quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Há que pegar o "trem-bala" da crise e fazer sensível redução dos juros no Brasil
Carta Capital.com e Blog Além da Economia, 13/08/2011
Entrevusta
Esta não é a crise definitiva do capitalismo, diz
professor da Unicamp
Paulo Daniel 13 de agosto de 2011 às 12:16h
Com o objetivo de compreender, analisar e debater a crise financeira e econômica
mundial, o Blog Além de Economia em conjunto com o site da revista CartaCapital,
está promovendo uma série de entrevistas neste mês de agosto.
Para esta segunda rodada de entrevistas, convidamos o Professor José Carlos de Souza
Braga, economista, Livre Docente do Instituto de Economia da Unicamp, com Pós-
Doutorado pela Universidade de Berkeley, California, USA e Diretor Executivo do
Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais (CERI-Unicamp).
De acordo com Braga, o Brasil está em melhores condições para enfrentar a
instabilidade mundial, entretanto, não se pode permitir a deterioração do balanço de
pagamentos. Enfrentar a crise quer dizer; mais Estado, tanto do ponto de vista
quantitativo, como qualitativo.
Confira abaixo a entrevista:
Além de Economia/CartaCapital: Nos últimos tempos o capitalismo está em uma
busca insana de obter lucros e aumento da renda sem passar pelas agruras do
processo de produção. A que se deve esse processo? Que consequências pode se
observar no sistema econômico?
José Carlos de Souza Braga: É próprio do capitalismo desenvolver tanto a acumulação
de lucros pela produção como pela via financeira. Afinal o conceito de capital
financeiro é a fusão das formas parciais de riqueza; logo a fusão da forma lucro e da
forma juros. No capitalismo atual até as empresas industriais e comerciais de peso
ganham com o chamado lucro operacional e também com o lucro financeiro. Mas, além
disso, desde o rompimento dos acordos de Bretton Woods que regulava a economia
internacional, emergiu o capitalismo financeirizado, ou seja, aquele em que a
dominância financeira é o caráter principal. A dinâmica de expansão/crise, par
indissolúvel no movimento capitalista ganhou outras feições. A principal conseqüência
é que as crises de desvalorização da riqueza financeira necessariamente são contornadas
com o apoio dos governos via bancos centrais e tesouros nacionais. Os estados
nacionais viram reféns dos proprietários dessa riqueza: os bancos, as empresas de
grande e médio porte, os investidores institucionais e as famílias de elevada riqueza.
AE/CC: Estamos vivendo uma nova forma ou um novo modelo de capitalismo?
JCSB: Como disse antes é uma dominância financeira estrutural e isso nos permite
afirmar que há um novo padrão sistêmico que é baseado na financeirização do
capitalismo. Mas é preciso ter claro o que isso significa pois virou moda falar de
financeirização e então tem gente falando e escrevendo muitas impropriedades. Desde
1985, em minha tese de doutoramento, avanço a reflexão sobre esse padrão de
funcionamento. Ele aprofundou a instabilidade, as flutuações e as crises que, como
disse, dependem dos governos para serem “resolvidas” e reaparecerem mais adiante.
Mas, ao contrário do que dizem muitos analistas, não se trata de tendência à estagnação,
não é uma deformação do capitalismo, muito menos é a “crise definitiva” que vários
estão a esperar não sei desde quando, nem leva ao enfraquecimento das corporações
capitalistas. O capital e o capitalismo, nesse padrão, adéquam-se a seus conceitos,
digamos assim. O capitalismo atual é resultante da evolução intensa de suas
características intrínsecas e do desmantelamento da regulação estatal que impunha uma
dada disciplina financeira entre os anos 1950 e o início dos 1970. Combina
paradoxalmente a acumulação produtiva com a financeira e inclusive com a criação de
riqueza fictícia na órbita monetário-financeira. Fictícia no sentido de mover-se
independentemente do ritmo da órbita produtiva. Evidentemente, que em algum
momento, por razões que variam ao longo do tempo, essa folia especulativa conduz à
crise financeira que repercute sobre a macroeconomia da renda e do emprego. Padecem
os estados nacionais e os assalariados não-proprietários de riqueza, mas, a acumulação
de capital lato sensu segue adiante na tensão entre expansões e crises.
AE/CC: Com o ápice da crise em 2008 ocorreu uma enxurrada de dólares nos
diversos mercados e países, neste sentido, as moedas locais, como o nosso Real,
tendem a se valorizar. Seria muita loucura o governo da Presidenta Dilma pensar
em adotar um câmbio fixo como faz a China?
JCSB: O Brasil não pode mais seguir com o câmbio na situação atual. Se isso
continuar, agora sim, deverá ocorrer uma verdadeira desindustrialização. O governo tem
que administrar o câmbio através de diferentes formas de intervenção que vão desde as
operações do banco central nos mercados a vista e a termo até o controle de capitais, se
necessário for. Nosso país está sujeito a uma abertura financeira profunda e assim
vulnerável à livre movimentação de capitais para aquelas “praças” onde o ganho é fácil.
Em debate com o professor Jan Kregel num seminário no México surgiu da parte dele a
definição precisa para os juros no Brasil. São obscenos. Qual economia com o porte da
brasileira tem semelhante, agora sim cabe a palavra, deformação? Nenhuma. Não há
justificativa técnica no campo da economia para isso. Essa é uma articulação de poder
na sociedade brasileira que nos torna líderes da financeirização, entre os países ditos
emergentes, e promotores do rentismo ofensivo, mais ativo e incessantemente inovador
das finanças em relação ao “velho” rentismo pré-1960, digamos. A verdade é que os
donos do poder, incluindo o empresariado dito produtivo, ganha com esse rentismo. Do
contrário a situação já seria diferente, sobretudo com reservas internacionais em torno
de US$ 350 bilhões e um quadro macroeconômico mais positivo do que negativo.
AE/CC: A partir de janeiro de 99 o governo brasileiro articulou juntamente com o
FMI uma política macroeconômica ancorada em três pilares: taxa de juro real
elevada, superavits primários crescentes e câmbio flutuante. Esse tripé ainda
persiste, não estaria aí um limitador para trilhar um caminho de desenvolvimento
econômico social sustentado?
JCSB: É o que tenho denominado de “triângulo de ferro”. Sem desmontá-lo não vejo
chance de desenvolvimento no sentido forte, do tipo a que se referia Celso Furtado:
distribuição de renda e riqueza, padrão de financiamento adequado, padrão monetário
defensável, maior homogeneidade regional etc. Pode até ocorrer, como já ocorre desde
2004, crescimento do PIB, mas não a superação do subdesenvolvimento. Em defesa
desse triângulo há um “vale tudo” perpetrado pelos financistas de todas as origens, por
economistas cínicos ou inocentes úteis, por parte expressiva da grande imprensa. Um
exemplo concreto é o terrorismo retórico que tem exercido acerca das pressões
inflacionárias recentes, que são por eles maximizadas. Esse tipo de política coloca o
“nó” brasileiro na questão fiscal. Há que produzir superavit o suficiente para pagar juros
e reduzir a dívida pública. Como? Cortando os gastos sociais para corrigir os
“desequilíbrios” decorrentes do rentismo que corrói as finanças públicas. Então esse é o
projeto para o Brasil do que chamo Alta Finança Moderna, repetindo, na qual estão
incluídas as tesourarias das grandes empresas da indústria e do comércio. Pode até dar
crescimento do PIB, mas é um estilo de crescer que reproduz, paradoxalmente, o
subdesenvolvimento.
AE/CC: O Brasil está preparado para enfrentar mais uma crise do dito mundo
desenvolvido? Com essa crise mundial há possibilidade de se fazer alguma
projeção para economia brasileira para os próximos anos?
JCSB: É uma unanimidade o diagnóstico de que sim estamos em melhores condições
para enfrentar a instabilidade mundial. Mas, dependendo do tipo de defesa, poderemos
não avançar e até regredir quanto às perspectivas novas que assinalei acima. O estilo de
defesa não pode permitir a erosão das reservas internacionais, nem a recessão, nem o
desemprego, nem o corte de salários reais. Tem que haver dirigismo do crédito como já
houve em 2008/2009 com importante participação dos bancos públicos. Há que pegar o
“trem-bala” da crise – porque não se trata mais de bonde – e mudar intensamente a
política monetária o que é sinônimo de redução sensível das taxas de juros. Setores
público e privado devem “conversar” e organizar articuladamente o movimento dos
investimentos. E não se pode permitir a deterioração do balanço de pagamentos, com o
que mudar a tendência atual da taxa de câmbio e se necessário for fazer controle de
capitais. Enfim, em poucas palavras, mais Estado em termos qualitativos e quantitativos
(investimentos) e políticas públicas que “empurrem” o setor privado para decisões
produtivistas ao invés de para o rentismo ofensivo das finanças contemporâneas que
tem nos derivativos o emblema da acumulação fictícia de capital.
É uma recessão longa e severa
O Estado de S. Paulo - São Paulo/SP - NOTÍCIAS - 31/08/2011 - 00:00:00
terça-feira, 30 de agosto de 2011
domingo, 28 de agosto de 2011
Capitais brasileiros no exterior
CAPITAIS BRASILEIROS NO EXTERIOR (CBE) – Fonte BCB
BASE: Ano 2010
US$ Bilhões
| 2001 | 2002 | 2003 | 2004 | 2005 | 2006 | 2007 | 2008 | 2009 | 2010 |
| 68,6 | 72,3 | 82,7 | 93,2 | 111,7 | 152,2 | 197,2 | 212,0 | 223,2 | 274,6 |
I – Introdução
A pesquisa Capitais Brasileiros no Exterior (CBE) é realizada anualmente, desde o ano-base 2001, pelo Banco Central do Brasil. Seu objetivo é mensurar os estoques de ativos no exterior detidos por residentes na economia brasileira na posição de 31 de dezembro de cada ano. A declaração é obrigatória para pessoas físicas e jurídicas que detinham ativos no exterior, ao fim de cada ano-base, em montante igual ou superior a US$100 mil.
Os resultados do CBE permitem completar a contabilidade do total de ativos externos do Brasil, possibilitando, em conjunto com os passivos externos, a aferição da Posição Internacional de Investimentos (PII) que, integrada com o balanço de pagamentos, constituem as estatísticas fundamentais para a análise do setor externo da economia brasileira. Tais informações fazem parte do conjunto de dados obrigatórios para os países participantes do Padrão Especial de Disseminação de Dados (PEDD), iniciativa do Fundo Monetário Internacional (FMI) para ampliar a divulgação e transparência das estatísticas econômicas, que conta, em 2011, com 68 países participantes. Adicionalmente, os dados obtidos pelo CBE permitem ao país participar da Pesquisa Coordenada sobre Investimentos em Portfólio (Coordinated Portfolio Investment Survey, CPIS), da Pesquisa Coordenada sobre Investimentos Diretos (Coordinated Direct Investment Survey, CDIS), ambas anuais e realizadas pelo FMI, visando apurar os estoques globais de investimentos diretos e em carteira, bem como sua distribuição por país investido.
II – Declarantes
O número de declarantes ao CBE em 2010 aumentou de 18,6% em relação a 2009 e ultrapassou vinte mil, maior participação já registrada. Os números de declarantes pessoa física, 17.879, e pessoa jurídica, 2.191, aumentaram 19,3% e 13,3%, respectivamente. Em comparação ao primeiro CBE, em 2001, o número de declarantes aumentou 72,1%.
Em relação ao volume de ativos declarados, as pessoas jurídicas responderam por US$228,9 bilhões, 83,4% do total, enquanto as declarações de pessoas físicas totalizaram US$45,6 bilhões.
III – Resultados econômicos
O CBE apurou ativos totais de US$274,6 bilhões para o ano-base 2010, expansão de 23% em relação a 2009. Destacaram-se os investimentos brasileiros diretos no exterior (IBD), que atingiram US$189,2 bilhões, crescimento de 15% na mesma base de comparação. Os investimentos em carteira somaram US$37,6 bilhões, e os derivativos, US$797 milhões. Os outros investimentos totalizaram US$47 bilhões.
O estoque de IBD manteve a trajetória de expansão observada em todas as edições do CBE. A comparação com a primeira apuração do CBE, em 2001, mostra que o IBD, que naquele ano totalizara US$49,7 bilhões, mais que triplicou, evidenciando a sólida e acelerada internacionalização das empresas de capital brasileiro.
Em 2010, a participação direta de residentes no capital de empresas no exterior, parcela do IBD que reflete a efetiva participação do investidor na gestão do empreendimento, somou US$169,1 bilhões, crescimento de 27,7% na comparação com 2009. As participações no capital corresponderam a 89,3% do IBD no ano, proporção maior que a registrada no ano anterior, 80,5%. A maior parte dos ativos dessa natureza é de propriedade de investidores de grande porte. Do total do estoque de IBD – participação no capital, US$116 bilhões, equivalentes a 68,6% do total apurado na data-base, referem-se a ativos de residentes que possuem acima de US$1 bilhão investido no exterior. Da mesma maneira, as empresas investidas no exterior são, em sua maioria, de grande porte, com participações individuais de investidores brasileiros em montante superior a US$1 bilhão, totalizando US$97,9 bilhões, 57,9% do total.
O estoque de IBD – participação no capital concentra-se em atividades de extração de minerais metálicos, 27,4% do total, e em serviços financeiros e atividades auxiliares, 38,2%. Relativamente à distribuição geográfica desses investimentos no exterior, destaque-se a Áustria, país no qual foram investidos 21,9% do estoque total. Os paraísos fiscais permanecem como importante destino do IBD, ressaltando as Ilhas Cayman, 17,4%; Ilhas Virgens Britânicas, 8,7%; e Bahamas, 7,3%. Em seguida, os ativos nos Estados Unidos, 7,8%; Países Baixos, 6,4%; Dinamarca, 5,5%; e Espanha, 5,3%.
Os empréstimos intercompanhia, que compreendem os créditos concedidos a subsidiárias e filiais no exterior na forma de empréstimos e financiamentos de bens e serviços e compra de títulos emitidos por essas coligadas e que, juntamente com a participação no capital, compõem o total do IBD, registraram retração de 37,2% e atingiram US$20,2 bilhões ao final de 2010, dos quais US$15,6 bilhões de longo prazo e US$4,6 bilhões de curto prazo.
Os investimentos brasileiros em carteira no exterior totalizaram US$37,6 bilhões, incremento de 127,8% em relação a 2009. Os investimentos em ações registraram elevação de 70,5%, totalizando US$14,7 bilhões, dos quais US$6,5 bilhões aplicados em Brazilian Depositary Receipts (BDR). Em relação à distribuição geográfica desses investimentos, os Estados Unidos responderam por 22,9% do investimento em ações. Bermudas e Espanha foram os outros principais destinos, com participações respectivas de 21,1% e de 20,9%.
Os investimentos brasileiros em títulos de renda fixa no exterior registraram aumento de 190,7% na comparação com 2009, totalizando US$22,9 bilhões, compostos por US$8,4 bilhões em papéis de longo prazo e US$14,5 bilhões, de curto prazo. Em relação aos títulos de renda fixa de longo prazo, o principal destino do investimento brasileiro foram os Estados Unidos, 32%, seguido de Dinamarca, Gibraltar e Espanha, respectivamente, 30,2%, 15,6% e 7,5%. Os investimentos brasileiros em papéis de curto prazo concentram-se nos Estados Unidos, 86,1%.
Os outros investimentos totalizaram US$47 bilhões em 2010, aumento de 12,4% comparativamente ao ano anterior. Os recursos mantidos no exterior na forma de moeda estrangeira e depósitos totalizaram US$26,9 bilhões. Os depósitos situaram-se principalmente nos Estados Unidos, 42,9%, seguido de Reino Unido e Ilhas Cayman, respectivamente, 16,1% e 13,9%. Os empréstimos a não residentes, excetuados os créditos entre empresas ligadas, somaram US$13,4 bilhões, sendo sua quase totalidade, US$13,3 bilhões, composta de operações de longo prazo. Os outros ativos no exterior somavam US$6,6 bilhões.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Um depoimento indignado e impressionante
Vejam este vídeo impressionante com a fala indignada de Mr. Dowe que desbancou a prepotência da jornalista inglesa. Material enviado pelo jornalista Celso Vicenzi.
http://www.youtube.com/watch?v=6Fgdpww5DpI
http://www.youtube.com/watch?v=6Fgdpww5DpI
Encruzilhada brasileira
Folha de S.Paulo, 21/08/2011
Artigo
TENDÊNCIAS/DEBATES
MARCIO POCHMANN
O cenário atual de moeda valorizada faz avançar o Brasil dependente da geração de
produtos internos com forte conteúdo importado
O processo democrático das três últimas eleições nacionais conformou uma nova
maioria política comprometida com a sustentação do atual ciclo de expansão
econômica. A antiga maioria política, constituída pela Revolução de 30, e que por cinco
décadas conduziu o projeto de industrialização nacional, desfez-se com a crise da dívida
externa (1981-1983).
A imposição imediata da queda na taxa de lucro do setor produtivo se manteve
sobretudo pelas medidas macroeconômicas de esvaziamento do mercado interno em
prol de alta exportação e baixa inflação.
Nesse contexto, as alternativas implementadas por acordos políticos de ocasião
buscaram compensar o sentido redutivo da taxa de retorno dos investimentos produtivos
por meio da crescente valorização dos improdutivos ganhos financeiros. Assim, o Brasil
mudou da macroeconomia da industrialização para a da financeirização da riqueza, com
elevados ajustes fiscais.
Nos anos 1990, por exemplo, a sustentação do custo ampliado com o pagamento do
endividamento público, derivado de altas taxas de juros reais, se mostrou capaz de repor
aos grupos econômicos tanto o retorno econômico perdido pelo fraco desempenho da
produção como a garantia do próprio sucesso eleitoral. Mesmo assim, os sinais de
regressão econômica e social tornaram-se maiores.
Nas eleições de 2002 a 2010, contudo, fortaleceu-se inédita força política gerada pela
aglutinação dos setores perdedores do período anterior com parcela crescente de
segmentos em trânsito do ativo processo de financeirização da riqueza para o novo ciclo
de expansão dos investimentos produtivos.
Com isso, reacendeu-se o compromisso da maioria política emergente com a
manutenção da fase expansiva da economia, embora dúvidas permaneçam em relação
ao perfil do desenvolvimento brasileiro. A encruzilhada nacional dos próximos anos
reside aí: o resultado da disputa no interior da maioria política pelo Brasil da Fama
(fazenda, mineração e maquiladoras) ou pelo Brasil do Vaco (valor agregado e
conhecimento).
O cenário atual de moeda nacional valorizada faz avançar o Brasil dependente da
exportação de matérias-primas e da geração de produtos internos com forte conteúdo
importado. Dessa forma, a taxa de investimento abaixo de 20% do produto é suficiente,
assim como a contenção da inovação tecnológica, suprida por compras externas.
O Brasil da Fama cresce, gerando mais postos de trabalho na base da pirâmide social e
ocupando maior espaço global. Sua autonomia e sua dinâmica parecem menores diante
dos imutáveis graus de heterogeneidade econômica e social que marcam o
subdesenvolvimento.
O Brasil do Vaco, por outro lado, pressupõe reafirmar a macroeconomia do
desenvolvimento sustentada em maior valor agregado e conhecimento. A superimpulsão
dos investimentos é estratégica, pois gera agregação de valor em cadeias produtivas e
ampliação da inovação tecnológica e educacional. Assim, o novo desenvolvimento
brasileiro rompe com o atraso secular da condição subordinada do Brasil no mundo.
MARCIO POCHMANN, professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos
Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas, é presidente do Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Sob o teto da dívida, a luta pelo poder
Valor Econômico, 22/08/2011.
Por Rodrigo Sias
A discussão política sobre o teto da dívida federal nos EUA tomou conta do noticiário
econômico e político da maior parte do mundo, principalmente depois do rebaixamento
da classificação de risco do país, de AAA para AA+, e do consequente "terremoto
financeiro" nas principais bolsas de valores. Dada a importância da economia do país e
os impactos de um "calote" no simbolismo e na credibilidade do dólar como a "moeda
universal", não poderia ser diferente.
Mas se o teto da dívida federal já foi elevado tantas e seguidas vezes, a demanda por
títulos do Tesouro dos EUA continua elevadíssima e o impasse seria um "tiro no pé",
pois jogariam os EUA e o mundo numa depressão, qual seria o porquê de tamanho
rebuliço em torno da questão no Congresso? Por que existiu tanta dificuldade em se
chegar a um acordo sobre a dívida?
Três razões vêm sendo apontadas para o acirramento do debate e para a demora da
costura final do acordo: a disputa presidencial em 2012 e a briga tradicional entre
democratas e republicanos, a discussão do tamanho do Estado na economia e, por fim, a
questão "classista" em torno dos impostos.
Embora o pleito presidencial de 2012 seja crucial e a antecipação do debate eleitoral
favoreça a oposição republicana, somente interesses eleitorais de curto e médio prazo
não explicariam a contento o impasse criado e a reação aparentemente desproporcional
dos membros republicanos ultraconservadores do "Tea Party", que, por fim, aceitaram
um acordo.
Hoje, os EUA são um país rachado por uma "grande batalha". E é essa "grande
batalha" que explica como um problema econômico secundário ganhou uma
dimensão tão grande e ares tão catastróficos. É a política, mais uma vez, ditando os
rumos da economia mundial
O tamanho do Estado na economia - aqui medido em termos do tamanho da dívida
federal em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) e do tamanho do déficit público -
embora seja uma questão importante, também é secundário, uma questão contábil. O
próprio sistema de "teto para a dívida" (inspirado num modelo de pesos e contra pesos
recíprocos) foi criado para que sempre existisse a discussão que, em diversos
momentos, foi, por assim dizer, "morna".
Ronald Reagan, ícone dos republicanos, foi o presidente que transformou os Estados
Unidos de nação credora a devedora em relação ao resto do mundo. Bill Clinton,
símbolo dos democratas, deixou a Casa Branca com o orçamento federal gerando
superávits fiscais nominais. Portanto, também não é só uma questão de que
republicanos queiram orçamentos equilibrados e democratas queiram mais Estado.
Por fim, a mera observação dos grupos que apoiam e financiam os dois partidos em
disputa descarta a hipótese simplista de uma mera questão "classista" dos impostos.
Muitos democratas são apoiados pelas bilionárias fundações Ford e Rockefeller e por
clãs e famílias tradicionais como os Kennedy; e muitos republicanos, especialmente a
ala pertencente ao "Tea Party", são apoiados pela classe média dos "self made men",
pequenos e médios proprietários das áreas rurais, grupos religiosos protestantes, dentre
outros - basicamente, a "maioria silenciosa", na expressão do ex-presidente republicano
Richard Nixon.
Ou seja, há republicanos ricos e pobres que não querem aumentar a carga tributária e
democratas ricos e pobres que desejam uma rede pública de saúde paga com impostos
dos contribuintes mais abastados.
Na verdade, todas essas explicações anteriores são apenas caricaturas, minidisputas, que
fazem parte de um pano de fundo mais complexo e amplo em que se encontra o cerne
da questão: a disputa visceral de poder entre dois grandes grupos ideológicos dentro dos
Estados Unidos, os conservadores e os progressistas.
O primeiro grupo carrega a bandeira do patriotismo estadunidense, conservador por
excelência. Simbolizado pelo "Tea Party", luta pela manutenção da identidade cultural
do país e de seus valores tradicionais, desconfia da globalização e considera os EUA
como a liderança moral e o modelo político e econômico a ser seguido pelo resto do
mundo.
Dentre as personalidades políticas emblemáticas desse grupo encontram-se os expresidentes
Richard Nixon, Ronald Reagan, além das figuras recentes como a
governadora do Alasca, Sarah Palin, e Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas.
Já o segundo, que levanta a bandeira do globalismo, é composto por membros
essencialmente "progressistas" no sentido amplo do termo: tem uma visão crítica,
quando não claramente hostil, dos valores tradicionais, promovem o multiculturalismo e
acreditam numa liderança compartilhada e limitada por uma ordem internacional
centrada no conceito da ONU. Estão abundantemente representados na ala progressista
do Partido Democrata: vão desde ativistas de direitos civis, a ONGs e as já citadas
fundações bilionárias, além de diversas multinacionais e banqueiros interessados nos
ganhos financeiros da globalização.
Entre as figuras emblemáticas desse grupo, podemos citar os ex-presidentes Jimmy
Carter e Bill Clinton (e seu vice, Al Gore), além do magnata David Rockefeller, o
financista George Soros e o economista Paul Krugman, para citar os "não políticos".
Embora os dois grupos sempre contassem com representantes em ambos os partidos,
nos últimos tempos, tem havido uma polarização mais clara, em especial, devido ao
advento do Tea Party. Essa polarização, de certa forma, ajuda a enxergar melhor o
posicionamento ideológico, antes camuflado no debate partidário.
Como fica claro para observadores mais atentos, é esse o por que de Barack Obama, um
progressista, sofrer tanta oposição dos membros do "Tea Party".
Hoje, os Estados Unidos da América são um país rachado por uma "grande batalha". E é
essa "grande batalha" que explica como um problema econômico secundário ganhou
uma dimensão tão grande e ares tão catastróficos. É a política, mais uma vez, ditando os
rumos da economia mundial!
Rodrigo Sias é economista. E-mail: rsias@bndes.gov.br
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