruturantes.
Deverão ser gerados 3,6 milhões de empregos – a população do Uruguai. A arrecadação de impostos atingirá R$ 11 bilhões e a população vai auferir renda adicional de R$ 63,48 bilhões apenas nesse quadriênio.
Segundo prospecção da consultoria "Value Partners", os investimentos vão agregar R$ 183,2 bilhões ao Produto Interno Bruto até 2019. Os efeitos na economia serão ainda mais fecundos se o Brasil ganhar a Copa. Estudo do pesquisador britânico John S. Irons, do “Center for American Progress”, indica que o torneio da FIFA “faz rolar a bola da economia” do país-anfitrião que levanta a taça. O PIB da Inglaterra, se cresceu 2% em 1966, aumentou para mais de 3% nos dois anos seguintes. Fenômeno idêntico ocorreu com a Argentina, sede e vencedora da Copa de 1978.
Afora os aspectos econômicos, a Copa do Mundo é, e antes de tudo, uma contagiante festa esportiva que, ao realizar-se no País do Futebol, encontra o seu campo perfeito. O retumbante sucesso popular da Copa das Confederações foi uma prévia da jornada de 2014.
As manifestações contrárias, algumas legítimas, de pessoas que se sentem prejudicadas pelas obras associadas ao torneio da FIFA, mas, de fato, previstas no "Programa de Aceleração do Crescimento", serão, naturalmente, assimiladas. Nada é feito contra os interesses do povo. Três quartos dos investimentos nos projetos se destinam a infraestrutura e serviços.
No que concerne ao Governo Federal, a palavra de ordem é minimizar o dano. O interesse do Ministério do Esporte é que eventuais transtornos sejam resolvidos com a dignidade, o respeito e as compensações que o povo brasileiro merece.
Já os que apontam desvio de recursos das áreas sociais deveriam cotejar os investimentos. Na Copa, como se viu, os investimentos chegam aos R$ 25,6 bilhões. O Brasil conquistou o direito de sediar a Copa FIFA em 2007. Pois, de lá para cá, investimentos da União em educação quase triplicaram e os destinados à saúde mais que dobraram. A Educação recebeu R$ 311,6 bilhões. A Saúde, R$ 447 bilhões.
Os argumentos contra os estádios de “padrão FIFA” são autodepreciativos – e se repetem desde a construção do Maracanã no final da década de 1940. Merecemos estádios à altura do nosso futebol, para conforto e segurança do torcedor.
Até agora, aproximadamente R$ 4 bilhões foram emprestados – e não doados – pelo BNDES a empresas e governos estaduais. A demora de dois anos do repasse para o Itaquerão, a Arena Corinthians em São Paulo, deveu-se a discussões acerca das garantias bancárias exigidas ao Corinthians.
Compreendendo sua importância social e lúdica, a maioria do povo brasileiro é a favor da Copa. Nada menos que dois terços, segundo a última pesquisa do "Datafolha", continuam apoiando a realização do evento e, pelo andar da carruagem, vão volver ao índice próximo de 80% vigente antes da onda revisora das manifestações de junho. Para os entrevistados, será uma “Copa alegre”.
Outra herança positiva da Copa poderá ser a redução do pessimismo, cultural de uns, caviloso de outros, que duvidam da capacidade do Brasil de realizar um empreendimento de tanta magnitude e abrem os olhos para os problemas e os fecham para as soluções.
Toda a soberba e soberana Nação que construímos em cinco séculos é reduzida a deficiências e deformidades, que certamente temos, mas que estão longe de configurar a face de nossa formação social. Realizamos empreitadas mais difíceis e importantes que uma Copa, e já fizemos uma em 1950, porém a de 2014 parece objeto preferencial de um derrotismo seletivo de várias inspirações – a começar do facciosismo político-partidário que atira na FIFA para atingir o governo.
As críticas aperfeiçoam qualquer projeto, mas a diatribe só atende à morbidez das cassandras. Não é de hoje que viceja no Brasil um pessimismo voluptuoso. As grandes rupturas de nossa História, a guerra aos holandeses, a Independência, a República, a Abolição e a Revolução de 30 – nunca foram perdoadas. Assim como ainda são increpados o Maracanã e Brasília – alvos da “fracassomania”, recidiva como um cupim autofágico, insistentemente apontada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso/PSDB em seu governo.
Com todas as nossas deficiências e deformidades históricas, nenhuma delas introduzida ou agravada pela Copa, seremos capazes de usufruir os resultados benfazejos de um evento que gera desenvolvimento em todos os campos.
Como visto, a festa do futebol inova ou acelera obras de infraestrutura para usufruto perene do povo, traz turistas, melhorias da segurança, empregos, aumento capilarizado de negócios e consequente incremento do PIB. Também aperfeiçoa mecanismos de transparência e escrutínio dos gastos públicos. Ao final, ficará demonstrado que o Brasil sabe realizar uma Copa do Mundo tanto quanto ganhá-la.
Clique aqui para ler “O emprego record e os corvos de aluguel”.
(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.”
Tocar fogo em SP: meta do conservadorismo em 2014
Saul Leblon, no site Carta Maior
A velocidade dos ônibus em São Paulo registou um salto de 45% em 2013 (de 14,2 kms/h para 20,6 kms /h).
Três milhões de pessoas ganharam 38 minutos por dia fora das latas de sardinha, que agora pelo menos andam.
Embora a maioria ainda desperdice mais de duas horas diárias em deslocamentos pela cidade, é quase uma revolução quando se verifica a curva antecedente.
Ninguém pagou mais por isso: as tarifas estão congeladas desde junho sob a pressão de protestos legítimos liderados pelo Movimento Passe Livre.
Financiar a tarifa e modernizar o sistema com 150 kms de corredores exclusivos (as faixas já passam de 290 kms) , seria a tarefa do aumento progressivo do IPTU previsto pelo prefeito Fernando Haddad.
A coerência entre os meios e os fins é irretocável.
1/3 dos moradores mais pobres de SP não pagariam nada de IPTU em 2014; os demais, em média, contribuiriam com um adicional de R$ 15,00 ao mês. Os boletos dos mais ricos, naturalmente, transitariam acima da média.
O matrimônio de interesses expresso na aliança entre Fiesp, PSDB e a toga colérica implodiu esse reajuste.
Como Nero, eles querem ver São Paulo pegar fogo para culpar os adversários (os cristãos, no caso do imperador).
Em meio às labaredas emergiria o palanque conservador como a escada Magirus que os reconduziria com segurança ao Bandeirantes e, quem sabe, ao Planalto.
O dinheiro grosso fornece a gasolina; o tucanato fino de Higienópolis entra com o maçarico.
‘Bum!’, diz a mídia obsequiosa que estampa a foto de Haddad com a legenda: o culpado é o oxigênio.
Depois de subtrair R$ 40 bi por ano do sistema público de saúde, ao extinguir a CPMF, eles não hesitam agora em usar o sofrimento da população como recheio do seu pastel de vento eleitoral.
É o de sempre, ataca Haddad: a coalizão da casa-grande contra a senzala.
Eles retrucam estalando o chicote da mídia.
A rede de ônibus da capital (linha e fretados) transporta 68% das população e ocupa somente 8% das vias urbanas.
A frota de automóveis transporta 28% e ocupa cerca de 80% do espaço das vias.
A informação é da urbanista Raquel Rolnik, em artigo reproduzido no Viomundo.
A rigor, portanto, a mobilidade melhorou para a maioria dos habitantes da cidade, com uma redistribuição pontual do uso do espaço viário.
Mas a emissão conservadora atiça o fim de ano da classe média com bordão do caos no trânsito –por culpa do privilégio concedido aos ônibus.
Na edição de sábado (21/12), o jornal Folha de SP estampa a manchete capciosa em seis colunas, no caderno Cotidiano: ‘Trânsito piora, e ônibus anda mais rápido’.
No manual de redação dos Frias , trânsito é sinônimo de transporte individual.
Há um traço comum entre esse entendimento do que seja interesse coletivo e individual e o belicismo conservador contra o programa ‘Mais Médicos’.
O programa subverteu a lógica protelatória e alocou médicos estrangeiros, cubanos em sua maioria, ali onde os profissionais locais não querem trabalhar: periferias conflagradas e socavões distantes.
Produz-se assim uma mudança instantânea na vida de 16 milhões de brasileiros até então desassistidos.
Quantos não morreriam à espera do longo amanhecer incremental preconizado pelo conservadorismo?
A dimensão estrutural desse antagonismo perpassa a luta pelo desenvolvimento brasileiro desde Getúlio.
Reformas de base ou a delegação do futuro da economia e do destino da sociedade aos mercados?
Em 1964 o pelourinho midiático, a Fiesp e o tucanismo, na versão udenista, resolveram a pendência da forma sabida.
Meio século depois, São Paulo reproduz em ponto pequeno a mesma confluência de interesses que se reivindica o direito consuetudinário de tocar fogo no canavial e estalar o açoite para fazer a moenda girar.
Primeiro, a garapa; resto a gente conversa depois.
Com a tigrada guardada nas senzalas.
Ou imobilizada em ônibus-jaula.
A gestão Haddad precisa modular o timming de suas ações para discuti-las antes com a população.
Tem agora um inédito conselho de participação popular para isso.
Mas é indiscutível que o prefeito lidera hoje um conjunto de reformas imperativas, as reformas de base da São Paulo do século XXI.
Sem elas a cidade afundará no destino que lhe reservou a elite brasileira branca e plutocrática: ser um exemplo de viabilidade de uma das mais iníquas versões do capitalismo no planeta.
Esse é o embate dos dias que correm na metrópole.
Diante dele, o silêncio de quem liderou os protestos de junho chega a ser desconcertante.
Mas não é inédito.
Há inúmeros antecedentes gravados na história com os predicados de cada época .
E nenhum deles é inocência.
Três milhões de pessoas ganharam 38 minutos por dia fora das latas de sardinha, que agora pelo menos andam.
Embora a maioria ainda desperdice mais de duas horas diárias em deslocamentos pela cidade, é quase uma revolução quando se verifica a curva antecedente.
Ninguém pagou mais por isso: as tarifas estão congeladas desde junho sob a pressão de protestos legítimos liderados pelo Movimento Passe Livre.
Financiar a tarifa e modernizar o sistema com 150 kms de corredores exclusivos (as faixas já passam de 290 kms) , seria a tarefa do aumento progressivo do IPTU previsto pelo prefeito Fernando Haddad.
A coerência entre os meios e os fins é irretocável.
1/3 dos moradores mais pobres de SP não pagariam nada de IPTU em 2014; os demais, em média, contribuiriam com um adicional de R$ 15,00 ao mês. Os boletos dos mais ricos, naturalmente, transitariam acima da média.
O matrimônio de interesses expresso na aliança entre Fiesp, PSDB e a toga colérica implodiu esse reajuste.
Como Nero, eles querem ver São Paulo pegar fogo para culpar os adversários (os cristãos, no caso do imperador).
Em meio às labaredas emergiria o palanque conservador como a escada Magirus que os reconduziria com segurança ao Bandeirantes e, quem sabe, ao Planalto.
O dinheiro grosso fornece a gasolina; o tucanato fino de Higienópolis entra com o maçarico.
‘Bum!’, diz a mídia obsequiosa que estampa a foto de Haddad com a legenda: o culpado é o oxigênio.
Depois de subtrair R$ 40 bi por ano do sistema público de saúde, ao extinguir a CPMF, eles não hesitam agora em usar o sofrimento da população como recheio do seu pastel de vento eleitoral.
É o de sempre, ataca Haddad: a coalizão da casa-grande contra a senzala.
Eles retrucam estalando o chicote da mídia.
A rede de ônibus da capital (linha e fretados) transporta 68% das população e ocupa somente 8% das vias urbanas.
A frota de automóveis transporta 28% e ocupa cerca de 80% do espaço das vias.
A informação é da urbanista Raquel Rolnik, em artigo reproduzido no Viomundo.
A rigor, portanto, a mobilidade melhorou para a maioria dos habitantes da cidade, com uma redistribuição pontual do uso do espaço viário.
Mas a emissão conservadora atiça o fim de ano da classe média com bordão do caos no trânsito –por culpa do privilégio concedido aos ônibus.
Na edição de sábado (21/12), o jornal Folha de SP estampa a manchete capciosa em seis colunas, no caderno Cotidiano: ‘Trânsito piora, e ônibus anda mais rápido’.
No manual de redação dos Frias , trânsito é sinônimo de transporte individual.
Há um traço comum entre esse entendimento do que seja interesse coletivo e individual e o belicismo conservador contra o programa ‘Mais Médicos’.
O programa subverteu a lógica protelatória e alocou médicos estrangeiros, cubanos em sua maioria, ali onde os profissionais locais não querem trabalhar: periferias conflagradas e socavões distantes.
Produz-se assim uma mudança instantânea na vida de 16 milhões de brasileiros até então desassistidos.
Quantos não morreriam à espera do longo amanhecer incremental preconizado pelo conservadorismo?
A dimensão estrutural desse antagonismo perpassa a luta pelo desenvolvimento brasileiro desde Getúlio.
Reformas de base ou a delegação do futuro da economia e do destino da sociedade aos mercados?
Em 1964 o pelourinho midiático, a Fiesp e o tucanismo, na versão udenista, resolveram a pendência da forma sabida.
Meio século depois, São Paulo reproduz em ponto pequeno a mesma confluência de interesses que se reivindica o direito consuetudinário de tocar fogo no canavial e estalar o açoite para fazer a moenda girar.
Primeiro, a garapa; resto a gente conversa depois.
Com a tigrada guardada nas senzalas.
Ou imobilizada em ônibus-jaula.
A gestão Haddad precisa modular o timming de suas ações para discuti-las antes com a população.
Tem agora um inédito conselho de participação popular para isso.
Mas é indiscutível que o prefeito lidera hoje um conjunto de reformas imperativas, as reformas de base da São Paulo do século XXI.
Sem elas a cidade afundará no destino que lhe reservou a elite brasileira branca e plutocrática: ser um exemplo de viabilidade de uma das mais iníquas versões do capitalismo no planeta.
Esse é o embate dos dias que correm na metrópole.
Diante dele, o silêncio de quem liderou os protestos de junho chega a ser desconcertante.
Mas não é inédito.
Há inúmeros antecedentes gravados na história com os predicados de cada época .
E nenhum deles é inocência.
domingo, 22 de dezembro de 2013
Maria do Rosário: "o mercado só vê o ser humano em sua fase produtiva"
no Carta Maior
Ao fim de um período em que se comemoraram dez anos de
existência, no Brasil, da Política Nacional do Idoso seguida da
implantação do Estatuto do Idoso, em 2003, pelo presidente Lula, a
Ministra Maria do Rosário Nunes faz um balanço das atividades da
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, apresenta o
avanço nas políticas públicas de proteção aos 23,5 milhões de cidadãos
brasileiros com mais de 65 anos – segmento da população que mais cresce
no Brasil e em todo o ocidente - e comenta novas ações em curso assim
como outras, em vias de execução, nas áreas da segurança do idoso, da
preservação da sua saúde e da assistência farmacêutica e médica –
revitalizada através do programa Mais Médicos.
Nesta entrevista exclusiva à Carta Maior, a Ministra Maria do Rosário lembra dois pontos importantes. O primeiro: “O mercado só vê o ser humano quando ele está na sua fase produtiva e proporciona mais valia”. E o segundo: “Há dez anos o Brasil começou a desenvolver políticas públicas capazes de dar conta da mudança no perfil demográfico. Enquanto isso, para efeito de comparação, a Europa conduziu esta transição em um período de cem anos. Nós vamos passar pelo mesmo em 30.”
A seguir, a entrevista:
Há dez dias o IBGE divulgou a ampliação, cada vez mais acelerada, da longevidade dos brasileiros e os anos a mais de vida que eles vêm ganhando. A qualidade de vida desta população também é maior, hoje?
A expectativa de vida dos brasileiros e brasileiras se amplia na medida em que cresce a qualidade de vida desde a infância, desde o nascimento. Ou seja, para termos mais longevidade é preciso cuidar das pessoas desde o início, ao longo de toda a sua existência, assegurando os seus direitos. Estamos enfrentando um período de transição.
Há dez anos, o Brasil começou a desenvolver políticas públicas capazes de dar conta dessa mudança no perfil demográfico. Para efeito de comparação, a Europa conduziu essa passagem em um período de cem anos. Já nós vamos passar por tudo isso em aproximadamente 30 anos.
Os governos e a sociedade civil devem se preparar para esse inevitável envelhecimento da população, que conta com 23,5 milhões de pessoas com mais de 65 anos no nosso país. Em 2050, a perspectiva é de que teremos mais idosos do que jovens com menos de 15 anos de idade. Para que tenhamos condições de bem atender a esse novo Brasil, estamos atuando com disposição, contando com o apoio da presidenta Dilma na especialização dos serviços públicos. Temos pressa de agir na promoção, proteção e defesa dos direitos humanos das pessoas idosas, que consideramos fundamentais para a democracia, construção da cidadania e o desenvolvimento sustentável dos povos.
Neste sentido, os avanços recentes, como a instituição da Política Nacional do Idoso e o estabelecimento do Estatuto do Idoso reafirmam a necessidade da construção de políticas intersetoriais capazes de contemplar as necessidades da pessoa idosa e prover seu bem estar em plenitude.
Houve aumento da expectativa de vida do brasileiro?
Os programas Minha Casa Minha Vida e Brasil sem Miséria incidem diretamente na qualidade de vida da população idosa, já que a grande maioria atendida é de baixa renda. Como resultado concreto dos avanços conquistados pelo Brasil na promoção e proteção dos direitos dos idosos nesses últimos anos, o Atlas do Desenvolvimento Humano Brasil 2013 atribui à dimensão Longevidade a responsabilidade pela importante evolução do índice de desenvolvimento humano apresentado pelos municípios brasileiros entre 1991 a 2010. Essa melhora se vê refletida no aumento de 9,2 anos (ou 14,2%) na expectativa de vida ao nascer do brasileiro.
Quais as ações do SUS direcionadas aos mais idosos?
No que diz respeito à garantia do direito à saúde das pessoas idosas nós avançamos muito com a instalação dos Centros de Referência em Assistência à Saúde do Idoso, com o programa Farmácia Popular, que beneficia 50 milhões de brasileiros, e o programa Remédio em Casa. São ações de assistência farmacêutica voltadas às necessidades da população idosa em que são disponibilizados e/ou subsidiados medicamentos para o tratamento de doenças que afetam especialmente esse grupo (como doença de Alzheimer, diabetes e osteoporose). Outra importante parceria que temos com o Ministério da Saúde é a notificação compulsória de casos de violência praticada contra idosos. Quando uma unidade de saúde atende um idoso e reconhece que ele foi vítima de violação de direitos deve imediatamente notificar as autoridades locais. Pode não parecer, mas iniciativas integradas como essa podem salvar muitas vidas.
E as ações relacionadas a violações dos direitos de idosos?
Para acolher a demanda das vítimas de violência a Secretaria de Direitos Humanos criou, em 2011, o Módulo Idoso do Disque Direitos Humanos (Disque 100). Trata-se de um importante mecanismo para recebimento de denúncias relacionadas a violações de direitos contra idosos. Por sua vez, a inserção do referido Módulo também permite realizar um diagnóstico situacional sobre a violência contra a pessoa idosa no país a partir do mapeamento e classificação dos casos registrados com a finalidade de proceder a diversos ajustes nas políticas e ações voltadas à defesa dos direitos dessa população e visando atender a realidade deste grupo.
Estas violações estão aumentando?
Somente no primeiro semestre deste ano recebemos quase 23 mil denúncias de violação de direitos de pessoas idosas, número que é praticamente idêntico ao do ano passado inteiro, sendo que a maioria se refere à negligência, violência psicológica e abuso financeiro. Para isso, estamos atuando no fortalecimento da rede de apoio ao setor. Nosso objetivo é que todas as áreas de Direitos Humanos tenham uma rede estruturada a exemplo do que já existe para as crianças e adolescentes.
Há apenas 1789 médicos titulados pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, no país. Com o programa Mais Médicos nós teremos profissionais capacitados para atender a população idosa? Os médicos cubanos estão especificamente preparados por conta da formação clínica abrangente?
Sim. No programa Mais Médicos teremos profissionais capacitados para atender a população idosa, visto que a formação deles é voltada à medicina comunitária e familiar. O Ministério da Saúde vem investindo na capacitação dos profissionais de saúde com grande ênfase nos profissionais que atuam na atenção básica. A saúde da pessoa idosa está entre os temas que norteiam o planejamento das ações dos médicos atuando no sistema público, orientados para o olhar integral sobre a condição de saúde das pessoas de mais idade.
Aliás, este trabalho do Mais Médicos é importantíssimo, já que está proporcionando uma mudança cultural na nossa sociedade. Digo isso porque a medicina deixa de ser vista de modo mercantilista para ser observada como um serviço essencial para os seres humanos. Além da chegada de profissionais de fora, o governo da presidenta Dilma está atuando na ampliação da oferta de cursos de Medicina e no fortalecimento da formação com foco no trabalho comunitário e na especialização para áreas como a geriatria.
Como o governo está trabalhando na revisão da chamada carteira de saúde do idoso?
O governo também trabalha na revisão da caderneta de saúde da pessoa idosa que terá grande importância na qualificação do processo de trabalho das equipes médicas porque foca na identificação da situação de saúde das pessoas idosas a partir da avaliação funcional, o que permitirá identificar as reais necessidades deste grupo populacional, orientando as ações de cuidado necessárias.
Como fazer cumprir o Estatuto do Idoso? Assim como o Estatuto das Cidades ele é desrespeitado a todo instante embora seja motivo de admiração em outros países. Há um problema de fiscalização no seu cumprimento. Os Conselhos Estaduais e Municipais não deveriam supervisionar os estados e municípios que não cumprem este dispositivo legal há dez anos baixado pelo Presidente Lula? Ou então: qual o órgão que deveria proceder a esta fiscalização?
Quanto à garantia de direitos e a sua fiscalização, como afirmei anteriormente, o maior desafio tem sido a construção de uma rede de proteção possibilitando a aproximação e o trabalho coordenado entre os órgãos em defesa da pessoa idosa. Este desafio é de toda a sociedade brasileira e um dever decorrente da solidariedade que deve existir entre as gerações.
Temos nos empenhado para que os conselhos de direitos, os gestores das políticas de direitos e Ministério Público atuem de forma integrada. Além do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso (CNDI), já temos conselhos em 27 estados e 51,5% dos municípios brasileiros. Eles contribuem significativamente com o debate de políticas públicas para essa população. A Comissão Permanente de Direitos Humanos do Conselho Nacional de Procuradores Gerais traçou como meta nacional o acompanhamento da criação e do funcionamento das Instituições de Longa Permanência e das demais unidades de atendimento a esse seguimento social. Temos grandes parceiros que já atuam, porém precisamos ampliar essa rede.
Nunca é demais lembrar: todos podem e devem discar 100 para denunciar situações de violência contra pessoas idosas e/ou desrespeito ao Estatuto. A nossa meta é universalizar uma política essencial norteada pelo Estatuto do Idoso. Para isso, contamos com o apoio do Judiciário, do Ministério Público, do Legislativo e, especialmente, da sociedade para garantirmos a todo brasileiro e toda brasileira um envelhecimento com qualidade de vida e respeito aos seus direitos.
Quais as ações efetivas, concretas, para fazer cumprir o decreto da presidenta Dilma relativo ao envelhecimento ativo?
O decreto do Compromisso foi assinado há pouco mais de sessenta dias. Os 17 ministérios já foram chamados pela Secretaria de Direitos Humanos e se comprometeram a atuar de forma efetiva elaborando um plano de ações. Precisamos avançar na garantia da emancipação e protagonismo da população idosa de forma articulada intra e intersetorialmente para assegurar atenção integral às pessoas idosas e suas famílias. Paralelamente, conseguimos colocar em prática o Fundo Nacional do Idoso, que neste ano tem o primeiro aporte mais amplo de recursos.
É meta do governo da presidenta Dilma, por meio de um pacto entre os agentes públicos, garantir um envelhecimento ativo para todos, assegurando autonomia, respeito e cuidado. Neste sentido, se coloca a expansão dos cursos de cuidadores de idosos por meio do Pronatec, em 21 campi da rede federal.
As delegacias policiais estão preparadas para atender desmandos e infrações por parte das próprias famílias e dos demais relativos aos direitos dos idosos? Tortura, maus tratos físicos e emocionais, exploração financeira, roubos, exploração no trabalho, por exemplo? Quais as penalidades?
Em maio deste ano convocamos todos os delegados/as promotores/as e defensores que atuam nas 80 delegacias especializadas na atenção à pessoa idosa para um encontro nacional de capacitação e qualificação do fluxo do Disque Direitos Humanos – Disque 100. Esse serviço é de fundamental importância no socorro e acolhimento às vitimas de violência. Novamente: adquire importância relevante a ampliação da rede de atendimento e a participação da sociedade como um todo em prol da promoção e garantia de direitos.
Não é o caso pensar em uma campanha nacional, maciça, no sentido de promover a educação da população mais jovem no respeito aos idosos, no país?
O Brasil propôs aos países do Mercosul a elaboração de uma campanha conjunta para a promoção da solidariedade e cooperação intergeracional e de maior visibilidade do envelhecer. Estamos construindo, juntos, esse processo. Também propusemos ao Senado Federal a inclusão da temática do envelhecimento que se inicia com a educação infantil no Plano Nacional de Educação. Por meio das nossas diversas ações, buscamos construir uma cultura de direitos humanos, reforçando as responsabilidades do Estado e desenvolvendo a valorização de todas as fases da vida, conscientizando a população sobre a importância de valorizar todas estas fases.
O mercado somente vê o ser humano quando ele está na sua fase produtiva, enquanto proporciona mais valia. Por isso, as crianças e os idosos acabam ficando à margem, sendo percebidos como um “peso” para a sociedade. O nosso governo trabalha para que aconteça o contrário - que todas as pessoas, em todas as fases da sua vida, sejam percebidas como fundamentais na construção de um país e de um mundo melhor, tendo assegurados os direitos inerentes à condição humana. Por isso, é importantíssima a opção que o Brasil fez, desde o governo Lula, de enfrentar e resistir à onda neoliberal e manter a sua previdência e a seguridade social públicas como ações irrenunciáveis do Estado.
Nesta entrevista exclusiva à Carta Maior, a Ministra Maria do Rosário lembra dois pontos importantes. O primeiro: “O mercado só vê o ser humano quando ele está na sua fase produtiva e proporciona mais valia”. E o segundo: “Há dez anos o Brasil começou a desenvolver políticas públicas capazes de dar conta da mudança no perfil demográfico. Enquanto isso, para efeito de comparação, a Europa conduziu esta transição em um período de cem anos. Nós vamos passar pelo mesmo em 30.”
A seguir, a entrevista:
Há dez dias o IBGE divulgou a ampliação, cada vez mais acelerada, da longevidade dos brasileiros e os anos a mais de vida que eles vêm ganhando. A qualidade de vida desta população também é maior, hoje?
A expectativa de vida dos brasileiros e brasileiras se amplia na medida em que cresce a qualidade de vida desde a infância, desde o nascimento. Ou seja, para termos mais longevidade é preciso cuidar das pessoas desde o início, ao longo de toda a sua existência, assegurando os seus direitos. Estamos enfrentando um período de transição.
Há dez anos, o Brasil começou a desenvolver políticas públicas capazes de dar conta dessa mudança no perfil demográfico. Para efeito de comparação, a Europa conduziu essa passagem em um período de cem anos. Já nós vamos passar por tudo isso em aproximadamente 30 anos.
Os governos e a sociedade civil devem se preparar para esse inevitável envelhecimento da população, que conta com 23,5 milhões de pessoas com mais de 65 anos no nosso país. Em 2050, a perspectiva é de que teremos mais idosos do que jovens com menos de 15 anos de idade. Para que tenhamos condições de bem atender a esse novo Brasil, estamos atuando com disposição, contando com o apoio da presidenta Dilma na especialização dos serviços públicos. Temos pressa de agir na promoção, proteção e defesa dos direitos humanos das pessoas idosas, que consideramos fundamentais para a democracia, construção da cidadania e o desenvolvimento sustentável dos povos.
Neste sentido, os avanços recentes, como a instituição da Política Nacional do Idoso e o estabelecimento do Estatuto do Idoso reafirmam a necessidade da construção de políticas intersetoriais capazes de contemplar as necessidades da pessoa idosa e prover seu bem estar em plenitude.
Houve aumento da expectativa de vida do brasileiro?
Os programas Minha Casa Minha Vida e Brasil sem Miséria incidem diretamente na qualidade de vida da população idosa, já que a grande maioria atendida é de baixa renda. Como resultado concreto dos avanços conquistados pelo Brasil na promoção e proteção dos direitos dos idosos nesses últimos anos, o Atlas do Desenvolvimento Humano Brasil 2013 atribui à dimensão Longevidade a responsabilidade pela importante evolução do índice de desenvolvimento humano apresentado pelos municípios brasileiros entre 1991 a 2010. Essa melhora se vê refletida no aumento de 9,2 anos (ou 14,2%) na expectativa de vida ao nascer do brasileiro.
Quais as ações do SUS direcionadas aos mais idosos?
No que diz respeito à garantia do direito à saúde das pessoas idosas nós avançamos muito com a instalação dos Centros de Referência em Assistência à Saúde do Idoso, com o programa Farmácia Popular, que beneficia 50 milhões de brasileiros, e o programa Remédio em Casa. São ações de assistência farmacêutica voltadas às necessidades da população idosa em que são disponibilizados e/ou subsidiados medicamentos para o tratamento de doenças que afetam especialmente esse grupo (como doença de Alzheimer, diabetes e osteoporose). Outra importante parceria que temos com o Ministério da Saúde é a notificação compulsória de casos de violência praticada contra idosos. Quando uma unidade de saúde atende um idoso e reconhece que ele foi vítima de violação de direitos deve imediatamente notificar as autoridades locais. Pode não parecer, mas iniciativas integradas como essa podem salvar muitas vidas.
E as ações relacionadas a violações dos direitos de idosos?
Para acolher a demanda das vítimas de violência a Secretaria de Direitos Humanos criou, em 2011, o Módulo Idoso do Disque Direitos Humanos (Disque 100). Trata-se de um importante mecanismo para recebimento de denúncias relacionadas a violações de direitos contra idosos. Por sua vez, a inserção do referido Módulo também permite realizar um diagnóstico situacional sobre a violência contra a pessoa idosa no país a partir do mapeamento e classificação dos casos registrados com a finalidade de proceder a diversos ajustes nas políticas e ações voltadas à defesa dos direitos dessa população e visando atender a realidade deste grupo.
Estas violações estão aumentando?
Somente no primeiro semestre deste ano recebemos quase 23 mil denúncias de violação de direitos de pessoas idosas, número que é praticamente idêntico ao do ano passado inteiro, sendo que a maioria se refere à negligência, violência psicológica e abuso financeiro. Para isso, estamos atuando no fortalecimento da rede de apoio ao setor. Nosso objetivo é que todas as áreas de Direitos Humanos tenham uma rede estruturada a exemplo do que já existe para as crianças e adolescentes.
Há apenas 1789 médicos titulados pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, no país. Com o programa Mais Médicos nós teremos profissionais capacitados para atender a população idosa? Os médicos cubanos estão especificamente preparados por conta da formação clínica abrangente?
Sim. No programa Mais Médicos teremos profissionais capacitados para atender a população idosa, visto que a formação deles é voltada à medicina comunitária e familiar. O Ministério da Saúde vem investindo na capacitação dos profissionais de saúde com grande ênfase nos profissionais que atuam na atenção básica. A saúde da pessoa idosa está entre os temas que norteiam o planejamento das ações dos médicos atuando no sistema público, orientados para o olhar integral sobre a condição de saúde das pessoas de mais idade.
Aliás, este trabalho do Mais Médicos é importantíssimo, já que está proporcionando uma mudança cultural na nossa sociedade. Digo isso porque a medicina deixa de ser vista de modo mercantilista para ser observada como um serviço essencial para os seres humanos. Além da chegada de profissionais de fora, o governo da presidenta Dilma está atuando na ampliação da oferta de cursos de Medicina e no fortalecimento da formação com foco no trabalho comunitário e na especialização para áreas como a geriatria.
Como o governo está trabalhando na revisão da chamada carteira de saúde do idoso?
O governo também trabalha na revisão da caderneta de saúde da pessoa idosa que terá grande importância na qualificação do processo de trabalho das equipes médicas porque foca na identificação da situação de saúde das pessoas idosas a partir da avaliação funcional, o que permitirá identificar as reais necessidades deste grupo populacional, orientando as ações de cuidado necessárias.
Como fazer cumprir o Estatuto do Idoso? Assim como o Estatuto das Cidades ele é desrespeitado a todo instante embora seja motivo de admiração em outros países. Há um problema de fiscalização no seu cumprimento. Os Conselhos Estaduais e Municipais não deveriam supervisionar os estados e municípios que não cumprem este dispositivo legal há dez anos baixado pelo Presidente Lula? Ou então: qual o órgão que deveria proceder a esta fiscalização?
Quanto à garantia de direitos e a sua fiscalização, como afirmei anteriormente, o maior desafio tem sido a construção de uma rede de proteção possibilitando a aproximação e o trabalho coordenado entre os órgãos em defesa da pessoa idosa. Este desafio é de toda a sociedade brasileira e um dever decorrente da solidariedade que deve existir entre as gerações.
Temos nos empenhado para que os conselhos de direitos, os gestores das políticas de direitos e Ministério Público atuem de forma integrada. Além do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso (CNDI), já temos conselhos em 27 estados e 51,5% dos municípios brasileiros. Eles contribuem significativamente com o debate de políticas públicas para essa população. A Comissão Permanente de Direitos Humanos do Conselho Nacional de Procuradores Gerais traçou como meta nacional o acompanhamento da criação e do funcionamento das Instituições de Longa Permanência e das demais unidades de atendimento a esse seguimento social. Temos grandes parceiros que já atuam, porém precisamos ampliar essa rede.
Nunca é demais lembrar: todos podem e devem discar 100 para denunciar situações de violência contra pessoas idosas e/ou desrespeito ao Estatuto. A nossa meta é universalizar uma política essencial norteada pelo Estatuto do Idoso. Para isso, contamos com o apoio do Judiciário, do Ministério Público, do Legislativo e, especialmente, da sociedade para garantirmos a todo brasileiro e toda brasileira um envelhecimento com qualidade de vida e respeito aos seus direitos.
Quais as ações efetivas, concretas, para fazer cumprir o decreto da presidenta Dilma relativo ao envelhecimento ativo?
O decreto do Compromisso foi assinado há pouco mais de sessenta dias. Os 17 ministérios já foram chamados pela Secretaria de Direitos Humanos e se comprometeram a atuar de forma efetiva elaborando um plano de ações. Precisamos avançar na garantia da emancipação e protagonismo da população idosa de forma articulada intra e intersetorialmente para assegurar atenção integral às pessoas idosas e suas famílias. Paralelamente, conseguimos colocar em prática o Fundo Nacional do Idoso, que neste ano tem o primeiro aporte mais amplo de recursos.
É meta do governo da presidenta Dilma, por meio de um pacto entre os agentes públicos, garantir um envelhecimento ativo para todos, assegurando autonomia, respeito e cuidado. Neste sentido, se coloca a expansão dos cursos de cuidadores de idosos por meio do Pronatec, em 21 campi da rede federal.
As delegacias policiais estão preparadas para atender desmandos e infrações por parte das próprias famílias e dos demais relativos aos direitos dos idosos? Tortura, maus tratos físicos e emocionais, exploração financeira, roubos, exploração no trabalho, por exemplo? Quais as penalidades?
Em maio deste ano convocamos todos os delegados/as promotores/as e defensores que atuam nas 80 delegacias especializadas na atenção à pessoa idosa para um encontro nacional de capacitação e qualificação do fluxo do Disque Direitos Humanos – Disque 100. Esse serviço é de fundamental importância no socorro e acolhimento às vitimas de violência. Novamente: adquire importância relevante a ampliação da rede de atendimento e a participação da sociedade como um todo em prol da promoção e garantia de direitos.
Não é o caso pensar em uma campanha nacional, maciça, no sentido de promover a educação da população mais jovem no respeito aos idosos, no país?
O Brasil propôs aos países do Mercosul a elaboração de uma campanha conjunta para a promoção da solidariedade e cooperação intergeracional e de maior visibilidade do envelhecer. Estamos construindo, juntos, esse processo. Também propusemos ao Senado Federal a inclusão da temática do envelhecimento que se inicia com a educação infantil no Plano Nacional de Educação. Por meio das nossas diversas ações, buscamos construir uma cultura de direitos humanos, reforçando as responsabilidades do Estado e desenvolvendo a valorização de todas as fases da vida, conscientizando a população sobre a importância de valorizar todas estas fases.
O mercado somente vê o ser humano quando ele está na sua fase produtiva, enquanto proporciona mais valia. Por isso, as crianças e os idosos acabam ficando à margem, sendo percebidos como um “peso” para a sociedade. O nosso governo trabalha para que aconteça o contrário - que todas as pessoas, em todas as fases da sua vida, sejam percebidas como fundamentais na construção de um país e de um mundo melhor, tendo assegurados os direitos inerentes à condição humana. Por isso, é importantíssima a opção que o Brasil fez, desde o governo Lula, de enfrentar e resistir à onda neoliberal e manter a sua previdência e a seguridade social públicas como ações irrenunciáveis do Estado.
Javier Sicilia, um poeta mexicano contra o narcotráfico
Cuernavaca, México – A narração pontual do horror pode não bastar. O desfile interminável de mortos na rua, de imagens de gente pendurada nas pontes, de decapitados, fuzilados, a contagem regular de novas vítimas que se somam as 50 mil da véspera são só isso: imagens e estatísticas. A sociedade prossegue mergulhada em um estranho silêncio. Mas um estouro entre tantos torna-se uma revelação incrível.
O poeta mexicano Javier Sicilia encarna na pele e nos ossos essa transformação da sociedade mexicana. Com ele se passou do silêncio à rua, da mansidão à rebeldia, da solidão e do anonimato ao movimento, da mais profunda injustiça ao sonho de que exista uma justiça. Um drama precipitou esse despertar coletivo. No final de março de 2011, Juan Francisco Sicilia, seu filho de 24 anos, foi assassinado pelo crime organizado junto com outros seis jovens no Estado de Morelos.
Dessa morte íntima, Javier Sicilia fará uma causa, não sua, mas sim de todas as outras vítimas. Javier Sicilia saiu à rua para reclamar justiça, por seu filho e pelas dezenas de milhares de mortos que o narcotráfico deixou no país. Marchas, caravanas ao longo do país, pouco a pouco o México foi abrindo os olhos ante o horror com que convivia. Dessas marchas surgiu um grupo, o Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade.
Sicilia obrigou o presidente que havia lançado uma guerra contra o narcotráfico, Felipe Calderón, a dialogar, aceitar as responsabilidades do Estado, a pactuar uma lei geral de vítimas mediante a qual fossem garantidos os seus direitos. Sem disparar um só tiro. Só com as marchas, as caravanas, a poesia como aposta e alguns cadernos que foram sendo preenchidos com os nomes de tantos mortos anônimos.
O Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade é uma das iniciativas mais originais e únicas do último quarto de século. Deu nome e sobrenome aos mortos. Não tem similar no mundo: não só enfrentou o Estado, como também os criminosos, a impunidade e o pior inimigo da justiça: o silêncio.
“Já não há mais o que dizer. O mundo já não é digno da Palavra”, escreveu Javier Sicilia no último poema de seu último livro. O poeta decidiu calar-se para sempre, mas não o homem de ação que, em seus protestos por justiça coletiva, descobriu o México extenso da dor e do horror.
Em seu mundo natural de Cuernavaca, Javier Sicilia fala com essa marca que fica nos olhos quando a vida fere sem avisar. Não há ódio nem rancor em suas palavras, mas sim o peso de uma consciência viva e a bondade que, para além do mal, persiste no coração humano. Às vezes, a poesia pode convocar a consciência moral de uma nação no momento de máximo horror, de máximo adormecimento dessa consciência. Javier Sicilia e seu movimento tornaram realidade esse “milagre cívico”.
Seu movimento tem uma essência muito pessoal. Frente à violência extrema que assola o México, você saiu à rua para pedir justiça tendo a poesia como mediadora.
Os dois grandes movimentos dos últimos 20 anos que tem uma posição moral indiscutível foram gerados com uma linguagem poética. O zapatismo e o nosso.
Toda linguagem poética rompe a unicidade o unívoco das linguagens políticas e permite voltar a ver a realidade em sua profundidade, em seu horror e em sua humanidade. Ambos os movimentos, com diferentes linguagens poéticas, mas sempre utilizando os recursos da poesia, as imagens, os símbolos, as metáforas, funcionaram e desvelaram um horror que estava oculto sob as linguagens unívocas do político, sob a abstração da estatística. Também revelaram a responsabilidade do Estado frente a essa humanidade negada. No caso do Subcomandante Marcos foi com as comunidades indígenas, no caso do Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade foram as vítimas desta guerra contra o narcotráfico lançada pelo ex-presidente Felipe Calderón.
Por que a poesia pode mais que a própria verdade do horror e do incontável número de assassinatos? Qual é sua capacidade de interação, de revelação ou de consolo?
A poesia nasce do mais profundo do humano, nasce do coração, e só desde o coração se pode assumir tanta dor e dar tanto amor. Isso é o que permitiu a ambos movimentos fazer o que fizeram pelas vítimas, ir contra o crime organizado, contra o Estado e plasmar o registo de sua respectiva desumanidade, de seu terrível desprezo, e das dívidas que o Estado tem com as vítimas.
Você conseguiu o que quase ninguém havia conseguido até então: interpelar o Estado, colocá-lo diante de sua responsabilidade.
A base de um Estado consiste em garantir a paz, a segurança e a justiça de uma sociedade. Quando isso não se cumpre há algo que está falhando profundamente.
E isso é o que ocorre no México, onde há 98% de impunidade. Se está se matando, sequestrando e destruindo a vida humana, como faz o crime organizado, há algo que não está funcionando bem no Estado. E alguém tem que interpelar o Estado. Em um dos diálogos com o ex-presidente Felipe Calderón, ele se atreveu a me dizer por que eu não reclamava para os narcos. Eu lhe respondi: diga-me que não há Estado e então nós nos acertaremos com os criminosos. Mas, até onde sei, o Estado tem que responder por isso.
O Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade nasceu em 2011, depois do assassinato de seu filho e amigos. O México já conhecia um grau de horror inqualificável, no entanto, essas mortes despertaram o país, o fizeram olhar de frente para o que estava ocorrendo.
As linguagens que descrevem fenômenos sociais não são suficientes para explicar isso. Por que, a partir de mim e de meu filho, foi possível conseguir uma coisa desta natureza? A explicação histórica, antropológica, não basta para entendê-lo.
Creio que pertence a uma ordem que nos rebaixa, a uma espécie de milagre cívico nascido do horror, da tragédia. Creio que não há resposta. Eu nunca pensei em passar à ação coletiva, não pensava que ia fazer um movimento. Eu só fui protestar, reclamar, expor minha palavra. E algo ocorreu a partir dessa palavra e tudo começou a se articular, algo estava aí à espera de uma palavra-chave, de uma palavra mágica que convocasse uma mobilização, uma dignificação, uma lógica humana de vida, de força moral.
Creio que a partir da morte de meu filho João Francisco e de seus amigos e das palavras proferidas se despertou a reserva moral do país, que estava adormecida, mergulhada. Mas estava viva. O terror adormece, o terror busca escapar por saídas psíquicas que nos levam à aparência de certa indiferença. Mas as reservas estão aí. Enquanto não se matar completamente a alma de um povo, a reserva moral está esperando algo que a detone. Aqui foi uma tragédia e uma palavra dura, indignada, ou seja, dizer: “Basta. Estamos fartos disso”. As forças vivas despertaram a partir da morte. O horror que era negado neste país tornou-se visível.
A partir desse despertar, foram realizadas caravanas em todo o país pela paz. O que descobriu neste périplo?
Vi um México que intuía que existia, do horror e do mal, um México que nunca havia sentido antes com todo o peso de minha carne, um México que toquei com todos os meus sentidos. Vi esse México massacrado, destroçado, sofrendo. Um dia, em uma das caravanas que fizemos em uma das zonas mais duras do país, Durango, se aproximou de mim um menino de cinco anos com o retrato de seu pai. Ele me disse: “esse é meu pai, mataram ele, ontem me entregaram ele envolto em um cobertor”. Esse menino órfão era a imagem do país. Nestes tempos, o horror é a incapacidade de vê-lo. Por isso o horror se torna mais brutal.
Devo dizer também que um Estado corrupto como este também gera uma tremenda corrupção moral. Há uma parte deste país que, junto com o Estado, está profundamente corrompida, degradada. Não se explica que tenhamos chegado onde chegamos. Este é um poder que se baseia na máfia e na delinquência. Por isso temos o que temos. Refazer isso será muito custoso. É muito fácil destruir, corromper. Construir é muito difícil.
O movimento se confrontou com dois poderes: o do Estado e o dos criminosos.
Todo poder é covarde porque utiliza uma força que transcende toda proporção humana. Os criminosos exercem um poder cínico, covarde. E tivemos que confrontar essa imensa covardia, esse imenso cinismo, tanto do Estado quanto dos criminosos. Os desafiamos desde nossa pequenez e com as armas que são o amor e a dignidade. Com isso atravessamos este país, atravessamos os Estados Unidos. Já não podem ocultar o horror, a dor e a impunidade. Terão que encontrar um caminho de justiça e de paz. A força coletiva é muito importante frente ao poder, o poder precisa ver uma nação de pé, expressando-se. A democracia não se resume às urnas. A democracia é o poder do povo. Quando um povo se une e desafia um Estado que não está cumprindo a vontade desse povo, aí começamos a viver a democracia.
Isso é o que ocorreu com as mobilizações. Neste momento, o Estado teve medo e começamos a viver a democracia. Foi a presidência, o poder político, que veio até nós e disse: “dialoguemos”. De acordo, dissemos, mas segundo nossas condições.
Não dialogamos na obscuridade, não dialogamos atrás de portas fechadas, dialogamos frente à nação porque este é um tema da nação e diz respeito a todos nós. Assim foram os diálogos. Chamamos o poder de tu e o confrontamos como o que ele é: servidor desta nação, da cidadania. Mas nós sozinhos não valíamos nada. O poder não zombou de nós porque chegamos unidos.
Vocês conseguiram também algo muito profundo: dar nome e sobrenome aos mortos, dotá-los da identidade que o Estado e os criminosos negavam. Retiraram o manto de silêncio.
O país acumulava cinco anos de profunda dor, de muitas vítimas. Neste momento, tínhamos mais de 40 mil mortos, 10 mil desaparecidos. E apesar disso, nada ocorria. O poder político falava de “baixas colaterais” enquanto que o presidente dizia: “estão se matando entre eles”. O poder negou às vítimas seus direitos civis, seus direitos humanos. Eu disse: através da morte de meu filho assumo a morte de todos. A partir deste momento, todos os jovens assassinados neste país, que são a maioria, são meus filhos. Assim começaram a chegar as vítimas, assim começaram a falar, assim começou a falar a alma de um povo. As vítimas vinham e narravam seu horror, sua dor, com suas próprias palavras.
Fomos do norte ao sul do país para que as vítimas falassem, para que contassem sua história. Uma palavra se tornou a palavra de todos, com seus respectivos nomes, sobrenomes e histórias. Formou-se uma grande coalizão, reunindo setores da esquerda e da direita, o que foi fundamental para este movimento. O nome de João Francisco Sicilia nomeou a todos. O que fizemos foi abrir os espaços públicos aos negados para que nomeassem seus mortos, suas dores, sua condição de vítimas. Eu não fui mais que a voz de uma tribo de pessoas que sofriam, por minha voz falaram as vítimas e através do nome de meu filho estão falando muitas outras vítimas.
Como se salva um ser humano que, em seu nome pessoal e no de sua sociedade, enfrentou o horror? Com esquecimento, perdão?
O perdão é complexo. É preciso entender o perdão. Há quem ache que o perdão é esquecimento, mas não é. O perdão é um dom, é um ato de gratuidade como o amor. Quando me perguntam se perdoei os criminosos que mataram meu filho eu respondo: sim, perdoei. Pedi justiça, não pedi sua morte. Mas para que esse dom se cumpra, o perdão não pode prescindir da justiça. Tem que haver arrependimento da outra parte. Caso o contrário o perdão não ocorre.
Você disse depois da morte de seu filho que não escreveria mais.
Minha relação com a escritura mudou substancialmente. Deixei de escrever poesia.
As palavras degradadas de minha época já não me bastam para dizer, veja o paradoxo, o horror indizível que estamos vivendo, nem para empreender a reconstrução do sentido. O idioma não me basta mais. Estamos diante de fenômenos onde a linguagem entra em crise. Fenômenos de horror, da morte, de ausência de sentido que colocam em crise a língua e, sobretudo, a mais alta expressão da língua que é a expressão literária. Um escritor vive da língua de sua época, quando essa língua se degrada pela barbárie que estamos vivendo no México, pelo uso mentiroso da linguagem, essa língua já não é suficiente para poder refundar os sentidos. Isso ocorreu em meu país.
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
Os caças Gripen repreentam um salto na política de defesa
Luis Nassif, em seu blog.
A decisão da presidente Dilma Rousseff
de optar pelo sueco Gripen, da SAAB-Scania, na licitação FX para os
novos caças da FAB, pode ter surpreendido a muitos.
Mas trata-se do passo mais relevante dos
últimos anos, no sentido de consolidação de uma política industrial de
defesa – área que avançou com o Inova Defesa, de financiamento de
pesquisas para empresas do setor.
Pelo menos desde 2011, alguns comentaristas do meu Blog (www.luisnassif.com.br) traziam informações relevantes sobre a proposta sueca.
Enquanto os franceses da Dassault e os
norte-americanos da Boeing movimentavam-se no campo político e
diplomático, os suecos montaram uma operação técnica invejável.
Desde o início, a Aeronáutica pendia
para o Gripen. Em parte por suas características tecnológicas – com
menor alcance e maior mobilidade -, muito mais pela possibilidade das
parcerias tecnológicas.
***
Pela proposta, 80% da estrutura das
aeronaves poderão ser fabricadas no país. Partes relevantes do processo,
como ensaios, testes, homologação. Desenvolvimento, produção e
comercialização terão participação de empresas nacionais. Acenava-se,
inclusive, até com uma exportação inicial de 30 células Girpen NG para a
própria Suécia.
***
Os suecos dispõem-se também a incluir “o
fornecimento e a integração de todos os armamentos pedidos pela FAB com
os respectivos custos incluídos na oferta, as armas brasileiras assim
como as que já contam no arsenal da força, integradas e requalificadas
seu custos adicionais, com a participação da Embraer e da Mectron”.
Ao se aproximar da Embraer, aliás, os
suecos tiraram um dos pontos centrais de vantagem da Dassault – que tem
participação acionária na empresa.
Recentemente, a Embraer associou-se à
Telebrás em uma nova empresa para trabalhar a área aeroespacial. E
recentemente, o Ministério da Defesa classificou várias empresas
fornecedoras na condição de empresas de segurança nacional, com
vantagens fiscais.
***
Pela proposta da Gripen, o programa de
ensaio de voos será realizado pela Embraer e outras empresas nacionais,
possibilitando ao país a participação direta no desenvolvimento,
qualificação e homologação da aeronave.
Haverá participação nacional também na integração do radar das aeronaves, mantida a proposta de uma aviônica 100% nacional.
***
No início, a divisão de trabalho será de 40% no Brasil e 60% na Suécia, com aumento gradativo a partir da segunda aeronave.
***
Não se ficou nisso. Nesse período, além
da Embraer e da Mectron, os suecos montaram o consórcio T1, liderado
pela AKAER de São José dos Campos, para fabricação de partes do avião. O
pacote negociado inclui desenhos e modelos 3D. Mais de 50 técnicos e
engenheiros brasileiros foram enviados à Suécia para treinamento.
Ponto importante, os radares oferecidos
são os Raven ES-05 fabricado pela holding europeia Selex-Galileo. E
ficou garantia a transferência de tecnologia para a paulista Atmos
Sistemas Ltda.
Enfim, estão na mesa todos os ingredientes para uma política industrial de defesa.
O ex-babaca
Da Revista Época
Um dia você descobre, feliz, que tem simpatia pelos casais gays
IVAN MARTINS
O mundo como era antes está
encolhendo. Onde eu vivo, você levanta de manhã, vai à padaria, e dois
garotos trocam um selinho no balcão à sua frente, às 8 horas da manhã.
Ou você vai à festa de aniversário de uma amiga e ela apresenta a todos a
namorada dela. Não é mais uma tremenda exceção.
Diante dessas novidades, que estão por
toda parte, nós somos convidados a escolher diariamente. Podemos
rejeitar como coisa imoral ou anormal, ou podemos aceitar e abraçar,
como parte de uma existência mais livre para todos.
Não se trata de uma escolha trivial.
Rejeitar casais gays significa recusar
alternativas às formas de relacionamento tradicionais. Isso quer dizer
que a maioria das pessoas poderá viver seus amores e suas paixões à luz
do dia, nas ruas, diante da família e dos amigos, e que um grupo menor –
mas, ainda assim, enorme de pessoas – terá de manter relações
clandestinas, como se fossem criminosas, sujeitas aos riscos e tristezas
de uma existência invisível, à margem da sociedade.
No fundo, temos de decidir,
intimamente, se as pessoas que sentem diferente de nós têm direito a
serem felizes como nós. O mundo ao nosso redor já tomou essa decisão faz
algum tempo, na forma de leis e costumes cada vez mais liberais, que
permitem às pessoas viverem como quiserem. Mas isso não muda o fato de
que cada um de nós tem de decidir, sozinho ou sozinha, como se sente
diante dessa nova realidade.
Ontem, ao pensar sobre isso, me lembrei do Nelson Rodrigues.
>> Mais colunas de Ivan Martins
Ele escreveu, provavelmente no final
dos anos 60, uma crônica famosa sobre escolhas morais. Chama-se O
ex-covarde. Nela, denuncia a pressão intelectual dos grupos de esquerda
que, naquela época de resistência ao golpe militar, eram muito
influentes entre os jovens e os intelectuais. Nelson esbraveja pelo seu
direito de ser reacionário e anticomunista, de pensar contra a maré. Diz
que aos 50 e tantos anos, depois de muito sofrer, perdeu o medo dos
jovens e dos comunistas. Por isso pode mandá-los às favas, porque é um
ex-covarde.
Ao reler esse texto famoso, ontem à noite, eu me senti, por analogia, um ex-babaca.
Aos 53 anos, me sinto, finalmente,
parte do movimento que abraça a mudança. Os jovens gays me provocam
simpatia equivalente à antipatia de Nelson pelos jovens comunistas. As
opiniões e o comportamento se movem numa direção que eu, de modo geral,
aprovo. Vão ficando para trás as barreiras emocionais que me impediam de
conviver com naturalidade com casais de mulheres ou de homens. As
escolhas sexuais ou afetivas dos outros não mais me incomodam, ao menos
de uma forma que eu perceba. Por isso é possível respeitá-las. Acho essa
uma grande conquista pessoal, e por isso me sinto um ex-babaca.
Ao contrário de mim, muita gente,
continua carregando sentimentos dúbios sobre as relações homossexuais.
Elas não se sentem à vontade para criticar abertamente, mas, quando têm a
chance, emitem opiniões negativas sobre o assunto.
Outro dia, fiz na ÉPOCA uma reportagem
com Daniela Mercury e a mulher dela, Malu Verçosa, e fiquei espantado
com os comentários que as pessoas deixaram no site. De nove comentários,
apenas um era positivo. Não havia nada grosseiro ou agressivo, mas o
tom geral era de ironia e condescendência. “Cada um no seu quadrado, só
não venham dizer que é normal”, dizia um deles. Se não é normal duas
mulheres se gostarem seria o quê – doença?
Nelson Rodrigues morreu em 1980, aos
68 anos. Se ainda estivesse vivo, talvez produzisse textos virulentos (e
tremendamente bem escritos) contra os casais homossexuais, notórios e
anônimos. Ele era, afinal, um conservador brilhante – que estaria
errado.
Uma coisa é opor-se a ideologias
políticas que têm o poder de interferir com a vida pública, como o
socialismo ou neoliberalismo. Outra coisa é atacar as escolhas privadas
das pessoas. Se elas vão se casar com homens ou com mulheres é problema
delas. Essa é uma medida universal de civilidade. Quem se insurge contra
o “politicamente correto”, achando que tem direito de dizer o que quer
sobre a vida dos outros, em geral exibe seus preconceitos. O mundo com
sete bilhões de seres humanos precisa de ideias melhores. Tolerância.
Compreensão. Empatia. Com elas, é possível dar bom dia aos rapazes que
namoram na padaria sem se sentir agredido. Ou abraçar, contente, a amiga
que comemora seu aniversário com a namorada. O melhor jeito de ser
feliz é permitindo que os outros também sejam.
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